23/09/18

Parque Temático

Na semana que passou os taxistas invadiram (e ainda invadem) a(s) cidade(s) com as esperadas consequências a nível do trânsito, e falo sobretudo de Lisboa: impossibilidade de circular nalgumas ruas/avenidas, demoras e filas. O trânsito é hoje uma espécie de inferno dos tempos modernos. Ninguém o quer, ninguém gosta, evita-se quando se pode. 

Eu disse ninguém o quer? Pois, parece lógico pensar que realmente ninguém o deseje, mas infelizmente não é esse o caso. O último sonho mau (os sonhos maus deveriam ter ficado na infância ... mas como já nada é como se esperava que fosse) do Presidente da Câmara de Lisboa, agora que ultrapassou esse outro sonho mau de há uns anos que foi fazer da Segunda Circular uma avenida urbana com apenas duas faixas de rodagem, semáforos, bem como árvores com passarinhos chilreantes e flores na primavera no meio, é criar uma faixa de rodagem para Bus na A5. Tão boa é esta ideia que – segundo as notícias – ele pretende estendê-la a outras vias de acesso à cidade de Lisboa (ver aqui e aqui). 

Lembrando António Guterres, segui aquela velha máxima de “é só fazer as contas”, e percebi que uma vez que a largura das vias é limitada, e a menos que se façam grandes obras estruturais em todos nos acessos à cidade, fica evidente que a criação de uma faixa para Bus passa pela eliminação de uma faixa normal de circulação. Assim, crê ele, naquele estado de quem se sente iluminado mas apenas teima em não acordar desse seu sonho mau, as pessoas que vêm diariamente em carros para Lisboa terão mais incentivos para usarem os transportes públicos que circularão mais rapidamente. A cidade terá menos carros e, por isso, menos trânsito. (Dá vontade de rir pensar na A5, na IC19, na A1 ou na A2 com menos uma faixa de rodagem, não dá? Dá vontade de rir pensar que assim a cidade terá menos trânsito, não dá?). 

Mas tentarei não rir muito e olhar para as coisas como elas são, que é sempre uma boa maneira de olhar para elas. Impõem-se de imediato algumas questões. Afinal que infraestruturas de transporte público dispõe o cidadão de Lisboa como alternativa de mobilidade para a cidade e dentro da cidade, neste seu sonho de libertar a cidade dos carros dos cidadãos? Várias linhas de comboios que sirvam amplamente os conselhos vizinhos para todos aqueles que da periferia querem chegar ao centro da cidade? Uma ampla rede de metro, eficaz, pontual e sobretudo que cubra toda a cidade e um pouco mais além? Uma rede de autocarros eficientes e pontuais na cidade e concelhos limítrofes? Interconectividade abundante e eficaz entre diferentes redes de transportes? Preços razoáveis? Como é que respondendo ‘não’ a todas estas questões, Fernando Medina pensa que poderá libertar a cidade dos carros? Sem, pelo menos uma rede de metro que cubra amplamente toda a cidade (de norte a sul, de este a oeste para que não restem dúvidas) é impossível sonhar em ‘libertar a cidade dos carros’.

Indo um pouco mais além neste quadro de ‘libertação’ da cidade, coloco outra questão: porquê e para quê, exactamente, essa vontade de libertar a cidade dos carros? Como os carros não se deslocam sozinhos, e de suas vontades aurónomas, presumo que queira também libertar a cidade das pessoas, das que aí vivem a sua. Hoje ter casa começa a ser difícil, mas só mais um esforço e criam-se também todos os postos de trabalho longe do centro, exceptuando aqueles que servem o turismo. Fica então a cidade livre para turistas, para o lazer, para passear, ver as vistas, ir aos restaurantes, frequentar actividades culturais, outros eventos, etc. Ficamos todos com um excelente e sofisticado parque temático, perdão, com uma bela cidade, para usufruir ao Domingo à tarde em directa concorrência com os centros comerciais da periferia. Um futuro promissor. 

O desejo de infernizar a vida das pessoas tornou-se num impulso subjancente a tantas decisões políticas. É evidente esta estranha tendência, esta necessidade de culpabilização nos tempos modernos em que, ao mínimo pretexto, se castiga e aponta o dedo ao cidadão: ou porque usa carro, ou porque se endivida, ou porque compra e vende casas com mais valia, ou porque gosta de bebidas doces, ou porque tem sucesso. Ar dos tempos.

11/09/18

Call Me By Your Name

Da colheita dos Oscars deste ano. Vi na altura Darkest Hour e uns meses depois Three Billboards Outside Ebbing, Missouri, que são filmes interessantes e competentes, este último muito por causa de Frances McDormand. Recentemente, neste período estival em que sempre sobra um pouco de tempo, vi outros dois: Phantom Thread e Call Me By Your Name. Phantom Thread, um filme formalmente perfeito, todo feito de detalhes, contido, fechado, inusitado e com magníficas personagens e interpretações, foi sem dúvida o meu favorito, mas não é dele que vou falar porque

Call Me by Your Name foi o que mais me intrigou, apesar do filme ter sido o que esperava que fosse, depois de lidas referências na imprensa. É um bom filme, em que se destaque a interpretação de Thimotée Chamalet, mas o que mais me marcou foi o título do filme e que mesmo antes de o ver me surgia recorrentemente ... afinal é tão fácil dizer 'call me by your name'. 'Chama-me pelo teu nome', é uma coisa pesada, que não se diz com facilidade, e que, dizendo-o, percebemos que tropeçamos nas palavras, que elas soam estranho, desconfiamos. 'Call me by your name' é simples, e sem pensar muito a frase solta-se, as palavras saem fáceis como um mantra, sem me demorar no que que elas significavam, até que vi o filme.

Como disse, pouco me surpreendeu, nem a história, nem o local, nem as opções formais nomeadamente fotográficas, nem o despertar do desejo (paixão, romance), o motor da intriga. Também sabia tratar-se de um filme onde impera a sensualidade, e assim o confirmei. A personagem delirante de Elio leva essa sensualidade a níveis surpreendentes, e é neste contexto de excesso, fantasia desmedida e delírio que call be by your name aparece de uma forma quase transgressiva. Chama-me pelo teu nome, é um pedido estranho e de uma sensualidade imensa que quebra as barreiras entre o ‘eu’ e o ‘tu’; ficando no ar (e na tela) a sugestão ou a evidência de que Elio e Oliver se entregam, se misturam, esbatendo as identidades. Chega a ser quase perverso esse apelo ao abandono da sua identidade, mas a frase funciona nesse clima criado no filme, e se funciona tão bem é porque se trata de uma relação homossexual. Numa relação heterossexual o acto de pedir “chama-me pelo teu nome” (ou te chamar pelo meu nome), seria sempre mais retórico e mais forçado, pois os nomes são reveladores do sexo, e nunca teria a permeabilidade, fluidez e ambiguidade que, no caso do filme, se consegue.

Call Me By Your Name. Esse título, essa frase que emana do contexto sensual do filme, tem uma força extraordinária, e quando, nos momentos finais, os ouvimos calling you by my name, todo o peso e densidade do significado do título, surpreendentemente leve e fácil de dizer, faz-se sentir.

09/09/18

(Afife 2018)

09/08/18

Manhã Submersa 2

Já lá vão 3 ou 4 dias de polémica (ver aqui). Boris Johnson, o ex-ministro de Theresa May e conhecido Brexiteer, chamou as coisas pelos nomes, e não falta quem não se conforme e peça que ele se desculpe. Disse que as mulheres de burqa pareciam caixas de correio - e foi generoso, as caixas de correio, pelo menos as tradicionais inglesas, são bem mais coloridas e alegres do que as burqas - e a ladrões de bancos, e aqui também foi generoso, os ladrões de bancos são normalmente mais elegantes e raramente se cobrem com um pedação de tecido que impeça os movimentos. A Primeira-ministra já se demarcou dele e acha que ele se deveria desculpar, mas - independentemente da minha opinião sobre BJ - realmente não percebo de que terá de se desculpar, nem tão pouco creio que se deva desculpar. Parecem? Boris Johnson acha que sim, e então? Ladrões de bancos, só mostram os olhos, pois ocultam a identidade. Caixas de correio são blocos cuja marca identitária é uma fresta por onde deitar as cartas. Não parece tão descabido, nem tão tonto assim. É ofensivo? É o que é! (Falei sobre isso aqui) Mais uma vez, a liberdade de expressão (não difamou ninguém, não apelou ao ódio ...) a ser posta em causa. 

Mais uma vez a nossa sociedade a não olhar a realidade de frente. Quando Theresa May diz que as mulheres são livres de se vestirem como querem, ele tem razão, eu também estou de acordo, e visto-me como quero, e aguento as opções de indumentária das outras mulheres e dos outros homens. Mas essa não é a questão, pois as mulheres com burqa não estão vestidas, estão cobertas; as suas roupas estão por baixo de um pano preto que as oculta totalmente e que lhes rouba identidade e forma, tornando-as, é bom lembrar que é esse o objectivo da burqa, invisíveis. Enquanto se achar que o uso da burqa é uma peça de roupa como os jeans, perpetua-se a falácia do exercício da liberdade da mulher em “se vestir como quer”, continua-se a evitar enfrentar o problema e a apenas se olhar para a superfície das coisas. A Dinamarca e os países que proíbem o uso de burqa, e de outros trajes que ocultem a identidade, em espaços públicos, estão certos. Mais uma vez a linguagem (na forma das frases de BJ) a ser punida, por não ter branqueado e ‘contornado’ a realidade.

06/08/18

Manhã Submersa

Hoje de manhã, oiço na rádio (Antena2) que um pintor, de que falavam e cujo nome não cheguei a ouvir, terá pintado muitos touros num determinado período. A explicação não se fez esperar: o seu pai terá estado “ligado à temática taurina”! Assim dito. 

Estar ligado à temática taurina é uma interessante expressão que pede descodificação. Afinal o que poderá ser “estar ligado à temática taurina”? Difícil. Por muitas voltas que dê à cabeça, por muito que peça à minha imaginação para se soltar, apenas me ocorrem ser toureiro (a pé ou a cavalo), ser frequentador assíduo de touradas, conhecedor e apreciador, (se não aprecia não conhece nem sabe) de touradas, empresário na área das touradas, o que deve também pressupor conhecimento e gosto da “temática taurina”. 

Esta expressão tão forçada e artificial fez-me lembrar uma notícia que vi há uns meses num telejornal, em que se abordava o problema das gaivotas na cidade do Porto, embora me atreva a dizer que não é só no Porto que as gaivotas são um problema, mas fiquemos por essa notícia. Depois de explicar o problema, falam de soluções, algumas vagas, ou como dizem, a longo prazo, e outras mais de curto prazo são “atitudes que possam minimizar o problema”, sem, no entanto, explicar o que quer isso dizer de facto e que medidas são. Assim, e deixando mais uma vez a imaginação correr o seu curso, não vejo que outras soluções possam existir que não passem por uma de duas situações: ou que matem as gaivotas, ou que controlem a sua reprodução. Não me parece que existam outras formas de convencer as gaivotas a abandonar os meios urbanos. 

Deixando de lado o pintor que pintava touros e as gaivotas em terra, o que percebemos é que vivemos tempos difíceis para a forma como nos exprimimos. Aliás até diria que vivemos tempos complicados para a liberdade de expressão, não só na forma de expressar opiniões, mas sobretudo, e o que mais me preocupa, na forma como contamos a realidade ou relatamos factos. A factualidade, ou a realidade, ou as coisas serem o que são e como são, hoje tem de se curvar perante o politicamente correcto. Não podemos chamar tourada à tourada, não podemos dizer que queremos exterminar uma parte da população de gaivotas, nem pensar. Temos, sim, e cada vez mais, que contornar a linguagem, arranjar eufemismos, expressões vagas, longas, complicadas e pomposas para evitar dizer as palavras que não podem hoje ser ditas e que não deixam de aumentar. Vai ser difícil mantermo-nos actualizados. 

Não se pode mudar a realidade, mas meu Deus, a ginástica que é feita para que, ao nomear essa mesma realidade, ela caiba nessa forma estreita e mesquinha que é a da linguagem permitida hoje. Não se muda a realidade? Azar! Que se mude a forma de a narrar. Depois admirem-se.

28/07/18

(Lisboa - Jul 2018)

22/07/18

Vai Subir?

A vida não é fácil para quem tem um módico de racionalidade. Tantas vezes não encontramos o sentido das coisas – grandes ou pequenas – muito menos o que move as pessoas e o mundo que, claro, é feito e moldado pelas ditas pessoas. Ah, mas desenganem-se, não são hoje as grandes opções, dilemas, juízos, aspirações ou ideais que me ocupam, hoje detenho-me num detalhe comezinho da vida em sociedade pois, como se costuma dizer, há coisas que não matam, mas moem. A verdade é que de tanto moer (água mole em pedra dura ...) algo se quebra, racha, e em mim recentemente algo se quebrou (a tolerância, a paciência?) perante a ausência do que considero serem uns níveis mínimos de racionalidade e senso comum da vida. 

Desde que me lembro que me intriga a forma como as pessoas utilizam os elevadores; sim, elevadores, essa maquinaria que faz parte da nossa paisagem do dia a dia, aqueles que, subindo e descendo, nos levam para cima ou para baixo, num prédio de habitação ou escritórios, num hospital, numa repartição, nos centros comerciais. Não falo, no entanto, de elevadores velhos desprovidos de automatismos - falo de todos os outros: dos que têm no exterior dois botões, um com uma seta para cima, outro com uma seta para baixo permitindo que, carregando o botão com a seta para cima chamemos o elevador que sobe, ou o contrário se carregarmos no botão com a seta para baixo. Falo dos elevadores que têm uma luz que acende por cima da porta que abre quando ele chega, e que, través de uma seta para cima ou para baixo, indica se o elevador vai subir ou descer. Acreditava eu, na minha inocência, nada haver de transcendente em perceber coisas simples: 
- se queremos subir chamamos o elevador carregando no botão com a seta a apontar para cima e vice versa se quisermos descer. 
- quando o elevador chega e olhando para a luz por cima da porta e para o sentido da seta, sabemos desta forma simples, se ele vai subir ou vai descer e decidimos entrar ou esperar. 

Andei e ando redondamente enganada. Há toda uma transcendência e metafísica na forma de utilizar o elevador que nunca entendi, só isso explica que eu veja quotidianamente: 
- pessoas que carregam em ambos os botões ao chamar o elevador, (como se mecânica elevatória se compadecesse, ou se motivasse e se apressasse um pouco mais) embora saibam perfeitamente se vão subir ou descer. E não, não se pode subir e descer no mesmo elevador ao mesmo tempo. Só baralha e atrasa o mecanismo,
- pessoas que invariavelmente, ao entrarem no elevador, perguntam “vai subir?” ou “vai descer?” porque são incapazes de levantar os olhos e ver a luz e a seta que acende e que lhes dá a indicação se o elevador vai subir ou descer. 
- pessoas que esperam que nós, aqueles que já estão no elevador, interrompamos as nossas divagações ou silêncio, para lhes responder e assegurar que o elevador vai a subir ou a descer. 

O mais estranho é que este comportamento que vem da incapacidade para utilizar elevadores, é absolutamente transversal: novos e velhos, pobres e ricos, cultos ou incultos, inteligentes ou burros, gordos e magros, homens e mulheres, todos cabem nesta categoria. Podem vir de telemóvel na mão a responder a emails complexos, ou com uma mente cheia de cálculo diferencial, ou de fenomenologia, nada disso conta na hora de utilizar um elevador. Recentemente descobri para meu absoluto espanto, alguém que não sabia em que botão carregar para chamar o elevador: ou da seta para cima se quero que ele suba para poder descer ou carregar logo no botão com a seta para baixo se quero que ele desça. O quê? tão complicado assim? mas como é que se sabe onde e como está o elevador nos andares que não indicam o seu paradeiro? Uf, este é um caso típico de “porquê simplificar se podemos ter complicado?”. Isto é o mundo ao contrário. 

O que temo é que uma vida inteira a ouvir “vai subir?” (ou “vai descer?”), ao ponto dessas frases já esperadas nos arranharem, deixe marcas numa mente racional. Não sei quais, mas duvido que não as haja. Pena de mim! 

A rational mind has, occasionally, a hard time understanding the world as it is, and people as they are and react. I will not be detained now by trying to make sense of the big questions people face, their doubts, hopes, dilemmas, whatever moves them, but by a small detail of daily life that leaves me every single time bewildered and impatient. It is the way most people use the lift - yes, I’ll write about that familiar and useful mechanism that takes people up and down, not the old ones, but the modern ones with memory and two buttons. These lifts have up and down arrow buttons one must press to go up or down, so if you want to go up you press the button with the arrow pointing up, and press the down arrow one if you want to go down. 

It is simple, it is not complex, it is not metaphysics, but still there are people who cannot figure that out and press both buttons, and, before getting in, never bother to look up to the light on top of the door that indicates (an arrow again) if it is going up or down. So – interrupting our reverie, or unwillingness to speak to strangers – they ask, every single time “going up?” or “going down?” 


I realize now that I have been mistaken all my life. Figuring out which button to press, and if the lift is going up or down are not easy jobs, otherwise you wouldn’t see so many people – young or old, clever or stupid, rich or poor, thin or fat, asking invariably, before getting in a lift: “going up?” (or “going down?”). They may be on their mobiles writing complex emails, or having their heads full of differential calculus or phenomenology, the fact is that none of that matters when it comes to using a lift. I’m quite sure a life’s worth of hearing “going up?” or “going down?” must leave some trace on a rational mind. Don’t know which one, but I feel sorry for myself.

12/07/18

Corps et Âmes



Entre livros de literatura de aeroporto, creio que de um tempo em que não se vendiam livros em aeroportos (?), de capas fáceis, coloridas e gastas, encontrei este livro pequeno, sóbrio, preto que me chamou a atenção. Ao pegar-lhe, ver o que era, e perceber que nunca o tinha lido, soube que não o iria largar enquanto não o terminasse ... Assim foi. 

Anna, soror ...”, uma pequena novela de Marguerite Yourcenar lê-se de um folgo, não só por ser pequena, mas porque se nos cola às entranhas. A inevitabilidade do desenrolar da história dos dois irmãos Anna e Miguel, e porque suspeitada ou imaginada cedo, é a inevitabilidade do leitor que não consegue, nem quer, parar de ler. Cola-se-nos às entranhas porque habitamos o corpo e a alma (corps et âmes) destas personagens, sentimos o que sentem, vemos o que veem, vivemos os locais onde vivem. É a vida, é um pulsar forte de algo que ultrapassa a decisão, a vontade, e que simplesmente está - sem rodeios nem rodriguinhos, sem moralismos nem lições civilizacionais, sem culpas nem desculpas, sem militância, nem vontade de desafiar mentalidades. Tudo escrito com elegância e mestria, mas falamos de Marguerite Yourcenar. Ela faz isso, falo sobretudo nas suas novelas pequenas como Le Coup de Grâce ou Alexis ou Le Traité du Vain Combat, livros que li de um fôlego e que marcaram. É sempre um prazer lê-la. 

No Posfácio da edição desta novela (edição da Galllimard de 1981) feito por MY, leio que a novela foi escrita na sua juventude, mais precisamente entre os seus 18 e 23 anos. É extraordinário perceber que já aos 18 anos se revelava uma pessoa com uma profundidade de pensamento e conhecimento que espanta. Independentemente das capacidades intelectuais bem como do nível de conhecimento e cultura que MY demonstrava na juventude, há uma maturidade na escrita e na forma de contar a história que espanta. Não só espanta como convida a que estabeleça comparações com o que conheço hoje e não preciso de grande reflexão e elucubração para perceber que nem aos 18, nem aos 23 anos, se encontram níveis de maturidade e profundidade que, de uma forma ou de outra, tenham algum paralelo com o que leio em Yourcenar. Aliás iria um pouco mais longe: num tempo em que se promove e cultiva, como coisa normal e em qualquer idade, a eterna adolescência - uma forma adolescente de ser, de olhar a vida, de opinar, de decidir - a maturidade serena e assumida faz-se um bem escasso e é um alívio encontrá-la. 




Unexpectedly I found a small novella by Marguerite Yourcenar, "Anna, Soror …", that I had not read yet. In no time I finished it, not just because it is small, but because it draws us body and soul (corps et âmes) in a way that we became the characters, we feel in our guts what they feel, we crave like they crave, we see what they see, we live the places they know. From the star we are in a path that knows no escape, no decision and no will. With fierce intensity, elegance and restrain, but holding nothing back, and with no apologies or easy moral judgements, Yourcenar tells us the story of Miguel and Anna, and the book is a pleasure to read. 

I was surprised to know that she wrote the book in her youth. Besides her knowledge and culture, she shows surprising maturity and depth. We can’t even find in adults such maturity, since we seem today to nurture and applaud, whatever the real age, a young (out of college) pathos, that is reflected in the way of being, living, thinking, deciding. It is refreshing and reassuring, then, to find such adulthood and maturity.

05/07/18

Bikini

O problema das migrações está na ordem do dia (da semana, do mês, do ano). O governo de Angela Merkel estremeceu, António Vitorino foi nomeado Director-Geral da Organização Internacional para as Migrações; e a estes factos mais recentes somam-se os recorrentes como as notícias de mortes no mediterrâneo ou Donald Trump e as suas decisões sobre imigrantes. O aumento de influência e, nalguns casos, a chegada ao poder dos partidos mais populistas e nacionalistas na Europa cujas mais polémicas decisões sobre imigração – que se resumem sempre num fecho de fronteiras - são um sintoma do mal estar de décadas das populações perante as migrações, as comunidades imigrantes e a sua (in)capacidade de integração. Abordar esta questão de forma séria, frontal e sem medos (venham eles do lado que vierem) não tem sido apanágio de Europa (EU) ou dos países que a compõem. É matéria em que os clichés se fazem fáceis e abundam. 

Em Portugal – um país periférico e pouco apetecível do ponto de vista de quem procura uma vida melhor na Europa (ou até asilo) - nós não temos sido confrontados com muitas das questões e muitos dos problemas que as migrações têm levantado há décadas noutros países europeus, como bem sabemos. Não somos confrontados numa base quotidiana e sem descanso com as divergências entre os modos de vida, entre os valores que hoje, como ontem e como amanhã, são parte integrante da nacionalidade, da cultura e da paisagem de cada comunidade. 

Faz um calor imenso em Londres e os parques onde a relva – inesperadamente - não é verde enchem-se de pessoas. Muitas mulheres e homens apanham sol estendidos numa toalha em fatos de banho e bikinis, e a 20 metros estão mulheres muçulmanas em pequenos grupos todas de preto tapadas. Digo tapadas porque não posso dizer vestidas, uma vez que não lhes vejo roupa, só mesmo um pano preto imenso que as cobre da cabeça aos pés - cara tapada só com uma fenda para os olhos. Dizem que é um niqab. Não são as primeiras que vejo, claro, mas – seria do calor? – fiquei surpreendida com a quantidade que desta vez eu vi na rua, e que foi bem superior à de outras vezes. 

Não há forma de me sentir confortável com esta visão, não há forma de aceitar esta tipo de paisagem urbana, não há forma de não sentir incómodo, repulsa e rejeição pela visão de mulheres todas tapadas, todas iguais. A cara de cada um é um dos principais factores identitários, e ao ser ‘abolida’, porque tapada, tapada reduz a mulher a uma condição de mercadoria que mais não é do que pertença de. Sem identidade não existimos, não somos quem somos; sem identidade não há dignidade, não há humanidade. Enquanto mulher sinto cada dia mais como um insulto e uma afronta, esta impotência que as sociedades democráticas, liberais e tolerantes que baseiam os seus valores (e legislação) no respeito pela dignidade de cada pessoa têm, e que permite que se viva tranquilamente este aniquilar do ser, esta indignidade de quem não pode/quer assumir a sua identidade que é aquilo que a torna única. 

Esta deveria ou poderia ter sido uma fronteira a não deixar que fosse ultrapassada. Em nome da tolerância pela cultura e costumes dos outros, permitimos a intolerância e fomos cegos quando outros valores opostos aos nossos se instalaram ao nosso lado e de forma insidiosa foram pondo em causa aqueles porque tanto lutámos enquanto civilização. 

There is no way I will ever be comfortable with the sight of niqabs alongside bikinis in the parks of London in warm summer days. Niqabs are not clothing, they are a piece of black cloth that hides whatever makes them an individual. By hiding their faces, their identity, their uniqueness, they became much more like a commodity than a human being. 

I find it hard to accept that societies that have at their core such values as democracy, the dignity of the human being, equality before the law, and the value of individuality, easily tolerate so many situations where women are deprived of their identity, their uniqueness.

25/06/18

Cristiano Ronaldo

Todos os anos, desde que vivo em Lisboa, se repete o ritual: eu pasmada a olhar os jacarandás em flor. Todos os anos me parecem irreais as cores que as ruas e avenidas tomam. Não deixo de ver, não deixo de reparar, não deixo de me espantar. Este ano estão as árvores em flor ainda mais esplendorosas do que em anos anteriores, abençoadas chuvas! Dou voltas e mais voltas, não corto caminho, perco (ganho, claro) tempo para passar nas ruas e avenidas que se vestem dessa magia roxa. Quem diria que gostava assim de magia roxa! 

Pois ... o título do post é estranho, mas hoje para títulos só me ocorria Cristiano Ronaldo, ou Donald Trump ou Recep Erdogan. Não precisei de pensar muito para eliminar estes dois últimos, que estão bem mais longe do Olimpo do que Cristiano Ronaldo. Nunca me ocorreu para título “Jacarandás em Flor”. Há dias assim. 

Purple magic feels the streets of Lisboa. Every year, since I moved here, I’m bewildered by the show displayed by the blooming jacarandas. Somehow, I never seem to get used to it. Purple magic, who would have thought? 

The title is lousy, yes, but all I could think of, for a title, was Cristiano Ronaldo, Donald Trump and Recep Erdogan. I think it is easy, now, to understand my choice, since the both DT and RE are so far away from the Olympus.

20/06/18

(Porto - Jun 2018)

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