19/01/19

Sábado de Manhã com Chuva

Sabia exactamente sobre o que ia e queria escrever. Pensei dedicar uma parte da manhã de hoje a fazê-lo, só que, sentada em frente do computador, perdi-me ... saltando sem nexo entre emails, actualidade, notícias, textos vários, vídeos, pesquisas, música, blogues. Tudo, qual Babilónia, se confunde em frente dum computador. Na nossa mente tanto cabe a vontade de perceber como é que esta receita de couve fermentada é diferente da já experimentada com sucesso, como cabe um momento de irritação com mais uma invenção do governo que, em vão, tento perceber. Inclusão? Mas o que é isso exactamente, e sobretudo, como se mede essa dita inclusão? Pelo número de alunos de cor, por turma, por ano? Por um rigoroso 50% de raparigas e rapazes? Por uma quota de ricos e pobres? Estas invenções e estes nomes fazem-me rir: são reveladoras do “ar dos tempos”, e porque esquecem que, de facto, tudo o que os pais querem saber é a taxa de sucesso da escola para entrada na faculdade. Tudo se resume a isso, por mais voltas ideológicas que o ministro queira dar. O governo pode decidir o que quiser, outras entidades farão um ranking baseado nos factos puros e duros, nas notas e no acesso à faculdade e será esse que os pais procurarão. 

Entre deambulações várias, a vontade de ouvir Debussy parece premente, nada que o youtube não resolva com ajuda de Martha Argerich. Aquela conta a pagar obriga a uma passagem pelo homebanking, numa manhã em que Maria João Rodrigues ocupa os sites informativos e em que me distraio com publicidade imobiliária mandada para o email – os preços das casas, pois, bem como as casas em si que parecem estar a ser feitas para investidores e não para pessoas. Depois de uma pesquisa na Wikipedia, (que nos redirecciona para outra e outra ...) percebo que já não é Debussy, mas Lizt que toca pois o youtube passa para o vídeo seguinte e nem pergunta se queremos ou não. Resta o consolo de (ainda) não ter tropeçado nem no Brexit nem no PSD. Confusos? Também eu. O “computador” parece um animal selvagem difícil de controlar ... não, isto não faz sentido nenhum, o computador é só uma máquina, não tem vontade própria, lembro-me. Que seja, mas confesso alguma dificuldade em perceber este comportamento errático em frente de um ecrã, e este deambular sem nexo, por muito definida que fosse a intenção primeira. O pior é que o tempo, o implacável tempo, escorre (cada vez mais rápido, sim, dizem que sim os físicos que o estudam) entre os dedos e os cliques do rato, e mal percebo que passou. 

Não escrevi nada do que tinha pensado, o que não será um problema. Em jeito de desculpa, deixo aqui em “copy/paste” esta pequena pérola encontrada na selvajaria de deambulações (com a pequena gralha): 


«Não sou dos que morrem de amores por Camões», diz Agustina. «Um poeta deve ser um mensageiro feliz; aquele que à nossa porta chega sem trazer a peste do seu tempo a turvar-lhe a pele. O que nos canta o melhor do seu coração para inspirar um sôfrego destino de felicidade.» Tenho andado à procura de uma boa forma de traduzir «spark joy», uma que transmita toda a intensa alegria despoletada por essa faísca e eis que encontro em Maria Agustina esta, que parece uma versão forte do lema de Marie Kondo: «inspirar um sôfrego destino de felicidade.» Perfeita. Camões não inspira, é claro, tal destino à autora de «A Sibila», e a navalha de Agustina é tão afiada quanto a de Occam: de todos os poetas, escolham-se os portadores de felicidade. O que deixa de fora, virtualmente, todos os poetas, esses pregoeiros do lado obscuro da alma humana, não só Camões. As estantes de poesia, vazias: Marie Kondo sentir-se-ia orgulhosa. Ah, desditoso paradoxo: o vazia gera vazio, o efeito da multiplicação por zero. A felicidade, essa, precisa de terreno mais fértil para nascer.
(http://xilre.blogspot.com/)

17/01/19

(Porto Out/18)

09/12/18

Os Esquecidos

Quando li o último parágrafo deste post lembrei dois incidentes recentes que se passaram comigo e que nos mostram a outra face da Via Verde, net banking ou facturas sem papel - uma face anacrónica por onde a modernização não passou e que mostra que eficácia é apanágio apenas de alguns sectores da sociedade. Realmente, pensando bem, quem é que num caderno reivindicativo se lembra de falar da eficácia e modernização da polícia? 

No verão passado recebi em casa uma carta que me era dirigida, pesada das várias folhas de papel que continha. O remetente era da Doca Pesca, Portos e Lotas, Lda. Intrigada, pois não tenho nenhum tipo de relação com docas, portos e lotas, abri e vi: 

Uma primeira folha que era uma notificação com um número de processo. O primeiro parágrafo reza assim: "(...) fica V. Exa. Notificada, dos factos imputados, da qualificação jurídica em que incorre para, querendo (...) se pronunciar no prazo de 10 dias (...)". Depois a carta continua rica em fraseado mas destaco apenas a parte em que explicam muito bem as diferentes formas de pagamento. Para já não sei do que sou acusada, nem quanto tenho de pagar. Na segunda e terceira folhas de papel, num total de três páginas e meio escritas, consta o Procedimento de Contraordenação em que – finalmente – se explica a razão de contraordenação: o estacionamento num período que não foi superior a 1h e meia, no Portinho da Ericeira. Lembrei-me do dia, lembrei-me que o espaço era amplo, que havia lá três ou quatro carros e espaço para trinta, achei que poderia lá estacionar. Uma coisa simples. Descrevem em detalhe o local, o carro (aliás a viatura) e explicam que não tinha autorização para estacionar lá e nesta parte são invocadas as autoridades: a Autoridade Marítima Nacional, a Polícia Marítima, O Comando Local de Cascais, Extensão da Ericeira. Depois segue-se uma parte chamada Do Direito em que referem todos os artigos de todos os Decretos-Lei que regulamentam esta situação. No final fica estabelecido o valor da coima: 25€. É assinado pela Instrutora do Processo. A quarta folha, em papel timbrado do Ministério da Defesa Nacional, Autoridade Marítima Nacional, é o Auto de Notícia assinado por um agente, que repete (para quem lê, pois o processo foi ao contrário) o facto em detalhe. Passei os olhos, nem li. A quinta folha é uma cópia da fotografia do meu carro lá estacionado. Paguei logo consciente de que os 25€ não pagam o trabalho e esforço destes serviços neste caso, e temendo que se não o fizesse pudesse receber em casa uma carta com o triplo das folhas de papel. 

O outro caso passou-se talvez há um ano, uma ida ao hospital da Luz em que deixei lá um livro. Era um livro pouco apetecível, era em inglês e de teologia, e não um José Rodrigues dos Santos, por isso, e sabendo que lá estava, não me preocupei em o ir buscar de imediato. Quando lá voltasse iria aos perdidos e achados buscá-lo, e foi o que fiz, mas fi-lo três meses e uns dias depois de o ter deixado lá e a política de perdidos e achados do hospital é a de entregar à polícia tudo o que lá ficou para além dos ditos três meses e que ninguém tenha ido buscar. 

Fui à esquadra de Carnide onde os objectos perdidos do hospital são entregues. Demorei um pouco a ser atendida e quando fui, disseram-se ser outro agente a lidar com esses assuntos. Esperei pelo agente que se mostrou simpático e que, na hora, encontrou o livro. Estendeu-o e percebi tratar-se mesmo do meu livro, mas ao pegar nele agradecer e preparar-me para o guardar e sair, foi-me dito que não podia sair e tive que devolver o livro. Há que lavrar o auto, diz-me. Precisei de me identificar e voltei a esperar. Não foi o agente a fazê-lo, ele não lavra autos, foi outro mais novo, com ar de quem faz os fretes e fá-los devagar e com muita intenção e muitas dúvidas ortográficas (tem a minha simpatia) e sintáticas, sinal de que não dominava a gíria dos autos e outros documentos policiais como daqui a uns anos o fará certamente. Ir buscar o livro revelou-se uma tarefa complexa que me manteve na esquadra mais de 45 minutos. Parece que na longa lista de reivindicações de manifestantes e grevistas contra os políticos em geral e os que governam em particular deveria constar a modernização e eficácia da polícia e outros serviços de segurança.

26/11/18

Avanços

É recorrente. De vez em quando, e a propósito normalmente do que se considera causa fracturante, fala-se de civilização e de avanço civilizacional. Longe de mim querer começar uma discussão filosófica, antropológica ou sociológica sobre o que é uma civilização, ou até ousar abordar diferenças civilizacionais entre o passado e o tempo actual ou entre as diferentes ‘civilizações’ que coexistem hoje no planeta terra. Seria interessante, nomeadamente tentar perceber se há umas civilizações ‘melhores’ do que outras e o que é que determina essa valoração, mas não é esse o meu objectivo. 

Limito-me a registar a facilidade com que se fala de civilização e de avanço civilizacional a propósito de qualquer coisa. Há umas semanas foi a Ministra da Cultura que – no parlamento – disse com muita clareza que as touradas eram uma actividade humana que cada vez fazia menos sentido (palavras minhas) numa civilização que se quer avançar. Esta noção de movimento – os ditos avanços e recuos civilizacionais – intriga-me. As civilizações evoluem e penalizar/acabar com touradas é uma opção acertada para estarmos no lado certo do dito avanço civilizacional. 

Quero deter-me um pouco nesse avanço, nesse movimento que, característica intrínseca do movimento, há-de ter uma direcção. Ora ninguém me explica qual a direcção dos ditos avanços civilizacionais que prometem, e que deveríamos alegremente e sem pestanejar construir. Eu gosto de perceber as coisas e nunca percebo que tipo de civilização ‘óptima’ é essa que devemos almejar, abandonando práticas consideradas não civilizacionais como as touradas. Afinal, quem é que nos explica que tipo de civilização é essa? Será que a ministra da Cultura sabe onde é que esse avanço civilizacional nos leva? Ou será que essa dita civilização que os avanços nos permitem vislumbrar não é mais do que um work in progress (este conceito que está na moda) de uma agenda política que existe na cabeça de uma minoria normalmente elitista e ‘de esquerda’ que impõe os novos códigos morais inventados numa máquina de propaganda qualquer num gabinete de marketing político e assentes em restritivos códigos de linguagem politicamente correcta? As pessoas que fazem a maioria – essa coisa chata e inconveniente que vota ‘populista’, Trump, Brexit, entre outros - pouco se revê nesses novos códigos morais, na linguagem cuidada, vigiada e reprimida e nessa ânsia de ‘avanço civilizacional’. Agora foi a tourada, em breve arranjarão outro tema para nos falarem de civilização. Deveriam parar um pouco, olhar à volta, e ver onde param os avanços civilizacionais, por exemplo (poderia dar tantos), num programa de televisão que se chama “Casados à Primeira Vista”, um reality-show pseudo-científico e com ‘Especialistas’ a funcionarem como casamenteiras. A tourada é, em todos os aspectos, infinitamente mais interessante e superior do ponto de vista civilizacional (e eu não sou propriamente uma apreciadora de touradas). 

Na minha noção de civilização os avanços civilizacionais prendem-se com (e para não me deter num passado muito passado, começo no século XVIII) a abolição da escravatura, o voto das mulheres, a diminuição da taxa de mortalidade infantil, a educação para todos, o aumento do número de sociedades democráticas, e o aumento da média da esperança de vida, para citar alguns. Infelizmente, no nosso planeta Terra e nos dias de hoje muitos destes avanços civilizacionais estão por cumprir. Mas isso não incomoda quem, nas nossas sociedades chamadas ocidentais tem uma agenda política politicamente correcta. Nem isso nem o simples facto de que na nossa própria sociedade aguardamos ainda o cumprimento de um avanço civilizacional importante: uma Justiça célere, eficaz e ao alcance de todos. Mas isto sou eu a falar ... quero lá saber das touradas.

28/10/18

(Lisboa, Outubro 2018)

14/10/18

A Propósito De Questionários Feitos Numa Escola Básica Aos Alunos

Que creio não se tratar de ‘fake news’, pois eu vi aqui o dito questionário, coisa preocupante, quanto mais não seja, porque naquela idade a atração deveria toda centrar-se em brincar, correr, e nos outros meninos e/ou meninas e não homens e mulheres. A coisa soa tão mal, só por isso ... Adiante. Confesso que tenho enorme dificuldade em me adaptar (perceber) a todas as conversas sobre ‘género’ que abundam no espaço mediático e público na nossa sociedade. Habituei-me, do tempo em que era ensinada na escola e em casa pelos meus pais e familiares, a que a palavra género fosse usada num contexto de análise gramatical para classificar substantivos e respectivos adjectivos, como por exemplo: a palavra flor é do género feminino, a palavra ramo é do género masculino. 

Por outro lado, a palavra sexo era o que distinguia os meninos das meninas, e tem sido usada para classificar as pessoas, umas são do sexo feminino, e outras são do sexo masculino. Mas passaram algumas décadas, e hoje as conversas são outras. A palavra inglesa ‘gender’ fez seguramente um percurso enviesado na nossa língua, e fala-se agora (o meu agora é lato) de género com uma espantosa desenvoltura a propósito de coisas complicadas que cabem no amplo espectro semântico, ideológico e filosófico de palavras como sexo, sexualidade, preferências sexuais, identidade, inclusão, discriminação, igualdade, homossexualidade, heterossexualidade, transgénero, LGT, e muito, muito mais. Ando perdida. 

Dividir o mundo entre homens e mulheres é fácil, intuitivo e perceptível para a comunidade. Ou se nasce com o sexo masculino ou se nasce com o sexo feminino, é uma questão biológica, é um facto. (Os raríssimos casos em que tal não se observa, merecem outro tratamento e não é sobre eles que falo). Mas dividir o mundo em ‘n’ géneros não é fácil, não é intuitivo, e sinto-o como uma imposição, pois trata-se de uma construção mental e cultural fruto de uma moda, mais do que de um avanço civilizacional (mesmo não sabendo muito bem o que este conceito quer dizer) e é, por isso, uma classificação forçada, pouco natural, e cuja necessidade não entendo. 

Se o sexo da pessoa é do domínio público, normalmente olhamos para alguém e conseguimos dizer se é mulher ou homem, o género – ou melhor as opções de como cada um constrói e vive a sua sexualidade (é isso, não é?) – são do domínio da vida privada, podendo ou não ser público e notório, mas basicamente, ninguém tem nada com isso, e raramente tal assunto me merece atenção, quanto mais interesse. O que se vive na casa, no quarto de cada um, é com cada um. Devo referir que este ‘privado’ não é sinónimo de secreto, nem pressupõe nenhum tipo de discriminação ou opressão, é tão somente a vida de cada um como cada um a escolhe viver. Por isso não percebo a necessidade (imposição) que a opção ou decisão ou aceitação de como vivemos a sexualidade tem que ser tornada pública enquanto elemento identitário ‘oficial’ e ‘administrativo’ em vez do sexo com que nascemos. Em que momento é que essa construção de si (opção, escolha, aceitação, eu sei lá) está terminada? Tem de estar terminada e fixada para sempre? E se muda (porque não?) e entra em conflicto com o que foi anteriormente declarado oficialmente por exemplo no CC? Muda-se outra vez? Porque é que essa dimensão identitária do género é mais relevante do que outras que nos constroem e que fazem quem somos e nos definem? Levado a um extremo, (ou talvez não), aposto que muitos sócios do Benfica até gostariam de ter essa filiação no Cartão do Cidadão! 

Ao preencher uma qualquer ficha de identificação já me deparei com o pedido do género entre várias opções que não o simples binómio masculino /feminino, e algumas até dão a opção de personalizar o género. É isso, personalizar. Faz-se como? Se isto é complicado para os adultos, imagine-se para as crianças. Como é que se lhes impõe uma escolha ancorada num vasto leque de opções? Como é que se explica? E sobretudo, porquê obrigar crianças a definir o seu género? Realmente esta problemática dos géneros é toda uma nova dimensão que se abre, e não creio que seja um bom caminho esse que nos estão a obrigar a percorrer. Mas criticá-lo é imediatamente sinónimo de intolerância, de discriminação. Não são tempos fáceis para a liberdade de expressão.

23/09/18

Parque Temático

Na semana que passou os taxistas invadiram (e ainda invadem) a(s) cidade(s) com as esperadas consequências a nível do trânsito, e falo sobretudo de Lisboa: impossibilidade de circular nalgumas ruas/avenidas, demoras e filas. O trânsito é hoje uma espécie de inferno dos tempos modernos. Ninguém o quer, ninguém gosta, evita-se quando se pode. 

Eu disse ninguém o quer? Pois, parece lógico pensar que realmente ninguém o deseje, mas infelizmente não é esse o caso. O último sonho mau (os sonhos maus deveriam ter ficado na infância ... mas como já nada é como se esperava que fosse) do Presidente da Câmara de Lisboa, agora que ultrapassou esse outro sonho mau de há uns anos que foi fazer da Segunda Circular uma avenida urbana com apenas duas faixas de rodagem, semáforos, bem como árvores com passarinhos chilreantes e flores na primavera no meio, é criar uma faixa de rodagem para Bus na A5. Tão boa é esta ideia que – segundo as notícias – ele pretende estendê-la a outras vias de acesso à cidade de Lisboa (ver aqui e aqui). 

Lembrando António Guterres, segui aquela velha máxima de “é só fazer as contas”, e percebi que uma vez que a largura das vias é limitada, e a menos que se façam grandes obras estruturais em todos nos acessos à cidade, fica evidente que a criação de uma faixa para Bus passa pela eliminação de uma faixa normal de circulação. Assim, crê ele, naquele estado de quem se sente iluminado mas apenas teima em não acordar desse seu sonho mau, as pessoas que vêm diariamente em carros para Lisboa terão mais incentivos para usarem os transportes públicos que circularão mais rapidamente. A cidade terá menos carros e, por isso, menos trânsito. (Dá vontade de rir pensar na A5, na IC19, na A1 ou na A2 com menos uma faixa de rodagem, não dá? Dá vontade de rir pensar que assim a cidade terá menos trânsito, não dá?). 

Mas tentarei não rir muito e olhar para as coisas como elas são, que é sempre uma boa maneira de olhar para elas. Impõem-se de imediato algumas questões. Afinal que infraestruturas de transporte público dispõe o cidadão de Lisboa como alternativa de mobilidade para a cidade e dentro da cidade, neste seu sonho de libertar a cidade dos carros dos cidadãos? Várias linhas de comboios que sirvam amplamente os conselhos vizinhos para todos aqueles que da periferia querem chegar ao centro da cidade? Uma ampla rede de metro, eficaz, pontual e sobretudo que cubra toda a cidade e um pouco mais além? Uma rede de autocarros eficientes e pontuais na cidade e concelhos limítrofes? Interconectividade abundante e eficaz entre diferentes redes de transportes? Preços razoáveis? Como é que respondendo ‘não’ a todas estas questões, Fernando Medina pensa que poderá libertar a cidade dos carros? Sem, pelo menos uma rede de metro que cubra amplamente toda a cidade (de norte a sul, de este a oeste para que não restem dúvidas) é impossível sonhar em ‘libertar a cidade dos carros’.

Indo um pouco mais além neste quadro de ‘libertação’ da cidade, coloco outra questão: porquê e para quê, exactamente, essa vontade de libertar a cidade dos carros? Como os carros não se deslocam sozinhos, nem pelas suas vontades autónomas, presumo que queira também libertar a cidade das pessoas, das que aí vivem a sua vida. Hoje ter casa começa a ser difícil, mas só mais um esforço e criam-se também todos os postos de trabalho longe do centro, exceptuando aqueles que servem o turismo. Fica então a cidade livre para turistas, para o lazer, para passear, ver as vistas, ir aos restaurantes, frequentar actividades culturais, outros eventos, etc. Ficamos todos com um excelente e sofisticado parque temático, perdão, com uma bela cidade, para usufruir ao Domingo à tarde em directa concorrência com os centros comerciais da periferia. Um futuro promissor. 

O desejo de infernizar a vida das pessoas tornou-se num impulso subjancente a tantas decisões políticas. É evidente esta estranha tendência, esta necessidade de culpabilização nos tempos modernos em que, ao mínimo pretexto, se castiga e aponta o dedo ao cidadão: ou porque usa carro, ou porque se endivida, ou porque compra e vende casas com mais valia, ou porque gosta de bebidas doces, ou porque tem sucesso. Ar dos tempos.

11/09/18

Call Me By Your Name

Da colheita dos Oscars deste ano. Vi na altura Darkest Hour e uns meses depois Three Billboards Outside Ebbing, Missouri, que são filmes interessantes e competentes, este último muito por causa de Frances McDormand. Recentemente, neste período estival em que sempre sobra um pouco de tempo, vi outros dois: Phantom Thread e Call Me By Your Name. Phantom Thread, um filme formalmente perfeito, todo feito de detalhes, contido, fechado, inusitado e com magníficas personagens e interpretações, foi sem dúvida o meu favorito, mas não é dele que vou falar porque

Call Me by Your Name foi o que mais me intrigou, apesar do filme ter sido o que esperava que fosse, depois de lidas referências na imprensa. É um bom filme, em que se destaque a interpretação de Thimotée Chamalet, mas o que mais me marcou foi o título do filme e que mesmo antes de o ver me surgia recorrentemente ... afinal é tão fácil dizer 'call me by your name'. 'Chama-me pelo teu nome', é uma coisa pesada, que não se diz com facilidade, e que, dizendo-o, percebemos que tropeçamos nas palavras, que elas soam estranho, desconfiamos. 'Call me by your name' é simples, e sem pensar muito a frase solta-se, as palavras saem fáceis como um mantra, sem me demorar no que que elas significavam, até que vi o filme.

Como disse, pouco me surpreendeu, nem a história, nem o local, nem as opções formais nomeadamente fotográficas, nem o despertar do desejo (paixão, romance), o motor da intriga. Também sabia tratar-se de um filme onde impera a sensualidade, e assim o confirmei. A personagem delirante de Elio leva essa sensualidade a níveis surpreendentes, e é neste contexto de excesso, fantasia desmedida e delírio que call be by your name aparece de uma forma quase transgressiva. Chama-me pelo teu nome, é um pedido estranho e de uma sensualidade imensa que quebra as barreiras entre o ‘eu’ e o ‘tu’; ficando no ar (e na tela) a sugestão ou a evidência de que Elio e Oliver se entregam, se misturam, esbatendo as identidades. Chega a ser quase perverso esse apelo ao abandono da sua identidade, mas a frase funciona nesse clima criado no filme, e se funciona tão bem é porque se trata de uma relação homossexual. Numa relação heterossexual o acto de pedir “chama-me pelo teu nome” (ou te chamar pelo meu nome), seria sempre mais retórico e mais forçado, pois os nomes são reveladores do sexo, e nunca teria a permeabilidade, fluidez e ambiguidade que, no caso do filme, se consegue.

Call Me By Your Name. Esse título, essa frase que emana do contexto sensual do filme, tem uma força extraordinária, e quando, nos momentos finais, os ouvimos calling you by my name, todo o peso e densidade do significado do título, surpreendentemente leve e fácil de dizer, faz-se sentir.

09/09/18

(Afife 2018)

09/08/18

Manhã Submersa 2

Já lá vão 3 ou 4 dias de polémica (ver aqui). Boris Johnson, o ex-ministro de Theresa May e conhecido Brexiteer, chamou as coisas pelos nomes, e não falta quem não se conforme e peça que ele se desculpe. Disse que as mulheres de burqa pareciam caixas de correio - e foi generoso, as caixas de correio, pelo menos as tradicionais inglesas, são bem mais coloridas e alegres do que as burqas - e a ladrões de bancos, e aqui também foi generoso, os ladrões de bancos são normalmente mais elegantes e raramente se cobrem com um pedação de tecido que impeça os movimentos. A Primeira-ministra já se demarcou dele e acha que ele se deveria desculpar, mas - independentemente da minha opinião sobre BJ - realmente não percebo de que terá de se desculpar, nem tão pouco creio que se deva desculpar. Parecem? Boris Johnson acha que sim, e então? Ladrões de bancos, só mostram os olhos, pois ocultam a identidade. Caixas de correio são blocos cuja marca identitária é uma fresta por onde deitar as cartas. Não parece tão descabido, nem tão tonto assim. É ofensivo? É o que é! (Falei sobre isso aqui) Mais uma vez, a liberdade de expressão (não difamou ninguém, não apelou ao ódio ...) a ser posta em causa. 

Mais uma vez a nossa sociedade a não olhar a realidade de frente. Quando Theresa May diz que as mulheres são livres de se vestirem como querem, ele tem razão, eu também estou de acordo, e visto-me como quero, e aguento as opções de indumentária das outras mulheres e dos outros homens. Mas essa não é a questão, pois as mulheres com burqa não estão vestidas, estão cobertas; as suas roupas estão por baixo de um pano preto que as oculta totalmente e que lhes rouba identidade e forma, tornando-as, é bom lembrar que é esse o objectivo da burqa, invisíveis. Enquanto se achar que o uso da burqa é uma peça de roupa como os jeans, perpetua-se a falácia do exercício da liberdade da mulher em “se vestir como quer”, continua-se a evitar enfrentar o problema e a apenas se olhar para a superfície das coisas. A Dinamarca e os países que proíbem o uso de burqa, e de outros trajes que ocultem a identidade, em espaços públicos, estão certos. Mais uma vez a linguagem (na forma das frases de BJ) a ser punida, por não ter branqueado e ‘contornado’ a realidade.

06/08/18

Manhã Submersa

Hoje de manhã, oiço na rádio (Antena2) que um pintor, de que falavam e cujo nome não cheguei a ouvir, terá pintado muitos touros num determinado período. A explicação não se fez esperar: o seu pai terá estado “ligado à temática taurina”! Assim dito. 

Estar ligado à temática taurina é uma interessante expressão que pede descodificação. Afinal o que poderá ser “estar ligado à temática taurina”? Difícil. Por muitas voltas que dê à cabeça, por muito que peça à minha imaginação para se soltar, apenas me ocorrem ser toureiro (a pé ou a cavalo), ser frequentador assíduo de touradas, conhecedor e apreciador, (se não aprecia não conhece nem sabe) de touradas, empresário na área das touradas, o que deve também pressupor conhecimento e gosto da “temática taurina”. 

Esta expressão tão forçada e artificial fez-me lembrar uma notícia que vi há uns meses num telejornal, em que se abordava o problema das gaivotas na cidade do Porto, embora me atreva a dizer que não é só no Porto que as gaivotas são um problema, mas fiquemos por essa notícia. Depois de explicar o problema, falam de soluções, algumas vagas, ou como dizem, a longo prazo, e outras mais de curto prazo são “atitudes que possam minimizar o problema”, sem, no entanto, explicar o que quer isso dizer de facto e que medidas são. Assim, e deixando mais uma vez a imaginação correr o seu curso, não vejo que outras soluções possam existir que não passem por uma de duas situações: ou que matem as gaivotas, ou que controlem a sua reprodução. Não me parece que existam outras formas de convencer as gaivotas a abandonar os meios urbanos. 

Deixando de lado o pintor que pintava touros e as gaivotas em terra, o que percebemos é que vivemos tempos difíceis para a forma como nos exprimimos. Aliás até diria que vivemos tempos complicados para a liberdade de expressão, não só na forma de expressar opiniões, mas sobretudo, e o que mais me preocupa, na forma como contamos a realidade ou relatamos factos. A factualidade, ou a realidade, ou as coisas serem o que são e como são, hoje tem de se curvar perante o politicamente correcto. Não podemos chamar tourada à tourada, não podemos dizer que queremos exterminar uma parte da população de gaivotas, nem pensar. Temos, sim, e cada vez mais, que contornar a linguagem, arranjar eufemismos, expressões vagas, longas, complicadas e pomposas para evitar dizer as palavras que não podem hoje ser ditas e que não deixam de aumentar. Vai ser difícil mantermo-nos actualizados. 

Não se pode mudar a realidade, mas meu Deus, a ginástica que é feita para que, ao nomear essa mesma realidade, ela caiba nessa forma estreita e mesquinha que é a da linguagem permitida hoje. Não se muda a realidade? Azar! Que se mude a forma de a narrar. Depois admirem-se.

28/07/18

(Lisboa - Jul 2018)

22/07/18

Vai Subir?

A vida não é fácil para quem tem um módico de racionalidade. Tantas vezes não encontramos o sentido das coisas – grandes ou pequenas – muito menos o que move as pessoas e o mundo que, claro, é feito e moldado pelas ditas pessoas. Ah, mas desenganem-se, não são hoje as grandes opções, dilemas, juízos, aspirações ou ideais que me ocupam, hoje detenho-me num detalhe comezinho da vida em sociedade pois, como se costuma dizer, há coisas que não matam, mas moem. A verdade é que de tanto moer (água mole em pedra dura ...) algo se quebra, racha, e em mim recentemente algo se quebrou (a tolerância, a paciência?) perante a ausência do que considero serem uns níveis mínimos de racionalidade e senso comum da vida. 

Desde que me lembro que me intriga a forma como as pessoas utilizam os elevadores; sim, elevadores, essa maquinaria que faz parte da nossa paisagem do dia a dia, aqueles que, subindo e descendo, nos levam para cima ou para baixo, num prédio de habitação ou escritórios, num hospital, numa repartição, nos centros comerciais. Não falo, no entanto, de elevadores velhos desprovidos de automatismos - falo de todos os outros: dos que têm no exterior dois botões, um com uma seta para cima, outro com uma seta para baixo permitindo que, carregando o botão com a seta para cima chamemos o elevador que sobe, ou o contrário se carregarmos no botão com a seta para baixo. Falo dos elevadores que têm uma luz que acende por cima da porta que abre quando ele chega, e que, través de uma seta para cima ou para baixo, indica se o elevador vai subir ou descer. Acreditava eu, na minha inocência, nada haver de transcendente em perceber coisas simples: 
- se queremos subir chamamos o elevador carregando no botão com a seta a apontar para cima e vice versa se quisermos descer. 
- quando o elevador chega e olhando para a luz por cima da porta e para o sentido da seta, sabemos desta forma simples, se ele vai subir ou vai descer e decidimos entrar ou esperar. 

Andei e ando redondamente enganada. Há toda uma transcendência e metafísica na forma de utilizar o elevador que nunca entendi, só isso explica que eu veja quotidianamente: 
- pessoas que carregam em ambos os botões ao chamar o elevador, (como se mecânica elevatória se compadecesse, ou se motivasse e se apressasse um pouco mais) embora saibam perfeitamente se vão subir ou descer. E não, não se pode subir e descer no mesmo elevador ao mesmo tempo. Só baralha e atrasa o mecanismo,
- pessoas que invariavelmente, ao entrarem no elevador, perguntam “vai subir?” ou “vai descer?” porque são incapazes de levantar os olhos e ver a luz e a seta que acende e que lhes dá a indicação se o elevador vai subir ou descer. 
- pessoas que esperam que nós, aqueles que já estão no elevador, interrompamos as nossas divagações ou silêncio, para lhes responder e assegurar que o elevador vai a subir ou a descer. 

O mais estranho é que este comportamento que vem da incapacidade para utilizar elevadores, é absolutamente transversal: novos e velhos, pobres e ricos, cultos ou incultos, inteligentes ou burros, gordos e magros, homens e mulheres, todos cabem nesta categoria. Podem vir de telemóvel na mão a responder a emails complexos, ou com uma mente cheia de cálculo diferencial, ou de fenomenologia, nada disso conta na hora de utilizar um elevador. Recentemente descobri para meu absoluto espanto, alguém que não sabia em que botão carregar para chamar o elevador: ou da seta para cima se quero que ele suba para poder descer ou carregar logo no botão com a seta para baixo se quero que ele desça. O quê? tão complicado assim? mas como é que se sabe onde e como está o elevador nos andares que não indicam o seu paradeiro? Uf, este é um caso típico de “porquê simplificar se podemos ter complicado?”. Isto é o mundo ao contrário. 

O que temo é que uma vida inteira a ouvir “vai subir?” (ou “vai descer?”), ao ponto dessas frases já esperadas nos arranharem, deixe marcas numa mente racional. Não sei quais, mas duvido que não as haja. Pena de mim! 

A rational mind has, occasionally, a hard time understanding the world as it is, and people as they are and react. I will not be detained now by trying to make sense of the big questions people face, their doubts, hopes, dilemmas, whatever moves them, but by a small detail of daily life that leaves me every single time bewildered and impatient. It is the way most people use the lift - yes, I’ll write about that familiar and useful mechanism that takes people up and down, not the old ones, but the modern ones with memory and two buttons. These lifts have up and down arrow buttons one must press to go up or down, so if you want to go up you press the button with the arrow pointing up, and press the down arrow one if you want to go down. 

It is simple, it is not complex, it is not metaphysics, but still there are people who cannot figure that out and press both buttons, and, before getting in, never bother to look up to the light on top of the door that indicates (an arrow again) if it is going up or down. So – interrupting our reverie, or unwillingness to speak to strangers – they ask, every single time “going up?” or “going down?” 


I realize now that I have been mistaken all my life. Figuring out which button to press, and if the lift is going up or down are not easy jobs, otherwise you wouldn’t see so many people – young or old, clever or stupid, rich or poor, thin or fat, asking invariably, before getting in a lift: “going up?” (or “going down?”). They may be on their mobiles writing complex emails, or having their heads full of differential calculus or phenomenology, the fact is that none of that matters when it comes to using a lift. I’m quite sure a life’s worth of hearing “going up?” or “going down?” must leave some trace on a rational mind. Don’t know which one, but I feel sorry for myself.

12/07/18

Corps et Âmes



Entre livros de literatura de aeroporto, creio que de um tempo em que não se vendiam livros em aeroportos (?), de capas fáceis, coloridas e gastas, encontrei este livro pequeno, sóbrio, preto que me chamou a atenção. Ao pegar-lhe, ver o que era, e perceber que nunca o tinha lido, soube que não o iria largar enquanto não o terminasse ... Assim foi. 

Anna, soror ...”, uma pequena novela de Marguerite Yourcenar lê-se de um folgo, não só por ser pequena, mas porque se nos cola às entranhas. A inevitabilidade do desenrolar da história dos dois irmãos Anna e Miguel, e porque suspeitada ou imaginada cedo, é a inevitabilidade do leitor que não consegue, nem quer, parar de ler. Cola-se-nos às entranhas porque habitamos o corpo e a alma (corps et âmes) destas personagens, sentimos o que sentem, vemos o que veem, vivemos os locais onde vivem. É a vida, é um pulsar forte de algo que ultrapassa a decisão, a vontade, e que simplesmente está - sem rodeios nem rodriguinhos, sem moralismos nem lições civilizacionais, sem culpas nem desculpas, sem militância, nem vontade de desafiar mentalidades. Tudo escrito com elegância e mestria, mas falamos de Marguerite Yourcenar. Ela faz isso, falo sobretudo nas suas novelas pequenas como Le Coup de Grâce ou Alexis ou Le Traité du Vain Combat, livros que li de um fôlego e que marcaram. É sempre um prazer lê-la. 

No Posfácio da edição desta novela (edição da Galllimard de 1981) feito por MY, leio que a novela foi escrita na sua juventude, mais precisamente entre os seus 18 e 23 anos. É extraordinário perceber que já aos 18 anos se revelava uma pessoa com uma profundidade de pensamento e conhecimento que espanta. Independentemente das capacidades intelectuais bem como do nível de conhecimento e cultura que MY demonstrava na juventude, há uma maturidade na escrita e na forma de contar a história que espanta. Não só espanta como convida a que estabeleça comparações com o que conheço hoje e não preciso de grande reflexão e elucubração para perceber que nem aos 18, nem aos 23 anos, se encontram níveis de maturidade e profundidade que, de uma forma ou de outra, tenham algum paralelo com o que leio em Yourcenar. Aliás iria um pouco mais longe: num tempo em que se promove e cultiva, como coisa normal e em qualquer idade, a eterna adolescência - uma forma adolescente de ser, de olhar a vida, de opinar, de decidir - a maturidade serena e assumida faz-se um bem escasso e é um alívio encontrá-la. 




Unexpectedly I found a small novella by Marguerite Yourcenar, "Anna, Soror …", that I had not read yet. In no time I finished it, not just because it is small, but because it draws us body and soul (corps et âmes) in a way that we became the characters, we feel in our guts what they feel, we crave like they crave, we see what they see, we live the places they know. From the star we are in a path that knows no escape, no decision and no will. With fierce intensity, elegance and restrain, but holding nothing back, and with no apologies or easy moral judgements, Yourcenar tells us the story of Miguel and Anna, and the book is a pleasure to read. 

I was surprised to know that she wrote the book in her youth. Besides her knowledge and culture, she shows surprising maturity and depth. We can’t even find in adults such maturity, since we seem today to nurture and applaud, whatever the real age, a young (out of college) pathos, that is reflected in the way of being, living, thinking, deciding. It is refreshing and reassuring, then, to find such adulthood and maturity.

05/07/18

Bikini

O problema das migrações está na ordem do dia (da semana, do mês, do ano). O governo de Angela Merkel estremeceu, António Vitorino foi nomeado Director-Geral da Organização Internacional para as Migrações; e a estes factos mais recentes somam-se os recorrentes como as notícias de mortes no mediterrâneo ou Donald Trump e as suas decisões sobre imigrantes. O aumento de influência e, nalguns casos, a chegada ao poder dos partidos mais populistas e nacionalistas na Europa cujas mais polémicas decisões sobre imigração – que se resumem sempre num fecho de fronteiras - são um sintoma do mal estar de décadas das populações perante as migrações, as comunidades imigrantes e a sua (in)capacidade de integração. Abordar esta questão de forma séria, frontal e sem medos (venham eles do lado que vierem) não tem sido apanágio de Europa (EU) ou dos países que a compõem. É matéria em que os clichés se fazem fáceis e abundam. 

Em Portugal – um país periférico e pouco apetecível do ponto de vista de quem procura uma vida melhor na Europa (ou até asilo) - nós não temos sido confrontados com muitas das questões e muitos dos problemas que as migrações têm levantado há décadas noutros países europeus, como bem sabemos. Não somos confrontados numa base quotidiana e sem descanso com as divergências entre os modos de vida, entre os valores que hoje, como ontem e como amanhã, são parte integrante da nacionalidade, da cultura e da paisagem de cada comunidade. 

Faz um calor imenso em Londres e os parques onde a relva – inesperadamente - não é verde enchem-se de pessoas. Muitas mulheres e homens apanham sol estendidos numa toalha em fatos de banho e bikinis, e a 20 metros estão mulheres muçulmanas em pequenos grupos todas de preto tapadas. Digo tapadas porque não posso dizer vestidas, uma vez que não lhes vejo roupa, só mesmo um pano preto imenso que as cobre da cabeça aos pés - cara tapada só com uma fenda para os olhos. Dizem que é um niqab. Não são as primeiras que vejo, claro, mas – seria do calor? – fiquei surpreendida com a quantidade que desta vez eu vi na rua, e que foi bem superior à de outras vezes. 

Não há forma de me sentir confortável com esta visão, não há forma de aceitar esta tipo de paisagem urbana, não há forma de não sentir incómodo, repulsa e rejeição pela visão de mulheres todas tapadas, todas iguais. A cara de cada um é um dos principais factores identitários, e ao ser ‘abolida’, porque tapada, tapada reduz a mulher a uma condição de mercadoria que mais não é do que pertença de. Sem identidade não existimos, não somos quem somos; sem identidade não há dignidade, não há humanidade. Enquanto mulher sinto cada dia mais como um insulto e uma afronta, esta impotência que as sociedades democráticas, liberais e tolerantes que baseiam os seus valores (e legislação) no respeito pela dignidade de cada pessoa têm, e que permite que se viva tranquilamente este aniquilar do ser, esta indignidade de quem não pode/quer assumir a sua identidade que é aquilo que a torna única. 

Esta deveria ou poderia ter sido uma fronteira a não deixar que fosse ultrapassada. Em nome da tolerância pela cultura e costumes dos outros, permitimos a intolerância e fomos cegos quando outros valores opostos aos nossos se instalaram ao nosso lado e de forma insidiosa foram pondo em causa aqueles porque tanto lutámos enquanto civilização. 

There is no way I will ever be comfortable with the sight of niqabs alongside bikinis in the parks of London in warm summer days. Niqabs are not clothing, they are a piece of black cloth that hides whatever makes them an individual. By hiding their faces, their identity, their uniqueness, they became much more like a commodity than a human being. 

I find it hard to accept that societies that have at their core such values as democracy, the dignity of the human being, equality before the law, and the value of individuality, easily tolerate so many situations where women are deprived of their identity, their uniqueness.

Arquivo do blogue

Acerca de mim

temposevontades(at)gmail.com