04/06/19

A Última Estação

Li há umas semanas, em pouco tempo e porque os livros estavam à minha frente, dois contos de Agustina Bessa-Luís. Estações da Vida (com prefácio de António Barreto) nem é bem um conto nem uma novela, no sentido em que não é uma sequência narrativa, mas funciona como um painel de azulejos, de alusões, episódios, personagens, vidas cruzadas, todos olhados com perspicácia, humor e compaixão (partilhar a paixão e não ‘ter pena’) e tendo como ponto de partida as Estações ferroviárias da linha do Douro que Agustina mais frequentava na infância e juventude. A Torre, um livro pequeno de capa dura e autografado pela autora, é hoje um livro raro. É um pequeno condensado de Agustina, do seu olhar, humor fino, perversidade. 

Lembro-me do que relembrei e lembro-me de na altura ter pensado como é divertido ler Agustina. Como é imprevisível, como a forma inusitada com que tece umas histórias nas outras e nos deixa por vezes sem norte. Como me rio sempre que leio algum dos seus famosos aforismos, truísmos ou sentenças, dos mais sensatos aos mais absurdos e aparentemente despropositados. Como as suas personagens femininas são fascinantes, e como quase sempre e de forma mais ou menos insidiosa, mais ou menos perversa as percebermos motor da narrativa. Como o seu olhar é impiedoso e inclemente perante a patetice. 

Tenho que ler mais vezes Agustina Bessa-Luís. Uma escritora de outros tempos, e tão de agora.

07/05/19

Ópera e Bicos de Pato

Gravo muitas vezes concertos e óperas do canal Mezzo que depois, a meu tempo, vou vendo. Recentemente vi uma gravação de há meses da ópera Evgene Onegin de Tchaikovsky, baseada na obra homónima de Pushkin. Ao contrário do que se passa com algumas óperas de Verdi em que as histórias são complexas e o enredo se enreda e desenreda, esta é o contrário, é simples, mas nem por isso deixa de ter momentos de grande tensão psicológica e dramática. O herói, Onegin, é frio, frívolo e cheio de ‘ennuit’, a heroína, Tatiana é jovem, romântica e ingénua. Como é óbvio, os cantores de ópera são verdadeiros actores vestindo a pele e encarnando as suas personagens e através da voz, expressões, gestos, postura transmitem toda a emoção e intensidade que é pedida pelo compositor e que o espectador espera. Assim, fica um sabor a pouco quando não experimentamos as emoções prometidas pela peça. Foi o caso desta versão (já vi de que gostei mais) que me pareceu superficial e fria (até pelos cenários e produção), mas foram sobretudo os protagonistas que me desapontaram. 

Não sei o suficiente de canto lírico e ópera para fazer uma crítica, mas fica a impressão que que os protagonistas me causaram. Ele, hirto, formal e frio (até para interpretar uma personagem fria), ela era feia a cantar – os primeiros planos que as filmagens nos dão são responsáveis por tanto impressionismo – pois tinha uma forma estranha de mexer a boca e projectar os lábios e, de perfil, tinha uma boca de pato. Mas não ficou por aí a estranheza pois enquanto cantava – nomeadamente naqueles momentos de maior intensidade dramática - percebi que a sua testa não fazia nenhum tipo de ruga ou vinco, mas ondulava como se tivesse sido enchida com um líquido gelatinoso. As rugas de expressão não existiam, existiam sim, uns volumes estranhos dados pelas ditas ondas. 

Boca de pato, ondas na testa numa cantora que estava longe de ser ‘velha’ (na ópera é comum mulheres de 50 anos interpretarem jovens ingénuas de 16 ou 17, como sabemos) e que tinha uma figura jovem, e que, aparentemente, não teria necessidade de recorrer a certas intervenções estéticas na cara. Tento sempre perceber o que motiva uma mulher ou homem a voluntariamente desfigurarem-se. Vejo apresentadoras na televisão portuguesa com alterações substanciais nos traços do rosto, testas lisas que parecem ter sido engomadas, maçãs do rosto demasiado cheias, lisas e luminosas, lábios exageradamente volumosos (apesar do volume ser variável, aumentando e diminuindo, de acordo com as intervenções feitas), por vezes até com um lado da boca com mobilidade visivelmente reduzida. As expressões da cara são muito alteradas, e facilmente se percebe que o tipo de intervenções feitas. Tantas vezes as bocas são, de perfil, verdadeiros bicos de pato e a dicção é notoriamente alterada. 

A passagem do tempo, ou dizendo-o de uma forma menos poética, o envelhecimento pode não ser fácil, mas é inexorável desde o momento do nascimento. Por muito botox que se ponha na testa, a pele envelhece, as rugas estão lá, as pessoas envelhecem. Por muitos enchimentos que se ponham nas maçãs do rosto ou nos lábios, a cara modifica-se com a idade, e as marcas da passagem do tempo estão lá, por trás dos enchimentos. Custa-me ver essas caras que voluntariamente se desfiguram, mas o que me custa mesmo é perceber que nada disso surpreende, que já é norma, até diria mais, que já se espera e se aceita tranquilamente que as pessoas (mulheres) passem por esses processos de modificação da fisionomia do rosto, na vã luta contra o tempo. A sabedoria, que supostamente vem com a idade, está agora substituída por uma equipa de técnicos e técnicas dermatológicas

28/04/19

(Porto Abr/19)

20/03/19

Raposas ...

As notícias em letras grandes sucedem-se a um ritmo frenético. Ainda não nos refizemos de uma que a outra se sucede a prender a nossa atenção. Um dia havemos de nos cansar de vez e deixar de ler e ouvir notícias. Mas essa é uma longa conversa, ou melhor, uma longa reflexão. 

Ontem um tiroteio numa mesquita na Nova Zelândia (para quando uma comoção mundial para as mortes de cristãos nas igrejas no Egipto ou no Paquistão, entre outros locais hoje impróprios para cristãos?), ou um outro tiroteio num eléctrico em Utrecht que se pensou ser querela familiar, mas afinal já não será e o espectro do terrorismo a espreitar. Hoje, tal como ontem, são ainda as cheias em Moçambique e a calamidade de sofrimento humanitário que nos mobiliza. Mas hoje há mais, ou não vivêssemos todos o suspense dessa novela em capítulos intermináveis chamada Brexit. Hoje, como se diz na gíria de telenovelas, houve capítulo duplo. Nesta fase, e fosse eu Britânica, já só pedia para que tudo acabasse a 29 de Março, sem acordo se necessário fosse, mas a telenovela tem de ter um fim; depois despedia os políticos que deixaram o país neste caos, indecisão e medo, e aproveitava para mandar os Donald Tusks deste mundo, ou melhor da EU, pentear macacos para bem longe de Bruxelas. 

No entanto foi um telefonema simples e curto que recebi que me apanhou de surpresa. Será um fait divers, (para usar uma expressão cara a Jorge Coelho) mas não estava preparada. Afinal, quem espera uma notícia assim? Neste mundo urbano e tecnológico em que tudo se programa não há espaço para estes imprevistos: não vou ter, na aldeia, os frangos campestres que encomendei para na Páscoa trazer para Lisboa. (Já congelados, claro, porque embora seja boa no manuseamento de facas, ando- no mínimo -  pouco treinada a matá-los e depená-los). Não há frangos tão simplesmente porque a raposa os apanhou e comeu. E não há nenhuma app que me valha. Raposas ...

19/01/19

Sábado de Manhã com Chuva

Sabia exactamente sobre o que ia e queria escrever. Pensei dedicar uma parte da manhã de hoje a fazê-lo, só que, sentada em frente do computador, perdi-me ... saltando sem nexo entre emails, actualidade, notícias, textos vários, vídeos, pesquisas, música, blogues. Tudo, qual Babilónia, se confunde em frente dum computador. Na nossa mente tanto cabe a vontade de perceber como é que esta receita de couve fermentada é diferente da já experimentada com sucesso, como cabe um momento de irritação com mais uma invenção do governo que, em vão, tento perceber. Inclusão? Mas o que é isso exactamente, e sobretudo, como se mede essa dita inclusão? Pelo número de alunos de cor, por turma, por ano? Por um rigoroso 50% de raparigas e rapazes? Por uma quota de ricos e pobres? Estas invenções e estes nomes fazem-me rir: são reveladoras do “ar dos tempos”, e porque esquecem que, de facto, tudo o que os pais querem saber é a taxa de sucesso da escola para entrada na faculdade. Tudo se resume a isso, por mais voltas ideológicas que o ministro queira dar. O governo pode decidir o que quiser, outras entidades farão um ranking baseado nos factos puros e duros, nas notas e no acesso à faculdade e será esse que os pais procurarão. 

Entre deambulações várias, a vontade de ouvir Debussy parece premente, nada que o youtube não resolva com ajuda de Martha Argerich. Aquela conta a pagar obriga a uma passagem pelo homebanking, numa manhã em que Maria João Rodrigues ocupa os sites informativos e em que me distraio com publicidade imobiliária mandada para o email – os preços das casas, pois, bem como as casas em si que parecem estar a ser feitas para investidores e não para pessoas. Depois de uma pesquisa na Wikipedia, (que nos redirecciona para outra e outra ...) percebo que já não é Debussy, mas Lizt que toca pois o youtube passa para o vídeo seguinte e nem pergunta se queremos ou não. Resta o consolo de (ainda) não ter tropeçado nem no Brexit nem no PSD. Confusos? Também eu. O “computador” parece um animal selvagem difícil de controlar ... não, isto não faz sentido nenhum, o computador é só uma máquina, não tem vontade própria, lembro-me. Que seja, mas confesso alguma dificuldade em perceber este comportamento errático em frente de um ecrã, e este deambular sem nexo, por muito definida que fosse a intenção primeira. O pior é que o tempo, o implacável tempo, escorre (cada vez mais rápido, sim, dizem que sim os físicos que o estudam) entre os dedos e os cliques do rato, e mal percebo que passou. 

Não escrevi nada do que tinha pensado, o que não será um problema. Em jeito de desculpa, deixo aqui em “copy/paste” esta pequena pérola encontrada na selvajaria de deambulações (com a pequena gralha): 


«Não sou dos que morrem de amores por Camões», diz Agustina. «Um poeta deve ser um mensageiro feliz; aquele que à nossa porta chega sem trazer a peste do seu tempo a turvar-lhe a pele. O que nos canta o melhor do seu coração para inspirar um sôfrego destino de felicidade.» Tenho andado à procura de uma boa forma de traduzir «spark joy», uma que transmita toda a intensa alegria despoletada por essa faísca e eis que encontro em Maria Agustina esta, que parece uma versão forte do lema de Marie Kondo: «inspirar um sôfrego destino de felicidade.» Perfeita. Camões não inspira, é claro, tal destino à autora de «A Sibila», e a navalha de Agustina é tão afiada quanto a de Occam: de todos os poetas, escolham-se os portadores de felicidade. O que deixa de fora, virtualmente, todos os poetas, esses pregoeiros do lado obscuro da alma humana, não só Camões. As estantes de poesia, vazias: Marie Kondo sentir-se-ia orgulhosa. Ah, desditoso paradoxo: o vazia gera vazio, o efeito da multiplicação por zero. A felicidade, essa, precisa de terreno mais fértil para nascer.
(http://xilre.blogspot.com/)

17/01/19

(Porto Out/18)

09/12/18

Os Esquecidos

Quando li o último parágrafo deste post lembrei dois incidentes recentes que se passaram comigo e que nos mostram a outra face da Via Verde, net banking ou facturas sem papel - uma face anacrónica por onde a modernização não passou e que mostra que eficácia é apanágio apenas de alguns sectores da sociedade. Realmente, pensando bem, quem é que num caderno reivindicativo se lembra de falar da eficácia e modernização da polícia? 

No verão passado recebi em casa uma carta que me era dirigida, pesada das várias folhas de papel que continha. O remetente era da Doca Pesca, Portos e Lotas, Lda. Intrigada, pois não tenho nenhum tipo de relação com docas, portos e lotas, abri e vi: 

Uma primeira folha que era uma notificação com um número de processo. O primeiro parágrafo reza assim: "(...) fica V. Exa. Notificada, dos factos imputados, da qualificação jurídica em que incorre para, querendo (...) se pronunciar no prazo de 10 dias (...)". Depois a carta continua rica em fraseado mas destaco apenas a parte em que explicam muito bem as diferentes formas de pagamento. Para já não sei do que sou acusada, nem quanto tenho de pagar. Na segunda e terceira folhas de papel, num total de três páginas e meio escritas, consta o Procedimento de Contraordenação em que – finalmente – se explica a razão de contraordenação: o estacionamento num período que não foi superior a 1h e meia, no Portinho da Ericeira. Lembrei-me do dia, lembrei-me que o espaço era amplo, que havia lá três ou quatro carros e espaço para trinta, achei que poderia lá estacionar. Uma coisa simples. Descrevem em detalhe o local, o carro (aliás a viatura) e explicam que não tinha autorização para estacionar lá e nesta parte são invocadas as autoridades: a Autoridade Marítima Nacional, a Polícia Marítima, O Comando Local de Cascais, Extensão da Ericeira. Depois segue-se uma parte chamada Do Direito em que referem todos os artigos de todos os Decretos-Lei que regulamentam esta situação. No final fica estabelecido o valor da coima: 25€. É assinado pela Instrutora do Processo. A quarta folha, em papel timbrado do Ministério da Defesa Nacional, Autoridade Marítima Nacional, é o Auto de Notícia assinado por um agente, que repete (para quem lê, pois o processo foi ao contrário) o facto em detalhe. Passei os olhos, nem li. A quinta folha é uma cópia da fotografia do meu carro lá estacionado. Paguei logo consciente de que os 25€ não pagam o trabalho e esforço destes serviços neste caso, e temendo que se não o fizesse pudesse receber em casa uma carta com o triplo das folhas de papel. 

O outro caso passou-se talvez há um ano, uma ida ao hospital da Luz em que deixei lá um livro. Era um livro pouco apetecível, era em inglês e de teologia, e não um José Rodrigues dos Santos, por isso, e sabendo que lá estava, não me preocupei em o ir buscar de imediato. Quando lá voltasse iria aos perdidos e achados buscá-lo, e foi o que fiz, mas fi-lo três meses e uns dias depois de o ter deixado lá e a política de perdidos e achados do hospital é a de entregar à polícia tudo o que lá ficou para além dos ditos três meses e que ninguém tenha ido buscar. 

Fui à esquadra de Carnide onde os objectos perdidos do hospital são entregues. Demorei um pouco a ser atendida e quando fui, disseram-se ser outro agente a lidar com esses assuntos. Esperei pelo agente que se mostrou simpático e que, na hora, encontrou o livro. Estendeu-o e percebi tratar-se mesmo do meu livro, mas ao pegar nele agradecer e preparar-me para o guardar e sair, foi-me dito que não podia sair e tive que devolver o livro. Há que lavrar o auto, diz-me. Precisei de me identificar e voltei a esperar. Não foi o agente a fazê-lo, ele não lavra autos, foi outro mais novo, com ar de quem faz os fretes e fá-los devagar e com muita intenção e muitas dúvidas ortográficas (tem a minha simpatia) e sintáticas, sinal de que não dominava a gíria dos autos e outros documentos policiais como daqui a uns anos o fará certamente. Ir buscar o livro revelou-se uma tarefa complexa que me manteve na esquadra mais de 45 minutos. Parece que na longa lista de reivindicações de manifestantes e grevistas contra os políticos em geral e os que governam em particular deveria constar a modernização e eficácia da polícia e outros serviços de segurança.

26/11/18

Avanços

É recorrente. De vez em quando, e a propósito normalmente do que se considera causa fracturante, fala-se de civilização e de avanço civilizacional. Longe de mim querer começar uma discussão filosófica, antropológica ou sociológica sobre o que é uma civilização, ou até ousar abordar diferenças civilizacionais entre o passado e o tempo actual ou entre as diferentes ‘civilizações’ que coexistem hoje no planeta terra. Seria interessante, nomeadamente tentar perceber se há umas civilizações ‘melhores’ do que outras e o que é que determina essa valoração, mas não é esse o meu objectivo. 

Limito-me a registar a facilidade com que se fala de civilização e de avanço civilizacional a propósito de qualquer coisa. Há umas semanas foi a Ministra da Cultura que – no parlamento – disse com muita clareza que as touradas eram uma actividade humana que cada vez fazia menos sentido (palavras minhas) numa civilização que se quer avançar. Esta noção de movimento – os ditos avanços e recuos civilizacionais – intriga-me. As civilizações evoluem e penalizar/acabar com touradas é uma opção acertada para estarmos no lado certo do dito avanço civilizacional. 

Quero deter-me um pouco nesse avanço, nesse movimento que, característica intrínseca do movimento, há-de ter uma direcção. Ora ninguém me explica qual a direcção dos ditos avanços civilizacionais que prometem, e que deveríamos alegremente e sem pestanejar construir. Eu gosto de perceber as coisas e nunca percebo que tipo de civilização ‘óptima’ é essa que devemos almejar, abandonando práticas consideradas não civilizacionais como as touradas. Afinal, quem é que nos explica que tipo de civilização é essa? Será que a ministra da Cultura sabe onde é que esse avanço civilizacional nos leva? Ou será que essa dita civilização que os avanços nos permitem vislumbrar não é mais do que um work in progress (este conceito que está na moda) de uma agenda política que existe na cabeça de uma minoria normalmente elitista e ‘de esquerda’ que impõe os novos códigos morais inventados numa máquina de propaganda qualquer num gabinete de marketing político e assentes em restritivos códigos de linguagem politicamente correcta? As pessoas que fazem a maioria – essa coisa chata e inconveniente que vota ‘populista’, Trump, Brexit, entre outros - pouco se revê nesses novos códigos morais, na linguagem cuidada, vigiada e reprimida e nessa ânsia de ‘avanço civilizacional’. Agora foi a tourada, em breve arranjarão outro tema para nos falarem de civilização. Deveriam parar um pouco, olhar à volta, e ver onde param os avanços civilizacionais, por exemplo (poderia dar tantos), num programa de televisão que se chama “Casados à Primeira Vista”, um reality-show pseudo-científico e com ‘Especialistas’ a funcionarem como casamenteiras. A tourada é, em todos os aspectos, infinitamente mais interessante e superior do ponto de vista civilizacional (e eu não sou propriamente uma apreciadora de touradas). 

Na minha noção de civilização os avanços civilizacionais prendem-se com (e para não me deter num passado muito passado, começo no século XVIII) a abolição da escravatura, o voto das mulheres, a diminuição da taxa de mortalidade infantil, a educação para todos, o aumento do número de sociedades democráticas, e o aumento da média da esperança de vida, para citar alguns. Infelizmente, no nosso planeta Terra e nos dias de hoje muitos destes avanços civilizacionais estão por cumprir. Mas isso não incomoda quem, nas nossas sociedades chamadas ocidentais tem uma agenda política politicamente correcta. Nem isso nem o simples facto de que na nossa própria sociedade aguardamos ainda o cumprimento de um avanço civilizacional importante: uma Justiça célere, eficaz e ao alcance de todos. Mas isto sou eu a falar ... quero lá saber das touradas.

28/10/18

(Lisboa, Outubro 2018)

14/10/18

A Propósito De Questionários Feitos Numa Escola Básica Aos Alunos

Que creio não se tratar de ‘fake news’, pois eu vi aqui o dito questionário, coisa preocupante, quanto mais não seja, porque naquela idade a atração deveria toda centrar-se em brincar, correr, e nos outros meninos e/ou meninas e não homens e mulheres. A coisa soa tão mal, só por isso ... Adiante. Confesso que tenho enorme dificuldade em me adaptar (perceber) a todas as conversas sobre ‘género’ que abundam no espaço mediático e público na nossa sociedade. Habituei-me, do tempo em que era ensinada na escola e em casa pelos meus pais e familiares, a que a palavra género fosse usada num contexto de análise gramatical para classificar substantivos e respectivos adjectivos, como por exemplo: a palavra flor é do género feminino, a palavra ramo é do género masculino. 

Por outro lado, a palavra sexo era o que distinguia os meninos das meninas, e tem sido usada para classificar as pessoas, umas são do sexo feminino, e outras são do sexo masculino. Mas passaram algumas décadas, e hoje as conversas são outras. A palavra inglesa ‘gender’ fez seguramente um percurso enviesado na nossa língua, e fala-se agora (o meu agora é lato) de género com uma espantosa desenvoltura a propósito de coisas complicadas que cabem no amplo espectro semântico, ideológico e filosófico de palavras como sexo, sexualidade, preferências sexuais, identidade, inclusão, discriminação, igualdade, homossexualidade, heterossexualidade, transgénero, LGT, e muito, muito mais. Ando perdida. 

Dividir o mundo entre homens e mulheres é fácil, intuitivo e perceptível para a comunidade. Ou se nasce com o sexo masculino ou se nasce com o sexo feminino, é uma questão biológica, é um facto. (Os raríssimos casos em que tal não se observa, merecem outro tratamento e não é sobre eles que falo). Mas dividir o mundo em ‘n’ géneros não é fácil, não é intuitivo, e sinto-o como uma imposição, pois trata-se de uma construção mental e cultural fruto de uma moda, mais do que de um avanço civilizacional (mesmo não sabendo muito bem o que este conceito quer dizer) e é, por isso, uma classificação forçada, pouco natural, e cuja necessidade não entendo. 

Se o sexo da pessoa é do domínio público, normalmente olhamos para alguém e conseguimos dizer se é mulher ou homem, o género – ou melhor as opções de como cada um constrói e vive a sua sexualidade (é isso, não é?) – são do domínio da vida privada, podendo ou não ser público e notório, mas basicamente, ninguém tem nada com isso, e raramente tal assunto me merece atenção, quanto mais interesse. O que se vive na casa, no quarto de cada um, é com cada um. Devo referir que este ‘privado’ não é sinónimo de secreto, nem pressupõe nenhum tipo de discriminação ou opressão, é tão somente a vida de cada um como cada um a escolhe viver. Por isso não percebo a necessidade (imposição) que a opção ou decisão ou aceitação de como vivemos a sexualidade tem que ser tornada pública enquanto elemento identitário ‘oficial’ e ‘administrativo’ em vez do sexo com que nascemos. Em que momento é que essa construção de si (opção, escolha, aceitação, eu sei lá) está terminada? Tem de estar terminada e fixada para sempre? E se muda (porque não?) e entra em conflicto com o que foi anteriormente declarado oficialmente por exemplo no CC? Muda-se outra vez? Porque é que essa dimensão identitária do género é mais relevante do que outras que nos constroem e que fazem quem somos e nos definem? Levado a um extremo, (ou talvez não), aposto que muitos sócios do Benfica até gostariam de ter essa filiação no Cartão do Cidadão! 

Ao preencher uma qualquer ficha de identificação já me deparei com o pedido do género entre várias opções que não o simples binómio masculino /feminino, e algumas até dão a opção de personalizar o género. É isso, personalizar. Faz-se como? Se isto é complicado para os adultos, imagine-se para as crianças. Como é que se lhes impõe uma escolha ancorada num vasto leque de opções? Como é que se explica? E sobretudo, porquê obrigar crianças a definir o seu género? Realmente esta problemática dos géneros é toda uma nova dimensão que se abre, e não creio que seja um bom caminho esse que nos estão a obrigar a percorrer. Mas criticá-lo é imediatamente sinónimo de intolerância, de discriminação. Não são tempos fáceis para a liberdade de expressão.

23/09/18

Parque Temático

Na semana que passou os taxistas invadiram (e ainda invadem) a(s) cidade(s) com as esperadas consequências a nível do trânsito, e falo sobretudo de Lisboa: impossibilidade de circular nalgumas ruas/avenidas, demoras e filas. O trânsito é hoje uma espécie de inferno dos tempos modernos. Ninguém o quer, ninguém gosta, evita-se quando se pode. 

Eu disse ninguém o quer? Pois, parece lógico pensar que realmente ninguém o deseje, mas infelizmente não é esse o caso. O último sonho mau (os sonhos maus deveriam ter ficado na infância ... mas como já nada é como se esperava que fosse) do Presidente da Câmara de Lisboa, agora que ultrapassou esse outro sonho mau de há uns anos que foi fazer da Segunda Circular uma avenida urbana com apenas duas faixas de rodagem, semáforos, bem como árvores com passarinhos chilreantes e flores na primavera no meio, é criar uma faixa de rodagem para Bus na A5. Tão boa é esta ideia que – segundo as notícias – ele pretende estendê-la a outras vias de acesso à cidade de Lisboa (ver aqui e aqui). 

Lembrando António Guterres, segui aquela velha máxima de “é só fazer as contas”, e percebi que uma vez que a largura das vias é limitada, e a menos que se façam grandes obras estruturais em todos nos acessos à cidade, fica evidente que a criação de uma faixa para Bus passa pela eliminação de uma faixa normal de circulação. Assim, crê ele, naquele estado de quem se sente iluminado mas apenas teima em não acordar desse seu sonho mau, as pessoas que vêm diariamente em carros para Lisboa terão mais incentivos para usarem os transportes públicos que circularão mais rapidamente. A cidade terá menos carros e, por isso, menos trânsito. (Dá vontade de rir pensar na A5, na IC19, na A1 ou na A2 com menos uma faixa de rodagem, não dá? Dá vontade de rir pensar que assim a cidade terá menos trânsito, não dá?). 

Mas tentarei não rir muito e olhar para as coisas como elas são, que é sempre uma boa maneira de olhar para elas. Impõem-se de imediato algumas questões. Afinal que infraestruturas de transporte público dispõe o cidadão de Lisboa como alternativa de mobilidade para a cidade e dentro da cidade, neste seu sonho de libertar a cidade dos carros dos cidadãos? Várias linhas de comboios que sirvam amplamente os conselhos vizinhos para todos aqueles que da periferia querem chegar ao centro da cidade? Uma ampla rede de metro, eficaz, pontual e sobretudo que cubra toda a cidade e um pouco mais além? Uma rede de autocarros eficientes e pontuais na cidade e concelhos limítrofes? Interconectividade abundante e eficaz entre diferentes redes de transportes? Preços razoáveis? Como é que respondendo ‘não’ a todas estas questões, Fernando Medina pensa que poderá libertar a cidade dos carros? Sem, pelo menos uma rede de metro que cubra amplamente toda a cidade (de norte a sul, de este a oeste para que não restem dúvidas) é impossível sonhar em ‘libertar a cidade dos carros’.

Indo um pouco mais além neste quadro de ‘libertação’ da cidade, coloco outra questão: porquê e para quê, exactamente, essa vontade de libertar a cidade dos carros? Como os carros não se deslocam sozinhos, nem pelas suas vontades autónomas, presumo que queira também libertar a cidade das pessoas, das que aí vivem a sua vida. Hoje ter casa começa a ser difícil, mas só mais um esforço e criam-se também todos os postos de trabalho longe do centro, exceptuando aqueles que servem o turismo. Fica então a cidade livre para turistas, para o lazer, para passear, ver as vistas, ir aos restaurantes, frequentar actividades culturais, outros eventos, etc. Ficamos todos com um excelente e sofisticado parque temático, perdão, com uma bela cidade, para usufruir ao Domingo à tarde em directa concorrência com os centros comerciais da periferia. Um futuro promissor. 

O desejo de infernizar a vida das pessoas tornou-se num impulso subjancente a tantas decisões políticas. É evidente esta estranha tendência, esta necessidade de culpabilização nos tempos modernos em que, ao mínimo pretexto, se castiga e aponta o dedo ao cidadão: ou porque usa carro, ou porque se endivida, ou porque compra e vende casas com mais valia, ou porque gosta de bebidas doces, ou porque tem sucesso. Ar dos tempos.

11/09/18

Call Me By Your Name

Da colheita dos Oscars deste ano. Vi na altura Darkest Hour e uns meses depois Three Billboards Outside Ebbing, Missouri, que são filmes interessantes e competentes, este último muito por causa de Frances McDormand. Recentemente, neste período estival em que sempre sobra um pouco de tempo, vi outros dois: Phantom Thread e Call Me By Your Name. Phantom Thread, um filme formalmente perfeito, todo feito de detalhes, contido, fechado, inusitado e com magníficas personagens e interpretações, foi sem dúvida o meu favorito, mas não é dele que vou falar porque

Call Me by Your Name foi o que mais me intrigou, apesar do filme ter sido o que esperava que fosse, depois de lidas referências na imprensa. É um bom filme, em que se destaque a interpretação de Thimotée Chamalet, mas o que mais me marcou foi o título do filme e que mesmo antes de o ver me surgia recorrentemente ... afinal é tão fácil dizer 'call me by your name'. 'Chama-me pelo teu nome', é uma coisa pesada, que não se diz com facilidade, e que, dizendo-o, percebemos que tropeçamos nas palavras, que elas soam estranho, desconfiamos. 'Call me by your name' é simples, e sem pensar muito a frase solta-se, as palavras saem fáceis como um mantra, sem me demorar no que que elas significavam, até que vi o filme.

Como disse, pouco me surpreendeu, nem a história, nem o local, nem as opções formais nomeadamente fotográficas, nem o despertar do desejo (paixão, romance), o motor da intriga. Também sabia tratar-se de um filme onde impera a sensualidade, e assim o confirmei. A personagem delirante de Elio leva essa sensualidade a níveis surpreendentes, e é neste contexto de excesso, fantasia desmedida e delírio que call be by your name aparece de uma forma quase transgressiva. Chama-me pelo teu nome, é um pedido estranho e de uma sensualidade imensa que quebra as barreiras entre o ‘eu’ e o ‘tu’; ficando no ar (e na tela) a sugestão ou a evidência de que Elio e Oliver se entregam, se misturam, esbatendo as identidades. Chega a ser quase perverso esse apelo ao abandono da sua identidade, mas a frase funciona nesse clima criado no filme, e se funciona tão bem é porque se trata de uma relação homossexual. Numa relação heterossexual o acto de pedir “chama-me pelo teu nome” (ou te chamar pelo meu nome), seria sempre mais retórico e mais forçado, pois os nomes são reveladores do sexo, e nunca teria a permeabilidade, fluidez e ambiguidade que, no caso do filme, se consegue.

Call Me By Your Name. Esse título, essa frase que emana do contexto sensual do filme, tem uma força extraordinária, e quando, nos momentos finais, os ouvimos calling you by my name, todo o peso e densidade do significado do título, surpreendentemente leve e fácil de dizer, faz-se sentir.

09/09/18

(Afife 2018)

09/08/18

Manhã Submersa 2

Já lá vão 3 ou 4 dias de polémica (ver aqui). Boris Johnson, o ex-ministro de Theresa May e conhecido Brexiteer, chamou as coisas pelos nomes, e não falta quem não se conforme e peça que ele se desculpe. Disse que as mulheres de burqa pareciam caixas de correio - e foi generoso, as caixas de correio, pelo menos as tradicionais inglesas, são bem mais coloridas e alegres do que as burqas - e a ladrões de bancos, e aqui também foi generoso, os ladrões de bancos são normalmente mais elegantes e raramente se cobrem com um pedação de tecido que impeça os movimentos. A Primeira-ministra já se demarcou dele e acha que ele se deveria desculpar, mas - independentemente da minha opinião sobre BJ - realmente não percebo de que terá de se desculpar, nem tão pouco creio que se deva desculpar. Parecem? Boris Johnson acha que sim, e então? Ladrões de bancos, só mostram os olhos, pois ocultam a identidade. Caixas de correio são blocos cuja marca identitária é uma fresta por onde deitar as cartas. Não parece tão descabido, nem tão tonto assim. É ofensivo? É o que é! (Falei sobre isso aqui) Mais uma vez, a liberdade de expressão (não difamou ninguém, não apelou ao ódio ...) a ser posta em causa. 

Mais uma vez a nossa sociedade a não olhar a realidade de frente. Quando Theresa May diz que as mulheres são livres de se vestirem como querem, ele tem razão, eu também estou de acordo, e visto-me como quero, e aguento as opções de indumentária das outras mulheres e dos outros homens. Mas essa não é a questão, pois as mulheres com burqa não estão vestidas, estão cobertas; as suas roupas estão por baixo de um pano preto que as oculta totalmente e que lhes rouba identidade e forma, tornando-as, é bom lembrar que é esse o objectivo da burqa, invisíveis. Enquanto se achar que o uso da burqa é uma peça de roupa como os jeans, perpetua-se a falácia do exercício da liberdade da mulher em “se vestir como quer”, continua-se a evitar enfrentar o problema e a apenas se olhar para a superfície das coisas. A Dinamarca e os países que proíbem o uso de burqa, e de outros trajes que ocultem a identidade, em espaços públicos, estão certos. Mais uma vez a linguagem (na forma das frases de BJ) a ser punida, por não ter branqueado e ‘contornado’ a realidade.

06/08/18

Manhã Submersa

Hoje de manhã, oiço na rádio (Antena2) que um pintor, de que falavam e cujo nome não cheguei a ouvir, terá pintado muitos touros num determinado período. A explicação não se fez esperar: o seu pai terá estado “ligado à temática taurina”! Assim dito. 

Estar ligado à temática taurina é uma interessante expressão que pede descodificação. Afinal o que poderá ser “estar ligado à temática taurina”? Difícil. Por muitas voltas que dê à cabeça, por muito que peça à minha imaginação para se soltar, apenas me ocorrem ser toureiro (a pé ou a cavalo), ser frequentador assíduo de touradas, conhecedor e apreciador, (se não aprecia não conhece nem sabe) de touradas, empresário na área das touradas, o que deve também pressupor conhecimento e gosto da “temática taurina”. 

Esta expressão tão forçada e artificial fez-me lembrar uma notícia que vi há uns meses num telejornal, em que se abordava o problema das gaivotas na cidade do Porto, embora me atreva a dizer que não é só no Porto que as gaivotas são um problema, mas fiquemos por essa notícia. Depois de explicar o problema, falam de soluções, algumas vagas, ou como dizem, a longo prazo, e outras mais de curto prazo são “atitudes que possam minimizar o problema”, sem, no entanto, explicar o que quer isso dizer de facto e que medidas são. Assim, e deixando mais uma vez a imaginação correr o seu curso, não vejo que outras soluções possam existir que não passem por uma de duas situações: ou que matem as gaivotas, ou que controlem a sua reprodução. Não me parece que existam outras formas de convencer as gaivotas a abandonar os meios urbanos. 

Deixando de lado o pintor que pintava touros e as gaivotas em terra, o que percebemos é que vivemos tempos difíceis para a forma como nos exprimimos. Aliás até diria que vivemos tempos complicados para a liberdade de expressão, não só na forma de expressar opiniões, mas sobretudo, e o que mais me preocupa, na forma como contamos a realidade ou relatamos factos. A factualidade, ou a realidade, ou as coisas serem o que são e como são, hoje tem de se curvar perante o politicamente correcto. Não podemos chamar tourada à tourada, não podemos dizer que queremos exterminar uma parte da população de gaivotas, nem pensar. Temos, sim, e cada vez mais, que contornar a linguagem, arranjar eufemismos, expressões vagas, longas, complicadas e pomposas para evitar dizer as palavras que não podem hoje ser ditas e que não deixam de aumentar. Vai ser difícil mantermo-nos actualizados. 

Não se pode mudar a realidade, mas meu Deus, a ginástica que é feita para que, ao nomear essa mesma realidade, ela caiba nessa forma estreita e mesquinha que é a da linguagem permitida hoje. Não se muda a realidade? Azar! Que se mude a forma de a narrar. Depois admirem-se.

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