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11/09/18

Call Me By Your Name

Da colheita dos Oscars deste ano. Vi na altura Darkest Hour e uns meses depois Three Billboards Outside Ebbing, Missouri, que são filmes interessantes e competentes, este último muito por causa de Frances McDormand. Recentemente, neste período estival em que sempre sobra um pouco de tempo, vi outros dois: Phantom Thread e Call Me By Your Name. Phantom Thread, um filme formalmente perfeito, todo feito de detalhes, contido, fechado, inusitado e com magníficas personagens e interpretações, foi sem dúvida o meu favorito, mas não é dele que vou falar porque

Call Me by Your Name foi o que mais me intrigou, apesar do filme ter sido o que esperava que fosse, depois de lidas referências na imprensa. É um bom filme, em que se destaque a interpretação de Thimotée Chamalet, mas o que mais me marcou foi o título do filme e que mesmo antes de o ver me surgia recorrentemente ... afinal é tão fácil dizer 'call me by your name'. 'Chama-me pelo teu nome', é uma coisa pesada, que não se diz com facilidade, e que, dizendo-o, percebemos que tropeçamos nas palavras, que elas soam estranho, desconfiamos. 'Call me by your name' é simples, e sem pensar muito a frase solta-se, as palavras saem fáceis como um mantra, sem me demorar no que que elas significavam, até que vi o filme.

Como disse, pouco me surpreendeu, nem a história, nem o local, nem as opções formais nomeadamente fotográficas, nem o despertar do desejo (paixão, romance), o motor da intriga. Também sabia tratar-se de um filme onde impera a sensualidade, e assim o confirmei. A personagem delirante de Elio leva essa sensualidade a níveis surpreendentes, e é neste contexto de excesso, fantasia desmedida e delírio que call be by your name aparece de uma forma quase transgressiva. Chama-me pelo teu nome, é um pedido estranho e de uma sensualidade imensa que quebra as barreiras entre o ‘eu’ e o ‘tu’; ficando no ar (e na tela) a sugestão ou a evidência de que Elio e Oliver se entregam, se misturam, esbatendo as identidades. Chega a ser quase perverso esse apelo ao abandono da sua identidade, mas a frase funciona nesse clima criado no filme, e se funciona tão bem é porque se trata de uma relação homossexual. Numa relação heterossexual o acto de pedir “chama-me pelo teu nome” (ou te chamar pelo meu nome), seria sempre mais retórico e mais forçado, pois os nomes são reveladores do sexo, e nunca teria a permeabilidade, fluidez e ambiguidade que, no caso do filme, se consegue.

Call Me By Your Name. Esse título, essa frase que emana do contexto sensual do filme, tem uma força extraordinária, e quando, nos momentos finais, os ouvimos calling you by my name, todo o peso e densidade do significado do título, surpreendentemente leve e fácil de dizer, faz-se sentir.

03/02/14

Escrever Sem Querer

Há sempre muito ruído quando morre(*) uma figura pública venha ela do mundo da política, do espectáculo, das artes, do desporto, ou até do jet-set. 

Primeiro. A informação chega em directo, e as redes sociais ampliam-na através das múltiplas reacções a essa morte. É difícil escapar à onda de emoção e comoção e a esse registo, ao qual os órgão de comunicação social mais tradicionais (jornais e televisão) também dão eco. O problema é que essas reacções e essas manifestações, normalmente porque há honrosas excepções, pouco trazem de novo, quer a título informativo, quer a título pessoal, servindo ou como um registo ou apenas como desabafo mais ou menos sentido, mais ou menos pertinente, de quem escreve. Para quem olha “de fora” vê apenas uma mancha de fundo amorfa feita de banalidades já conhecidas e acordadas (ele(a) era tão bom isto, tão bom aquilo, ai que pena, etc) que nunca me apetece ler. 

Segundo, um fenómeno peculiar. Nos funerais de personalidades públicas, do mundo do espectáculo, da política, das artes, do desporto, aqui em Portugal vemos sempre as mesmas caras, as mesmas pessoas; um facto que sempre me intrigou. É impressionante como todos os mortos tinham muitos amigos e os mesmo amigos. Poderia lembrar alguns casos, dos últimos anos e dar exemplos, mas abstenho-me por razões que creio fáceis de entender. Garanto no entanto que quem olhar atentamente percebe este fenómeno de unanimismo português em que percebemos que todos eram, afinal, amigos de todos. Assim até é fácil prever quem é que estará no próximo funeral de uma personalidade pública portuguesa com uma margem de erro mínima e sem necessidade de nenhum complexo modelo e cálculo probabilístico. 

Por tudo o que referi, raramente escrevo sobre quem morre e também porque há sempre quem escreva melhor; e para escrever mais do mesmo, seria melhor ficar quieta. Mas hoje não, eu não quero mas escrevo; mas tal como um desabafo. Não escreverei melhor nem diferente, escreverei apenas mais do mesmo. 

Philip Seymour Hoffman era um dos poucos actores que ocupava todo o ecrã; quando ele estava em cena, os meus olhos não conseguiam ver mais ninguém, a minha atenção era para ele, era dele. Podia ser uma personagem repelente, ou fascinante, intimidante, misteriosa, simpática ou amorfa. Era indiferente, e só ele interessava. Era sempre "all about him". Que me lembre só Meryl Streep em Doubt, naqueles diálogos excepcionais entre ambos, lhe fazia frente e lutava pela nossa atenção. Hoffman fez também muitos papeis secundários (Idos de Março ou Jogos de Poder, por exemplo), mas quando saía de seja que filme fosse em que ele entrasse, era dele que me lembrava. Fico zangada que um homem como ele, com o talento imenso dele, e com a idade que ele tinha, morra como morreu. Fico intrigada, não percebo e pergunto porquê? E fico triste porque Philip Seymour Hoffman já não vai fazer mais filmes. 

(*) Morre, do verbo morrer, em inglês to die. E não falecer, em inglês to pass (away). Não vale a pena encontrar eufemismos. Nada é mais certo.

15/12/13

Coisas que se Podem Fazer ao Domingo 75

Peter O'Toole (1932-2013)

Taking Aqaba

Fill The Void



Um filme que foi uma boa surpresa: “Fill the Void”. Um filme de mulheres em que os homens se fartam de cantar e dançar. Um filme em que o poder ‘informal’ das mulheres é real, mesmo que não o seja formalmente. A estranheza que os casamentos arranjados causam, dilui-se perante a fluidez e a naturalidade com que as situações se sucedem e as emoções se vão revelando numa realização cheia de sensibilidade, subtileza e inteligência. “A Noiva Prometida” desenvolve-se numa comunidade ulraconservadora de judeus em que os casamentos são levados a sério e respondem a necessidades da família e da comunidade, mais do que aos “afectos” das duas partes imediatamente envolvidas. Os actores, sobretudo a actriz principal, prendem-nos logo. A fotografia é linda.

22/10/13

Dois Filmes


Blue Jasmin não é um bom filme. Cate Blanchett que se excede, faz o filme, e quase que é o filme, não fossem alguns bons actores em papeis secundários, nomeadamente Sally Hawkins e Bobby Cannavale (este último ganhou recentemente um Emmy pelo seu papel em Boardwalk Empire). Fora os actores pouco mais há a dizer: o downfall de uma senhora da sociedade endinheirada de Nova Iorque que luta em S. Francisco - para onde se viu atirada pelo destino - para se evadir da 'vida real'  que tanto detesta. O modelo de filme e a sua realização não trazem nada de novo, é uma receita estafada desta vez sem alma nem ironia, sobretudo para quem já viu dezenas de filmes de Woody Allen, deixando a inevitável impressão de um filme preguiçoso feito por alguém que cumpre uma rotina com eficiência. Não fossem os actores o filme era inexistente. 


Late Quartet, um filme complexo sobre as relações entre as pessoas próximas onde convivem - em fundo musical com especial destaque para este quarteto de Beethoven - poder, tensão, frustração, dever, ambição, procura da perfeição... Late Quartet é um filme que me deixou confusa; estavam lá todos os ingredientes para um óptimo filme, mas não foi. Uma boa história, boas personagens, não chegaram. Creio que a realização poderia ter sido mais exigente, feita com mais sensibilidade, e poderia ter pedido maior profundidade aos actores. Saí de lá frustrada pela impressão de que faltou pouco para ter visto um bom filme, mas não vi. Vi apenas um filme razoável. Philipe Seymour-Hoffman, foi a boa excepção, lembrando mais uma vez o excelente actor que é.

17/10/13

The New Normal

Nada como Outubro para o regresso ao cinema de filmes que apetece ver e assistir na televisão ao regresso das séries que gostamos. A grelha (ou posição) dos canais do meo mudou, e há dias vi-me a navegar por todos eles para perceber onde estava o quê, não fosse eu perder um só segundo de Boardwalk Empire ou gravar no canal errado Homeland. Estava eu neste exercício de surfar entre canais quando me deparei com uma mulher (Long Island Medium no canal TLC) que parecia saída de uma linha de montagem em que tudo é feito em fábrica de plástico: o cabelo (cor e brushing), a silhueta (silicone)e as unhas; meu Deus, as unhas! Eram daquelas unhas grandes e grossas de gel que fazem curva, bem quadradas e numa versão muito má de french manicure. Até a voz, e os gestos da senhora eram maus. Parei e fiquei uns minutos, poucos que a curiosidade é inferior ao ajuste que teria de fazer aos meus critérios de qualidade e estética televisiva, a ver: tudo na senhora é mau, e pior ainda o direito que ela sente ter – por causa do seu dom – de interpelar pessoas que por acaso (é o que o programa quer que acreditemos) se cruzem com ela, para lhes falar dos seus (deles) mortos. 

Ao deparar-me com programas deste calibre (ou semelhante, tipo Toddlers & Tiaras), e porque tinha vindo do cinema depois de ver um muito bom filme – Hannah Arendt, que recomendo vivamente - que elogia o pensamento e mais do que isso, elogia o pensamento como a mais sublime forma de liberdade, ocorreu-me que a nossa sociedade ocidental vive hoje não só sob o efeito dessa banalização do mal, mas sobretudo o elogio, aceitação e banalização da mediocridade. Pior, não só a mediocridade se tornou banal como já está instalada e aceite como sendo ela a nova normalidade. Ao contrário do mal que ainda provoca reacção, a mediocridade, como não é má, é aceite e não se desafia. Quando se questiona essa mediocridade, é-se intolerante, politicamente incorrecto, elitista, e outros qualificativos afins.

Acontece assim no mundo pensante, no ensino, no universo político nacional e internacional, no jornalismo, na internet, no entretenimento, no cinema, literatura e arte, etc. O padrão "normalidade" está cada vez mais próximo da mediocridade: não se exige muito, não se pede muito (a excepção em tempos 'economicistas' é sermos produtivos, eficientes e fazermos ou contribuirmos para fazer dinheiro) e sem darmos conta a nossa sociedade desliza suavemente para o pântano da mediocridade, e não, não precisamos das americanices, dos reality showns ou da médium de Long Island. Infelizmente não precisamos de olhar para o outro lado do Atlântico, basta-nos olhar à nossa volta.

16/01/13

Dois Filmes


Passam os primeiros quinze vinte minutos e pergunto o que faço ali sentada a ver um filme frio, de gestos calculados quase de imobilidade. Não há acção, intriga, suspense (os primeiros minutos do filme dizem-nos o fim), diálogos inteligentes, gente gira, paisagens ou casas deslumbrantes. Só dois velhos, uma vida passada que desconhecemos, e um presente que lhes escapa tão depressa se converte em futuro. Amour é um casal em fim de linha, no fim de uma história que começa com um “casaram e foram felizes para sempre”. Há coragem nessa procura do fim, dos casais que chegam ao fim, mas...

Passam mais uns minutos e já nem percebemos que estamos a ver um filme. Haneke consegue transformar essa frieza, esse imobilismo em emoção pura (longe de sentimentalismos e afectos de vária ordem) que comove e prende a cada instante. Deciframos cada palavra e cada gesto das personagens, adivinhamos-lhe as intenções e os desejos; somos voyeurs dessa intimidade do casal que nos é oferecida, enquanto a filha do casal é mantida à uma distância que a incomoda. Se Haneke é muito bom, Emmanuelle Riva e Jean-Louis Trintignant excedem-se na absoluta entrega e abandono às suas personagens, e na cumplicidade e emoção que nos oferecem.

O fim, isto é, a doença, a crescente falta de autonomia e finalmente a morte são pouco glamorosos, mas o que falta em ‘glamour’ é ampla e magnificamente compensado em dignidade. Um dos melhores filmes que vi ultimamente.



Se se procura Tolstoi, desiludimo-nos. Se se procura apenas um filme bonito, leve e exuberante, vê-se Anna Karenina. Temos Joe Wright e não Tolstoi. Temos claustrofobia, ambientes estanques e cheios de gente, ambientes que não fluem e personagens cuja maturação e desenvolvimento mal percebemos. Quem leu o romance lamenta os espaços e os tempos que fazem o romance e que estão ausentes do filme. Dos actores retive Matthey Macfayden e Jude Law. Do resto retive vestidos e jóias, para além de um forçado ritmo acelerado e demasiadas vezes festivo. É pouco.

11/12/12

Dois Filmes

Ted, um filme em que se perde o olhar inocente que ainda conseguimos ir mantendo perante um urso de peluche. Mas a coisa poderia ter corrido melhor – dessacralizar ursos de peluche, não é necessariamente uma má ideia, mas persistir naquela comédia de costumes (predominantemente ‘masculina’, mas que também já atinge o universo ‘feminino’) em que a adolescência se prolonga, quais pilhas Duracell, teimosamente para lá do normal e desejável, já cansa. Pelo menos cansa-me a mim, que deixei a adolescência faz muito. Também me cansa a constante que são as piadas escatológicas: é xixicócó (estou a ser branda, como saberá quem viu o filme) em variantes e tonalidades diversas a mais. Abram a janela, deixem entrar ar! Lamentavelmente, uma boa ideia que poderia ter dado um bom filme, mas não deu. 



Trouble With The Curve (Voltas da Vida, é uma tradução redutora), filme não realizado por Clint Eastwood, começa com um diálogo inesquecível que imediatamente nos reconcilia com o melhor (de) “Clint Eastwood”, essa personagem temperamental, de mal com a vida, zangado, teimoso que não gosta de envelhecer. Pensamos Grand Torino, e está-se bem... O filme prossegue, as personagens desenham-se, as situações desenrolam-se; os actores cumprem a sua missão, (Amy Adams é uma actriz  muito sólida), a narrativa flui com interesse, o filme é bom... mas nunca nos leva onde gostaríamos de ter ido, sentimos que ficam ainda locais por explorar nos recantos das personagens. Fica um sentimento de frustração por se ter visto um filme bom, quando pensamos que se poderia ter visto um filme muito bom.

21/11/12

Argo


Queria ir ao cinema, mas não me apetecia ver nada, o receio de sair desiludida sobrepõe-se tantas vezes a essa vontade e, lamentavelmente condiciona a minha escolha. Tenho medo das comédias, receio a violência gratuita, cansam-me as explosões e fugas, fujo dos excessos depressivos ou doentios, evito os filmes infantis e as lamechices dão-me pele de galinha. Por vezes chego a este impasse e fico sem saber o que escolher, mas o gosto que tenho pelo cinema acaba, e bem, por vencer as esquisitices. Há uns dias nesta situação escolhi “Argo” de Ben Affleck, pois se pouco me convence como actor, surpreendeu-me positivamente como realizador em “A Cidade”. 

Argo conta uma história que nos remete para factos históricos de que nos lembramos ou ouvimos falar, mas centra-se num episódio cujos contornos desconhecíamos, e é esse o segredo do filme. Por causa desse conhecimento prévio, no minuto zero o suspense está instalado, para nosso (espectador) benefício e desassossego, e é esse o jogo inteligente de que o realizador que se serve; nós lembramos e sabemos ‘o contexto’, mas desconhecermos exactamente ‘como foi’. Essa cumplicidade resulta, e o filme cumpre a sua missão. No entanto é impossível não dar nota negativa ao facto de o realizador não ter sabido resistir à tentação fácil e hollywoodesca de nos últimos 15/20 minutos ter deixado o filme resvalar para uma banalíssima linguagem de filme de acção e suspense de segunda categoria: o suspense deixa de ser contido e ultrapassa os limites em que a credibilidade do filme - construída com solidez apesar de algumas notas mais caricatas e de duas divertidas personagens - assenta.

15/06/12

Pescar Salmão



Depois de um filme pesado, (no sentido de indigesto, e não no sentido de profundo), monocromático, e em que os excessos de caracterização das personagens (porque não arranjam actores mais velhos?) se impõem a tudo o resto, soube-me bem ir pescar salmão no Iémen, um filme que se revelou melhor do que previa, em oposição ao J.Edgar, de Clint Eastwood que me aborreceu seriamente. Devem-se contar nos dedos das mãos os filmes de Clint Eastwood de que não gostei, e este é um deles. 

Salmon Fishing in the Yemen está longe de ser um grande filme, nem será sequer a comedia do ano, mas não me decepcionou e gostei da forma como todo ele está pontuado por várias camadas de ironia. Kristin Scott Thomas, uma actriz que nunca desilude, dá corpo a uma assessora de imprensa do primeiro-ministro, muito esforçada, muito eficiente, muito actual - uma verdadeira perita na manipulação dos media: cria os acontecimentos, fabrica imagens e só pensa em termos do que é que o primeiro-ministro precisa para as primeira páginas dos jornais: uns dias que falem dele, outros que não falem dele. Nada que não conheçamos, mas sempre divertido de ver. Deparamo-nos também com a nostalgia de um (o?) império e do colonizador, com o privilégio e a abundância dos recursos que cabe à personagem que, fosse a História um fluir simples, unidimensional e sem desvios e a Política uma ciência binomial, deveria sentir os males do (ex)colonizado. Ewan McGregor (com o seu irresistível sotaque escocês) é a personagem que, tendo bebido da cultura ‘do império’ e tendo uma formação académica superior, não é mais do que o retrato de hoje de uma classe-média desiludida e desinspirada em sem ‘graça’. Ele vive acomodado num presente feito de rotina e em que o cepticismo é refúgio. Ao longo do filme esta personagem desajeitada, nunca deixa de nos cativar. 

Mas há mais: personagens, situações, paisagens, nada muito complicado, nada que exija muito esforço, nada que traumatize. Trata-se de um filme simples, despretensioso e simpático, eficaz a fazer sorrir, e feito para se ver ‘em família’. Ainda bem que o fui ver por causa do título e sem ter tido vontade de procurar mais informação sobre ele; tivesse eu feito isso, e tivesse eu percebido quem era o realizador, (já vi pelo menos duas chachadas realizadas por ele) provavelmente não teria ido pescar salmão no Iemen.

31/05/12

Dois Filmes


Percebi na primeira cena que iria gostar do filme. Foi emocionante, e esperava que assim continuasse, acelerado, um pouco duro e violento até. Mas não, o filme acalma e atinge um período confortável. Nós é que não estamos assim confortáveis. Nós desconfiamos, mantemo-nos na expectativa do que virá a seguir. E vem mesmo. Duro, violento, inesperado. Bem construído e bem realizado. Bons actores – aliás o ano de 2011 foi de Michael Fassbender e de Ryan Gosling, que neste filme é tão ‘cool’ quanto se pode ser ‘cool’. O filme tem qualquer coisa que o coloca bem acima do que seria sem essa qualquer coisa. Ainda bem para quem vê Drive.


Ver um filme simples e descomplicado pontuado de algum humor e humanidade, recheado de bons actores que não é feito para mentes básicas, nem para imbecis, é um prazer. Ver um vasto leque de actores maduros (que já passaram a idade da reforma) com provas mais do que dadas, a tomar conta do filme é inédito e um regalo. Sair do cinema com boa disposição é o prémio. The Best Exotic Marigold Hotel é assim.


18/03/12

Shame


Gosto sempre de ver filmes de e para adultos, por isso depois de Hugo (um filme muito razoável apesar de eu dispensar a cena ‘óculos 3D’ e de não sentir nenhum tipo de necessidade 3D), e de War Horse (uma americanada bem arranjadinha que não ficará para a história com imagens bonitas e música previsível) é com prazer que me sento para ver Shame. Sinto que é cada vez mais difícil ter manifestações culturais (literatura, cinema, artes plásticas...) exclusivamente para adultos, sinto que o mainstream cultural é permeável e tende a espelhar esse conceito que é a ‘juventude’ ou a ‘adolescência’. Esta seria uma longa conversa.

Como dizia, gosto de filmes para adultos, música para adultos, livros para adultos e Shame é um excelente filme, realizado com maturidade, mestria e sem cair em tentações de facilidade formal ou narrativa para apelar a um público mais amplo. Saí do cinema como se tivesse levado um murro no estômago – tal como saí, em seu tempo, no fim de Este Pais não é Para Velhos, outro filme excelente e para adultos. Há uma violência nos dois filmes, mais explícita em Este Pais não é Para Velhos e mais gélida crueza em Shame (quase todo o filme é num tom azul acinzentado), que incomoda e perturba. Eles fazem, com inegável mestria, uma viagem pelos limites da solidão, da degradação e do aviltamento da natureza humana. Essas viagens que nós leitores/espectadores fazemos são difíceis e não são confortáveis. Não saio da sala do cinema reconciliada com a natureza humana; preciso de algum tempo para respirar. Já dei conta dessa sensação ambivalente quando escrevi aqui sobre o livro A Grande Arte de Ruben Fonseca. O querer ler sem ter que ler, o querer ver sem ter que ver, apesar de já muito pouco me surpreender na natureza humana. Sei, no entanto, que não resisto a ir até ao fim quando a obra em causa (filme, romance) tem inegável qualidade. 

Shame tem inegável qualidade. Do do ponto de vista formal que é também um filme irrepreensível (imagens, música). Michael Fassbender é um daqueles actores de quem muito esperamos e Carey Mulligan não desilude e é protagonista de um dos momentos mais intensos e incómodos do filme quando actua  perante o irmão (e restante público). Recomendado a adultos com sons de alerta para almas mais sensíveis...

30/01/12

Idas Ao Cinema


Como temos que apaziguar as inúmeras persona que nos habitam, de vez em quando há que ver um ‘filme de pancadaria’ ou, como se diz de forma mais elegante, um filme de acção. Depois deste fui ver a sequela: Sherlock Holmes: A Game of Shadows. O efeito surpresa (muito importante no primeiro filme) perde-se neste novo filme mas, com pequenas nuances do tipo gostei mais dos diálogos do primeiro filme mas gostei mais das personagens secundárias (Prof Moriarty e Microft Holmes) deste, todas as outras características que apontei neste post mantém-se e não dei o meu tempo como perdido. Se houver um Sherlock Holmes 3, lá estarei.



Num registo que me é mais próximo está Tinker, Tailor, Soldier, Spy (A Toupeira). Um filme que transborda nostalgia quer pelo seu aspecto formal (cada objecto do filme, por exemplo, evoca os anos setenta de forma estranhamente familiar) quer pela forma contida em que a narração é feita, um misto de evocação fria mas com um olhar perdido, quer pela forma como as personagens vêem o seu papel evoluir como agentes dos serviços secretos e como vêm a estrutura o papel do ‘circus’. A realização surpreendeu-me pela positiva e é enxuta mas rigorosa, as personagens são servidas por um leque de excelentes actores, e Gary Oldman merece aplauso no seu papel de um Smiley desencantado num mundo já sem heróis.

17/12/11

Ir ao Cinema


A Dívida, revelou-se uma excelente ida ao cinema. Um thriller de espionagem feito com inteligência e imaginação suficientes, um plot com suspense e acção na boa dose, mas sem complicadas teses a provar ou defender, nem ‘statements’ estéticos e simbólicos ‘out of the box’ a obrigar a uma ‘leitura’ ou a um maior envolvimento do espectador. Boa realização, muita acção, mas sem efeitos especiais nem explosões a cada 5 minutos, coisas que me agradam. No entanto os críticos não valorizaram muito um bom filme de entretenimento. Para mim é cinema puro e duro, sem ‘nuances’, sem ‘leituras’, sem ‘paradigmas’.



Outra igualmente boa ida ao cinema foi com Os Idos de Março. Este drama político conta com excelentes representações mesmo (ou até sobretudo) nos papeis secundários, e pude pela primeira vez perceber quem era Ryan Goslyn. É um filme mais subtil que o anterior e vale pelas relações/ligações entre personagens, a teia que se vai tecendo entre sondagens, política de comunicação e a imagem do político. Realização enxuta. Um bom filme também e os críticos gostaram mais do que do anterior. (Eu nunca os percebo).

14/12/11

Habemus Papam



Nanni Moretti faz um filme delicioso, cheio de humor e com um olhar terno sobre as personagens e situações inesperadas. Podíamos falar da solidão do poder, do medo, da insegurança face às responsabilidades, e neste aspecto meramente humano a narrativa flui sem sobressaltos numa boa realização, com boa fotografia e com a ajuda de Michel Piccoli. Mas (claro que tinha que vir um ‘mas’) fiquei um pouco desiludida. A esta visão ‘humana’, chamemos assim à dimensão psicológica explorada no filme, falta-lhe a visão institucional, para não falar da dimensão da fé. Um Papa (seja ele qual for) não é apenas um homem só, com inseguranças, medos, etc. Um Papa é um Papa: um homem de fé, que no momento em que aceita a sua eleição pontífica, carrega irremediavelmente consigo uma responsabilidade para com a Igreja (instituição e fieis) à qual nenhum ‘estado de alma’ o faz afastar-se. Como o filme mostra, num dos seus melhores momentos, hoje muitos dos eleitos nunca desejaram o cargo, mas aceitam-no. (É, por exemplo, o que consta ser o caso de Bento XVI) A Igreja, enquanto instituição e sendo o Papa a cabeça dessa instituição, não se permite nem conhece os ‘estados de alma’ que servem de ponto de partida da narrativa. Esta dimensão ‘institucional’ que falta ao filme impede-o de ser um bom filme: assim não é mais do que um simpático mas muito superficial exercício especulativo. 

30/11/11

Um Método Perigoso


David Cronenberg, um realizador de que gosto (há já muito tempo), Michael Fassbender, um actor de que gosto (há pouco tempo) e Viggo Mortensen, outro actor de que já há muito que gosto sobretudo quando se junta a Cronenberg (Uma História de Violência, Promessas Perigosas), são convite irrecusável para ir ao cinema. Em tempos de filmes com deficit de inteligência, (podia dar uma ampla lista de exemplos recentes, mas não maço quem me quiser ler) decidi apostar neste, e valeu a pena – A Dangerous Method (Um Método Perigoso) é um bom filme. Cronenberg constrói narrativas em que evidencia o corpo humano, e através das suas personagens, ele gosta de testar, buscar e explorar, de formas distintas claro, os limites desse mesmo corpo, de formas por vezes espectaculares (A Mosca). Este filme, se não é diferente nessa exploração do corpo, dos seus limites, das suas pulsões, é-o do ponto de vista formal – menos efeitos, menos ‘chocante’, e é-o porque o ultrapassa essa busca corporal, o limite do corpo é o limite de si. A substância que lhe dá matéria é o desejo, ir ao limite do desejo ou esbarrar nas peias que impomos ou são impostas ao desejo. O desejo sexual é o mais óbvio no filme, mas não o único. O próprio desejo sexual é objecto de reflexão por parte das personagens que buscam o entendimento da essência da natureza humana das pulsões que fazem essa natureza. Interessante notar que, tal como o filme mostra, Sabina Spielrein, primeiro paciente de Carl Jung e depois sua colega, associa na sua pesquisa e trabalho – e aparentemente pela primeira vez na história da psicanálise – a pulsão sexual à pulsão de morte e de transformação. Os limites do corpo, do desejo, os limites do ‘ser’. 

Sabina (uma competente Keira Knightley) sofre de um distúrbio psíquico e é tratada por Carl Jung (um Michael Fassbender impecável e muito convincente) e a sua terapia abre a porta a uma intensa relação entre ambos. Nela, Sabina ousa os limites e a essência do filme é o retrato, sem exageros mas de forma gráfica, da enorme cumplicidade de corpo e mente entre Sabina e Jung. Corpo e mente em transformação, e a dependência de ambos que cresce alheia ao olhar dos outros e longe dos constrangimentos que a sociedade impõe. Até um dia... porque Jung é mais contido que Sabina. Esta irá percorrer um longo caminho para lá dos limites físicos e no fim a mente começará a sossegar numa aceitável ‘normalidade’: regressa aos estudos tornando-se também ela uma psicanalista, e construirá uma vida profissional tendo tido contactos com Freud, e pessoal. Na cena final vemo-la grávida e, apesar de alguma nostalgia, ela sabe optar e conformar-se com as suas escolhas, num contraste profundo com a conturbada Sabina da primeira cena em que aparece no filme, em que os planos são dominados pela sua disfunção ‘física’, num momento ‘clássico Cronemberg’. 

Jung, mais velho, moldado pela vida, pelo que a sociedade espera dele, é mais contido. No entanto está dividido e o seu desejo toma diversas direcções: em relação a Sabina a sua grande cúmplice, em relação à família que ele sente como um porto seguro, mas também de forma muito explícita em relação a Freud cuja aprovação, reconhecimento e amizade ele tanto procura e deseja. Os dois homens conhecem-se, correspondem-se, estabelecem uma relação, mas um dia tornam-se evidentes as divergências teóricas e profissionais, em relação aos conceitos e métodos, e esta divergência provoca um irreversível afastamento entre ambos. Na cena final do filme é Jung que, sem ter transposto (ainda) o limite de si, está fragilizado, perdido nas suas insatisfações e contradições, o seu desejo insatisfeito e preso no seu corpo. Agora não tem nem Sabina nem Freud. Também neste caso é evidente o contraste com o Jung seguro e senhor de si da primeira cena do filme em que ele e Sabina se encontram. 

No filme Freud aparece como um objecto de desejo. Jung tal como, em menor grau, Sabina desejam a sua boa opinião e olham com reverência para ele tendo Sabina, por exemplo, exigindo que Jung esclarecesse de forma verdadeira Freud sobre o tipo de relação que ele e Sabina mantinham, e ambos, no decurso das respectivas carreiras profissionais na área da psicanálise, valorizam e desejam o reconhecimento de Freud. No entanto Freud é uma personagem secundária do filme, e é-nos apresentado como um burguês algo frustrado e prisioneiro de si próprio e do seu mundo. É um judeu e não um ariano (como lembra a Jung), tem filhos a mais num apartamento que considera pequeno (por oposição a Jung), tem dinheiro a menos, sente a falta do reconhecimento por parte de outras classes médicas e profissionais que crê merecer, e desconfia do olhar da sociedade sobre ele. A sua fragilidade é, no filme, explorada na sua vertente intelectual e pessoal, nos encontros, debates e conversas com Jung em que ele teme colocar-se numa posição intelectualmente secundária face a Jung. Este percebe e repara nessa recusa de uma maior abertura e uma entrega (também afectiva?) mais sincera, nomeadamente na recusa de Freud contar o seu sonho. Freud parece estar fechado sobre si, dominado pelas frustrações, descontentamentos e medos. 

Ao olhar para cada uma das suas personagens, Cronenberg, numa narrativa segura e elegante, toca na essência da natureza humana, a pulsão de vida ou de morte, e na sua capacidade transformadora. Jung e Freud que estudam a psique, os comportamentos e os mecanismos da transformação do seu humano (através da terapia) não ultrapassam as suas contradições. Teoricamente são apologistas da libertação do ser e como profissionais ajudam os seus pacientes a libertarem-se das suas amarras como as frustrações, más memorias, obsessões, mas eles aparecem como sendo tão pouco livres e afinal não é só do corpo que são (somos) prisioneiros.

29/05/11

Valsa com Bashir

Valsa com Bashir (de Ari Folman) foi um filme que perdi quando esteve nas salas de cinema, mas que queria ver mal tivesse oportunidade. Nunca soube nada sobre o filme a não ser o facto de se tratar de um soldado israelita a recordar os massacres de Sabra e Chatila, por isso quando, ao fim dos primeiros minutos, percebi que o filme era animado, mesmo, hesitei e pensei em ficar por aí. Mas a beleza das imagens e o traço depurado mas expressivo do desenho prendeu-me, (bem como a memória despoletada na altura, de tempos em que lia Corto Maltese). A bem da nostalgia vi o filme. E o filme é um filme sobre a memória e, de uma forma mais subtil, sobre a nostalgia que está sempre presente quando se olha para o passado. Neste caso procura-se o passado que a memória terá querido enterrar e esquecer, facto que nunca incomodou a personagem principal. Mas um dia percebe, ao ser interpelado pelos sonhos persistentes de um amigo, que afinal esqueceu algo de fundamental na sua vida e também algo de marcante na História do seu país e região: o seu papel enquanto jovem militar israelita na Guerra do Líbano na altura dos massacres de Sabra e Chatila.

Como o trabalho minucioso e cuidado de detective, a (re)construção da memória é feita metodicamente pela personagem que no fim a reclama como sua. O filma marca pela sensibilidade com que os factos, que são os sonhos ou imaginação, ou até a realidade pessoal e histórica, são narrados (não faltam referências e personagens históricas tratadas, por vezes com subtil ironia); e marca pelo o percurso de (re)memorização da personagem, um percurso importante para a sua plenitude. A beleza, às vezes tão incómoda, das imagens e do que elas sugerem e simbolizam bem como da música fazem deste filme um filme único.

20/05/11

Impressionaram as primeiras reacções de vários dirigentes franceses e europeus à prisão de Strauss-Kahn: indiferentes à hipótese do crime, mas chocadíssimos com as imagens do rei Strauss-Kahn tratado como cidadão comum. Tratou-se de um reflexo condicionado de dirigentes de um país aristocrático em que as leis e a justiça defendem a casta dirigente, como antes de 1789. (...) Por vontade da elite de França, não só as imagens seriam censuradas, como Strauss-Kahn não seria algemado, nem sequer acusado na justiça.

Eduardo Cintra Torres, Público de hoje (sem link directo)

E, já agora não saindo de França, ninguém lá (ou cá) se indigna com este caso? Ninguém se indigna com a indignação do 'puro' e 'virginal' ministro francês da Cultura Frédéric Mitterand? Ninguém defende a liberdade de expressão de Lars von Trier, cineasta provocador, que era ontem um acarinhado herói da cultura cinematográfica? Ninguém nota a duplicidade de tratamento dada a uma "esquerda" politicamente correcta e a uma "direita" nada politicamente correcta? Ninguém se indigna com a tolerância e desprezo perante a possibilidade de crime sexual e a falta de tolerância perante uma opinião?

Estranho mundo este.

10/04/11

Mulheres 2

Estas heroínas de Made in Degenham nunca mediram inteiramente as consequências dos seus actos ao concordarem em fazer greve e, claro, nunca pensaram que chegariam onde chegaram. Este facto revela alguma uma inocência e frescura ingredientes importantes para a simpatia que o filme gera no espectador. Esta ingenuidade política das grevistas é demonstrada por oposição à mulher do gestor da fábrica, essa sim, uma mulher inteligente, culta (formou-se em Cambridge) e de outra classe social que percebe o que está em causa, a extensão das reivindicações das grevistas, e que lhes mostra o seu apoio à causa da igualdade de salários.

Outro dos ingredientes interessantes no filme é o da determinação da luta. Contra os sindicatos, bastiões retrógrados e machistas, contra os homens e colegas trabalhadores que se vêm prejudicados e que as querem a trabalhar, e contra alguns maridos pouco habituados a manifestações de força e de determinação da parte das suas “esposas”. Elas mantém-se firmes e fieis à lógica do seu argumento: igualdade de pagamento, e não vacilam no momento de ir ao congresso dos sindicatos pedir apoios.

Essa firmeza e fidelidade à luta tem na base sua base a solidariedade feminina, um conceito fonte de inúmeros lugares comuns e especulações e que constantemente se questiona. Essa solidariedade, e ao contrario da masculina que é mais “espontânea” faz-se na intimidade partilhada, não surge do nada. Tece-se com soutiens (é muito interessante o facto de, no verão e por causa do calor, as trabalhadoras da fábrica se despirem e trabalharem em soutien), fraldas, lágrimas, celulite e vestidos (o vestido, um Biba anos 60, que a líder das grevistas leva quando vai falar com a Ministra é emprestado pela mulher do gestor).

No final, o que tem de ser tem muita força. Assim será sempre.

08/04/11

Mulheres (*)

Made in Dagenham (Igualdade de Sexos) pode não ser uma obra-prima, pode não arrastar multidões, nem sequer será um filme indispensável, mas é um filme inteligente e divertido. É uma mistura interessante de comédia light, com acontecimentos reais e com mensagem política. As personagens, apesar da ligeireza, são muito verosímeis, e é impossível não simpatizarmos com estas mulheres que fazem uma greve porque pedem igualdade salarial: para trabalho igual remuneração igual. A equação é simples, a mentalidade é que não. Em 1968, em Inglaterra, elas foram pioneiras e abriram caminha para transformações na legislação.

Pensando bem, grande parte do trabalho feminista – a quem todas nós mulheres tanto devemos – mais marcante e determinante para a valorização do papel da mulher, fundamentou-se sobretudo na força da evidência, da lógica da racionalidade. Acesso ao voto, pagamento igual para trabalho igual, igualdade no acesso à educação, fim da discriminação, foram imposições mais ou menos demoradas e sofridas, da lógica e da racionalidade, e sempre servidas pela coragem e luta de tantas mulheres. Quando a luta feminista sai destes parâmetros, torna-se mais pantanosa pois normalmente está ao serviço de uma determinada ideologia, de uma moda, ou de uma mera fantasia (pseudo-científica, pseudo- psicológica, etc).

As mulheres do filme confrontadas com a evidência que era a desigualdade salarial para trabalho igual, uniram-se numa luta laboral. No fim do filme em clima ligeiro e festivo (e com música dos anos 60) são apresentados testemunhos dessas mulheres reais que ainda hoje vivem e que fizeram essa greve na fábrica da Ford de Dagenham; uma diz aquilo que o filme consegue transmitir: elas não se tinham apercebido da força que tinham, nem da força do argumento naquela época.
(Continua)
(*) Título "roubado" ao FNV.

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