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20/03/19

Raposas ...

As notícias em letras grandes sucedem-se a um ritmo frenético. Ainda não nos refizemos de uma que a outra se sucede a prender a nossa atenção. Um dia havemos de nos cansar de vez e deixar de ler e ouvir notícias. Mas essa é uma longa conversa, ou melhor, uma longa reflexão. 

Ontem um tiroteio numa mesquita na Nova Zelândia (para quando uma comoção mundial para as mortes de cristãos nas igrejas no Egipto ou no Paquistão, entre outros locais hoje impróprios para cristãos?), ou um outro tiroteio num eléctrico em Utrecht que se pensou ser querela familiar, mas afinal já não será e o espectro do terrorismo a espreitar. Hoje, tal como ontem, são ainda as cheias em Moçambique e a calamidade de sofrimento humanitário que nos mobiliza. Mas hoje há mais, ou não vivêssemos todos o suspense dessa novela em capítulos intermináveis chamada Brexit. Hoje, como se diz na gíria de telenovelas, houve capítulo duplo. Nesta fase, e fosse eu Britânica, já só pedia para que tudo acabasse a 29 de Março, sem acordo se necessário fosse, mas a telenovela tem de ter um fim; depois despedia os políticos que deixaram o país neste caos, indecisão e medo, e aproveitava para mandar os Donald Tusks deste mundo, ou melhor da EU, pentear macacos para bem longe de Bruxelas. 

No entanto foi um telefonema simples e curto que recebi que me apanhou de surpresa. Será um fait divers, (para usar uma expressão cara a Jorge Coelho) mas não estava preparada. Afinal, quem espera uma notícia assim? Neste mundo urbano e tecnológico em que tudo se programa não há espaço para estes imprevistos: não vou ter, na aldeia, os frangos campestres que encomendei para na Páscoa trazer para Lisboa. (Já congelados, claro, porque embora seja boa no manuseamento de facas, ando- no mínimo -  pouco treinada a matá-los e depená-los). Não há frangos tão simplesmente porque a raposa os apanhou e comeu. E não há nenhuma app que me valha. Raposas ...

19/01/19

Sábado de Manhã com Chuva

Sabia exactamente sobre o que ia e queria escrever. Pensei dedicar uma parte da manhã de hoje a fazê-lo, só que, sentada em frente do computador, perdi-me ... saltando sem nexo entre emails, actualidade, notícias, textos vários, vídeos, pesquisas, música, blogues. Tudo, qual Babilónia, se confunde em frente dum computador. Na nossa mente tanto cabe a vontade de perceber como é que esta receita de couve fermentada é diferente da já experimentada com sucesso, como cabe um momento de irritação com mais uma invenção do governo que, em vão, tento perceber. Inclusão? Mas o que é isso exactamente, e sobretudo, como se mede essa dita inclusão? Pelo número de alunos de cor, por turma, por ano? Por um rigoroso 50% de raparigas e rapazes? Por uma quota de ricos e pobres? Estas invenções e estes nomes fazem-me rir: são reveladoras do “ar dos tempos”, e porque esquecem que, de facto, tudo o que os pais querem saber é a taxa de sucesso da escola para entrada na faculdade. Tudo se resume a isso, por mais voltas ideológicas que o ministro queira dar. O governo pode decidir o que quiser, outras entidades farão um ranking baseado nos factos puros e duros, nas notas e no acesso à faculdade e será esse que os pais procurarão. 

Entre deambulações várias, a vontade de ouvir Debussy parece premente, nada que o youtube não resolva com ajuda de Martha Argerich. Aquela conta a pagar obriga a uma passagem pelo homebanking, numa manhã em que Maria João Rodrigues ocupa os sites informativos e em que me distraio com publicidade imobiliária mandada para o email – os preços das casas, pois, bem como as casas em si que parecem estar a ser feitas para investidores e não para pessoas. Depois de uma pesquisa na Wikipedia, (que nos redirecciona para outra e outra ...) percebo que já não é Debussy, mas Lizt que toca pois o youtube passa para o vídeo seguinte e nem pergunta se queremos ou não. Resta o consolo de (ainda) não ter tropeçado nem no Brexit nem no PSD. Confusos? Também eu. O “computador” parece um animal selvagem difícil de controlar ... não, isto não faz sentido nenhum, o computador é só uma máquina, não tem vontade própria, lembro-me. Que seja, mas confesso alguma dificuldade em perceber este comportamento errático em frente de um ecrã, e este deambular sem nexo, por muito definida que fosse a intenção primeira. O pior é que o tempo, o implacável tempo, escorre (cada vez mais rápido, sim, dizem que sim os físicos que o estudam) entre os dedos e os cliques do rato, e mal percebo que passou. 

Não escrevi nada do que tinha pensado, o que não será um problema. Em jeito de desculpa, deixo aqui em “copy/paste” esta pequena pérola encontrada na selvajaria de deambulações (com a pequena gralha): 


«Não sou dos que morrem de amores por Camões», diz Agustina. «Um poeta deve ser um mensageiro feliz; aquele que à nossa porta chega sem trazer a peste do seu tempo a turvar-lhe a pele. O que nos canta o melhor do seu coração para inspirar um sôfrego destino de felicidade.» Tenho andado à procura de uma boa forma de traduzir «spark joy», uma que transmita toda a intensa alegria despoletada por essa faísca e eis que encontro em Maria Agustina esta, que parece uma versão forte do lema de Marie Kondo: «inspirar um sôfrego destino de felicidade.» Perfeita. Camões não inspira, é claro, tal destino à autora de «A Sibila», e a navalha de Agustina é tão afiada quanto a de Occam: de todos os poetas, escolham-se os portadores de felicidade. O que deixa de fora, virtualmente, todos os poetas, esses pregoeiros do lado obscuro da alma humana, não só Camões. As estantes de poesia, vazias: Marie Kondo sentir-se-ia orgulhosa. Ah, desditoso paradoxo: o vazia gera vazio, o efeito da multiplicação por zero. A felicidade, essa, precisa de terreno mais fértil para nascer.
(http://xilre.blogspot.com/)

22/07/18

Vai Subir?

A vida não é fácil para quem tem um módico de racionalidade. Tantas vezes não encontramos o sentido das coisas – grandes ou pequenas – muito menos o que move as pessoas e o mundo que, claro, é feito e moldado pelas ditas pessoas. Ah, mas desenganem-se, não são hoje as grandes opções, dilemas, juízos, aspirações ou ideais que me ocupam, hoje detenho-me num detalhe comezinho da vida em sociedade pois, como se costuma dizer, há coisas que não matam, mas moem. A verdade é que de tanto moer (água mole em pedra dura ...) algo se quebra, racha, e em mim recentemente algo se quebrou (a tolerância, a paciência?) perante a ausência do que considero serem uns níveis mínimos de racionalidade e senso comum da vida. 

Desde que me lembro que me intriga a forma como as pessoas utilizam os elevadores; sim, elevadores, essa maquinaria que faz parte da nossa paisagem do dia a dia, aqueles que, subindo e descendo, nos levam para cima ou para baixo, num prédio de habitação ou escritórios, num hospital, numa repartição, nos centros comerciais. Não falo, no entanto, de elevadores velhos desprovidos de automatismos - falo de todos os outros: dos que têm no exterior dois botões, um com uma seta para cima, outro com uma seta para baixo permitindo que, carregando o botão com a seta para cima chamemos o elevador que sobe, ou o contrário se carregarmos no botão com a seta para baixo. Falo dos elevadores que têm uma luz que acende por cima da porta que abre quando ele chega, e que, través de uma seta para cima ou para baixo, indica se o elevador vai subir ou descer. Acreditava eu, na minha inocência, nada haver de transcendente em perceber coisas simples: 
- se queremos subir chamamos o elevador carregando no botão com a seta a apontar para cima e vice versa se quisermos descer. 
- quando o elevador chega e olhando para a luz por cima da porta e para o sentido da seta, sabemos desta forma simples, se ele vai subir ou vai descer e decidimos entrar ou esperar. 

Andei e ando redondamente enganada. Há toda uma transcendência e metafísica na forma de utilizar o elevador que nunca entendi, só isso explica que eu veja quotidianamente: 
- pessoas que carregam em ambos os botões ao chamar o elevador, (como se mecânica elevatória se compadecesse, ou se motivasse e se apressasse um pouco mais) embora saibam perfeitamente se vão subir ou descer. E não, não se pode subir e descer no mesmo elevador ao mesmo tempo. Só baralha e atrasa o mecanismo,
- pessoas que invariavelmente, ao entrarem no elevador, perguntam “vai subir?” ou “vai descer?” porque são incapazes de levantar os olhos e ver a luz e a seta que acende e que lhes dá a indicação se o elevador vai subir ou descer. 
- pessoas que esperam que nós, aqueles que já estão no elevador, interrompamos as nossas divagações ou silêncio, para lhes responder e assegurar que o elevador vai a subir ou a descer. 

O mais estranho é que este comportamento que vem da incapacidade para utilizar elevadores, é absolutamente transversal: novos e velhos, pobres e ricos, cultos ou incultos, inteligentes ou burros, gordos e magros, homens e mulheres, todos cabem nesta categoria. Podem vir de telemóvel na mão a responder a emails complexos, ou com uma mente cheia de cálculo diferencial, ou de fenomenologia, nada disso conta na hora de utilizar um elevador. Recentemente descobri para meu absoluto espanto, alguém que não sabia em que botão carregar para chamar o elevador: ou da seta para cima se quero que ele suba para poder descer ou carregar logo no botão com a seta para baixo se quero que ele desça. O quê? tão complicado assim? mas como é que se sabe onde e como está o elevador nos andares que não indicam o seu paradeiro? Uf, este é um caso típico de “porquê simplificar se podemos ter complicado?”. Isto é o mundo ao contrário. 

O que temo é que uma vida inteira a ouvir “vai subir?” (ou “vai descer?”), ao ponto dessas frases já esperadas nos arranharem, deixe marcas numa mente racional. Não sei quais, mas duvido que não as haja. Pena de mim! 

A rational mind has, occasionally, a hard time understanding the world as it is, and people as they are and react. I will not be detained now by trying to make sense of the big questions people face, their doubts, hopes, dilemmas, whatever moves them, but by a small detail of daily life that leaves me every single time bewildered and impatient. It is the way most people use the lift - yes, I’ll write about that familiar and useful mechanism that takes people up and down, not the old ones, but the modern ones with memory and two buttons. These lifts have up and down arrow buttons one must press to go up or down, so if you want to go up you press the button with the arrow pointing up, and press the down arrow one if you want to go down. 

It is simple, it is not complex, it is not metaphysics, but still there are people who cannot figure that out and press both buttons, and, before getting in, never bother to look up to the light on top of the door that indicates (an arrow again) if it is going up or down. So – interrupting our reverie, or unwillingness to speak to strangers – they ask, every single time “going up?” or “going down?” 


I realize now that I have been mistaken all my life. Figuring out which button to press, and if the lift is going up or down are not easy jobs, otherwise you wouldn’t see so many people – young or old, clever or stupid, rich or poor, thin or fat, asking invariably, before getting in a lift: “going up?” (or “going down?”). They may be on their mobiles writing complex emails, or having their heads full of differential calculus or phenomenology, the fact is that none of that matters when it comes to using a lift. I’m quite sure a life’s worth of hearing “going up?” or “going down?” must leave some trace on a rational mind. Don’t know which one, but I feel sorry for myself.

13/11/13

You Are Only Old Once

You Go David! 

As you say: “you are only old once”. Com o pequeno bónus de ter em casa uma mulher “mildly amused”. Quem sabe ela não se tenta.

08/11/13


Em território de exaltação dos afectos, dos beijinhos que nunca se poupam em final de cada telefonema, de atenção aos complexos estados de alma, das amizades depressa construídas e depressa desfeitas, de cumplicidades que afinal não o são, de interesses comuns que só duram um dia, fica esquecida a emoção. Os dias parecem pequenos demais e deixam pouco tempo livre para realmente sentir. E o tempo que existe é ocupado numa versão pré-embalada de “ser feliz”, e sobretudo ocupado a perecê-lo e demonstrá-lo, que as redes sociais estão bem para o serviço desta ilusão. Uma espécie de consumismo da felicidade feita de sorrisos que raramente permite que se vá mais além da fotografia do telemóvel. O pior é quando se pausa, quando algo muda, quando falta alguém ou algo, quando uma luz mais fria mostra no espelho o que fica: o medo, a raiva, às vezes a empatia, a alegria, também o desespero, a tristeza, a angústia, ou a generosidade, a esperança. Quando saídos do nada irrompem vida dentro, é o espanto, ou então o desnorte, a aflição. 

Filipe Nunes Vicente, num registo original e diferente do dos seus livros, fotografa e analisa em algumas linhas aquilo que sobra. São pequenas coisas, tiques e manias, em que detecta tendências, novas expressões. Apaga os sorrisos fotogénicos, olha nos olhos e revela a emoção. Com o pretexto da análise dos comportamentos em tempo de crise, faz o Depressão Colectiva com sinceridade e com a emoção que vem dessa certeza de todos partilharmos o que nos faz humanos. E os leitores, em ou sem anonimato, respondem à provocação, ao apelo na mais sã caixa de comentários online. Se duvida, vá lá.

30/10/13




E é-o também por todos aqueles que se apressam a colocar um microfone ao pé da sua boca que já devia, há muito, ter sido amordaçada. O padrão é comum e de muita tolerância para com os intelectuais, sobretudo 'de esquerda'. Muita compreensão para com os Polanskys e os Strauss-Khans da vida. Muita diligência para sistematicamente tentar desacreditar as queixosas.

17/10/13

The New Normal

Nada como Outubro para o regresso ao cinema de filmes que apetece ver e assistir na televisão ao regresso das séries que gostamos. A grelha (ou posição) dos canais do meo mudou, e há dias vi-me a navegar por todos eles para perceber onde estava o quê, não fosse eu perder um só segundo de Boardwalk Empire ou gravar no canal errado Homeland. Estava eu neste exercício de surfar entre canais quando me deparei com uma mulher (Long Island Medium no canal TLC) que parecia saída de uma linha de montagem em que tudo é feito em fábrica de plástico: o cabelo (cor e brushing), a silhueta (silicone)e as unhas; meu Deus, as unhas! Eram daquelas unhas grandes e grossas de gel que fazem curva, bem quadradas e numa versão muito má de french manicure. Até a voz, e os gestos da senhora eram maus. Parei e fiquei uns minutos, poucos que a curiosidade é inferior ao ajuste que teria de fazer aos meus critérios de qualidade e estética televisiva, a ver: tudo na senhora é mau, e pior ainda o direito que ela sente ter – por causa do seu dom – de interpelar pessoas que por acaso (é o que o programa quer que acreditemos) se cruzem com ela, para lhes falar dos seus (deles) mortos. 

Ao deparar-me com programas deste calibre (ou semelhante, tipo Toddlers & Tiaras), e porque tinha vindo do cinema depois de ver um muito bom filme – Hannah Arendt, que recomendo vivamente - que elogia o pensamento e mais do que isso, elogia o pensamento como a mais sublime forma de liberdade, ocorreu-me que a nossa sociedade ocidental vive hoje não só sob o efeito dessa banalização do mal, mas sobretudo o elogio, aceitação e banalização da mediocridade. Pior, não só a mediocridade se tornou banal como já está instalada e aceite como sendo ela a nova normalidade. Ao contrário do mal que ainda provoca reacção, a mediocridade, como não é má, é aceite e não se desafia. Quando se questiona essa mediocridade, é-se intolerante, politicamente incorrecto, elitista, e outros qualificativos afins.

Acontece assim no mundo pensante, no ensino, no universo político nacional e internacional, no jornalismo, na internet, no entretenimento, no cinema, literatura e arte, etc. O padrão "normalidade" está cada vez mais próximo da mediocridade: não se exige muito, não se pede muito (a excepção em tempos 'economicistas' é sermos produtivos, eficientes e fazermos ou contribuirmos para fazer dinheiro) e sem darmos conta a nossa sociedade desliza suavemente para o pântano da mediocridade, e não, não precisamos das americanices, dos reality showns ou da médium de Long Island. Infelizmente não precisamos de olhar para o outro lado do Atlântico, basta-nos olhar à nossa volta.

26/05/13

Metáfora

Tenho para mim que quem invoca Nossa Senhora como inspiração para a conclusão da Sétima Avaliação da Troika, deveria ter a flexibilidade de não ser incomodado com referências a palhaços na Presidência da República. 

Sim, sim, eu sei: campos semânticos distintos, imaginários distintos e sobretudo cargas simbólicas bem distintas, mas no fundo é uma mera questão retórica: ou se aceita a metáfora ou não. Se assim não é, há algo de ainda mais errado do que gostaria nas bandas de Belém.

09/04/13

Margaret Thatcher

Com a morte de Margaret Thatcher é mais um pedaço do século XX que passa à História, ancorando-nos cada vez mais irremediavelmente no século XXI, uma evidência que nem sempre sentimos. Nada de errado nisso, afinal estamos vivos (se eu escrevo e se alguém me ler, é sinal que ainda cá estamos, e que Deus quiser, assim nos preserve muitos e muitos anos), a nossa perspectiva é que teima em ir atrás ao século XX. Às vezes penso que os anos que mais nos moldam e de onde o nosso olhar teima em partir (ou regressar) são os anos em que começamos a pensar que já somos adultos. 

Quando chegou a minha vez, Margaret Thatcher estava lá, e eu também. Não deixou nada nem ninguém indiferente, aliás ela detestava a indiferença, a moleza, a falta de convicções e de acções, nomeadamente em relação aos do seu próprio partido a quem chamava “wets”. Esse exacerbar das dicotomias, sem se preocupar com procurar consensos chocava quer uma mentalidade conservadora e à maneira menos abrupta dos gentlemen elitistas da política (ela era oriunda da pequena burguesia), quer de uma mentalidade intelectual que se pretendia tolerante e aberta ‘à diferença’ e às minorias. A sua visão política contrariava a tendência ‘socialista’ que se vivia então (mesmo nos governos conservadores) nomeadamente em duas vertentes: a que permitiu um crescendo de custos de um estado social cada vez mais pesado, laxista e mais difícil de financiar (a célebre insustentabilidade do estado social); e a que fazia depender a política (e políticos) do partido trabalhista dos sindicatos e das suas associações, de uma forma que hoje é difícil conceber. Combateu com a determinação que todos lhe reconhecem ambas as frentes: reformou o estado privatizando, liberalizando, e iniciou sem piedade uma luta com os sindicatos que venceu, tendo reduzido consideravelmente a influência deles na política futura do Reino Unido, e tendo libertado o Partido Trabalhista do excessivo poder sindical (que o diga Blair). Na frente internacional é sobretudo lembrada por ter sido protagonista do desmoronar do bloco de leste, foi o principal líder ocidental a iniciar e manter um diálogo com a União Soviética e o bloco de leste. Não vacilava, não hesitava. Nunca foi muito popular, mas ganhava eleições. 

Lembro-me bem como era bom discordar de Margaret Thatcher, essa filha de merceeiros que se ‘dava ares’, que ousava decidir e mandar, e que estava claramente (para tantos) above her station. Hoje, e para nosso mal, estamos reduzidos à pobre condição de discordar de políticos como Cameron ou Hollande, já para não falar daqueles que temos por cá. Entre Thatcher e estes últimos não é só um século que os separa, é todo um mundo. Independentemente de ter ou não gostado de todas as suas políticas, decisões e acções, hoje e para nosso conforto, percebemos que conhecemos uma grande estadista.

19/02/13


Portugal já pode dormir descansado. Procuramos sem perder a esperança e finalmente encontrámos vestígios de carne de cavalo em refeições pré-cozinhadas vendidas cá. Com tanta porcaria, tantas más decisões, tantos atentados ambientais, tantos reais riscos para a saúde, e com tanto lixo tóxico na produção alimentar e na comida que todos – mesmo os precavidos – põem no prato, anda a Europa escandalizada com a carne de cavalo. Em matéria de alimentação há muito que andamos todos a ser enganados, e a carne de cavalo não é o pior dos enganos. 

Ok, ok. É claro que eu também prefiro não comer cão ou gato, e gostaria sobretudo de nunca saber que comi cão ou gato, mas fazem-me pior os fertilizantes ou as gorduras hidrogenadas do que o cão, gato, cavalo, crocodilo ou gafanhoto.

Bom apetite!

01/02/13


O que é que fizeram a uma das minhas músicas preferidas do chamado ‘rock português’? Quem é que se lembrou de pôr a Teresa Salgueiro a cantar o Homem do Leme nesta versão, ligeira e airosa?

Nos últimos dias já ouvi a música na rádio umas três ou quatro vezes e por favor, não me agridam mais, de tão má que é esta versão. Também não entendo (fraco entendimento o meu certamente), porque que é que Tim está também a cantá-la e a ‘patrocina’. Ele deve perceber que todo o espírito da canção, a sua força e a sua carga simbólica e dramática se perdem neste registo tão light e tão longe do original. Aliás, ainda não percebi o que é que Teresa Salgueiro, uma cantora de mérito e com um registo muito próprio, mas que não consigo ouvir por longos períodos de tempo sob pena de morrer de tédio, ganhou em ter deixado os Madredeus: não ouvi uma única música desta sua nova fase de que gostasse, mas isto digo eu que não percebo nada de música portuguesa actual.

06/12/12

Passado à História


O core do século XX a passar inexoravelmente à História e a deixar de vez de ser nosso.

Os Rolling Stones, daquela parte do séc XX que melhor conhecemos mas que não será necessariamente aquela que daqui a muitas gerações será lembrada como a mais emblemática, podem continuar a dar concertos que a realidade não deixa de ser o que é. A teimosia humana não consegue prender o que já foi. E o passado que ainda temos como presente, já não é. É mesmo passado; passado à História.

02/11/12

A Arte de Estar Com Deus e Com o Diabo


No entanto, e depois de ver o vídeo, constato sem nenhum espando a mentira a jorrar entre sorrisinhos forçados e o ar de falsa integridade da senhora, que repete a cassette obrigatória: claro que não, “we don’t want to look attractive”. Pergunto: why the hell make and buy a fashion magazine for the chic female market? Qualquer túnica escura cortada a direito e comprada na souk local serviria o propósito que é levado tão a sério de não querer ficar/ser atraente, não?

26/10/12

Dois Pesos e Duas Medidas

Estava escrito, nesse script que é a vida que gosta e cultiva virtudes públicas, que Berlusconi acabaria por ser condenado em tribunal com uma sentença de prisão. O homem teve, sem esconder, sem remorso ou culpa, demasiado dinheiro, poder, influência e demasiadas mulheres demasiado vistosas. Nunca, num gesto de contrição que apaziguasse as aparências, esboçou uma apologia por isso, bem pelo contrário, exibiu em quantidades quase obscenas esses seus atributos. Dificilmente o deixariam em paz. Acredito que o homem esteja a ser justamente condenado e até acredito que seja culpado de tudo o que o acusam e de muito mais – o que eu não gosto é de saber que foi preciso ele ter saído do governo para ser condenado por crimes que remontam a 1994/98, e as desculpas do costume, nomeadamente a de que ele terá em 2009 um lei que lhe dava imunidade, não me tranquilizam. Há coisas que nunca mudam. Berlusconi, como uma personagem de tragi-comédia, demasiado vistoso e para azar seu, ‘larger than life’, estava desde sempre condenado a ‘acabar mal’. 

Outros há que têm sorte diferente. As coisas são como são, e certas personagens nunca são condenadas, passam por entre os pingos da chuva sem se molharem desde que pareçam tudo o que é suposto parecerem. Este senhor, Jimmy Saville (a quem a Rainha deu o título de ‘Sir’), que apresentava o programa com o seu nome “Jim’ll Fix It”, em que realizava os sonhos de tantas crianças, e que era tido como uma versão laica (claro) de santo, padroeiro, filantropo e amigo das criancinhas, afinal não era um modelo a seguir. Descobre-se agora que abusou das ditas criancinhas de quem, afinal, não era tão amigo, durante 40 anos. Aparentemente, os que o rodeavam e não só, assobiaram para o lado. Morreu há um ano, e surgem agora, um após outro, relatos de arrepiar. Ao contrário de Berlusconi, este senhor já não será condenado em tribunal nenhum. Exibicionismo versus hush-hush.

23/09/12

Fomos Apenas Inteligentes


Antes e depois. Adiar, rodear, evitar, esconder, querer e deixar-se enganar, imaginar, desejar, interpretar à-medida, interromper uma conversa, cortar uma dedução, olhar para o lado, não fraquejar, levar o optimismo ao limite e ultrapassá-lo. Quanto mais inteligentes, pior. Quanto mais cultos, pior. 

Nunca fraquejar, é regra. Nem antes, nem durante, nem depois. Uns e outros. Nunca o sofrimento esteve tão fora de moda, tão renegado e desprezado (coisa de pobre e ignorante), tão travestido de patologia depressiva.

13/09/12

O Que Era e o Que É

A Manuela Ferreira Leite, outrora “a Velha”, não são hoje poupados elogios dos sectores mais diversos e surpreendentes (mesmo?) uma vez que conta entre quem a elogia aqueles que outrora disseram dela o que Deus não dizia do diabo, à esquerda e à direita. Mas isso era em 2009 quando José Sócrates persistia no mundo irreal e na irresponsabilidade que tantos votos arranjou, contra o discurso realista e sem graça da “Velha” que poucos cativava, e a esperança à direita se chamava Pedro, o jovem e liberal Pedro, com uma máquina comunicativa exemplar cujo grande objectivo era desacreditar Manuela Ferreira Leite em cada gesto em cada palavra. Para mim o Pedro nunca foi engraçado nem teve graça, e muito menos estava (está) talhado para primeiro-ministro, bem pelo contrário, mas houve tantos a persistir no conforto da irrealidade e no sonho, que levam agora com doses massivas de ‘experimentalismo económico e social’ (de acordo com a gíria comunicacional). 

Ironias da vida política, esta unanimidade em torno de Ferreira Leite. Sempre me divertem as ironias, e os tempos estarão cada vez mais férteis em divertimento sem que precisemos de nos esforçar muito: ligar a televisão até meio distraído, ler umas manchetes, passar os olhos pelos blogues. Se ouvirmos com atenção, se lermos para além das manchetes, se olharmos bem para as caras de quem fala e se lembramos quem foram e quem são, corremos o risco de já não querer rir mais.

01/08/12

Os Tempos e as Vontades

Nem os Tempos nem as Vontades têm abundado, com tanto treino para os saltos sincronizados para a água

Os tempos estão mortos. Há umas semanas que a política e os políticos - com a honrosa excepção de António Costa que teme que a dupla rotunda no Marquês não chegue para se fazer notar, praticamente desapareceram da agenda nacional. Em contrapartida os números não; da execução orçamental, do desemprego, das exportações e balança comercial, das previsões de crescimento. A análise dos números faz-se nas diferentes modulações entre os iludidamente optimistas e os teimosamente pessimistas. Os tempos acabam por se revelar pouco clementes para com os iludidos, por muito fortes que sejam as vontades. Aos lúcidos pessimistas os tempos costumam dar razão, contra as vontades de todos. Esperamos por Setembro, um mês que não é inócuo para mostrar o que os mercados ditam.

Entretanto a Europa mantém-se igual a si própria: um passo à frente e dois atrás, para na semana seguinte inverter a rotina dando dois passos à frente e um atrás. Uma maneira cara de ficar onde se sabe estar, dando a ideia que se ‘vai’. Aliás o Senhor Hollande é bom nessa coisa de dar a ideia que tem uma ideia e de que vai a algum lado. Os Tempos vão passando, mas as Vontades são poucas. Mais longe  o resultado das eleições no Egipto só ilude os aqueles que teimam em se deixar iludir, e a revolta na Síria cada vez mais augura um desfecho radical e pouco democrático. 

Os portugueses estão de férias enquanto o novo Código do Trabalho entra em vigor e mais serviços fecham no interior. Começaram por ser escolas, depois serviços de saúde e urgências, tribunais, e os fogos de verão ajudam também à versão economicista de terra queimada, o único critério que parece capaz de  (co)mover o governo. Rui Rio fez umas declarações (polémicas) que deveriam merecer mais atenção e debate, mas o país põe protector solar, diz mal 'disto tudo' e dos políticos que 'são todos uns malandros' enquanto grelha umas febras e lê as Cinquenta Sombras de Grey

Vou continuar os treinos de salto sincronizado para a água. Se não for antes, espero que regressem em Setembro, quer os Tempos, quer as Vontades.

10/07/12

Singular

Há uma praga linguística que se foi instalando devagarinho para hoje tomar proporções alarmantes. Eu sei que a língua é um organismo vivo e que vai evoluindo, etc, etc, mas que essa realidade indesmentível não sirva de justificação para que se maltrate a língua com vulgaridades de ferir o ouvido, e para que se permita que ignorância se instale sem que ninguém se aborreça, pois é de ignorância pura que falo, não de opções. Eu aborreço-me, e aborreço-me com umas coisas mais do que com outras e esta é uma que pertence ao ‘top’ da náusea. Experimentem ir comprar sapatos desportivos, isto é: ‘ténis’. Depois de escolherem o modelo e tamanho vejam lá se o(a), vendedor(a) não pergunta solicito(a): “quer experimentar o ‘téni’?” 

Mesmo sabendo que vai ser assim, o meu mundo pára uma fracção de segundo. ‘Téni’, diz ele(a). Volto a repetir: ‘téni’. Que palavra mais feia, mais ‘contranatura’. Se dantes sorria por dentro, hoje fico numa fúria apenas controlada pela boa educação. Há dias dei comigo a dizer ao vendedor, “não, não quero experimentar o ‘téni’, quero sim, experimentar o' ténis' do pé esquerdo se faz favor”. De cada vez que o homem dizia ‘téni’ eu repetia ténis com ainda mais energia, e sentia a fúria a aumentar. Sei que um dia não resisto, e ao falarem-me em ‘téni’, eu hei-de perguntar - já agora e por pura curiosidade - como é que dizem o singular de umas duas ou três outras palavras terminadas em 'is'.

14/06/12

A Vida Real

Acorda-se na sala de recobro do que parece ser uma viagem ao fundo do fundo da anestesia, estranham-se as luzes (ai, se o ambiente médico fosse minimamente ‘user friendly’ as salas de recobro tinham luzes suaves), só depois se tenta perceber quem se é e não é; lembrar porque se está ali - a memória preguiçosa; mas a enfermeira solicita, eficiente, e doce diz contente: “ganhámos 3-2!” Num instante ‘ser ou não ser’ já não importa, e a vida faz-se real.

08/05/12

Allons Enfants... 2

Ninguém terá reparado na cor do cabelo dos candidatos presidenciais franceses da segunda volta? 

Confesso algum preconceito em relação a este tipo de opção masculina que é mais forte em relação a quem exerce cargos públicos. Que a verdadeira cor do cabelo das mulheres seja um dos mais sólidos tabus das sociedades modernas, já estou habituada. Que a partir de uma certa idade (cada vez menor) nenhuma mulher se lembre exactamente da cor original do seu cabelo, já estou habituada. Mas ver os dois candidatos a presidentes da França, de cabelo repentinamente escuro, escondendo os brancos que já todos vimos, parece-me uma opção sem nexo. É provavelmente o fruto de uma estudada (não são sempre ‘estudadas’?) manobra de marketing político que, mais uma vez, privilegia a imagem e detrimento do conteúdo (fraco, muito fraco) e que impõe uns códigos sempre no sentido de forçar a nota ‘jovem’, num caso em que a nota ‘sabedoria’ e/ou ‘experiência’ deveriam ser predominantes. Para mim, as cabeças que de repente, e no tempo de uma campanha política, se vêem sem uma branca tornam-se demasiado ‘leves’, perdem em credibilidade. Até senti a falta da normalidade capilar de François Bayrou ou de Jean-Luc Mélonchon, para não ir mais longe no tempo e lembrar a exuberância de Dominique de Villepin.

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