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09/08/18

Manhã Submersa 2

Já lá vão 3 ou 4 dias de polémica (ver aqui). Boris Johnson, o ex-ministro de Theresa May e conhecido Brexiteer, chamou as coisas pelos nomes, e não falta quem não se conforme e peça que ele se desculpe. Disse que as mulheres de burqa pareciam caixas de correio - e foi generoso, as caixas de correio, pelo menos as tradicionais inglesas, são bem mais coloridas e alegres do que as burqas - e a ladrões de bancos, e aqui também foi generoso, os ladrões de bancos são normalmente mais elegantes e raramente se cobrem com um pedação de tecido que impeça os movimentos. A Primeira-ministra já se demarcou dele e acha que ele se deveria desculpar, mas - independentemente da minha opinião sobre BJ - realmente não percebo de que terá de se desculpar, nem tão pouco creio que se deva desculpar. Parecem? Boris Johnson acha que sim, e então? Ladrões de bancos, só mostram os olhos, pois ocultam a identidade. Caixas de correio são blocos cuja marca identitária é uma fresta por onde deitar as cartas. Não parece tão descabido, nem tão tonto assim. É ofensivo? É o que é! (Falei sobre isso aqui) Mais uma vez, a liberdade de expressão (não difamou ninguém, não apelou ao ódio ...) a ser posta em causa. 

Mais uma vez a nossa sociedade a não olhar a realidade de frente. Quando Theresa May diz que as mulheres são livres de se vestirem como querem, ele tem razão, eu também estou de acordo, e visto-me como quero, e aguento as opções de indumentária das outras mulheres e dos outros homens. Mas essa não é a questão, pois as mulheres com burqa não estão vestidas, estão cobertas; as suas roupas estão por baixo de um pano preto que as oculta totalmente e que lhes rouba identidade e forma, tornando-as, é bom lembrar que é esse o objectivo da burqa, invisíveis. Enquanto se achar que o uso da burqa é uma peça de roupa como os jeans, perpetua-se a falácia do exercício da liberdade da mulher em “se vestir como quer”, continua-se a evitar enfrentar o problema e a apenas se olhar para a superfície das coisas. A Dinamarca e os países que proíbem o uso de burqa, e de outros trajes que ocultem a identidade, em espaços públicos, estão certos. Mais uma vez a linguagem (na forma das frases de BJ) a ser punida, por não ter branqueado e ‘contornado’ a realidade.

05/07/18

Bikini

O problema das migrações está na ordem do dia (da semana, do mês, do ano). O governo de Angela Merkel estremeceu, António Vitorino foi nomeado Director-Geral da Organização Internacional para as Migrações; e a estes factos mais recentes somam-se os recorrentes como as notícias de mortes no mediterrâneo ou Donald Trump e as suas decisões sobre imigrantes. O aumento de influência e, nalguns casos, a chegada ao poder dos partidos mais populistas e nacionalistas na Europa cujas mais polémicas decisões sobre imigração – que se resumem sempre num fecho de fronteiras - são um sintoma do mal estar de décadas das populações perante as migrações, as comunidades imigrantes e a sua (in)capacidade de integração. Abordar esta questão de forma séria, frontal e sem medos (venham eles do lado que vierem) não tem sido apanágio de Europa (EU) ou dos países que a compõem. É matéria em que os clichés se fazem fáceis e abundam. 

Em Portugal – um país periférico e pouco apetecível do ponto de vista de quem procura uma vida melhor na Europa (ou até asilo) - nós não temos sido confrontados com muitas das questões e muitos dos problemas que as migrações têm levantado há décadas noutros países europeus, como bem sabemos. Não somos confrontados numa base quotidiana e sem descanso com as divergências entre os modos de vida, entre os valores que hoje, como ontem e como amanhã, são parte integrante da nacionalidade, da cultura e da paisagem de cada comunidade. 

Faz um calor imenso em Londres e os parques onde a relva – inesperadamente - não é verde enchem-se de pessoas. Muitas mulheres e homens apanham sol estendidos numa toalha em fatos de banho e bikinis, e a 20 metros estão mulheres muçulmanas em pequenos grupos todas de preto tapadas. Digo tapadas porque não posso dizer vestidas, uma vez que não lhes vejo roupa, só mesmo um pano preto imenso que as cobre da cabeça aos pés - cara tapada só com uma fenda para os olhos. Dizem que é um niqab. Não são as primeiras que vejo, claro, mas – seria do calor? – fiquei surpreendida com a quantidade que desta vez eu vi na rua, e que foi bem superior à de outras vezes. 

Não há forma de me sentir confortável com esta visão, não há forma de aceitar esta tipo de paisagem urbana, não há forma de não sentir incómodo, repulsa e rejeição pela visão de mulheres todas tapadas, todas iguais. A cara de cada um é um dos principais factores identitários, e ao ser ‘abolida’, porque tapada, tapada reduz a mulher a uma condição de mercadoria que mais não é do que pertença de. Sem identidade não existimos, não somos quem somos; sem identidade não há dignidade, não há humanidade. Enquanto mulher sinto cada dia mais como um insulto e uma afronta, esta impotência que as sociedades democráticas, liberais e tolerantes que baseiam os seus valores (e legislação) no respeito pela dignidade de cada pessoa têm, e que permite que se viva tranquilamente este aniquilar do ser, esta indignidade de quem não pode/quer assumir a sua identidade que é aquilo que a torna única. 

Esta deveria ou poderia ter sido uma fronteira a não deixar que fosse ultrapassada. Em nome da tolerância pela cultura e costumes dos outros, permitimos a intolerância e fomos cegos quando outros valores opostos aos nossos se instalaram ao nosso lado e de forma insidiosa foram pondo em causa aqueles porque tanto lutámos enquanto civilização. 

There is no way I will ever be comfortable with the sight of niqabs alongside bikinis in the parks of London in warm summer days. Niqabs are not clothing, they are a piece of black cloth that hides whatever makes them an individual. By hiding their faces, their identity, their uniqueness, they became much more like a commodity than a human being. 

I find it hard to accept that societies that have at their core such values as democracy, the dignity of the human being, equality before the law, and the value of individuality, easily tolerate so many situations where women are deprived of their identity, their uniqueness.

09/01/14

2013 (II)

No princípio do ano de 2013 pediram-me, no âmbito de um caso em julgamento, para escrever um testemunho para o tribunal. Fi-lo eu e mais uma dúzia de pessoas, quase todas mulheres. A parte contrária tentou desacreditar e descredibilizar os testemunhos usando o argumento que eram quase todos feitos por mulheres, e (pior ainda, se fosse possível), mulheres “de uma certa idade”. Na altura achei tão ridículo tal argumento que só poderia rir, perguntando-me então qual seria a boa idade para uma mulher testemunhar e, claro, se os homens também teriam boas e más idades para serem testemunhas. No meu íntimo, na altura, desejava que fosse uma juíza, e já agora também “de uma certa idade” a julgar o caso. Meses depois, na altura do julgamento, soube que sim, que era uma juíza e também ela “de uma certa idade”. 

Esta pequena peripécia, no entanto, não me deixou tranquila. É inquietante pensar que nesta Europa do séc. XX sobrevivem preconceitos suficientemente enraizados ao ponto de gente educada e civilizada (assim o pensam e assim os pensamos) os utilizar, não verbalmente em jantares de amigos nos quais alguns preconceitos velhos e novos convivem com leveza e provocação, mas de forma escrita e em situações formais, nomeadamente num processo de justiça, tentando a sua validação. O caso Bárbara Guimarães, Manuel Carrilho veio, meses mais tarde, confirmar esta (e outras) inquietação: a necessidade de, sem olhar a meios, desvalorizar a palavra da mulher, usando desculpas e razões várias nomeadamente por ser “de uma certa idade” (aquela história que ele contou de BG ter dificuldade em aceitar os 40 anos). 

A vida para as mulheres não é fácil. Se são incompetentes, inconvenientes, irritantes são-no em primeiro lugar por serem mulheres e por isso são ridicularizadas. Os argumentos, as ideias, vêm depois, quando os há. Não importa que seja Assunção Esteves (cita mal e é inoportuna), Pussy Riot (manifestam-se com pouca roupa), Miley Cyrus (preciso mesmo dizer?), Isabel Jonet (parece não perceber o peso das palavras), Ana Gomes (uma voz e estilo irritante), Bárbara Guimarães (preciso mesmo dizer?), Kate Winslet (recentemente sob ataque por ter três filhos de três pais diferentes), ou tantos outros nomes que poderia citar. Primeiro vem o preconceito e desvalorizam-se os argumentos, as opções, os combates. Não é assim com os homens, não é assim com os homens incompetentes, os ridículos, os imbecis, os irritantes, que existem alegremente sem serem objecto de tanto preconceito  e de tanta desvalorização sem argumentos. Com as mulheres o debate, quando o há, vem só depois do preconceito. As mulheres nunca têm o mesmo direito à incompetência, ao ridículo, à imbecilidade que os homens têm. E nunca têm o benefício da dúvida – a sociedade não é tolerante com elas. Se é assim na sociedade ocidental que se quer igualitária, o combate pelos direitos das mulheres nas outras sociedade é ainda um percurso duro. 

Tivemos em 2013 exemplos bastantes: na Índia assistiu-se a um grande número de manifestações pelos direitos das mulheres no seguimento de casos de violações colectivas, num primeiro momento desvalorizadas pela polícia, mas que posteriormente foram conhecidos tendo sido os agressores objecto de condenação; no Médio Oriente a Primavera Árabe deixou um rasto de inverno no que respeita a segurança e direitos das mulheres como pudemos constatar por inúmeros testemunhos do que se passa sobretudo no Egipto e na Tunísia (onde as primaveras foram mais floridas). Na Arábia Saudita as mulheres manifestam-se conduzindo, na África do Sul homenageiam Mandela pelo papel que teve na luta feminista. Também em 2013 se falou mais sobre violência domestica, tráfego de mulheres, a crise e as mulheres... E gostaria de deixar uma nota final sobre a publicidade, ou as publicações, nomeadamente as de moda e estilo de vida. Nunca como este ano li e vi tantos artigos e vídeos que denunciam as barbaridades que sistematicamente se fazem ao corpo das mulheres, perpetuando uma imagem irreal e irrealista: com o Photoshop afinam-se e alisam-se rostos, ancas, alongam-se pernas quando as mulheres são “gordas”; ou apagam-se os sinais das costelas, da bacia e de outros ossos, corrige-se a flacidez da pele, dá-se relevo ao peito, enchem-se as pernas quando é necessário disfarçar a excessiva magreza das modelos; ou simplesmente apagam-se os sinais do tempo dos rostos e corpos, numa descaracterização que assusta pois às vezes mal se reconhecem as pessoas retratadas. 

2013 foi o ano da Mulher. 2013 mais uma vez mostrou, pelo menos a mim, o longo caminho a percorrer no sentido de estabelecer a dignidade da mulher, recusando preconceitos fáceis, e combatendo as leis difíceis.

30/10/13




E é-o também por todos aqueles que se apressam a colocar um microfone ao pé da sua boca que já devia, há muito, ter sido amordaçada. O padrão é comum e de muita tolerância para com os intelectuais, sobretudo 'de esquerda'. Muita compreensão para com os Polanskys e os Strauss-Khans da vida. Muita diligência para sistematicamente tentar desacreditar as queixosas.

03/05/13


Ler mais do mesmo é o que às vezes me parece acontecer quando ‘folheio’ blogues. Debates teóricos ‘esquerda-direita’ (como se o nosso sentido de orientação não estivesse já todo de pernas para o ar, eu acho que já nem com bússola me norteava) ou liberalismo/intervencionismo (como se isso fosse determinante para as circunstâncias actuais do país), ou posts auto-justificativos disfarçados de opinião, interessam-me tanto como as intervenções de Victor Gaspar. Falta uma dose enorme de educação e prática política, de bom senso, de sentido prático sem comprometer os princípios. São as excepções a esta regra que procuro ao ler blogues. Neste dias, e mais uma vez, Maria João Marques fala aqui e aqui de coisas que (me) interessam, e Ana Cristina Leonardo brinda-nos com o seu característico humor. Bem hajam!

10/03/13

Assim se Passou uma Semana

Esta semana já não se podia olhar para a televisão, ou seguir de perto outros meios de comunicação. A morte de Hugo Chavez – prontamente canonizado nesses já habituais processos populares e mediáticos de canonizações laicas – dominou o espaço comunicacional ao exagero. Seguiram-se os fait-divers do Vaticano e por extensão os da Igreja Católica: os sapatos papais, as chaminés na Capela Sistina, os cardeais “papáveis”, o Vatileaks, as especulações sobre o dossier secreto pedido por Bento XVI a três Cardeais sobre a Curia, os Cardeais com acção duvidosa (encobrimento) em casos de pedofilia, e, imagine-se, até vejo noticiado aqui esse facto de indiscutível pertinência que é a posição da Igreja católica Croata sobre a educação sexual nas escolas croatas. Como se estas lavagens cerebrais não bastassem, cá dentro (em Portugal) discutia-se o salário mínimo – um pindérico ersatz do debate que o governo (e oposição, e sociedade civil...) não sabe nem quer fazer sobre as opções políticas para uma reforma do estado – e não faltou sequer o Dr. António Borges a dar o seu parecer com aquele sentido de oportunidade a que já nos habitou. 

Sobrou o Dia Internacional da Mulher, um dia muito celebrado nos países muçulmanos e nos países de leste da ex-esfera da ex-União Soviética. Por algum motivo que ainda não percebi, este ano o folclore e os clichés lamechas mantiveram-se distantes de mim, tendo sido a minha atenção canalizada para as inúmeras estatísticas sobre a condição/situação da mulher em diferentes partes do mundo que, a pretexto do Dia da Mulher, foram publicadas em diferentes meios de comunicação. Não fui confrontada com nada que não se soubesse ou adivinhasse, mas o impacto de ler tantas estatísticas em tão pouco tempo deu – de repente uma outra dimensão e significado a um “Dia de” que preferia não existisse. Há muito a fazer para garantir a segurança das mulheres e seus filhos, e garantir a igualdade de tratamento e de oportunidade para as mulheres do mundo todo. Maria João Marques lembra algumas das mais importantes questões neste post ‘levezinho’.

22/03/12

Não posso ter simpatia pelo que José Medeiros Ferreira diz hoje neste seu post. É verdade que o debate fica mais pobre. É lamentável que a sociedade perca alguém que “que tem ideias próprias, e positivas”. Mas o problema está no vocábulo ‘predador’ retetido vezes sem conta e que tem definido Strauss-Kahn, sem que seja desmentido de forma categórica, nem processados os que o fazem. O seu silêncio fala e parece que não há como desmentir. Aliás procurando bem pululam, e não só pela Europa, histórias (até acredito que algumas nem sejam verdadeiras) que confirmam essa condição predatória. Não estamos a falar de promiscuidade, de sedução ou de circunstâncias de igualdade; um cenário predatório é um cenário de desigualdade e pressupõe sempre uma presa. Neste cenário que, repito, não foi até hoje categoricamente desmentido, quer a igualdade quer o consentimento da outra parte é desvalorizado/ignorado. Enquanto mulher digo que não há inteligência nem debate que valha ou compense a falta de consentimento de uma só mulher. É simplesmente uma questão de princípio.

10/04/11

Mulheres 2

Estas heroínas de Made in Degenham nunca mediram inteiramente as consequências dos seus actos ao concordarem em fazer greve e, claro, nunca pensaram que chegariam onde chegaram. Este facto revela alguma uma inocência e frescura ingredientes importantes para a simpatia que o filme gera no espectador. Esta ingenuidade política das grevistas é demonstrada por oposição à mulher do gestor da fábrica, essa sim, uma mulher inteligente, culta (formou-se em Cambridge) e de outra classe social que percebe o que está em causa, a extensão das reivindicações das grevistas, e que lhes mostra o seu apoio à causa da igualdade de salários.

Outro dos ingredientes interessantes no filme é o da determinação da luta. Contra os sindicatos, bastiões retrógrados e machistas, contra os homens e colegas trabalhadores que se vêm prejudicados e que as querem a trabalhar, e contra alguns maridos pouco habituados a manifestações de força e de determinação da parte das suas “esposas”. Elas mantém-se firmes e fieis à lógica do seu argumento: igualdade de pagamento, e não vacilam no momento de ir ao congresso dos sindicatos pedir apoios.

Essa firmeza e fidelidade à luta tem na base sua base a solidariedade feminina, um conceito fonte de inúmeros lugares comuns e especulações e que constantemente se questiona. Essa solidariedade, e ao contrario da masculina que é mais “espontânea” faz-se na intimidade partilhada, não surge do nada. Tece-se com soutiens (é muito interessante o facto de, no verão e por causa do calor, as trabalhadoras da fábrica se despirem e trabalharem em soutien), fraldas, lágrimas, celulite e vestidos (o vestido, um Biba anos 60, que a líder das grevistas leva quando vai falar com a Ministra é emprestado pela mulher do gestor).

No final, o que tem de ser tem muita força. Assim será sempre.

08/04/11

Mulheres (*)

Made in Dagenham (Igualdade de Sexos) pode não ser uma obra-prima, pode não arrastar multidões, nem sequer será um filme indispensável, mas é um filme inteligente e divertido. É uma mistura interessante de comédia light, com acontecimentos reais e com mensagem política. As personagens, apesar da ligeireza, são muito verosímeis, e é impossível não simpatizarmos com estas mulheres que fazem uma greve porque pedem igualdade salarial: para trabalho igual remuneração igual. A equação é simples, a mentalidade é que não. Em 1968, em Inglaterra, elas foram pioneiras e abriram caminha para transformações na legislação.

Pensando bem, grande parte do trabalho feminista – a quem todas nós mulheres tanto devemos – mais marcante e determinante para a valorização do papel da mulher, fundamentou-se sobretudo na força da evidência, da lógica da racionalidade. Acesso ao voto, pagamento igual para trabalho igual, igualdade no acesso à educação, fim da discriminação, foram imposições mais ou menos demoradas e sofridas, da lógica e da racionalidade, e sempre servidas pela coragem e luta de tantas mulheres. Quando a luta feminista sai destes parâmetros, torna-se mais pantanosa pois normalmente está ao serviço de uma determinada ideologia, de uma moda, ou de uma mera fantasia (pseudo-científica, pseudo- psicológica, etc).

As mulheres do filme confrontadas com a evidência que era a desigualdade salarial para trabalho igual, uniram-se numa luta laboral. No fim do filme em clima ligeiro e festivo (e com música dos anos 60) são apresentados testemunhos dessas mulheres reais que ainda hoje vivem e que fizeram essa greve na fábrica da Ford de Dagenham; uma diz aquilo que o filme consegue transmitir: elas não se tinham apercebido da força que tinham, nem da força do argumento naquela época.
(Continua)
(*) Título "roubado" ao FNV.

01/07/08

As Mulheres Fazem Política de Forma Diferente?

Tem-se perguntado “por aí” nestas últimas semanas se as mulheres têm uma maneira diferente de estar e de fazer política da dos homens. É a velha história de se as mulheres escrevem de forma diferente dos homens se gerem empresas de modo diferente dos homens etc, etc. Este item da agenda pensante do momento lembrou-me uma cena a que assisti há não muito tempo e que me pareceu interessante, bem como relevante para este caso.

Duas crianças, um rapaz de 7 anos e uma rapariga de 5 anos brincavam com um Action Man que tinha um enorme carro/habitação/quartel-general todo equipado para o conforto, para as imprescindíveis telecomunicações, para defesa, ataque, para camuflagem e para a sobrevivência em geral. O rapaz mexia mais nos gadjets do que no boneco propriamente dito; preparava a secretária para telecomunicar, as armas para defender e atacar, organizava os restantes equipamentos para que estivessem prontos para quando fossem necessários e dedicava-se com atenção a essas tarefas. A menina pegava no Action Man que estava vestido, talvez equipado fosse uma palavra mais correcta, e perguntava-lhe, com ar de quem sabe o que faz, se ele tinha feito cócó e se tinha limpo o rabo, isto perante o olhar atónito do miúdo. Depois disse que ele tinha que ir dormir e foi buscar a rede guardada num canto do veículo multi-funções, tentou desfazer a secretária, isto é a central de telecomunicações, para estender a rede e o pôr a dormir. O rapaz ficou parado, e depois de uma pausa para tentar perceber o que se passava, diz-nos de forma divertida mas paternal: “ela pensa que é a mãe dele!”

Esta cena não me sai da cabeça, mas creio que só posso tirar conclusões mais sérias e daí inferir algo de conclusivo para a forma de ambos os sexos fazerem política quando vir duas crianças, rapaz e rapariga a brincar com uma Barbie. É a peça que falta.

20/06/08

Um Post de Generalidades, mas

O tema não merece mais nem melhor. Manuela Ferreira Leite cometeu o pecado de ter enunciado a sua condição de mulher ao dizer que, cito de cor, As mulheres não pensam 24 horas na política, e que pensam noutras coisas. Caiu o Carmo e a Trindade, jornalistas, bloggers, analistas, comentadores, políticos da esquerda, políticos da direita têm-se detido nesta frase e encontrado mil razões para verem nela sinais de incompetência política, feminismo, oportunismo, falta de feminismo, eu sei lá! You name it, they saw it. Para mim a frase revela a mais óbvia das realidades, diria mesmo que é de uma banalidade total, e ao enunciá-la entrarei com gáudio no reino das generalidades: uma mulher, seja ela quem for, nunca pensa 24 horas na mesma coisa. Mesmo que queira, não consegue, porque não a deixam, porque ela não quer, sei lá: porque é assim, ponto. Há sempre um neto que nasce, uma empregada que telefona pois não percebeu o que era o jantar, a caixa de e-mail que nem queremos abrir, um filho que deita sangue pelo nariz, a reunião marcada para as 18 e 30 e as crianças que só podem estar no colégio até às 19 e o pai delas que não atende o telefone, a filha que hoje à noite vai sair e ainda não se sabe bem com quem, a mensalidade do sei-lá-o quê que esqueceu pagar, as calças do marido que já estão prontas na tinturaria há uns dias e ele que teima em se esquecer de ir buscar, a mãe que telefona pela enésima vez a perguntar se não nos esquecemos do aniversário da tia, a sogra que não consegue falar com o filho, o ex-marido que este mês ainda não pagou a pensão das crianças mas foi ao Brasil de férias, aquele fato lindo e que faz tanta falta será que se aguenta até aos saldos, o relatório que não se consegue começar pois o departamento x ainda não mandou os dados, o telemóvel que toca à noite com o(a) chefe a pedir informações para a reunião que vai ter de manhã... Poderia continuar, mas acho que não vale a pena.

Este acontecimento que se criou à volta da frase de MFL fez-me lembrar a reacção dos media franceses quando descobriram que Segolène Royale usava bikini e a fotografaram assim na praia. Então queriam que ela usasse o quê: um fato Chanel? Uma burka? Ela é mulher, e as mulheres vestem bikinis. Eu já vi fotografias dos políticos na praia e não me lembro de os media se deterem no tipo de fato de banho que eles escolhem calção ou sunga, no comprimento dos calções, surfista ou boxer, se são de licra justos ou de sarja largueirões... Escreve-se muito sobre a igualdade de tratamento, mas isso é pura ficção pois as mulheres ainda são tratadas de forma diferente, e isso vê-se no dia em que ousam lembrar a sua condição de mulher e lhes cai o mundo em cima da esquerda à direita: ou porque disse e não devia ter dito, ou porque não disse a coisa correcta da forma correcta.

E continuando com generalidades, pois entre o estereótipo do homem e o estereótipo da mulher, há toda uma interessante gama de cinzentos, poderíamos dizer coisas do género “as mulheres riscam os carros e não se importam, pois para elas, eles são meros objectos utilitários”, “as mulheres têm mais capacidade para ouvir os outros”, “as mulheres são mais sensíveis às questões sociais”. As mulheres dizem coisas destas, será que as mulheres políticas não o podem fazer? Que tipo de discriminação é essa? Voltando ao Caso MFL: o que poderia ter sido uma questão política pertinente sobre a oportunidade ou não da sua ausência e consequente silêncio na semana dos bloqueios, inquinou-se e transformou-se na espuma de uma banalidade e numa questão corriqueira de “MFL se aproveitar do facto de ser mulher”. E já agora: se alguma vez ela se aproveitou ou vier a aproveitar do facto de ser mulher, merece todo o meu respeito e só mostra que é uma mulher a sério e que deve ser levada a sério.

15/04/08

Estrogénio e Progesterona

Não me lembro de um acto, decisão, medida política de Zapatero de que tenha gostado. Mas de repente e sem pensar muito daria uma lista exaustiva de actos decisões, medidas, tomadas de posição, prioridades políticas, de que discordei. Tal como com o conteúdo político, não gosto do seu estilo, desse constante bicos de pés que se vê na vontade de estar sempre na crista da onda politicamente correcta tudo muito bem planeado pelos profissionais do marketing comunicacional político. Mas hoje – acreditando que estas nomeações não têm como único objectivo colocarem Zapatero num patamar mais alto do politicamente correcto – tenho que confessar que o admiro pela escolha de tantas ministras e muito particularmente pela ousadia de ter nomeado uma Ministra da Defesa grávida. Ver uma mulher grávida Ministra a passar revista às tropas é uma imagem carregada de simbolismo à qual, enquanto mulher, é difícil ficar indiferente.

Num mundo em que as mulheres políticas em cargos de maior responsabilidade tendem ainda a ter como modelo Margaret Thatcher e a ser, como tantas vezes se comenta, mais homens do que os homens, pela determinação, força e exigência, dá gosto ver uma mulher política no auge da sua feminilidade: redonda, com estrogénio e progesterona no seu máximo e com roupa feminina tal como a sua condição exige. Final de gravidez, parto, aleitamento, e a respectiva montanha russa hormonal, eis o que espera a Ministra da Defesa espanhola e, como se isso fosse incompatível com o exercício de qualquer cargo de responsabilidade, eis os medos e tabus (tão previsíveis, afinal) por trás das críticas que têm sido feitas a esta escolha de Zapatero. Se não, eu não percebi mesmo o que é que se critica com esta nomeação: a nomeada aparentemente ter competência e curriculum? Ser socialista? Ser Mulher? Estar grávida?

22/05/07

Da Identidade

“Noni had recovered her confidence only when it was too late. Life had passed her by and in those days things had to happen fast for a girl, or they didn’t happen at all.”
Kiran Desai, The Inheritance of Loss

Li, porque fui obrigada e não porque me apetecesse ou tivesse sentido algum impulso empático, Simone de Beauvoir e Benoite Groult, e fui conhecendo os movimentos feministas que tinham despontado em várias partes do mundo nomeadamente em Portugal apesar de nunca ter querido ler “As Três Marias”. Para além das verdades incontornáveis, sempre em número muito menor do que queriam fazer crer, todo o feminismo descrito nas obras lidas me parecia hostil, estranho, demagógico e por vezes de uma agressividade que eu, ainda a aprender a ser mulher, rejeitei. Nunca percebi, por exemplo, porque é que para usufruirmos de igualdade de oportunidades tínhamos de, por um lado ser hostis para com o mundo masculino, e por outro adoptar atitudes e comportamentos (e vestuário) tipicamente masculinos. No entanto o século passado ficou inegavelmente marcado na nossa sociedade ocidental pela grande participação das mulheres na vida pública e pela chegada das mulheres a lugares antes exclusivos dos homens, e muito disso se deve aos movimentos feministas.

No entanto onde se nota uma cada vez maior evolução nas mentalidades bem como na vida vivida por cada uma de nós (mulheres), é no facto de podermos ser sempre mulheres. Explico. Hoje ser mulher não é só aquele breve momento do auge da beleza física (bloom) que começa na pós adolescência quando a rapariga “entrava” para o mercado do casamento à procura de um bom marido, para que logo de seguida deixasse de ser simplesmente mulher para ser “a mulher de”, e terminava muitas vezes com a chegada da maternidade, passando a ser mãe e continuando a ser mulher de. A pouco e pouco a mulher diluía-se nos novos papeis em que outros eram protagonistas. Hoje, a mulher reclama a sua identidade independentemente do estado civil, da maternidade ou não, da carreira profissional ou não. Cada vez mais ela é ela própria. Hoje todos os dias são cada vez mais, dias de novas oportunidades, de novos desafios, de recomeços, e de escolhas, reclamando para nós os mesmos direitos de busca da identidade, de afirmação e de realização pessoal, que os homens têm usufruído ao longo dos tempos. Hoje, de certo modo, já não se joga tudo naqueles breves momentos do fim da adolescência.

Tenho escrito aqui no blogue notas com o título “Véu Islâmico”. Uso esse título porque dificilmente consigo olhar para o “véu islâmico” como um exercício de liberdade individual, mesmo nas sociedades ocidentais onde ele funciona como símbolo de pertença. Não consigo deixar de olhar para esse “véu islâmico” como um símbolo da anulação dessa identidade feminina, feita por sociedades hostis às mulheres e com leis que cerceiam o desenvolvimento da sua identidade e liberdade pois as consideram seres menores e inferiores.

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