Li há umas semanas, em pouco tempo e porque os livros estavam à minha frente, dois contos de Agustina Bessa-Luís. Estações da Vida (com prefácio de António Barreto) nem é bem um conto nem uma novela, no sentido em que não é uma sequência narrativa, mas funciona como um painel de azulejos, de alusões, episódios, personagens, vidas cruzadas, todos olhados com perspicácia, humor e compaixão (partilhar a paixão e não ‘ter pena’) e tendo como ponto de partida as Estações ferroviárias da linha do Douro que Agustina mais frequentava na infância e juventude. A Torre, um livro pequeno de capa dura e autografado pela autora, é hoje um livro raro. É um pequeno condensado de Agustina, do seu olhar, humor fino, perversidade.
Lembro-me do que relembrei e lembro-me de na altura ter pensado como é divertido ler Agustina. Como é imprevisível, como a forma inusitada com que tece umas histórias nas outras e nos deixa por vezes sem norte. Como me rio sempre que leio algum dos seus famosos aforismos, truísmos ou sentenças, dos mais sensatos aos mais absurdos e aparentemente despropositados. Como as suas personagens femininas são fascinantes, e como quase sempre e de forma mais ou menos insidiosa, mais ou menos perversa as percebermos motor da narrativa. Como o seu olhar é impiedoso e inclemente perante a patetice.
Tenho que ler mais vezes Agustina Bessa-Luís. Uma escritora de outros tempos, e tão de agora.
Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, (...) E, afora este mudar-se cada dia, Outra mudança faz de mor espanto: Que não se muda já como soía.
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04/06/19
12/07/18
Corps et Âmes
“Anna, soror ...”, uma pequena novela de Marguerite Yourcenar lê-se de um folgo, não só por ser pequena, mas porque se nos cola às entranhas. A inevitabilidade do desenrolar da história dos dois irmãos Anna e Miguel, e porque suspeitada ou imaginada cedo, é a inevitabilidade do leitor que não consegue, nem quer, parar de ler. Cola-se-nos às entranhas porque habitamos o corpo e a alma (corps et âmes) destas personagens, sentimos o que sentem, vemos o que veem, vivemos os locais onde vivem. É a vida, é um pulsar forte de algo que ultrapassa a decisão, a vontade, e que simplesmente está - sem rodeios nem rodriguinhos, sem moralismos nem lições civilizacionais, sem culpas nem desculpas, sem militância, nem vontade de desafiar mentalidades. Tudo escrito com elegância e mestria, mas falamos de Marguerite Yourcenar. Ela faz isso, falo sobretudo nas suas novelas pequenas como Le Coup de Grâce ou Alexis ou Le Traité du Vain Combat, livros que li de um fôlego e que marcaram. É sempre um prazer lê-la.
No Posfácio da edição desta novela (edição da Galllimard de 1981) feito por MY, leio que a novela foi escrita na sua juventude, mais precisamente entre os seus 18 e 23 anos. É extraordinário perceber que já aos 18 anos se revelava uma pessoa com uma profundidade de pensamento e conhecimento que espanta. Independentemente das capacidades intelectuais bem como do nível de conhecimento e cultura que MY demonstrava na juventude, há uma maturidade na escrita e na forma de contar a história que espanta. Não só espanta como convida a que estabeleça comparações com o que conheço hoje e não preciso de grande reflexão e elucubração para perceber que nem aos 18, nem aos 23 anos, se encontram níveis de maturidade e profundidade que, de uma forma ou de outra, tenham algum paralelo com o que leio em Yourcenar. Aliás iria um pouco mais longe: num tempo em que se promove e cultiva, como coisa normal e em qualquer idade, a eterna adolescência - uma forma adolescente de ser, de olhar a vida, de opinar, de decidir - a maturidade serena e assumida faz-se um bem escasso e é um alívio encontrá-la.
Unexpectedly I found a small novella by Marguerite Yourcenar, "Anna, Soror …", that I had not read yet. In no time I finished it, not just because it is small, but because it draws us body and soul (corps et âmes) in a way that we became the characters, we feel in our guts what they feel, we crave like they crave, we see what they see, we live the places they know. From the star we are in a path that knows no escape, no decision and no will. With fierce intensity, elegance and restrain, but holding nothing back, and with no apologies or easy moral judgements, Yourcenar tells us the story of Miguel and Anna, and the book is a pleasure to read.
I was surprised to know that she wrote the book in her youth. Besides her knowledge and culture, she shows surprising maturity and depth. We can’t even find in adults such maturity, since we seem today to nurture and applaud, whatever the real age, a young (out of college) pathos, that is reflected in the way of being, living, thinking, deciding. It is refreshing and reassuring, then, to find such adulthood and maturity.
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23/03/13
Se Tivermos Sorte, Chegamos a Velhos
Ontem folheava uma revista quando parei na fotografia de Paul Auster que ilustrava a entrevista. Pensei: “está velho”, aquilo que tantas vezes pensámos sempre com uma surpresa que não nos deveria surpreender: nada mais inevitável do que o passar do tempo e o envelhecimento dos outros que de vez em quando vemos na rua ou numa fotografia. Se nos lembramos deles quando eram “novos” é, só por si, um sinal inequívoco e indesmentível de que também nós envelhecemos. Não precisamos sequer de ir ao espelho, pois não há como escapar deste axioma. Como costumo dizer: se tivermos sorte, também nós chegamos a velhos.
Estava eu ainda meia enredada nestes considerandos semi-metafísicos acerca do “ser velho” e do “parecer velho”, quando vejo a fotografia (que presumo relativamente recente), bem como a notícia da morte de Óscar Lopes. Nela, Óscar Lopes tem o cabelo branco e algumas rugas na cara mas, ao contrário de Paul Auster, não parecia tão obviamente “mais velho” do que quando o conheci na Faculdade de Letras da Universidade do Porto onde foi meu professor. Ele nunca teve propriamente (também ao contrário de Paul Auster) um ar ‘jovem’ e/ou "desportivo", como hoje é suposto termos e como tentamos, sempre teve uma constituição delicada e algo frágil. Mas isto foi tudo há alguns anos, há bastantes anos; é melhor nem fazer as contas.
Muitas vezes me tenho perguntado para que serviram os meus anos passados na faculdade num curso marcadamente teórico. Para além da pertinência e importância inegável ‘do canudo’ (que o diga Miguel Relvas), consolidei na Faculdade umas bases culturais que hoje considero terem sido sólidas. No entanto constato que sobretudo aprendi a pensar. E aprendi-o em várias vertentes. Primeiro, e numa época em que o Google não respondia de imediato às dúvidas, nem resolvia lacunas do saber, havia uma importante questão de organização, estrutura e prioridade: era preciso decidir o que queríamos saber, como o queríamos saber, onde ir buscar esse saber. Depois, num segundo momento, tínhamos que aproveitar ao máximo e rentabilizar cada gota de saber adquirido para o fazer render, se possível para outras cadeiras e outras matérias afins. Começávamos assim a relacionar os conhecimentos adquiridos e a flexibilizá-los. Finalmente, e quando não tínhamos os ditos conhecimentos – falhas nos apontamentos, bibliografia não consultada - tínhamos que pensar duas vezes mais ‘forte’ para chegarmos a algum lado a nível de estruturar uma resposta, para tirarmos alguma conclusão. Assim desenvolvíamos alguma criatividade e uma atitude crítica.
Para além de ‘aprender a pensar’ aprendi também ‘algumas coisas’: a gostar ainda mais de literatura, e de arte em geral, e a conhecer melhor a nossa língua e a nossa literatura. Óscar Lopes foi um professor fundamental nessas aprendizagens. Numa altura em que não se tinha medo de ensinar literatura no secundário (liceu), todos estudávamos na sua (e de António José Saraiva) História da Literatura Portuguesa, sem que isso tenha traumatizado especialmente a minha e tantas outras gerações. Ainda hoje consulto essa obra sempre que preciso ou me apetece. Foi no entanto na faculdade, quando o tive como professor, que percebi a dimensão do seu amor à língua e à literatura e a sua vastíssima erudição. Era um professor (um Professor Catedrático) tranquilo mas apaixonado pela matéria que dava, e a sua cadeira de História da Língua Portuguesa foi uma das que mais me ensinou e das que mais gostei. Tinha uma visão muito larga, um conhecimento vastíssimo, mas aliado à humildade própria de quem sabe muito e sabe sobretudo que nada sabe - uma atitude que num meio académico, em que tantos passeiam a sua vaidade intelectual que às vezes não passa mesmo disso, nos corredores das faculdades, é bem mais rara do que seria desejável. Estava sempre disponível para o aluno o que, aliado a um trato afável, o tornavam surpreendentemente acessível. Nunca se falou de política nas suas aulas, nunca houve nenhum tipo de proselitismo e era quase unânime a simpatia que os alunos sentiam por ele. Deixou-me ‘saber’ e boas memórias.
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07/06/12
Sons and Lovers
Afterwards she said she had been silly, that the boy’s hair would have had to be cut, sooner or later. In the end, she even brought herself to say to her husband, it was just as well he had played the barber when he did. But she knew, and Morel knew, that that act had caused something momentous to take place in her soul. She remembered the scene all har life, as one in which she had suffered the most intensely.
This act of masculine clumsiness was the spear through the side of her love for Morel. Before, while she had striven against him bitterly, she had fretted at him, as if he had gone astray from her. Now she ceased to fret for his love: he was an outsider to her. This made life much more bearable.
D. H. Lawrence, Sons and Lovers
O tom do livro, publicado em 1913, está dado. Estamos num universo intimista, em que se fala da alma, das expectativas, das desilusões, de procura da felicidade, e onde se lê a ambição na realização pessoal. As personagens investem na relação afectiva entre elas (ultrapassando toda a formalidade) e vivem num quadro de teias afectivas complexas e contraditórias. O último parágrafo transcrito é uma ilustração dessa complexidade e espelha também uma visão sem pudor da alma. É um Parágrafo intenso e duro e nele já sentimos pairar a presença de um universo freudiano que abre novos caminhos na ficção literária, e que nos mostra que este romance está bem ancorados no séc. XX.
O título não engana: ‘Sons and Lovers’. Quem mais íntimo do que os filhos e os, neste caso as, ‘lovers’? ‘Lover’ é muito mais do que ‘namorada’ que é uma palavra demasiado formal e social, deveria ser ‘amante’, mas a palavra hoje, lamentavelmente soa pejorativa e vem com toneladas de julgamento moral.
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13/11/11
Indignation 2

(Primeira parte aqui)
Esta é uma narrativa sobre o último ano da vida de Marcus, e nada neste período o marca mais do que a sua primeira experiência sexual. Marca ao ponto de determinar a futura sucessão de eventos que, de forma inabalável, o condiciona nas suas opções. Num capítulo único, combinando de forma surpreendente os seus ingredientes preferidos, sexo e morte, Roth muda o tom da novela. Da pura narrativa passamos para um tom mais reflectivo e confessional. O jovem Marcus, já morto, olha para trás e analisa cada detalhe desse primeiro e surpreendente encontro sexual. Porquê? Como? Como ler o gesto de Olívia?
Even now (if “now” can be said to mean anything any longer), beyond corporeal existence, alive as I am here (if “here" or “I” means anything) as memory alone (if “memory”, strictly speaking, is the all-embracing médium in which I am being sustained as “myself”), I continue to puzzle over Olivia’s actions. Is that what eternity is for, to muck over a lifetime’s minutiae?
O capítulo é intenso , quer porque essa “minutiae” é exposta de todas as formas que Marcus (já morto) consegue explorar, quer porque ele se interroga sobre a natureza do seu estado e a natureza da morte,
(...) I have a strange suspicion that you can die here too (...),
o papel da memória enquanto parte desse estado,
(...) But dream or no dream, here there is nothing to think about but the bygone life. Does that make “here” hell? Or heaven?
o juízo final (so to speak),
And the judgment is endless, though not because some deity judges you, but because your actions are naggingly being judged for all the time by yourself. (...) retelling my own story to myself round the clock in a clockless world.
Neste mesmo capítulo, e apesar das dúvidas e interrogações que o gesto de Olívia lhe suscitam, percebemos a inevitabilidade (obrigação?) do jovem Marcus se apaixonar por Olívia, a rapariga da cicatriz. O ‘pathos’ da novela tem a sua origem neste momento, a novela atinge o seu clímax e muda o tom: a intensidade duplica. A vida, para Marcus, deixa de ser feita de ideias claras e simples e decisões lineares, para ganhar em perplexidade, em textura e densidade.
É neste registo intenso e quase urgente de se sentir ‘ser’ e ‘viver’ que eu aprecio mais Roth, e Indignation faz jus ao autor. Um livro que não se pousa enquanto não se acaba: a palavra certa no sítio certo, as frases cheias de ‘meaning’ que se sucedem, a intensidade de estar vivo, de ser jovem e de ter o sangue ‘quente’. Todos estes ingredientes conjugados em rara intensidade, mas de uma forma tão desprovida de pretensão e esforço que, fosse eu escritora, poderia invejar. Assim limito-me a gozar.
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24/10/11
Indignation

Gosto de Philip Roth sobretudo nos romances pequenos (novelas): Dying Animal, Everyman (um favorito) por exemplo, e agora Indignation lido há pouco. Gozei cada linha e foi um prazer voltar a ler Roth. A força da sua escrita é extraordinária sempre, mas nestas obras mais pequenas parece ganhar em sensibilidade, e até em subtileza, mesmo quando nada mais na narrativa é subtil. A história é a da pujança da juventude, dessa força em bruto em toda a sua beleza e simplicidade, sem nuances deslocadas ou forçadas. A narrativa começa de forma simples e vai ganhando corpo. O jovem Marcus (um judeu filho de um dono de talho kosher) dá os primeiros passos na sua afirmação como indivíduo adulto longe dum pai que adora,
What I learned from my father and what I loved learning from him: that you do what you have to do.
mas que o sufoca de amor e preocupação, uma preocupação que imediatamente se sente como premonitória. Ao sair de casa para uma universidade suficientemente longe para permitir o seu afastamento da família, Marcus depara-se com um mundo novo longe do talho e do bairro judeu, onde tenta encontrar o seu lugar entre pares e academicamente. A narrativa funciona em crescendo, assim como a vida com a sua complexidade a desabar sobre o jovem Marcus: primeiro o pai, depois os colegas de quarto, a universidade, a discriminação étnica (um dado adquirido), o sexo, as emoções amorosas, a namorada, a mãe,
“A girl so wounded as to do such a thing is not for you (...) She is a beautiful young woman, (...) she is well brought up. Thought maybe there is more to her upbringing than meets the eye. (...) You never know the truth of what goês on in people’s houses. I have nothing against her. I wish the girl luck. (...) But yoy are my only son and my only child, and my responsability is not to her but to you. You must Sever the connection completely. You must look elsewhere for a girlfriend.”
“I understand”, I said.
“Do you? Or are you saying so to avoid a fight?” (...) This girl is full of tears. You see that the moment you look at her. Inside she is full of tears. (...) Because other people’s weakness can destroy you as much as their strengh can. Week peolple are not harmless. Their weakness can be their strengh."
Este é um dos vários diálogos e momentos de marcada intensidade dramática que lemos no romance. Falta uma peça chave de Indignation: a morte, que surge inusitadamente e permanece de forma curiosa.
(Continua)
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Philip Roth
06/10/11
Justiça
Como já desabafei algumas vezes, a literatura para mim são os livros que leio, os que releio, os que quero ler, os que ainda não li e acho que devo ler, e eventualmente aqueles que nunca me apeteceu ler, mas... Os ditos ‘meios’ literários, as críticas de livros, as feiras do livro, a crise do livro, as editoras suas fusões e aquisições, a política do livro, e um sem fim de problemática sobre livros e literatura (que não são sinónimos, nunca é de mais referir) não me fazem bater uma pálpebra. O mesmo se passa com o prémio Nobel com a diferença que neste caso se trata de um prémio com uma imensa visibilidade e peso mediático (e financeiro). Normalmente nem me lembro que existem, nem nunca me lembrei de fazer prognósticos e exprimir desejos sobre A ou B merecedores do prémio, por isso os prémios nunca me desiludem e também nunca li um livro só porque A ou B foram ou são um prémio Nobel. Verdade seja dita que os escritores de que mais gosto estão todos mortos o que facilita este desprendimento. Por isso todos os anos, malgré moi, me divirto com os desejos e prognósticos que leio sobre os escritores merecedores da distinção e posteriormente do que leio sobre a justiça da atribuição do prémio. Aliás esta noção de ‘justiça/injustiça’ na atribuição dos prémios é a mais divertida. Como se ela fosse o principal critério selectivo e, caso o fosse, como é que se determinaria esse critério de ‘justiça literária’. Enfim, ficam os meus parabéns ao Senhor Tomas Tranströmer de quem pouco fiquei a saber pelas notícias que li na nossa imprensa on-line. Em breve lerei sobre a 'justiça/injustiça' do prémio. Resta-me dizer que, ao contrário das pessoas ‘do meio’, eu nem sabia que Tomas Tranströmer existia; poesia sueca não é o meu forte.
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06/07/11
Um Pretexto para Falar de Livros
A Teresa Ribeiro do Delito de Opinião convida-me a responder a estas questões. Um bom pretexto para falar sobre livros.
1 - Existe um livro que relerias várias vezes?
Releio cada vez mais. E de todos os livros que leio, releria certamente uns 30%.
2 - Existe algum livro que começaste a ler, paraste, recomeçaste, tentaste e tentaste e não conseguiste ler até ao fim?
Ulisses, James Joyce. Também só li os dois primeiros volumes de À la Recherche du Temps Perdu, Proust. Senti que se lesse mais, quem andaria 'à la recherche du temps perdu' seria eu. Muito bonito, muito longo, muito chato.
3 - Se escolhesses um livro para ler no resto da vida, qual seria?
Provavelmente a Biblia. Quanto mais não seja porque é enorme e porque, como se costuma dizer, está lá tudo.
4 - Que livro gostarias de ter lido mas que, por algum motivo, não leste?
Ulisses, James Joyce. D. Quixote, Cervantes. Também nunca li na íntegra a Ilíada e a Odisseia de Homero. Espero ainda lê-los.
5 - Que livro leste, cuja cena final jamais conseguiste esquecer?
Associo cenas finais a filmes e, por muito que tenha tentado não consegui lembrar uma em livros. Só me lembro em filmes.
6 - Tinhas o hábito de ler quando eras criança? Se lias, qual era o tipo de leitura?
Não muito. O pouco que lia eram versões do Gato da Botas e outros contos infantis. Nunca li literatura juvenil, salvo umas coisas ‘para meninas’. Quando comecei, por volta dos 12/13 anos comecei ‘a sério’ e a colecção Livros do Brasil era central. Muita Pearl Buck, O Admirável Mundo Novo, Aldous Huxley; O Fio da Navalha e Servidão Humana de Somerset Maugham, (li quase todos os seus contos nessa altura); algum Graham Green nomeadamente O Poder e a Glória; A Condição Humana, André Malraux. Entretanto comecei também a ler policiais e banda desenhada. A partir daí nunca mais parei. Ainda hoje não gosto especialmente de literatura juvenil e menos ainda de literatura infantil - sobretudo da que se dá nas escolas, tão certinha, tão direitinha, tão irritante.
7 - Qual o livro que achaste chato, mas ainda assim leste até ao fim? Porquê?
Les Misérables, Victor Hugo, mas devo ter lido mais. Raramente deixo um livro a meio e dantes nunca deixava, porque só considero um livro lido quando o é da primeira à última palavra.
8 - Indica alguns dos teus livros preferidos.
São muitos e muitos. Dos mais antigos começo com um preferido de sempre Decameron, Boccaccio. Também The Tales of Canterbury, Geoffrey Chaucer; Romeo and Juliet, Shakespeare. Do séc. XIX há uma lista infindável. Destaco Os Maias, O Primo Basílio e A Cidade e as Serras de Eça de Queirós, As Novelas do Minho de Camilo Castelo Branco. Todos de Jane Austen, quase todos das irmãs Brontë (Wuthering Heights e Jane Eyre sobretudo), Middlemarch, Geoge Elliot. Russos: todos os que li com destaque para Guerra e Paz, Lev Tolstói e Os Irmãos Karamazov, Dostoievsky. Franceses: L’Éducation Sentimentale, Flaubert. La Chartreuse de Parme, Stendhal. Também há muitos do séc XX, o português Mau Tempo no Canal de Vitorino Nemésio. Outros mais recentes, correndo o risco de esquecer muitos, Disgrace, Coetzee, Midnight's Children, Salman Rushdie, On Chesil Beach e Atonement de Ian McEwan, Everyman, Philip Roth. Séc XXI, Freedom, Jonathan Franzen.
9 - Que livro estás a ler?
Palimpsest, Gore Vidal. Collected Stories, John Cheever. E O Livro de Cesário Verde.
Já li as respostas de tantos bloggers que não lembro mais nenhum.
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22/03/11

As mulheres são conhecidas por olharem para um armário cheio de roupa e dizerem “não tenho nada que vestir”. Não sou eu que vou desmentir esse cliché, mas eu padeço também de outro mal: olhar para as estantes cheias de livros e dizer “não tenho nada para ler”. De vez em quando sou apanhada “desprevenida”, quando algo acontece naquele planeamento mental sobre o que quer e vou ler, pois normalmente tenho uma “wish list”. Às vezes, num processo mental qualquer que me escapa, perco-a, e fico a sentir que nada tenho para ler, coisa que fisicamente não é verdade: ainda não li todos os livros que tenho. Os contos são sempre uma tábua de salvação: servem de pausa entre os meus “desejos planeados” de leitura que podem ser vários, contraditórios e a precisar de negociação e distancia para decidir.
Num desses momentos vi-me perante Nouvelles Orientales, uns contos fantásticos de Marguerite Yourcenar com um pano de fundo que vai do Mediterrâneo ao Extremo Oriente. Lembrei que a conheci e li, em francês, muito cedo com uns livros improváveis de que pouco se fala, mas que me fascinaram: Alexis ou le Traité du vain combat, e Le Coup de Grâce (só muito depois li L’Oeuvre au Noir, e depois ainda Mémoires d’Hadrien, por exemplo). Lembrei o fascínio com que li Alexis, uma obra rara de uma extraordinária sensibilidade e profundidade que ainda considero uma pequena obra-prima e talvez a minha primeira abordagem em literatura à homossexualidade. Sempre gostei da densidade e alguma secura da sua narrativa e da sua escrita viril. Estes contos fantásticos não fogem à regra: há sempre uma crueldade visceral e linear, quase que diria natural no sentido de que é assim que é suposto acontecer, que mais cedo ou mais tarde se manifesta e que move as personagens nestes contos fantásticos. E é esse o ingrediente que nos prende, surpreende, arrepia.
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13/02/11
Finais Felizes 2
- E não desejas nada? – perguntei
- Nada do que seja impossível – respondeu, adivinhando o meu sentimento (...)
- E não tens pena de nada do passado? – continuei a perguntar-lhe, sentindo que o meu coração se apertava cada vez mais.
Ficou pensativo. Percebi que ele queria responder-me com toda a franqueza.
- Não! Replicou.
- Não é verdade! Não é verdade! – disse eu, virando-me e olhando-o nos olhos. Não tens pena do passado?
- Não! – repetiu. – Estou-lhe grato, mas não lamento nada.
- Não gostarias de fazê-lo voltar?
Virou-se de mim e começou a olhar para o jardim.
- Não o desejo da mesma maneira que não desejo que me cresçam as asas – disse ele. É impossível!
- E não reprovas o passado? Não te censuras a ti próprio nem a mim?
- Nunca! Foi tudo pelo melhor!
Lev Tolstói, A Felicidade Familiar
Do mesmo modo que Tolstói descreve a anatomia de uma morte em “A Morte de Ivan Ilitch” (uma obra-prima relida recentemente) em “A Felicidade Familiar” – um outro longo conto – ele descreve a anatomia de um amor. De um forma quase despudorada ele invade a intimidade das personagens, Macha (a narradora) uma jovem de dezassete anos e Serguei Mikkáilitch um homem mais velho e mais vivido, e disseca cada olhar, cada frémito, cada hesitação, cada pulsão, cada sentimento. Descreve-nos o enebriamento da paixão, a exaltação da cumplicidade que se tece em cada expiração, essa necessidade permanente de estarem juntos, essa solidão que se cria à volta dos dois que nada mais querem sentir e ver Senão a sua imagem espelhada no outro. Mas o conto não termina aqui.
O conto expõe com uma sensibilidade extraordinária os sentimentos mais íntimos e mais profundos das personagens sem juízos, nem lições, e de forma detalhada seguimos o percurso do casal que começa a ser feito de afastamentos, equívocos, intenções mal interpretadas, para percebermos o que é que acontece depois do confortável “final feliz” que tão bem conhecemos na versão “casam e são felizes para sempre”. Ele explica de forma comovente como se constrói e de que matéria é feita essa felicidade e percebemos que o sofrimento e a renúncia (nomeadamente ao desejo do passado, e ao romantismo juvenil) são as matérias principais dessa construção e do apaziguamento e aceitação para então termos um verdadeiro final feliz.
Olhei para ele, e de repente senti uma leveza na alma: como se me tivessem extraído aquele nervo moral que me doera e me fizera sofrer. Percebi nítida e tranquilamente que o sentimento daquele tempo desaparecera e era irrecuperável, tal como o próprio tempo passado, que fazê-lo voltar não só era impossível, mas ainda penoso e constrangedor. E também, será que aquele tempo que me parecia tão feliz era na verdade perfeito? E que longínquo, que longínquo era aquilo!...
Lev Tolstói, A Felicidade Familiar
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26/01/11
Os Prémios Que Surpreendem
O meu mundo anda ao contrário. Leio romances americanos e vejo filmes europeus, contrariando os meus antigos e acarinhados chavões. Se a primeira frase é sobretudo retórica a segunda decorre de uma generalização que ao longo dos tempos me tem sido útil: prefiro normalmente romances europeus (ou quase) e prefiro normalmente cinema de Hollywood (ou quase). As generalizações, apesar de redutoras e simplistas, têm a sua utilidade. Destaco duas: a primeira é permitir-nos construir frases opinativas simples, mesmo que nem sempre rigorosas, e a segunda é dar-nos capacidade de exultar na excepção. Gosto de ambas, mas acarinho sobretudo a última.
Haja oportunidade e darei conta de alguns dos romances lidos. Sobre os filmes as notas são mais simples: desde o outono destaco apenas dois filmes, de Hollywood: Entre Irmãos, o que mais gostei; A Cidade o mais emocionante.
Dos filmes de fora de Hollywood vi boas comédias como Le Concert (O Concerto) e Mine Vaganti (na infeliz tradução de Uma Família Moderna), originais, inteligentes (uma qualidade preciosa e nem sempre abundante e/ou valorizada) e divertidas, isto é, que fazem sorrir e rir. Contrastam com duas comedias de Hollywood, a primeira nem sequer uma referência merece, mas destaco o tão aclamado e premiado filme The Kids Are All Right (Os Miúdos Estão Bem) que vale pelas excelentes interpretações e sólida realização, mais nada. O filme é de uma previsibilidade e tédio surpreendente e, apesar de ser classificado como comédia, nunca causou sequer cócegas cerebrais, muito menos originou um sorriso ou uma gargalhada. Outro filme que, apesar de menos previsível e de ter igualmente excelentes interpretações e sólida realização, não consegue escapar totalmente ao aborrecimento, é o aclamado e premiado “The Social Network” (A Rede). Pergunto-me como é que estes dois filmes são o sucesso que são e objecto dos prémios que têm recebido: creio que só o são pelos temas que abordam e que hoje são “moda”: famílias de pais do mesmo sexo e facebook.
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19/12/10
Antes dos Policiais 2
“Os maridos, meu caro, só matam nas novelas ou nos trópicos, onde fervilham paixões africanas! Quanto a nós bastam-nos os horrores dos roubos por arrombamento ou das falsificações de identidade”.
Anton Tcheckov, “Um Drama na Caça” (Colecção Vampiro).
Regresso sempre à Literatura Russa. Leio de novo ou releio, é igual. Diz-se que nunca se deve regressar a um local onde se foi feliz. A Literatura é um local onde esta máxima não se aplica, pelo menos para mim, pelo menos para já. Um conforto.
“Um Drama na Caça”, foi publicado em folhetins no ano de 1884-1885, sendo das primeiras obras de Anton Tcheckov e é considerado o seu único romance, embora me pareça mais uma “novela”. Para quem conhece e aprecia os contos de Tcheckov, esta novela causa surpresa. As simples, mas precisas pinceladas, a lembrar um inspirado traço de “line drawing” que compõem os seus contos: as suas personagens, o seu enredo, o seu desfecho; bem como a inevitabilidade do que acontece, estão ausentes desta novela. Nela encontramos um cheiro de modernidade no facto de ser uma (ainda inocente) novela policial, um género que começava a dar os primeiros passos, mas sobretudo somos confrontados com um ambiente de excessos, de contradições, de fraquejar que nos lembram alguns atormentados heróis românticos de vida dissoluta, de tormentos secretos, impulsos pérfidos e desejos escuros que são, no entanto diferentes, por exemplo, dos heróis dostoievskianos divididos pelas dúvidas sobre o bem e o mal e pela procura de absoluto. Vejamos:
“Os espíritos mais mesquinhos afirmavam que o ilustre conde via na pessoa de um pobre juiz de instrução criminal, de origem humilde, um mero companheiro de bebedeiras.”
(…) “Teriam dito algo mais se soubessem como é suave, débil e submissa a natureza do conde e como a minha é forte e obstinada. E teriam acrescentado ainda mais se estivessem ao corrente de quanto aquele homem fraco me estimava e quão escassa era a minha simpatia por ele”.
(…)“De quantas desgraças me teria livrado e que bem teria feito ao meu amigo se, naquela tarde, eu tivesse tido a coragem de voltar atrás” (…)
O mote está lançado: não há lugar a subtileza, nem contenção nesta novela. As descrições e a linguagem são ricas e pictóricas e a sensualidade lasciva abunda. O trágico e o decadente andam de mão dada. Tudo parece excessivo: o que se vê, o que se sente, o que se diz, o que se faz.
“Decorrida uma hora estávamos a comer à volta de grandes mesas. Para quem se achava habituado às teias de aranha, à sujidade da mansão e aos gritos dos ciganos, aquela multidão que rompia com as suas conversas fúteis o silêncio das divisões solitárias, era motivo de espanto.”
(…)“Eu detestava aquela multidão que, com frívola curiosidade, observava os traços de declínio da minguante fortuna dos Karnieiev.”
(…)“ Sentia o exagero de tal oratória, que despertava o riso dos circunstantes. Apesar do champanhe que havia bebido, não parecia alegre; exibia a mesma palidez que revelara na igreja, o mesmo terror nos olhos”.
Estes pequenos excertos da novela mostram como estamos longe do sóbrio Theckov a que a leitura dos contos nos habituou. Este é certamente um Tcheckov mais novo, mais exuberante, com uma linguagem adjectivada, rica e intensa que quase toca o exagero, numa novela com toda a “alma” russa possível (camponeses pobres, aristocracia à beira da ruína, meios pequenos e mesquinhos, muita bebida) e que se lê de um folgo, sempre à espera de saber o que vai acontecer de seguida, tal como nos bons policiais. Com a inocência dos primeiros passos que se dão neste género policial, o final reserva-nos uma surpresa, num estilo que posteriormente fez história.
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04/12/10
Antes dos Policiais

In some of my former novels, the object proposed has been to trace the influence of circumstances upon character. In the present story I have reversed the process. The attempt made, here, is to trace the influence of character on circunstances. The conduct pursue, under a sudden emergency, by a young girl, supplies the foundation on which I have built this book.
É com estas palavras do início do seu prefácio a “The Moonstone” que Wilkie Collins define o romance por oposição a “The Woman in White”, hoje o seu mais conhecido e aclamado romance, uma longa obra de intriga, mistério e suspense e um dos grandes romances vitorianos, lido e relido.
Andava há já muito, com curiosidade de ler “The Moonstone”, o seu outro famoso romance, sobretudo porque o caracterizam como um precursor das histórias policiais. Fi-lo recentemente e senti, coisa rara, o romance como demasiado longo (600 páginas de letra pequena). Senti que se repetia, se explicava e se alongava em demasia, algo que por vezes me fazia perder o ritmo da leitura. No entanto a intriga e o mistério estão lá, o enredo é complexo, vivo, ousado e as personagens não ficam atrás em complexidade e interesse e, para dar o cunho “policial” ao romance temos um astuto detective da polícia a contribuir para a resolução do caso. O uso de drogas com a finalidade de manipular comportamentos surge como uma ousadia e a narração, feita através de várias personagens, ajuda também a dar corpo a uma certa “modernidade” que se respira neste romance publicado em 1868. A "young girl" que Collins refere no excerto do prefácio acima transcrito, não desilude, e mais uma vez pensamos em como era curta a juventude nos séculos (e décadas) que nos precederam, em como aos 18 anos já se era dono de si e tantas vezes de uma fortuna, de um destino, e de responsabilidades para consigo e com os outros que de si dependem, e pensamos em como hoje todos teimam em prolongar a juventude e a desresponsabilização, mas isso é outro assunto. "Moonstone" é um bom romance, haja em nós alguma determinação para ler e acabar, e paciência com os excessos narrativos e descritivos.
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Wilkie Collins
05/08/10
Nada Solar

Comecei a ler “Os Maias”. Reler, claro, provavelmente pela quarta vez. Ao fim de umas dezenas de páginas já estou (como previa) encantada e contente por voltar a este romance ao fim de tantos anos. É inegável o conforto de ler um livro que já sabemos que é bom, de termos a certeza. Deve ser por isso que releio às vezes com redobrado prazer o que já tinha gostado de ler. Lembrei-me de um romance lido recentemente sem grande prazer e acabado mais por uma noção de “dever”, do que pela minha vontade. Mas como poderia eu saber que o romance não me iria interessar (pelo contrário). Como minimizar estas perdas de tempo e perdas estéticas a ler romances de que não gostamos e que consideramos medíocres?
A minha resposta é sempre a mesma: refugiando-me com muito frequência em território seguro, isto é, obras com mais de cem anos que perduram. A minha recente desilusão tem o nome “Solar” e foi escrita por Ian McEwan. Um romance impecável, bem escrito – às vezes até irritantemente bem escrito, em que o cinismo reina e o “humano” parece ausente noutra dimensão que não as mais imediatas. Há algo de mecânico no romance que cria distância, talvez para que o cinismo, a ironia e a descrença se tornem mais visíveis. As personagens são frias e desinteressantes. Por exemplo o Dr Beard, a personagem principal, é homem ambicioso, egocêntrico e superficial que tudo o que quer é manter importância, estatuto e influência. Este extracto que a seguir transcrevo em que ele olha para si, é um exemplo de um dos mais intensos e profundos momentos de introspecção:
"Beard was surprised to find out how complicated it was to be a the cuckold (...) At last, he knew himself for what he was (...) as he came out of the shower, he wiped down the glass, stood full on and took a disbelieving loook. What engines of self-persuasion had let him think for so many years that looking like this was seductive?"
Dr Beard, um físico, ganhou um Nobel pelo seu trabalho na área do “aquecimento global” e as mudanças climáticas. Vive da reputação que criou, mas hoje o seu cepticismo é notório:
“(...) one was always living at the end of days (...). The end of the world was never pitched in the present, where it could be seen for the fantasy it was, but just around the corner, and when it did not happen, a new issue, a new date would soon emerge. (...) When it did not happen, and after the Soviet empire had been devoured by its internal contradictions, and in the absence of any other overwhelming concern behond, intransigent global poverty, the apocaliptic tendency had conjured yet another beast”, que são as mudanças climáticas e o aquecimento global.
Outros ingredientes para esta obra que desilude, a dependência dos subsídios para criação e manutenção de gabinetes de estudo e investigação, a irrelevância das conferências feitas pelo mundo e a falsidade e vazio dos conferencistas, a luta pelos lugares de topo, a manutenção da reputação explorando o trabalho alheio, o privilégio com pouco trabalho real, são sinais da distância, cinismo e descrença que da primeira à última página povoam esta obra desinteressante que pouco apetece continuar a ler.
Muito longe do Ian McEwan intimista, profundo e elegante, e que se lê naturalmente e com gosto, de Atonement ou dessa fabulosa novela que é On Chesil Beach.
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24/07/10
Middlemarch
Há umas semanas (meses?) comprei, num desses impulsos que os técnicos de marketing tão bem conhecem e exploram através da visibilidade que dão ao seu produto, “A Viúva Grávida” de Martin Amis, edição da Quetzal. Nunca tinha lido nada de Amis e há algum tempo que tinha curiosidade e vontade de ler um dos seus romances. Esta pareceu-me uma oportunidade tão boa como qualquer outra. Em casa, ao ver o livro perguntei-me porque é que o tinha comprado (nessa dúvida pós-compra, que apesar dos psicólogos do marketing também conhecerem bem, raramente me aflige, sobretudo com livros), uma vez que poderia tê-lo encomendado pela Amazon e assim lia a versão original como sempre gosto de fazer quando domino bem a língua e conheço a cultura. Enfim, disse comigo, com esta compra ganham as editoras e os tradutores nacionais.
Ontem peguei no livro e comecei a lê-lo. Não estava a ser um caso de amor à primeira vista, o que não é necessariamente mau presságio, muitos livros de que gostei não me prenderam nas primeiras dezenas de páginas. No entanto sentia uma narrativa pouco fluida, e sentia algo de errado com a linguagem. Algumas frases não “soavam” bem e mais do que uma vez me perguntei como seriam no original em inglês. Até que cheguei à página 41 onde vejo a seguinte frase:
O único romance que ela elogiava sem reservas era “Meados de Março” (1).
Na nota no fim da página apenas: (1) Middlemarch.
Meados de Março? O quê? Está tudo louco? E a nota é irrelevante: não esclarece quem não sabe. Eu sei que os tempos estão difíceis, que as editoras não têm dinheiro mas querem ganhá-lo com livros competitivos, que os tradutores têm também de ser competitivos (eufemismo para ser barato) e de cumprir prazos, e tudo o mais que se poderia dizer sobre o assunto. Mas pergunto-me, vale a pena “fazer” livros de qualquer maneira e a qualquer preço? Parece que sim, e está tudo bem assim. Eu é que estou mal porque me irritei, porque fiquei espantada e porque pousei o livro traduzido por alguém que não faz ideia do que é Middlemarch, nem procurou saber, nem tão pouco procurou esclarecer os leitores, que esses sim, não têm obrigação de saber. Já agora: Middlemarch é o título de um dos melhores – e mais importantes - romances ingleses do séc. XIX. Foi escrito por George Elliot (uma mulher), e Middlemarch não tem nada de “Meados de Março”, é sim o nome de ficção da cidade de província no centro de Inglaterra (Midlands) onde se passa a acção do romance.
Ser tradutor de língua inglesa e não conhecer o básico da sua literatura e cultura, é um mau cartão de visita. Fiquei sem vontade de continuar a ler a “Viúva Grávida” (que não tem culpa nenhuma, coitada), pelos menos esta tradução. Perde Martim Amis, ganha Geoge Elliot: apetece-me reler, ou pelo menos perder-me uns tempos com as 800 páginas dessa obra-prima que é Middlemarch e revisitar uma das mais interessantes personagens femininas de sempre, Dorothea Brooke. Não é coisa para “faint hearted”, nem para as gerações alimentadas a literatura infantil, e a imediatismos: 800 páginas demoram tempo a ser digeridas.
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03/07/10
La Chartreuse de Parme 4
Tenho dificuldade em considerar Fabrice a personagem principal do romance (título que atribuiria a Gina del Dongo ou Duchesse Sanseverina), pois é uma personagem de menor espessura do que outras, mas Fabrice é, inegavelmente, a personagem em torno da qual o enredo do romance é tecido, é a personagem que motiva os actos das outras personagens, que despoleta circunstâncias, amores, paixões, ódios, castigos. Se não é a personagem principal, é seguramente a personagem central. Fabrice,
plein de grâces, grand, bien fait, une figure toujours riante...et, mieux que cela, un certain regard chargé de douce volupté...
a quem poucas mulheres resistem, é um exemplo da inocência que inunda La Chartreuse de Parme e que é feita de ligeireza, privilégio de berço, “inssouciance”, idealismo e entusiasmo (os seus ideais liberais), alguma imprudência (a ida dele a Waterloo é disso o melhor exemplo), uma vaga melancolia e desprendimento que ele confessa numa alusão a Gina, La Duchesse Sanseverina,
elle croira que je manque d’amour pour elle, tandis que c’est l’amour qui manque en moi; jamais elle ne voudra me comprendre.
Esta ligeireza de Fabrice é incómoda para os outros que lhe invejam a aparência, o berço, o charme...
La première qualité chez un jeune homme aujourd’hui, c’est-à-dire pendant cinquante ans peut-être, tant que nous aurons peur et que la réligion ne será point rétablie, c’est de n’être pas susceptible d’enthousiasme et de n’avoir pás d’esprit.
... e é incómoda para si próprio que sofre as consequências que essa inveja despoleta, na forma de contrariedades, uma atrás de outra, e que ele vai sempre sabendo ultrapassar com a ajuda dos que o amam, nomeadamente da Duchesse Sanseverina. Só o sofrimento o transformará, o sofrimento, como perda da inocência e dessa forma de ligeireza que o caracteriza, surgir-lhe-á muito mais tarde, depois de conhecer o amor e então percebemos que Fabrice, sempre equipado para contornar e sobreviver às contrariedades, é impotente perante perante a enormidade, a densidade e o peso desse novo sentimento. Ele não tem a capacidade para lidar com e sobreviver ao sofrimento.
Excertos de Stendhal, La Chartreuse de Parme.
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23/06/10

Depois dos exageros (digo eu) após a morte de José Saramago, Eduardo Pitta fala-nos com espanto sobre o silêncio e indiferença perante a morte de António Manuel Couto Viana. Isto só mostra a massa de que é feita o país: mais de eventos do que de alma. Não há nem direita nem esquerda que escape a este fado.
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21/06/10
La Chartreuse de Parme 3
Continua o Comte Mosca della Rovere:
Je dirais plus: ici il faut être sincère, ma gaieté ne laisse-t-elle pas entrevoir, comme chose toute proche, le pouvoir absolu... et la méchanceté? Est-ce que quelquefois je ne me dis pas à moi-même, surtout quando on m’irrite: Je puis ce que je veux? Et même j’ajoute une sottise: je dois être plus heureux qu’un autre, puisque je possède ce que les autres n’ont pas: le pouvoir souverain dans les trois quarts des choses... Eh bien! Soyons juste; l’habitude de cette pensée doit gâter mon sourire... doit me donner una ir d’égoïsme... content...Et, comme son sourire à lui (Fabrice) est charmant! Il respire le bonheur facile de la premiere jeunesse, et il le fait naître.
(...) En croyant raisonner je ne raisonne pas; je me retourne seulement pour chercher une position moins cruelle (...) Puisque je suis aveuglé par l’excessive douleur, suivons cette règle, approuvée de tous les gens sages, qu’on appelle prudence.
Neste excerto intenso e perturbantemente lúcido o Comte Mosca apercebe-se de que o poder (je puis ce que je veux) que lhe vem da presença na corte (onde se fazem fort villaines choses) e da sua grande influência junto do monarca, o deveriam fazer “heureux”, mas não. Afinal o poder mancha-lhe o sorriso e a sua alegria é tingida pela maldade, até pela dor excessiva, ou a ironia, sinais de uma inocência há muito perdida. Sobra-lhe um conforto: os homens que, apesar da cegueira do sofrimento, da dor e da desilusão, conseguem aprender a ser sábios, substituem a inocência perdida com o cultivo da prudência.
Stendhal, La Chartreuse de Parme
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14/06/10
La Chartreuse de Parme 2
Pensa o Comte Mosca della Rovere:
Il (Fabrice) a surtout cet air naïf et tendre et cet oeil souriant qui promettent tant de bonheur! Et ces yeux-là la duchesse ne doit pas être accoutumée à les trouver à notre cour!... Ils sont remplacés par le regard morne ou sardonique. Moi-même, poursuivi par les affaires, ne régnant que par mon influence sur un homme qui voudrait me tourner en ridicule, quels regards dois-je avoir souvent? Ah! Quelques soins que je prenne, c’est surtout mon regard qui doit être vieux en moi! Ma gaieté n’est-elle pas toujours voisine de l’ironie?...
Stendhal, La Chartreuse de Parme
O prazer de ler romances como este. O prazer de voltar a ler francês – há muito que não o fazia – mas um francês elegante e bonito, cheio de “passé simple” e conjuntivos difíceis de conjugar, daqueles que já ninguém ousa usar e que hoje não se ouvem nunca.
Voltando ao romance. A juventude versus a maturidade, a corte e o poder versus as relações sinceras e informais entre os seres humanos, e o amor que na obra funciona quase como uma subcategoria da juventude (versus maturidade) são uma constante do romance de mais de seiscentas páginas. Poderia tentar ser ainda mais sintética dizendo que a inocência é a grande personagem do romance, é ela ou a sua ausência que constantemente vemos através das inúmeras personagens e circunstâncias por elas criadas. O espanto, grande companheiro da inocência, tem também uma função retórica, porque através dele é tecida ardilosamente a cumplicidade com o leitor.
(continua)
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24/05/10
La Chartreuse de Parme
La politique dans une oeuvre littéraire, c’est un coup de pistolet au milieu d’un concert, quelque chose de grossier et auquel pourtant il n’est pas possible de refuser son attention.
Nous allons parler de fort vilaines choses, et que, pour plus d’une raison, nous voudrions taire; mais nous sommes forces d’en venir à des évènements qui sont de notre domaine, puisqu’ils ont pour théâtre le coeur des personnages.
(...) De tout ceci, on peut tirer cette morale, que l'homme qui approche la cour compromet son bonheur, s'il est heureux, et dans tous les cas, fait dépendre son avenir des intrigues d'une femme de chambre.
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