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04/06/19

A Última Estação

Li há umas semanas, em pouco tempo e porque os livros estavam à minha frente, dois contos de Agustina Bessa-Luís. Estações da Vida (com prefácio de António Barreto) nem é bem um conto nem uma novela, no sentido em que não é uma sequência narrativa, mas funciona como um painel de azulejos, de alusões, episódios, personagens, vidas cruzadas, todos olhados com perspicácia, humor e compaixão (partilhar a paixão e não ‘ter pena’) e tendo como ponto de partida as Estações ferroviárias da linha do Douro que Agustina mais frequentava na infância e juventude. A Torre, um livro pequeno de capa dura e autografado pela autora, é hoje um livro raro. É um pequeno condensado de Agustina, do seu olhar, humor fino, perversidade. 

Lembro-me do que relembrei e lembro-me de na altura ter pensado como é divertido ler Agustina. Como é imprevisível, como a forma inusitada com que tece umas histórias nas outras e nos deixa por vezes sem norte. Como me rio sempre que leio algum dos seus famosos aforismos, truísmos ou sentenças, dos mais sensatos aos mais absurdos e aparentemente despropositados. Como as suas personagens femininas são fascinantes, e como quase sempre e de forma mais ou menos insidiosa, mais ou menos perversa as percebermos motor da narrativa. Como o seu olhar é impiedoso e inclemente perante a patetice. 

Tenho que ler mais vezes Agustina Bessa-Luís. Uma escritora de outros tempos, e tão de agora.

23/05/13

Mau Tempo No Canal

Mil anos que vivesse, Margarida não esqueceria a noite do baile no meio daquelas jaquetas dos rapazes do Capelo e das saias rodadas das vizinhas da Rosa Bana. Sentia-se ali como a prancha que vem do alto mar e encontra enfim uma posição capaz de fixar as gaivotas e a sua própria massa de seivas, as suas fibras, os furos a que agarram conchinhas e algas verdes. Lapuzes, sim; brutinhos e suados. Mas eram vivos; as velhas dividiam-nos em “machos” e “fiminhas” nas conversas da pedra do lar. Era a sua gente, através de Manuel Bana, que andara com ela ao colo e tinha confiança no seu paladar para provar a alcatra, e no seu gosto para espetar alegra-campos no pão de cabeça das esmolas. De resto, aqueles dois dias e duas noites no Capelo eram sobretudo o campo, os cerrados de milho já alto e embandeirado, o moinho do Cabouco onde se metera a ler uma tarde inteira e de onde descobrira um ponto colado ao horizonte – um grande navio de vela que seguia a favor do vento para a banda das Flores. Vitorino Nemésio, Mau Tempo no Canal

Aos vinte anos tinha lido já muitos livros e visto muitos filmes. O que não sabia então é que, anos depois ao reler os ditos livros e rever os ditos filmes, iria dar-me conta do pouco que na altura percebia e apreendia do que lia e via e, no entanto, de como foi importante ter lido e ter visto mesmo (sobretudo porque?) sem ter percebido e apreendido. E hoje não sei é o que pensarei quando, daqui a uns anos,  reler e a rever de novo. Voltei a pensar nisso ao reler Mau Tempo no Canal, por muitos considerado o melhor romance de língua portuguesa do séc. XX. Dei comigo inúmeras vezes a ler parágrafos e páginas mais do que uma vez. Depois do espanto perante a qualidade e beleza da escrita de Vitorino Nemésio, queria só saboreá-la nesse romance que ia lendo devagar e sem vontade de acabar, de tal forma me deleitava com o esplendor que a língua portuguesa (e neste texto refiro-me à especificidade  que melhor conheço - o português que se fala em Portugal) assume nas suas mãos. Já não estava habituada a tal espanto perante a qualidade da escrita e perante a beleza da língua... tão mal tratadas andam ambas: a qualidade do que se escreve, a língua que se fala e escreve. 

Assim vale a pena ler em português, coisa que – sabe quem me costuma ler – não faço com muito frequência. A leitura do romance serve para evidenciar – como se fosse necessário - os ditos maus-tratos a que anda submetida a nossa língua nos nossos dias. A confusão gerada pelo agora sim, agora não, talvez sim, talvez não, do acordo ortográfico, o ‘politicamente correcto’ da intenção e a leviandade da decisão e implementação vem juntar-se a um generalizado falar mal e escrever pior que ouvimos e lemos todos os dias, na rua, na televisão, nos jornais, na internet. O vocabulário segue modas à medida que se vai retraindo. Menos palavras em circulação, mais frases feitas de simples estrutura e tempos verbais que não exijam cuidado. Muito desleixo, poucas concordâncias. São também os ‘haviam’, os ‘póssamos’, os ‘téni’, os ‘pogramas’ ou os ‘há-des’, entre outros, que se ouvem a cada instante. Já nos meios a que chamamos ‘elites’ (eli...quê?) abundam os ‘ajustamentos’ e ‘reajustamentos’ uns meses depois, as ‘estruturações’ e respectivas (meses depois) ‘reestruturações’, as ‘alavancagens’, as ‘flexibilidades’, os ‘concensos’, um sem fim de vocábulos ambíguos do terreno do economês e politiquês que propiciam o discurso redondo dos intervenientes políticos. Fica difícil perceber o sentido, e em última análise a verdade do que dizem, se é que realmente querem dizer alguma coisa. 

Mau Tempo no Canal é, e isto dito por alguém que não se deixa levar por exacerbações de patriotismo, é um bálsamo de portugalidade, e lê-lo, entre outras virtudes de que depois darei conta, lembra-me a belíssima língua que temos e do que há de bom em ser português. Afinal, em tempos austeros em que Portugal pouco mais parece ser do que uma teimosa nuvem densa e cinzenta, Vitorino Nemésio limpa-nos a alma.

23/03/13

Se Tivermos Sorte, Chegamos a Velhos

Ontem folheava uma revista quando parei na fotografia de Paul Auster que ilustrava a entrevista. Pensei: “está velho”, aquilo que tantas vezes pensámos sempre com uma surpresa que não nos deveria surpreender: nada mais inevitável do que o passar do tempo e o envelhecimento dos outros que de vez em quando vemos na rua ou numa fotografia. Se nos lembramos deles quando eram “novos” é, só por si, um sinal inequívoco e indesmentível de que também nós envelhecemos. Não precisamos sequer de ir ao espelho, pois não há como escapar deste axioma. Como costumo dizer: se tivermos sorte, também nós chegamos a velhos.



Estava eu ainda meia enredada nestes considerandos semi-metafísicos acerca do “ser velho” e do “parecer velho”, quando vejo a fotografia (que presumo relativamente recente), bem como a notícia da morte de Óscar Lopes. Nela, Óscar Lopes tem o cabelo branco e algumas rugas na cara mas, ao contrário de Paul Auster, não parecia tão obviamente “mais velho” do que quando o conheci na Faculdade de Letras da Universidade do Porto onde foi meu professor. Ele nunca teve propriamente (também ao contrário de Paul Auster) um ar ‘jovem’ e/ou "desportivo", como hoje é suposto termos e como tentamos, sempre teve uma constituição delicada e algo frágil. Mas isto foi tudo há alguns anos, há bastantes anos; é melhor nem fazer as contas. 



Muitas vezes me tenho perguntado para que serviram os meus anos passados na faculdade num curso marcadamente teórico. Para além da pertinência e importância inegável ‘do canudo’ (que o diga Miguel Relvas), consolidei na Faculdade umas bases culturais que hoje considero terem sido sólidas. No entanto constato que sobretudo aprendi a pensar. E aprendi-o em várias vertentes. Primeiro, e numa época em que o Google não respondia de imediato às dúvidas, nem resolvia lacunas do saber, havia uma importante questão de organização, estrutura e prioridade: era preciso decidir o que queríamos saber, como o queríamos saber, onde ir buscar esse saber. Depois, num segundo momento, tínhamos que aproveitar ao máximo e rentabilizar cada gota de saber adquirido para o fazer render, se possível para outras cadeiras e outras matérias afins. Começávamos assim a relacionar os conhecimentos adquiridos e a flexibilizá-los. Finalmente, e quando não tínhamos os ditos conhecimentos – falhas nos apontamentos, bibliografia não consultada - tínhamos que pensar duas vezes mais ‘forte’ para chegarmos a algum lado a nível de estruturar uma resposta, para tirarmos alguma conclusão. Assim desenvolvíamos alguma criatividade e uma atitude crítica. 

Para além de ‘aprender a pensar’ aprendi também ‘algumas coisas’: a gostar ainda mais de literatura, e de arte em geral, e a conhecer melhor a nossa língua e a nossa literatura. Óscar Lopes foi um professor fundamental nessas aprendizagens. Numa altura em que não se tinha medo de ensinar literatura no secundário (liceu), todos estudávamos na sua (e de António José Saraiva) História da Literatura Portuguesa, sem que isso tenha traumatizado especialmente a minha e tantas outras gerações. Ainda hoje consulto essa obra sempre que preciso ou me apetece. Foi no entanto na faculdade, quando o tive como professor, que percebi a dimensão do seu amor à língua e à literatura e a sua vastíssima erudição. Era um professor (um Professor Catedrático) tranquilo mas apaixonado pela matéria que dava, e a sua cadeira de História da Língua Portuguesa foi uma das que mais me ensinou e das que mais gostei. Tinha uma visão muito larga, um conhecimento vastíssimo, mas aliado à humildade própria de quem sabe muito e sabe sobretudo que nada sabe - uma atitude que num meio académico, em que tantos passeiam a sua vaidade intelectual que às vezes não passa mesmo disso, nos corredores das faculdades, é bem mais rara do que seria desejável. Estava sempre disponível para o aluno o que, aliado a um trato afável, o tornavam surpreendentemente acessível. Nunca se falou de política nas suas aulas, nunca houve nenhum tipo de proselitismo e era quase unânime a simpatia que os alunos sentiam por ele. Deixou-me ‘saber’ e boas memórias.

25/09/11

Uma Noite de Coincidências e Improbabilidades (*)

Hoje ao ler o Público on-line vejo esta notícia com fotografia a merecer um destque que nem a vitória do Sporting ou os golos de Cristiano Ronaldo (notícias imediatamente anteriores) tiveram: Valter Hugo Mãe em maiúsculas numa noite de coincidências, e segue-se uma notícia aparvalhada sobre improbabilidades, lançamento de livro, aniversário, amigos do Brasil, Mário Soares, e em como valter hugo mãe passa a ser Valter Hugo Lemos, e mais outras tantas parvoíces. Aliás parvoíces é o que mais leio sobre este autor: ora porque foi dormir na cama de Fernando Pessoa na Casa Fernando Pessoa (coitado de Fernando Pessoa que deve ter tido náuseas debaixo da terra), como se isso fosse um feito literário único e como se isso lhe desse uma qualquer aura literária especial, ora porque comove e deixa ao rubro uma assembleia na Festa Literária Internacional de Paraty, como um pregador evangélico em excessos retóricos e emotivos a invocar a força do Espírito Santo para a assembleia de fieis. Livros dele não li e não gosto; mas no meio desta parafernália e coreografia, verdade seja dita que eles ocupam um lugar de pouco destaque.

A personagem que o autor cria é servida por uma rede comunicacional bem forjada, apesar de desinspirada, pois os media seguem-no e reportam cada passo que dá fazendo dele uma espécie de Lili Caneças (sem desprimor para a Lili Caneças, a original) do meio literário passeando-se de livraria em livraria, de iniciativa em iniciativa e de festa literária em festa literária. A vantagem de Lili Caneças é que não ocupa as páginas dos jornais, nem nos vendem como notícia as suas prestações em festas de solidariedade a não ser nas publicações “cor-de-rosa”. Valter Hugo Mãe tem sempre direito a notícia de destaque qualquer que seja a parvoíce em que se envolve, ou será que dormir na cama de Fernando Pessoa como experiência místico-literária merece mais destaque comunicacional do que dar a cara numa festa de solidariedade? É por isso que eu não percebo nada de meios literários (e outros) e que, cada vez mais, a literatura é só e somente os livros que leio.

(*) Expressão tirada da notícia e que espelha a notícia.

14/06/11

Outra Vez Camilo 3 (Os Homens)

O mundo maioritariamente rural de Camilo nas Novelas do Minho não é só habitado por mulheres e, da mesma forma que Camilo cria personagens femininas densas e complexas, também o faz com as personagens masculinas. Os homens não escapam à lupa tantas vezes irónica (repito-me) de Camilo que aumenta alguns dos seus traços ao ponto de quase desenhar caricaturas.

Assim mesmo, o pedreiro, se tinha muitas maldades de avarento, possuía também algumas belas qualidades de pai; e uma, digna de bastante memória, é que, tendo ele em casa arsénico para matar ratos, não o administrou ao filho.
Camilo Castelo Branco, As Novelas do Minho, Volume 1, A Morgada de Romariz

Quando entraram no quinteiro, saía o lavrador da adega, onde pela terceira vez fora matar o bicho, aquela hidra de Lerna que botava cabeças todo o santo dia no bucho hercúleo de João da Lage.
Camilo Castelo Branco, As Novelas do Minho, Volume 2, Maria Moisés

Nestes dois excertos encontramos exemplos do lavrador, sem instrução ou cultura, que trabalha, melhor ou pior e que, melhor ou pior, vai sustentando a família. É muitas vezes bronco, às vezes bruto. Mas há mais...

Camilo perdoa as fraquezas do coração e da paixão e observa os apaixonados, homens e mulheres, sem preconceito e até com simpatia. Mas mostra nas novelas pouca compaixão pelas suas personagens masculinas quando elas, cegas pela ambição se deixam guiar por motivos mercenários, ou quando, por imaturidade, leviandade e prepotência, se mostram inconsequentes e irresponsáveis nos seus actos.

Corridos dois anos de vida bem comportada, foi admitido em uma sociedade de carvoaria de sobro, por onde lhe seria possível readquirir os bens esbanjados: mas, apenas a fortuna lhe sorriu, a sua índole brava sopeada pela pobreza, partiu as algemas, e tornou às antigas proezas e ribaldarias com o femeaço.
Camilo Castelo Branco, As Novelas do Minho, Volume 3, O Degredado

Ainda assim o estreme espírito português, por mais que o afiem e agucem, é sempre rombo e lerdo: não se emancipa da velha escola das farças: é chalaça.
Camilo Castelo Branco, As Novelas do Minho, Volume 1, Gracejos que Matam

Neste mosaico de personagens que, para facilitar a feitura destas notas, tentei ‘categorizar’ há um tipo omnipresente que não podemos esquecer: o fidalgo.

Um dos mancebos mais completos por património, nascimento e gentileza, no concelho de Celorico era o fidalgo de Agilde (...). Se eu tivesse de ir, ao arrepio, na peugada genealógica deste sujeito, encontrava-me com o macaco de Darwin. É família muito antiga a dos Marramaques, - são anteriores à história e talvez aos macacos. E, se me não falha a conta dos avós apurados nesta linhagem, o dilúvio universal está desmentido.
Camilo Castelo Branco, As Novelas do Minho, Volume 2, O Filho Natural

Camilo tem especial afecto pelos fidalgos, mesmo quando é trocista, sarcástico, implacável e mesmo quando lhes descobre – e não perdoa, literariamente falando, claro - más intenções, maus instintos, maus fígados. Camilo gosta e demora-se a explicar genealogias e pertenças (as terras, os solares) sem que detalhe algum falte ao leitor. Esta parcialidade pela fidalguia de província e conservadora (o contacto destes fidalgos com as cidades, sobretudo Lisboa, é sempre interessante, quando não divertido) e o cuidado com que conta a história das famílias e locais são um dos sinais da índole conservadora de Camilo Castelo Branco.

02/06/11

Outra Vez Camilo 2 (As Mulheres)

Decerto já observou, leitor, em senhoras de província um desembaraço bronco, um remexerem-se e bacharelarem-se despropositadamente, - desaires resultantes de lhes haverem dito que o pejo e o acanhamento são indícios de educação aldeã. Estes despejos improvisados sem delicadeza nem natural (...) abrem margem a suspeitas indecorosas; (...).
Camilo Castelo Branco, Novelas do Minho, Volume 1, Gracejos que Matam.

Camilo é um excelente fazedor de personagens. Molda-as com todas as nuances possíveis, dá-lhes espessura, volume, densidade e faz delas seres únicos e irrepetíveis. Esta dimensão, patente na sua capacidade de construir seres humanos (as suas personagens) completos, complexos e com alma, foi talvez uma das que mais me surpreendeu ao ler as Novelas do Minho, e faz dele, sem dúvida nem favor, um romancista de primeira linha. A forma como ele cria e molda as ‘suas’ personagens femininas (meninas, mulheres), não escapa a este perfeccionismo. Não há personagens-tipo, nem pré-fabricados, há sim personagens inigualáveis, e há sobretudo o seu olhar (enquanto narrador) que nunca perde uma 'nuance' e sempre cheio de ironia, ou de compaixão, ou simpatia, ou aversão, mas sem nunca lhe sentirmos preconceito.

Estes excertos são exemplos dessa fina observação que referi. Hoje, as senhoras de província, pertencem a outras ‘geografias’ que não a província tal como era no séc. XIX, os escrúpulos têm outros nomes, os rouxinóis que mantém acordados são tantas vezes virtuais. A matéria pode mudar, mas o gesto, o impulso, o estilo é o mesmo hoje ou no séc. XIX. Impossível não nos deleitarmos. Impossível contermos uma gargalhada.

(...) uma espécie de medo dos homens a obrigava a recuar o esteirão da soleira da janela. A timorata criatura tinha escrúpulos, e perguntava à mãe se os homens a veriam da rua. Isto, na verdade, era bonito em uma menina de vinte anos; mas, se a crítica pode superintender no foro íntimo de tão cândida alma, a mim parece-me que o escrúpulo é a chave que abre a porta por onde a inocência há-de escapar-se, tarde ou cedo. Se houvesse virtudes perfeitas, essas desconheceriam os escrúpulos que são de per si os prelúdios das imperfeições.
Camilo Castelo Branco, Novelas do Minho, Volume 3, A Viúva do Enforcado

Este bom homem, noite alta, (...) erguia-se para escutar-lhe a respiração da filha, e correr-lhe a vidraça nas noites quentes; porque ela, quando a aurora dealvava a curva do horizonte, estava ainda na janela a ouvir os últimos gorjeios dos rouxinóis. Contemplai uma vítima dos romances, ó pais e mães de famílias!
Camilo Castelo Branco, Novelas do Minho, Volume 2, Filho Natural

18/05/11

Outra Vez Camilo

A degeneração do Fidalgo de Basto promoveu-a o sistema representativo. O acto eleitoral foi a rampa traiçoeira por onde aqueles partidários do trono absoluto escorregam à democracia. Verdade é que o sufrágio cedido aos seus correligionários era um sincero sufrágio pelos fieis defuntos. Os seus enviados ao Parlamento sentavam-se venerabundos (...). Não pediam estradas nem abadias, nem campanário, nem comendas, estavam ali com os ouvidos atentos à espera do que vinha da Rússia. Afinal o temperamentos sanguíneo dos cavalheiros de Basto borbulhou em comichões de novas ideias, e todos eles se coçaram mais ou menos com a carta constitucional. A liberdade vencera; mas as proeminências congénitas daquela plêiade de Bayards, quase todos capitães-mores, desvaneceram-se nas brumas da epopeia, que nunca mais terá pessoa em que pegue naquela região onde já não há tradição da velha tirania dos patíbulos, excepto o vinho que ainda é de enforcado.
Camilo Castelo Branco, Novelas do Minho - Volume 2, O Filho Natural

Ao longo das diferentes Novelas do Minho paira uma visão provinciana e conservadora do Portugal político. Uma visão desconfiada e algo cínica da classe política de então (em contraponto com a anterior), mas sobretudo sente-se pouco o apreço pela democracia 'recente' - como vemos nas referências algo irónicas à “liberdade” – um sistema que (tal como o vemos nas obras), mais do que os outros, abre portas e permite a mediocridade, as sinecuras, a ostentação, a criminalidade e a corrupção. O “acto eleitoral” também não colhe grande consideração e respeito, nem tão pouco o que dele resulta: os deputados. Eles são olhados com pouco respeito, consideração ou admiração, como se pode ler nos excertos transcritos.

E, naquele tempo, havia governadores civis, administradores de concelho, regedores, cabos de polícia, etc. Esta corporação de funcionários não prendia ladrões: fazia deputados.
Camilo Castelo Branco, Novelas do Minho - Volume 1, Gracejos que Matam.

Nas Novelas do Minho, CCB olha para o Portugal político de então e descreve-o com algum desprendimento, um pouco como um ‘outsider’, alguém que não se revê totalmente nesse sistema, e não quis fazer nem faz parte dele. O seu mundo era outro e transparece uma névoa de saudade pelo Rei D. Miguel. Essa distância e desprendimento calculado permitem-lhe o cinismo, a ironia, e um humor franco e frontal, às vezes trocista até; se assim não fosse, teríamos um tom bem diferente, mais apaixonado, mais indignado, mais zangado e mais revoltado (mais uma vez a comparação com Eça e o tom político dos seus romances impôs-se-me). Resta-me dizer o óbvio: tanto do que era nas Novelas do Minho, é hoje. Parece que em matéria política, o quadro em que gerações após gerações se encontram, teima em ter semelhanças.

Para terminar, lembro esta deliciosa referência de CCB ao socialismo. Só lembraria que nos dias de hoje os “caixeiros” chegam longe, e já agora, onde se escreve “óleo de amêndoas doces”, poder-se-ia escrever hoje “fatos Armani”.

Foi toda a vida mercador, sempre ao balcão, ou encostado à ombreira da porta como hoje o não faria um caixeiro com a cabeça cheia de socialismo e óleo de amêndoas doces.
Novelas do Minho- Volume 1, Morgada de Romariz

08/05/11

O Cetim das Pestanas


Nesta novela-biografia ou biografia-enovelada, não a quis fazer chorar, minha senhora. Vossa Excelência já sabe que eu – o derradeiro cultor do romance plangente neste país onde a literatura se está refazendo com fermentações de cores várias e jogralidades vasconças, - premindo com o dedo umas certas molas do mecanismo da sentimentalidade, faço tremeluzir no cetim de suas pestanas umas camarinhas de preciosas lágrimas. Também não quis que vossa excelência se risse. Este livrinho tem intuitos graves, e encerra uma ideia encoberta, porque ideias descobertas já raramente aparece uma. Tenho o desvanecimento de conjecturar que a filosofia deste opúsculo há-de dar de si (...).

Camilo Castelo Branco, Novelas do Minho – Volume 3, O Degredado.


Li curiosa e divertida as Novelas do Minho. Confesso que – não sei porquê, e ao contrário do que se passa com outros autores portugueses do mesmo século - pouco li até agora de Camilo Castelo Branco. Já há muito que tinha vontade de o ler, mas por isto e por aquilo ia sempre adiando... até agora. E em boa hora o fiz, porque o prazer de ler rico e um genuíno português (língua e não pessoa) não tem preço. Se a minha recente releitura de Eça de Queirós foi um reencontro feliz, a leitura de Camilo revelou-se uma surpresa (o facto de já saber como é o autor, em nada diminui a surpresa que uma leitura sempre trás) e um prazer imensos. A sua linguagem, o seu humor e ironia, o à-vontade com que retrata cada indivíduo seja qual for o extracto social a que pertença, o seu olhar peculiar sobre a sociedade, o país, e sobre si mesmo são únicos. O país retratado nas Novelas do Minho é um país vasto e muito mais rural do que urbano (ao contrario de Eça, por exemplo), tal como a sua linguagem, muito genuína, muito portuguesa e desprovida de estrangeirismos tão na moda nessa época. Uma coisa é certa: hoje sei apreciar Camilo muito mais do que antes teria sabido.

Este pequeno excerto é, nas suas referências, um concentrado camiliano: a novela plangente, o amor, o cavalheirismo na alusão privilegiada às leitoras (eu e as minhas camarinhas de preciosas lágrimas tremeluzindo no cetim das minhas pestanas, incluídas!) e aos efeitos das suas novelas na sensibilidade das ditas leitoras, a ironia, a literatura e o realismo, a banalidade de tantas ideias descobertas, a filosofia e erudição. Faltam alguns ingredientes como a política, a crítica social, a prisão, alguns retratos. De uns e de outros tenciono, a pouco e pouco, dar conta.

15/08/10

A Maneira Nacional

Outro tema interessante – apesar de não exclusivo – de verão, (e que de quando em vez se reacende na blogosfera), é a questão da crítica literária e aqueles que a fazem, jornalistas ou não. Um odiozinho que se pode cultivar no verão. Os Maias, mais uma vez mostram-se muito actuais.

Ega, que tinha pressa, como sempre, enrolou o manuscrito, reabotoou a sobrecasaca, e já de chapéu na mão:

- Então parece-te apresentável?...

- Vais publicar?

- Não, mas enfim... – E ficou nesta reticência, fazendo-se corado.

Carlos compreendeu tudo dias depois, encontrando na “Gazeta do Chiado” uma descrição “da leitura feita em casa do Ex.mo Sr Jacob Cohen, pelo nosso amigo João da Ega, de um dos mais brilhantes episódios do seu livro – “As Memorias de Um Átomo”. E o jornalista acrescentava, dando a sua impressão pessoal: “É uma pintura dos sofrimentos por que passaram, nos tempos da intolerância religiosa, aqueles que seguem a Lei de Israel. Que poder de imaginação! Que fluência de estilo! O efeito extraordinário, e quando o nosso amigo fechou o manuscrito ao sucumbir da protagonista – vimos lágrimas em todos os olhos da numerosa e estimável colónia hebraica!”

Oh, furor do Ega! Rompeu nessa tarde pelo consultório, pálido, desorientado...

- Estas bestas! Estas bestas destes jornalistas! Leste? “Lágrimas em todos os olhos da numerosa e estimável colónia hebraica!” Faz cair a coisa em ridículo... E depois a “fluência do estilo”. Que burros! Que idiotas!

Carlos (...) consolou-o. Aquela era a maneira nacional de falar de obras de arte... Não valia a pena bramar...

- Não, palavra, tinha vontade de partir a cara àquele foliculário!

- E porque não lha quebras?

- É um amigo dos Cohen.

E foi grunhindo impropérios contra a imprensa, (...)

- Vou, tenho que fazer! – E junto do reposteiro, ameaçando o céu com o guarda-chuva, chorando quase de raiva: - Estes burros destes jornalistas! São a escória da sociedade!

Daí a dez minutos reapareceu, bruscamente: e já com outra voz, num tom de caso sério:

- Ouve cá. Tinha-me esquecido. Tu queres ser apresentado aos Gouvarinhos?

Eça de Queirós, Os Maias

13/08/10

Erotismo de Verão

Um dos temas obrigatórios do Verão, início de Verão para ser mais precisa, é o erotismo e o sexo. Em Julho quando começam as romagens ao Algarve, não há revista que não traga uma capa sugestiva que anuncie um artigo de fundo, um estudo único ou um “dossier” sobre o assunto. Por exemplo: na televisão vejo diariamente anúncio sobre a iniciativa da revista Visão de publicar a preços convidativos, uma colecção com o nome de “Livros Proibidos” (os senhores do marketing deviam ter explicado melhor que a palavra “proibido”, hoje, carece de qualquer poder sugestivo), livros eróticos de “autores consagrados da literatura mundial”.

Este blogue une-se ao espírito erótico da saison contribuindo para isso com este excerto de “Os Maias”:

Diante do canapé das senhoras lá se achava também o fiel amigo, o doutor delegado, grave e digno homem, que havia cinco anos andava ponderando e meditando o casamento com a Silveira viúva, sem se decidir – contentando-se em comprar todos os anos meia dúzia de lençóis, ou uma peça de bretanha, para arredondar o bragal. Estas compras eram discutidas em casa das Silveiras, à braseira: e as alusões recatadas, mas inevitáveis, às duas fronhazinhas, ao tamanho dos lençóis, aos cobertores de papa para os aconchegos de Janeiro – em lugar de inflamar o magistrado, inquietavam-no. Nos dias seguintes aparecia preocupado – como se a perspectiva da santa consumação do matrimónio lhe desse o arrepio de uma façanha a empreender, o de ter de agarrar um toiro, ou nadar nos cachões do Douro. Então, por qualquer razão especiosa adiava-se o casamento até ao S. Miguel seguinte. E aliviado, tranquilo, o respeitável doutor continuava a acompanhar as Silveiras a chás (...).

Eça de Queirós, Os Maias

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