É recorrente. De vez em quando, e a propósito normalmente do que se considera causa fracturante, fala-se de civilização e de avanço civilizacional. Longe de mim querer começar uma discussão filosófica, antropológica ou sociológica sobre o que é uma civilização, ou até ousar abordar diferenças civilizacionais entre o passado e o tempo actual ou entre as diferentes ‘civilizações’ que coexistem hoje no planeta terra. Seria interessante, nomeadamente tentar perceber se há umas civilizações ‘melhores’ do que outras e o que é que determina essa valoração, mas não é esse o meu objectivo.
Limito-me a registar a facilidade com que se fala de civilização e de avanço civilizacional a propósito de qualquer coisa. Há umas semanas foi a Ministra da Cultura que – no parlamento – disse com muita clareza que as touradas eram uma actividade humana que cada vez fazia menos sentido (palavras minhas) numa civilização que se quer avançar. Esta noção de movimento – os ditos avanços e recuos civilizacionais – intriga-me. As civilizações evoluem e penalizar/acabar com touradas é uma opção acertada para estarmos no lado certo do dito avanço civilizacional.
Quero deter-me um pouco nesse avanço, nesse movimento que, característica intrínseca do movimento, há-de ter uma direcção. Ora ninguém me explica qual a direcção dos ditos avanços civilizacionais que prometem, e que deveríamos alegremente e sem pestanejar construir. Eu gosto de perceber as coisas e nunca percebo que tipo de civilização ‘óptima’ é essa que devemos almejar, abandonando práticas consideradas não civilizacionais como as touradas. Afinal, quem é que nos explica que tipo de civilização é essa? Será que a ministra da Cultura sabe onde é que esse avanço civilizacional nos leva? Ou será que essa dita civilização que os avanços nos permitem vislumbrar não é mais do que um work in progress (este conceito que está na moda) de uma agenda política que existe na cabeça de uma minoria normalmente elitista e ‘de esquerda’ que impõe os novos códigos morais inventados numa máquina de propaganda qualquer num gabinete de marketing político e assentes em restritivos códigos de linguagem politicamente correcta? As pessoas que fazem a maioria – essa coisa chata e inconveniente que vota ‘populista’, Trump, Brexit, entre outros - pouco se revê nesses novos códigos morais, na linguagem cuidada, vigiada e reprimida e nessa ânsia de ‘avanço civilizacional’. Agora foi a tourada, em breve arranjarão outro tema para nos falarem de civilização. Deveriam parar um pouco, olhar à volta, e ver onde param os avanços civilizacionais, por exemplo (poderia dar tantos), num programa de televisão que se chama “Casados à Primeira Vista”, um reality-show pseudo-científico e com ‘Especialistas’ a funcionarem como casamenteiras. A tourada é, em todos os aspectos, infinitamente mais interessante e superior do ponto de vista civilizacional (e eu não sou propriamente uma apreciadora de touradas).
Na minha noção de civilização os avanços civilizacionais prendem-se com (e para não me deter num passado muito passado, começo no século XVIII) a abolição da escravatura, o voto das mulheres, a diminuição da taxa de mortalidade infantil, a educação para todos, o aumento do número de sociedades democráticas, e o aumento da média da esperança de vida, para citar alguns. Infelizmente, no nosso planeta Terra e nos dias de hoje muitos destes avanços civilizacionais estão por cumprir. Mas isso não incomoda quem, nas nossas sociedades chamadas ocidentais tem uma agenda política politicamente correcta. Nem isso nem o simples facto de que na nossa própria sociedade aguardamos ainda o cumprimento de um avanço civilizacional importante: uma Justiça célere, eficaz e ao alcance de todos. Mas isto sou eu a falar ... quero lá saber das touradas.
Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, (...) E, afora este mudar-se cada dia, Outra mudança faz de mor espanto: Que não se muda já como soía.
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26/11/18
23/09/18
Parque Temático
Na semana que passou os taxistas invadiram (e ainda invadem) a(s) cidade(s) com as esperadas consequências a nível do trânsito, e falo sobretudo de Lisboa: impossibilidade de circular nalgumas ruas/avenidas, demoras e filas. O trânsito é hoje uma espécie de inferno dos tempos modernos. Ninguém o quer, ninguém gosta, evita-se quando se pode.
Eu disse ninguém o quer? Pois, parece lógico pensar que realmente ninguém o deseje, mas infelizmente não é esse o caso. O último sonho mau (os sonhos maus deveriam ter ficado na infância ... mas como já nada é como se esperava que fosse) do Presidente da Câmara de Lisboa, agora que ultrapassou esse outro sonho mau de há uns anos que foi fazer da Segunda Circular uma avenida urbana com apenas duas faixas de rodagem, semáforos, bem como árvores com passarinhos chilreantes e flores na primavera no meio, é criar uma faixa de rodagem para Bus na A5. Tão boa é esta ideia que – segundo as notícias – ele pretende estendê-la a outras vias de acesso à cidade de Lisboa (ver aqui e aqui).
Lembrando António Guterres, segui aquela velha máxima de “é só fazer as contas”, e percebi que uma vez que a largura das vias é limitada, e a menos que se façam grandes obras estruturais em todos nos acessos à cidade, fica evidente que a criação de uma faixa para Bus passa pela eliminação de uma faixa normal de circulação. Assim, crê ele, naquele estado de quem se sente iluminado mas apenas teima em não acordar desse seu sonho mau, as pessoas que vêm diariamente em carros para Lisboa terão mais incentivos para usarem os transportes públicos que circularão mais rapidamente. A cidade terá menos carros e, por isso, menos trânsito. (Dá vontade de rir pensar na A5, na IC19, na A1 ou na A2 com menos uma faixa de rodagem, não dá? Dá vontade de rir pensar que assim a cidade terá menos trânsito, não dá?).
Mas tentarei não rir muito e olhar para as coisas como elas são, que é sempre uma boa maneira de olhar para elas. Impõem-se de imediato algumas questões. Afinal que infraestruturas de transporte público dispõe o cidadão de Lisboa como alternativa de mobilidade para a cidade e dentro da cidade, neste seu sonho de libertar a cidade dos carros dos cidadãos? Várias linhas de comboios que sirvam amplamente os conselhos vizinhos para todos aqueles que da periferia querem chegar ao centro da cidade? Uma ampla rede de metro, eficaz, pontual e sobretudo que cubra toda a cidade e um pouco mais além? Uma rede de autocarros eficientes e pontuais na cidade e concelhos limítrofes? Interconectividade abundante e eficaz entre diferentes redes de transportes? Preços razoáveis? Como é que respondendo ‘não’ a todas estas questões, Fernando Medina pensa que poderá libertar a cidade dos carros? Sem, pelo menos uma rede de metro que cubra amplamente toda a cidade (de norte a sul, de este a oeste para que não restem dúvidas) é impossível sonhar em ‘libertar a cidade dos carros’.
Indo um pouco mais além neste quadro de ‘libertação’ da cidade, coloco outra questão: porquê e para quê, exactamente, essa vontade de libertar a cidade dos carros? Como os carros não se deslocam sozinhos, nem pelas suas vontades autónomas, presumo que queira também libertar a cidade das pessoas, das que aí vivem a sua vida. Hoje ter casa começa a ser difícil, mas só mais um esforço e criam-se também todos os postos de trabalho longe do centro, exceptuando aqueles que servem o turismo. Fica então a cidade livre para turistas, para o lazer, para passear, ver as vistas, ir aos restaurantes, frequentar actividades culturais, outros eventos, etc. Ficamos todos com um excelente e sofisticado parque temático, perdão, com uma bela cidade, para usufruir ao Domingo à tarde em directa concorrência com os centros comerciais da periferia. Um futuro promissor.
O desejo de infernizar a vida das pessoas tornou-se num impulso subjancente a tantas decisões políticas. É evidente esta estranha tendência, esta necessidade de culpabilização nos tempos modernos em que, ao mínimo pretexto, se castiga e aponta o dedo ao cidadão: ou porque usa carro, ou porque se endivida, ou porque compra e vende casas com mais valia, ou porque gosta de bebidas doces, ou porque tem sucesso. Ar dos tempos.
Eu disse ninguém o quer? Pois, parece lógico pensar que realmente ninguém o deseje, mas infelizmente não é esse o caso. O último sonho mau (os sonhos maus deveriam ter ficado na infância ... mas como já nada é como se esperava que fosse) do Presidente da Câmara de Lisboa, agora que ultrapassou esse outro sonho mau de há uns anos que foi fazer da Segunda Circular uma avenida urbana com apenas duas faixas de rodagem, semáforos, bem como árvores com passarinhos chilreantes e flores na primavera no meio, é criar uma faixa de rodagem para Bus na A5. Tão boa é esta ideia que – segundo as notícias – ele pretende estendê-la a outras vias de acesso à cidade de Lisboa (ver aqui e aqui).
Lembrando António Guterres, segui aquela velha máxima de “é só fazer as contas”, e percebi que uma vez que a largura das vias é limitada, e a menos que se façam grandes obras estruturais em todos nos acessos à cidade, fica evidente que a criação de uma faixa para Bus passa pela eliminação de uma faixa normal de circulação. Assim, crê ele, naquele estado de quem se sente iluminado mas apenas teima em não acordar desse seu sonho mau, as pessoas que vêm diariamente em carros para Lisboa terão mais incentivos para usarem os transportes públicos que circularão mais rapidamente. A cidade terá menos carros e, por isso, menos trânsito. (Dá vontade de rir pensar na A5, na IC19, na A1 ou na A2 com menos uma faixa de rodagem, não dá? Dá vontade de rir pensar que assim a cidade terá menos trânsito, não dá?).
Mas tentarei não rir muito e olhar para as coisas como elas são, que é sempre uma boa maneira de olhar para elas. Impõem-se de imediato algumas questões. Afinal que infraestruturas de transporte público dispõe o cidadão de Lisboa como alternativa de mobilidade para a cidade e dentro da cidade, neste seu sonho de libertar a cidade dos carros dos cidadãos? Várias linhas de comboios que sirvam amplamente os conselhos vizinhos para todos aqueles que da periferia querem chegar ao centro da cidade? Uma ampla rede de metro, eficaz, pontual e sobretudo que cubra toda a cidade e um pouco mais além? Uma rede de autocarros eficientes e pontuais na cidade e concelhos limítrofes? Interconectividade abundante e eficaz entre diferentes redes de transportes? Preços razoáveis? Como é que respondendo ‘não’ a todas estas questões, Fernando Medina pensa que poderá libertar a cidade dos carros? Sem, pelo menos uma rede de metro que cubra amplamente toda a cidade (de norte a sul, de este a oeste para que não restem dúvidas) é impossível sonhar em ‘libertar a cidade dos carros’.
Indo um pouco mais além neste quadro de ‘libertação’ da cidade, coloco outra questão: porquê e para quê, exactamente, essa vontade de libertar a cidade dos carros? Como os carros não se deslocam sozinhos, nem pelas suas vontades autónomas, presumo que queira também libertar a cidade das pessoas, das que aí vivem a sua vida. Hoje ter casa começa a ser difícil, mas só mais um esforço e criam-se também todos os postos de trabalho longe do centro, exceptuando aqueles que servem o turismo. Fica então a cidade livre para turistas, para o lazer, para passear, ver as vistas, ir aos restaurantes, frequentar actividades culturais, outros eventos, etc. Ficamos todos com um excelente e sofisticado parque temático, perdão, com uma bela cidade, para usufruir ao Domingo à tarde em directa concorrência com os centros comerciais da periferia. Um futuro promissor.
O desejo de infernizar a vida das pessoas tornou-se num impulso subjancente a tantas decisões políticas. É evidente esta estranha tendência, esta necessidade de culpabilização nos tempos modernos em que, ao mínimo pretexto, se castiga e aponta o dedo ao cidadão: ou porque usa carro, ou porque se endivida, ou porque compra e vende casas com mais valia, ou porque gosta de bebidas doces, ou porque tem sucesso. Ar dos tempos.
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30/12/13
2013 (I)
Poderia destacar o Papa Francisco como figura do ano, ele que parece ter a comunicação social e as gentes a seus pés, ou destacar o Papa Emérito Bento XVI que os católicos mais cépticos (e conservadores) gostam de lembrar. Ambos foram certamente personalidades marcantes deste ano. Um pela humildade e pelo reconhecimento de que tinha que ceder o lugar, sabendo retirar-se de cena com elegância, um gesto digno dos príncipes, o outro pela simplicidade, alegria e normalidade com que vive o catolicismo. Francisco é um Argentino, vem de uma sociedade diferente da Europeia, e vem de um país onde o catolicismo é a religião dominante. Ora este facto é uma novidade no Vaticano pois há décadas que temos Papas vindos de sociedades onde o Catolicismo ou era minoritário (a Alemanha do Papa Bento XVI), ou era combatido e perseguido (a Polónia da cortina de ferro do Papa João Paulo II). Estas circunstâncias eram terreno propício às reflexões doutrinais e identitárias (de demarcação territorial, quase), uma segunda natureza para os papas anteriores. Francisco não respira desse pathos da minoria ou da perseguição, e vive o seu catolicismo de uma forma mais natural, isto é, integrada na vivência social e como parte identitária da própria sociedade. Parece por isso (e por opção sua, claro) mais desprendido daquilo a que se poderia chamar ‘teias do Vaticano’. Muitos e muitos católicos identificam-se com esse forma de viver o catolicismo que não passa prioritariamente por proclamações doutrinais, ou reflexões teológicas. Da mesma forma com que muitos e muitos católicos se identificavam e liam com atenção cada discurso de Bento XVI, ou seguiam cada viagem e exortação espiritual de João Paulo II com devoção. A Igreja é feita por muitos e todos diferentes. Há lugar e tempo para todos. Ámen!
Poderia destacar o novo Czar da Rússia, como figura internacional do ano, cada vez mais liso e insuflado de tanto botox, mas cada vez mais influente e poderoso, e com uma visibilidade no xadrez da política internacional capaz de empalidecer o 'cool' Obama e outros líderes mundiais.
Ou poderia, finalmente e numa nota negativa, destacar Paulo Portas como a figura nacional do ano. Pensando que o mundo começa e acaba nele, disse, desdisse, deu a palavra e retirou-a, fez e desfez, tudo de forma irrevogável, e com a retórica moralista (de feira) a que nos tem habituado. Custou ao país uma fortuna que um dia será contabilizada.
Poderia, mas no entanto, nenhum deles será a minha figura do ano.
(continua... )
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21/10/13
Ainda mal refeita do facto de esta semana ter sido representada no palco internacional por Cavaco Silva, Passos Coelho e Rui Machete (a caricatura, o verbo de encher e o emplastro), ouço hoje bem cedo, e para iniciar uma nova semana, Paulo Portas: “Os mais pobres não se manifestam”. Esta gente não nos dá descanso. Já agora, não há mesmo ninguém que consiga calar este homem, irrevogavelmente?
06/10/13
Dos Erros Factuais e da Deselegância
Já é Domingo e Rui Machete não pediu a demissão, nem o Primeiro-Ministro a tal o obrigou. A leve (já não consigo mais do que “leve”) esperança que tinha num gesto digno esvai-se. Rui Machete, por todos os ‘casos’ em que se viu envolvido no curto espaço de tempo em que é Ministro, é mais um rosto da falta de dignidade, e da impunidade que encontrou terreno propício nos tempos da abundância e na brandura de costumes dos portugueses e que hoje começa – para bem de todos - a ser muito menos tolerada.
Há dois aspectos nas declarações de RM que incomodam. O primeiro é a mentira; não é a sua primeira mentira, nada nos garante que seja a última. A semântica da mentira em terreno político, tem evoluído de forma interessante: encontram-se palavras e modos de a descrever que tentam menorizá-la. Desde as inverdades de Sócrates aos mais recentes erros factuais que têm caracterizado este governo, há toda uma panóplia de vocábulos a contextualizar, justificar ou até mesmo a embelezar a mentira que é dita.
O segundo aspecto é a forma leviana com que se invocam os nomes dos outros. Já o Segundo Mandamento (tal como eu aprendi diz: Não invocarás o Santo Nome de Deus em vão) alerta para os perigos de invocar o nome de Deus e, por extensão (liberdade teológica minha) o nome do outro de forma desrespeitosa e leviana. Em contexto privado é deselegante invocar o nome de outro, responsabilizando-o por palavras por si ditas em contexto de conversa, mas se não houve nem conversa nem palavras ditas, o gesto é, no mínimo, abusivo ou até difamatório. Crer que estas declarações que demonstram deselegância e abuso, se podem transpor para a política sem danos ainda maiores é mostrar o quanto um certo tipo de agentes políticos, entre eles alguns dos chamados barões continuam a crer serem impunes e a viverem num meio em que facilmente se escapa à irresponsabilidade.
Para além do grau zero de decência demonstrado por RM, da deselegância e da mentira, as declarações são um enorme erro político que o PM deveria penalizar. São também reveladoras desse mundo de mentira e impunidade que os portugueses começam a não querer perdoar, e o PM deveria ser o primeiro a não querer pactuar com essa impunidade. Por muito menos (uma anedota de mau goto, uns corninhos feitos no Parlamento...) outros ministros se demitiram. São casos assim, reveladores de falta de hombridade e decência de uns e de outros, que dão consistência e razão a todos os que se queixam da crescente degradação de quem exerce cargos políticos.
27/09/13
Domingo 29 de Setembro
Mais uma vez, num exercício que já se repete em demasia, a falta de uma política sólida bem como a falta de densidade de pensamento (político, mas não só) dos ‘agentes políticos’, atinge mais um ponto alto. O desnorte é total: Passos Coelho – cada vez mais alheado da realidade, discursa de contradição em contradição, de ‘inverdade’ em ‘inverdade’ com a sombra do irrevogável Paulo Portas sempre a pairar; Seguro passeia com estudada e forçada convicção o último chavão, a última ideia avulsa: por este dias ele deve ter lido umas coisas (ou simplesmente sopraram-lhas) sobre mutualização da dívida, e sobra para nós perplexos eleitores. É difícil perceber qual o mais patético deste três. Ao pé deles Jerónimo de Sousa ganha em dignidade e espessura. Mas como vivermos num país governado por gente deste calibre vamos fazendo o que se pode. E uma das coisas que se pode é votar. Mas votar em quem?
Tropeçamos e esbarramos quotidianamente, seja em que terra (cidade, vila ou aldeia) for, nas pequenas obras que se multiplicaram nestas semanas que antecedem as eleições autárquicas, sem que percebamos sempre para que servem, pois mais parecem intervenções normais de manutenção. Uma calçada em que se repõem pedras, uma rua que se repavimenta, um terreno que se limpa, fazem parecer longínquos os tempos das rotundas embelezadas por esculturas de gosto duvidoso, dos jardins novos de plantas viçosas e com trajectos de manutenção, dos viadutos que se ergueram ou das ruas e estradas que se rasgaram. Os tempos são outros e a falta de recursos obriga à contenção financeira, pena que não obrigue também ao uso compulsivo de bom senso e discernimento. Mas a tentação de mostrar obra – nem que seja à pressa – e de criar confusão e colocar letreiros de ‘Desvio’ vence e faz-se qualquer coisa para mostrar que se faz e que se está perto da população.
Pena tenho eu de não votar no Porto; aí saberia em quem votar, pois ainda hoje não sei se Domingo opte por ficar em casa ou saia para votar em branco. Voto no concelho de Lisboa, numa casa onde também se vota no concelho de Oeiras, onde as escolhas apontam a um candidato minoritário.
Para além de uma dificuldade (genética?) de votar ‘Socialista’ ou outra variante de esquerda, não perdoo a António Costa ter destruído o trânsito na cidade, sobretudo na baixa. Desde as pistas para ciclistas mal planeadas que acabaram com segundas faixas de rodagem, até à confusão que é o trânsito na Avenida da Liberdade, não me faltam exemplos. Como eu, muitas mais pessoas ainda hoje não entendem como funciona o trânsito nas laterais da Avenida da Liberdade e simplesmente deixaram de lá ir. É uma boa maneira de afastar os cidadãos do centro da cidade. Não venham depois, por favor, falar na desertificação dos centros das cidades e nem inventar programas para a combater... Não fosse isso talvez vencesse a dificuldade em votar socialista numa eleição local, quem sabe.
Por outro lado decidi já há muito que não votaria em nenhum candidato ‘repetente’. Sinto que fui enganada (apesar de já não ser muito fácil enganarem-me, ainda o conseguem fazer; um sinal que só abona a meu favor, assim me consolo) pelos partidos do “arco da governação” (as expressões que se inventam...) com a legislação de limitação de mandatos, que fizeram de má fé uma lei mal feita algo que, dizem os entendidos, é já um hábito. Resultado: uma lei dúbia, que não serve para nada a não ser como instrumento demagógico para, então, ‘nos’ enganarem. Vão para o raio que os parta.
Este governo já tomou posse há mais de dois anos. Prometeu então, ajudado por uma Troika que exigia, uma reforma da Administração do Território reduzindo concelhos e freguesias. Mais uma promessa não cumprida, parece que este governo é incapaz de reformar seja o que for. Não se tocou num único concelho, nem o governo (ou a oposição) querem ouvir falar em tal coisa. Demasiados interesses em jogo, demasiado a perder parece. À laia da dita ‘reforma’, fundiram umas freguesias. Fizeram-no recorrendo à única técnica conhecida e utilizada pelo incompetente governo do incompetente Passos Coelho para implementar seja que medida for: a de “cortar a direito”. Não se estuda, não se planeia, não se pensa a médio e longo prazo. Corta-se a direito ou mais ou menos a olho. Impossível por isso nós percebermos a motivação, a estratégia, as dificuldades, as soluções, e os resultados. Tão pouco percebemos que ganhos financeiros se conseguiriam de uma reforma propriamente dita e que resultados financeiros se conseguem desta pseudo-reforma que só abrange freguesias. A comunicação social que poderia ter nesta matéria um papel de informação sobre a forma como este processo decorre, das dificuldades, dos sucessos, nada tem dito. Nós nada sabemos. O que sabemos é que esta é mais uma reforma adiada.
Há candidaturas independentes? Ainda bem. Há muitas candidaturas independentes? Há quem se admire?
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12/07/13
Então É Assim 2
Um. Cavaco Silva, aquele cuja anunciada morte política foi manifestamente exagerada, num dos momentos políticos que mais gozo me deu nos últimos tempos – e bem precisávamos, conseguiu:
A) Reforçar o descrédito político de Paulo Portas e remetê-lo à sua real (in)significância que é inversamente proporcional à sua estridência gestual e verbal e – dizem – inteligência. Chamá-lo de volta ao mundo real e obrigá-lo a arrumar de novo o seu gabinete.
B) Esvaziar o secreto sorriso de Paulo Portas que o inchado semblante sério traía. Esvaziou também aquele porte e aquele ar de 'agora é que é!' que Pires de Lima já não conseguia disfarçar.
C) Reforçar o processo já iniciado no CDS de questionar a sua liderança.
D) Demonstrar a crescente irrelevância política de Passos Coelho, o vazio e a leviandade que o habitam: enquanto Primeiro-ministro e enquanto líder do principal partido.
E) Deixar atordoados os ministros – nomeadamente o da Economia que, mesmo sem crise política sempre pareceu um pouco perdido, qual peixe fora de água.
F) Obrigar o PSD a pensar a sua liderança.
Dois. António José Seguro mostra o melhor de si: corre atrás do primeiro lugar comum político que ‘cheira a esquerda’ ou mantém-se na sua senda de dizer coisas que não querer dizer nada, não vão as pessoas esquecer-se que ele existe, ou não perceber quem ele é e o que faz. Exemplos: o seu desejo de dialogo “com todos”, embora não consigamos perceber o que é que o PCP e o BE fazem no dialogo proposto pelo PR que visa sobretudo compromissos de médio prazo no que respeita o Memorando de Entendimento. Outro exemplo é a frase – que mais parece saída de reallity shows – em que ele critica Passos Coelho por não “pedir desculpa pela crise”. Não explicita, no entanto, o que critica a Sócrates pela sua postura face à crise que ele, Sócrates, criou.
Três. Cavaco Silva conseguiu também fazer eco do sentimento de tantos portugueses que progressivamente se revêem menos nos partidos políticos e que os sentem cada vez mais afastados da realidade dos seus eleitores e do país. A distância entre eles aumenta, e o eleitor do PSD, PS ou CDS (embora menos neste último partido) está totalmente alheado do partido em que vota, muita vezes não percebe nem respeita o líder que os militantes escolhem, e em última análise não vota sequer, aumentando a abstenção nos actos eleitorais. Nada de novo, mas é sempre bom relembrar este desfasamento.
Quatro. Cavaco Silva, na sua ânsia de cumprimento do memorando de entendimento, criou uma embrulhada tal que – com os partidos e lideranças que temos - não percebemos bem nem o que se poderá passar nem como. Haja fé... porque gozo houve certamente.
08/07/13
Então É Assim,
Um. Aquele em quem os recentes fazedores de epístolas e figuras chave do governo não confiam, e cuja falta de liderança e projecto político confessaram nas ditas epístolas, ao ponto de apresentarem a demissão, vai continuar a liderar o governo e aceitar ‘partilhar’ mais poder com aquele que despreza.
Dois. Aquele que, num genuíno momento de génio (mau génio) mais uma vez se revelou apresentando a sua demissão de forma “irrevogável” , não fôssemos nós ter dúvidas, por não confiar no líder nem lhe reconhecer nada de meritório, decide irrevogavelmente também, presume-se, voltar atrás com a sua decisão “irrevogável”. Certamente que justificará estas mudanças de direcção com belas palavras e inflamados sentimentos patrióticos que só não me farão náuseas porque já há tempos que ando vacinada contra as ditas, a bem da minha qualidade de vida e manutenção de uns mínimos de sanidade intelectual. Para que não pensemos que perdeu a face ou se submeteu – como se não bastasse olhar para a sua cara para perceber o entusiasmo e fé neste novo projecto governamental - irá ter um cargo ministerial com mais atribuições e responsabilidades, e mais ministros do seu partido no elenco governamental.
Três. A Ministra das Finanças cuja nomeação motivou a ruptura do governo, demissão (e respectiva carta) do líder do segundo partido da coligação, e cuja tomada de posse merece lugar nos momentos mais confrangedores da nossa vida política, mantém-se - surpresa das surpresas - no governo. Parece que mesmo depois de ter percebido que o número dois do governo não a quer lá, mesmo depois das suspeitas da sua participação no caso SWAP ainda não totalmente esclarecidas, bem como o que se diz do cargo do seu marido na EDP, não lhe passa pela cabeça demitir-se; pois removendo-se remove um obstáculo ao entendimento e fluidez governamentais.
Quatro. Teremos (presumindo que o PR aceita este entendimento) um governo bicéfalo: por um lado “determinado” (eufemismo para teimoso) e por outro “inteligentíssimo” (eufemismo para ‘a não confiar’) mas frágil, ainda mais frágil do que o anterior, apesar dos falados nomes sonantes e dos propósitos entusiasmados. Qual casa de fraca construção com uns acabamentos que se querem vistosos... Tentam, mas não enganam. Não confiam, e espreitarão por cima do ombro a cada instante. Azeite e água não misturam. Passos Coelho penitente e Paulo Portas com a rédea curta (o CDS-PP disso se encarregará), são um mau presságio. Se restarem dúvidas nada como pegar num lápis e num pedaço de papel: colocar os nomes dos ministros no papel a alguma distância uns dos outros, mencionando as suas atribuições e responsabilidades. Fazer os fluxos entre eles tendo em consideração quem depende de quem, quem trata do quê, quem decide o quê. Fácil perceber.
Cinco. O medo de perder eleições e deixar o poder é o motor que os move. Por que o povo é imprevisível e ainda se deixa tentar pelo inexistente Seguro.
Seis. O povo? O povo (hoje chamamo-nos eleitores, é muito melhor) não está na mente de PPC nem de PP neste momento (nem noutros), não está mesa das negociações nem no xadrez dos nomes para o governo. Está calor, há praia, há febras, entremeada e cerveja gelada a bom preço, disso se encarregam os pingos doces, euromarchés e continentes. Até Setembro. Depois logo se vê.
Sete. E para evitar equívocos na interpretação das minhas palavras: não, não tenho saudades de Sócrates.
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03/07/13
Zangam-se as Comadres, Sabem-se as Verdades
Ao contrário do que nos querem fazer crer, a crise política desencadeada com a saída de Victor Gaspar e posterior pedido de demissão de Paulo Portas, não é propriamente a responsável pela subida dos juros, é só o pretexto. José Sócrates foi. Mas hoje as desastrosas opções políticas deste governo de Pedro Passos Coelho, o Primeiro-ministro, patentes nas suas discutíveis medidas de controle financeiro e o respectivo resultado é que são. Não é porque Victor Gaspar e Paulo Portas saem do governo que os juros sobem. Os juros sobem porque o país nada ganhou com eles. Nada ganhou com Pedro Passos Coelho. Voltamos à estaca zero.
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Ontem à noite na maratona de comentário político das televisões retive dois momentos:
O nosso fado: inevitavelmente António José Seguro. A banalidade do seu discurso, os lugares comuns que já não querem dizer nada, a vacuidade total dele, do seu estilo, são impossíveis de esconder. Ele não existe, essa é neste momento a grande tragédia; nós, gente comum que vota e quer ver o país governado com um mínimo de decência, seriedade e responsabilidade, não temos realmente alternativa.
Uma ironia: no CMtv Ângelo Correia debatia com José Medeiros Ferreira os eventos do dia. A pedido do moderador e porque amigo de ambos, caracterizou Pedro e Paulo. Entre outras coisas diz que Paulo Portas é “inteligentíssimo” e que Pedro Passos Coelho é “granítico e determinado” e, numa espécie de momento ‘tarot a-posteriori’, afirma que a relação entre ambos (não lembro as palavras exactas mas a atmosfera foi esta) estava condenada a fazer faísca.
02/07/13
Agora Respira-se
A confrangedora tomada de posse da nova Ministra das Finanças é um acto que demonstra bem quão grande pode ser a teimosia da cegueira, do Primeiro-ministro e do Presidente, e a total falta de responsabilidade e sentido de Estado dos intervenientes. Afinal – e julgando pela carta que li - parece que Victor Gaspar, pelo menos e nesta ocasião, teve sentido de estado ao assumir a sua responsabilidade política.
Como é possível continuar e querer que continuemos a fazer de conta que está tudo bem? Como se não bastasse ler a carta de demissão de Victor Gaspar e perceber a demissão de Paulo Portas para vermos que aquilo que era há muito nada mais do que um castelo de cartas ruiu finalmente. Infelizmente é com alívio que vejo o governo ruir. Pelo menos agora sabemos onde estamos. Agora respiramos. Não sei o que trás o futuro, nada de muito bom provavelmente, mas não se conseguia continuar a fazer de conta. Já não havia política (houve sempre pouca), já não se percebia que direcção tomava o governo, já não se percebia o que o governo queria. Assistíamos a uma fractura profunda entre membros do governo que já há muito que não se limitava ao lado PSD e CDS. Vivíamos num caos engravatado que não enganava ninguém. Ontem, ao ouvir o Secretário de Estado Adjunto explicar os briefings diários à imprensa em ‘on’ ou em ‘off’, e para além do ridículo ‘da coisa’, só pensava na orquestra do Titanic a tocar enquanto o barco se afundava. Penoso, muito penoso. Tal como dar posse a uma Ministra das Finanças, afinal de que governo?
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26/05/13
Metáfora
Tenho para mim que quem invoca Nossa Senhora como inspiração para a conclusão da Sétima Avaliação da Troika, deveria ter a flexibilidade de não ser incomodado com referências a palhaços na Presidência da República.
Sim, sim, eu sei: campos semânticos distintos, imaginários distintos e sobretudo cargas simbólicas bem distintas, mas no fundo é uma mera questão retórica: ou se aceita a metáfora ou não. Se assim não é, há algo de ainda mais errado do que gostaria nas bandas de Belém.
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03/05/13
Chega-se a um ponto em que eu já não sei bem o que é pior: se andarmos a fazer sacrifícios em nome de nada, ou se a sonsice e má-fé (típicas do desrespeito com que o governo trata os portugueses em geral e os seus eleitores em particular) do anúncio numa sexta-feira às 20 horas.
Não venham depois mostrar-se muito surpreendidos se quando acordarem só virem revolucionários à volta, nomeadamente aqueles que nem nos sonhos mais loucos algum dia pensaram em o ser.
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Política
Ler mais do mesmo é o que às vezes me parece acontecer quando ‘folheio’ blogues. Debates teóricos ‘esquerda-direita’ (como se o nosso sentido de orientação não estivesse já todo de pernas para o ar, eu acho que já nem com bússola me norteava) ou liberalismo/intervencionismo (como se isso fosse determinante para as circunstâncias actuais do país), ou posts auto-justificativos disfarçados de opinião, interessam-me tanto como as intervenções de Victor Gaspar. Falta uma dose enorme de educação e prática política, de bom senso, de sentido prático sem comprometer os princípios. São as excepções a esta regra que procuro ao ler blogues. Neste dias, e mais uma vez, Maria João Marques fala aqui e aqui de coisas que (me) interessam, e Ana Cristina Leonardo brinda-nos com o seu característico humor. Bem hajam!
09/04/13
Margaret Thatcher
Com a morte de Margaret Thatcher é mais um pedaço do século XX que passa à História, ancorando-nos cada vez mais irremediavelmente no século XXI, uma evidência que nem sempre sentimos. Nada de errado nisso, afinal estamos vivos (se eu escrevo e se alguém me ler, é sinal que ainda cá estamos, e que Deus quiser, assim nos preserve muitos e muitos anos), a nossa perspectiva é que teima em ir atrás ao século XX. Às vezes penso que os anos que mais nos moldam e de onde o nosso olhar teima em partir (ou regressar) são os anos em que começamos a pensar que já somos adultos.
Quando chegou a minha vez, Margaret Thatcher estava lá, e eu também. Não deixou nada nem ninguém indiferente, aliás ela detestava a indiferença, a moleza, a falta de convicções e de acções, nomeadamente em relação aos do seu próprio partido a quem chamava “wets”. Esse exacerbar das dicotomias, sem se preocupar com procurar consensos chocava quer uma mentalidade conservadora e à maneira menos abrupta dos gentlemen elitistas da política (ela era oriunda da pequena burguesia), quer de uma mentalidade intelectual que se pretendia tolerante e aberta ‘à diferença’ e às minorias. A sua visão política contrariava a tendência ‘socialista’ que se vivia então (mesmo nos governos conservadores) nomeadamente em duas vertentes: a que permitiu um crescendo de custos de um estado social cada vez mais pesado, laxista e mais difícil de financiar (a célebre insustentabilidade do estado social); e a que fazia depender a política (e políticos) do partido trabalhista dos sindicatos e das suas associações, de uma forma que hoje é difícil conceber. Combateu com a determinação que todos lhe reconhecem ambas as frentes: reformou o estado privatizando, liberalizando, e iniciou sem piedade uma luta com os sindicatos que venceu, tendo reduzido consideravelmente a influência deles na política futura do Reino Unido, e tendo libertado o Partido Trabalhista do excessivo poder sindical (que o diga Blair). Na frente internacional é sobretudo lembrada por ter sido protagonista do desmoronar do bloco de leste, foi o principal líder ocidental a iniciar e manter um diálogo com a União Soviética e o bloco de leste. Não vacilava, não hesitava. Nunca foi muito popular, mas ganhava eleições.
Lembro-me bem como era bom discordar de Margaret Thatcher, essa filha de merceeiros que se ‘dava ares’, que ousava decidir e mandar, e que estava claramente (para tantos) above her station. Hoje, e para nosso mal, estamos reduzidos à pobre condição de discordar de políticos como Cameron ou Hollande, já para não falar daqueles que temos por cá. Entre Thatcher e estes últimos não é só um século que os separa, é todo um mundo. Independentemente de ter ou não gostado de todas as suas políticas, decisões e acções, hoje e para nosso conforto, percebemos que conhecemos uma grande estadista.
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08/04/13
Se há uma expressão, e preocupação, que já se esgotou e que nós agradecíamos fosse doravante usada com parcimónia é a da “imagem externa do país”. Dr. Durão Barroso, preocupe-se com a Comissão Europeia, e se quiser ser mais ambicioso (coisa que lhe assenta bem) preocupe-se também com a UE. Bem precisam, e bem podem cuidar as respectivas ‘imagens externas’ quer da Comissão quer da UE. Nós por cá, em tempos de crescente austeridade e pobreza temos que deixar cair alguns activos: esse da ‘imagem externa’ pode ir. Afinal nunca passou, e não passa, de um equívoco bem cultivado e estimado pelos ‘bons alunos’ Gaspar e Passos Coelho, que até hoje pouco mais ofereceram do que isso mesmo ao país que fica mais pobre, e com acrescidas dificuldades em pagar os seus compromissos, a cada dia que passa, a cada hora; a cada empresa que fecha, a cada pessoa que fica desempregada, a cada compra que se deixa de fazer.
23/03/13
Quais considerações sobre liberdade de expressão, quais considerações sobre as escolhas editoriais da RTP, ou o seu processos de privatização, ou o seu financiamento. Quais considerações de índole táctico-política sobre a oportunidade e desejabilidade da aparição da ‘criatura’. Para que não haja dúvida, para mim o caso é simples e resume-se a isto que está aqui:
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10/03/13
Assim se Passou uma Semana
Esta semana já não se podia olhar para a televisão, ou seguir de perto outros meios de comunicação. A morte de Hugo Chavez – prontamente canonizado nesses já habituais processos populares e mediáticos de canonizações laicas – dominou o espaço comunicacional ao exagero. Seguiram-se os fait-divers do Vaticano e por extensão os da Igreja Católica: os sapatos papais, as chaminés na Capela Sistina, os cardeais “papáveis”, o Vatileaks, as especulações sobre o dossier secreto pedido por Bento XVI a três Cardeais sobre a Curia, os Cardeais com acção duvidosa (encobrimento) em casos de pedofilia, e, imagine-se, até vejo noticiado aqui esse facto de indiscutível pertinência que é a posição da Igreja católica Croata sobre a educação sexual nas escolas croatas. Como se estas lavagens cerebrais não bastassem, cá dentro (em Portugal) discutia-se o salário mínimo – um pindérico ersatz do debate que o governo (e oposição, e sociedade civil...) não sabe nem quer fazer sobre as opções políticas para uma reforma do estado – e não faltou sequer o Dr. António Borges a dar o seu parecer com aquele sentido de oportunidade a que já nos habitou.
Sobrou o Dia Internacional da Mulher, um dia muito celebrado nos países muçulmanos e nos países de leste da ex-esfera da ex-União Soviética. Por algum motivo que ainda não percebi, este ano o folclore e os clichés lamechas mantiveram-se distantes de mim, tendo sido a minha atenção canalizada para as inúmeras estatísticas sobre a condição/situação da mulher em diferentes partes do mundo que, a pretexto do Dia da Mulher, foram publicadas em diferentes meios de comunicação. Não fui confrontada com nada que não se soubesse ou adivinhasse, mas o impacto de ler tantas estatísticas em tão pouco tempo deu – de repente uma outra dimensão e significado a um “Dia de” que preferia não existisse. Há muito a fazer para garantir a segurança das mulheres e seus filhos, e garantir a igualdade de tratamento e de oportunidade para as mulheres do mundo todo. Maria João Marques lembra algumas das mais importantes questões neste post ‘levezinho’.
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19/02/13
O azar continua. Hoje só se fala de Miguel Relvas, outra vez. Parece que fica comprovado que não sabe cantar. Também, para isso já basta o Primeiro-ministro.
18/02/13
Não Sabe do Que Fala
Tenho tido azar nestes últimos dias. De cada vez que leio as notícias ou ligo a televisão, deparo-me invariavelmente com Miguel Relvas em discurso, em declaração, em directo, em todo o lado, e a falar de tudo e sobre tudo. Ele, lembremo-nos, é aquele que já não deveria ser. Mas é. É um verdadeiro sempre-em-pé que espera e acredita vencer-nos pelo cansaço, restabelecendo a sua credibilidade pela insistência e pela persistência. Alguns no seu caso, optam pelo silêncio, por um período de ‘nojo’, mas ele não: continuar como se nada fosse tem sido o seu lema. Talvez um dia consiga, já tenho visto coisas bem mais estranhas, pois memória é curta e tanta água correrá debaixo da ponte que muitos, talvez, esquecerão. Não será no entanto agora; os tempos estão difíceis, os cintos bem apertados, e as pessoas menos dispostas a olhar para o lado e menos inclinadas ao perdão dos dislates dos políticos, especialmente daqueles que nos governam. E é isso que Miguel Relvas faz:
No dia em que se confirma a célebre ‘espiral recessiva’, (anunciada quer pelos Velhos do Restelo quer pelos ‘profetas apocalípticos’ que olham com desconfiança para as políticas governamentais) e em que se divulga o número do desemprego, Miguel Relvas diz que ‘os objectivos que foram definidos pelo Governo para 2012, no que se refere ao défice, no que se refere à execução orçamental foram alcançados‘, que ‘o país atravessou já a fase mais difícil’, e que ‘começamos a ter resultados’. Resta saber de que país fala e o que são os resultados, para além do célebre ‘regresso aos mercados’.
Dias depois apresenta o programa Impulso Jovem, pretexto para dizer uma série de banalidades – infelizmente, e desde Sócrates, apresentar programas é cada vez mais sinónimo de ‘dizer banalidades’ e passar umas frases para os meios de comunicação. Diz, provavelmente para nos comover, que o desemprego jovem lhe tira o sono (o que tirará o sono dos outros ministros? será que muda conforme as pastas de que são responsáveis?), insiste em devaneios de felicidade bucólica (influência dos clássicos lidos na juventude certamente) através de anunciadas ajudas do estado ao regresso (regresso? mas alguma vez lá estiveram?) dos jovens à agricultura.
Ministro Miguel Relvas, o senhor pode insistir, falar, discursar quanto e quando quiser: eu continuarei a acreditar que, sobretudo para bem do governo, mas também para seu e nosso bem, o senhor já há muito que deveria estar fora dele. O problema é que o governo é demasiado parecido consigo... não sabe do que fala e não conhece o país.
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