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19/01/19

Sábado de Manhã com Chuva

Sabia exactamente sobre o que ia e queria escrever. Pensei dedicar uma parte da manhã de hoje a fazê-lo, só que, sentada em frente do computador, perdi-me ... saltando sem nexo entre emails, actualidade, notícias, textos vários, vídeos, pesquisas, música, blogues. Tudo, qual Babilónia, se confunde em frente dum computador. Na nossa mente tanto cabe a vontade de perceber como é que esta receita de couve fermentada é diferente da já experimentada com sucesso, como cabe um momento de irritação com mais uma invenção do governo que, em vão, tento perceber. Inclusão? Mas o que é isso exactamente, e sobretudo, como se mede essa dita inclusão? Pelo número de alunos de cor, por turma, por ano? Por um rigoroso 50% de raparigas e rapazes? Por uma quota de ricos e pobres? Estas invenções e estes nomes fazem-me rir: são reveladoras do “ar dos tempos”, e porque esquecem que, de facto, tudo o que os pais querem saber é a taxa de sucesso da escola para entrada na faculdade. Tudo se resume a isso, por mais voltas ideológicas que o ministro queira dar. O governo pode decidir o que quiser, outras entidades farão um ranking baseado nos factos puros e duros, nas notas e no acesso à faculdade e será esse que os pais procurarão. 

Entre deambulações várias, a vontade de ouvir Debussy parece premente, nada que o youtube não resolva com ajuda de Martha Argerich. Aquela conta a pagar obriga a uma passagem pelo homebanking, numa manhã em que Maria João Rodrigues ocupa os sites informativos e em que me distraio com publicidade imobiliária mandada para o email – os preços das casas, pois, bem como as casas em si que parecem estar a ser feitas para investidores e não para pessoas. Depois de uma pesquisa na Wikipedia, (que nos redirecciona para outra e outra ...) percebo que já não é Debussy, mas Lizt que toca pois o youtube passa para o vídeo seguinte e nem pergunta se queremos ou não. Resta o consolo de (ainda) não ter tropeçado nem no Brexit nem no PSD. Confusos? Também eu. O “computador” parece um animal selvagem difícil de controlar ... não, isto não faz sentido nenhum, o computador é só uma máquina, não tem vontade própria, lembro-me. Que seja, mas confesso alguma dificuldade em perceber este comportamento errático em frente de um ecrã, e este deambular sem nexo, por muito definida que fosse a intenção primeira. O pior é que o tempo, o implacável tempo, escorre (cada vez mais rápido, sim, dizem que sim os físicos que o estudam) entre os dedos e os cliques do rato, e mal percebo que passou. 

Não escrevi nada do que tinha pensado, o que não será um problema. Em jeito de desculpa, deixo aqui em “copy/paste” esta pequena pérola encontrada na selvajaria de deambulações (com a pequena gralha): 


«Não sou dos que morrem de amores por Camões», diz Agustina. «Um poeta deve ser um mensageiro feliz; aquele que à nossa porta chega sem trazer a peste do seu tempo a turvar-lhe a pele. O que nos canta o melhor do seu coração para inspirar um sôfrego destino de felicidade.» Tenho andado à procura de uma boa forma de traduzir «spark joy», uma que transmita toda a intensa alegria despoletada por essa faísca e eis que encontro em Maria Agustina esta, que parece uma versão forte do lema de Marie Kondo: «inspirar um sôfrego destino de felicidade.» Perfeita. Camões não inspira, é claro, tal destino à autora de «A Sibila», e a navalha de Agustina é tão afiada quanto a de Occam: de todos os poetas, escolham-se os portadores de felicidade. O que deixa de fora, virtualmente, todos os poetas, esses pregoeiros do lado obscuro da alma humana, não só Camões. As estantes de poesia, vazias: Marie Kondo sentir-se-ia orgulhosa. Ah, desditoso paradoxo: o vazia gera vazio, o efeito da multiplicação por zero. A felicidade, essa, precisa de terreno mais fértil para nascer.
(http://xilre.blogspot.com/)

09/08/18

Manhã Submersa 2

Já lá vão 3 ou 4 dias de polémica (ver aqui). Boris Johnson, o ex-ministro de Theresa May e conhecido Brexiteer, chamou as coisas pelos nomes, e não falta quem não se conforme e peça que ele se desculpe. Disse que as mulheres de burqa pareciam caixas de correio - e foi generoso, as caixas de correio, pelo menos as tradicionais inglesas, são bem mais coloridas e alegres do que as burqas - e a ladrões de bancos, e aqui também foi generoso, os ladrões de bancos são normalmente mais elegantes e raramente se cobrem com um pedação de tecido que impeça os movimentos. A Primeira-ministra já se demarcou dele e acha que ele se deveria desculpar, mas - independentemente da minha opinião sobre BJ - realmente não percebo de que terá de se desculpar, nem tão pouco creio que se deva desculpar. Parecem? Boris Johnson acha que sim, e então? Ladrões de bancos, só mostram os olhos, pois ocultam a identidade. Caixas de correio são blocos cuja marca identitária é uma fresta por onde deitar as cartas. Não parece tão descabido, nem tão tonto assim. É ofensivo? É o que é! (Falei sobre isso aqui) Mais uma vez, a liberdade de expressão (não difamou ninguém, não apelou ao ódio ...) a ser posta em causa. 

Mais uma vez a nossa sociedade a não olhar a realidade de frente. Quando Theresa May diz que as mulheres são livres de se vestirem como querem, ele tem razão, eu também estou de acordo, e visto-me como quero, e aguento as opções de indumentária das outras mulheres e dos outros homens. Mas essa não é a questão, pois as mulheres com burqa não estão vestidas, estão cobertas; as suas roupas estão por baixo de um pano preto que as oculta totalmente e que lhes rouba identidade e forma, tornando-as, é bom lembrar que é esse o objectivo da burqa, invisíveis. Enquanto se achar que o uso da burqa é uma peça de roupa como os jeans, perpetua-se a falácia do exercício da liberdade da mulher em “se vestir como quer”, continua-se a evitar enfrentar o problema e a apenas se olhar para a superfície das coisas. A Dinamarca e os países que proíbem o uso de burqa, e de outros trajes que ocultem a identidade, em espaços públicos, estão certos. Mais uma vez a linguagem (na forma das frases de BJ) a ser punida, por não ter branqueado e ‘contornado’ a realidade.

06/08/18

Manhã Submersa

Hoje de manhã, oiço na rádio (Antena2) que um pintor, de que falavam e cujo nome não cheguei a ouvir, terá pintado muitos touros num determinado período. A explicação não se fez esperar: o seu pai terá estado “ligado à temática taurina”! Assim dito. 

Estar ligado à temática taurina é uma interessante expressão que pede descodificação. Afinal o que poderá ser “estar ligado à temática taurina”? Difícil. Por muitas voltas que dê à cabeça, por muito que peça à minha imaginação para se soltar, apenas me ocorrem ser toureiro (a pé ou a cavalo), ser frequentador assíduo de touradas, conhecedor e apreciador, (se não aprecia não conhece nem sabe) de touradas, empresário na área das touradas, o que deve também pressupor conhecimento e gosto da “temática taurina”. 

Esta expressão tão forçada e artificial fez-me lembrar uma notícia que vi há uns meses num telejornal, em que se abordava o problema das gaivotas na cidade do Porto, embora me atreva a dizer que não é só no Porto que as gaivotas são um problema, mas fiquemos por essa notícia. Depois de explicar o problema, falam de soluções, algumas vagas, ou como dizem, a longo prazo, e outras mais de curto prazo são “atitudes que possam minimizar o problema”, sem, no entanto, explicar o que quer isso dizer de facto e que medidas são. Assim, e deixando mais uma vez a imaginação correr o seu curso, não vejo que outras soluções possam existir que não passem por uma de duas situações: ou que matem as gaivotas, ou que controlem a sua reprodução. Não me parece que existam outras formas de convencer as gaivotas a abandonar os meios urbanos. 

Deixando de lado o pintor que pintava touros e as gaivotas em terra, o que percebemos é que vivemos tempos difíceis para a forma como nos exprimimos. Aliás até diria que vivemos tempos complicados para a liberdade de expressão, não só na forma de expressar opiniões, mas sobretudo, e o que mais me preocupa, na forma como contamos a realidade ou relatamos factos. A factualidade, ou a realidade, ou as coisas serem o que são e como são, hoje tem de se curvar perante o politicamente correcto. Não podemos chamar tourada à tourada, não podemos dizer que queremos exterminar uma parte da população de gaivotas, nem pensar. Temos, sim, e cada vez mais, que contornar a linguagem, arranjar eufemismos, expressões vagas, longas, complicadas e pomposas para evitar dizer as palavras que não podem hoje ser ditas e que não deixam de aumentar. Vai ser difícil mantermo-nos actualizados. 

Não se pode mudar a realidade, mas meu Deus, a ginástica que é feita para que, ao nomear essa mesma realidade, ela caiba nessa forma estreita e mesquinha que é a da linguagem permitida hoje. Não se muda a realidade? Azar! Que se mude a forma de a narrar. Depois admirem-se.

22/07/18

Vai Subir?

A vida não é fácil para quem tem um módico de racionalidade. Tantas vezes não encontramos o sentido das coisas – grandes ou pequenas – muito menos o que move as pessoas e o mundo que, claro, é feito e moldado pelas ditas pessoas. Ah, mas desenganem-se, não são hoje as grandes opções, dilemas, juízos, aspirações ou ideais que me ocupam, hoje detenho-me num detalhe comezinho da vida em sociedade pois, como se costuma dizer, há coisas que não matam, mas moem. A verdade é que de tanto moer (água mole em pedra dura ...) algo se quebra, racha, e em mim recentemente algo se quebrou (a tolerância, a paciência?) perante a ausência do que considero serem uns níveis mínimos de racionalidade e senso comum da vida. 

Desde que me lembro que me intriga a forma como as pessoas utilizam os elevadores; sim, elevadores, essa maquinaria que faz parte da nossa paisagem do dia a dia, aqueles que, subindo e descendo, nos levam para cima ou para baixo, num prédio de habitação ou escritórios, num hospital, numa repartição, nos centros comerciais. Não falo, no entanto, de elevadores velhos desprovidos de automatismos - falo de todos os outros: dos que têm no exterior dois botões, um com uma seta para cima, outro com uma seta para baixo permitindo que, carregando o botão com a seta para cima chamemos o elevador que sobe, ou o contrário se carregarmos no botão com a seta para baixo. Falo dos elevadores que têm uma luz que acende por cima da porta que abre quando ele chega, e que, través de uma seta para cima ou para baixo, indica se o elevador vai subir ou descer. Acreditava eu, na minha inocência, nada haver de transcendente em perceber coisas simples: 
- se queremos subir chamamos o elevador carregando no botão com a seta a apontar para cima e vice versa se quisermos descer. 
- quando o elevador chega e olhando para a luz por cima da porta e para o sentido da seta, sabemos desta forma simples, se ele vai subir ou vai descer e decidimos entrar ou esperar. 

Andei e ando redondamente enganada. Há toda uma transcendência e metafísica na forma de utilizar o elevador que nunca entendi, só isso explica que eu veja quotidianamente: 
- pessoas que carregam em ambos os botões ao chamar o elevador, (como se mecânica elevatória se compadecesse, ou se motivasse e se apressasse um pouco mais) embora saibam perfeitamente se vão subir ou descer. E não, não se pode subir e descer no mesmo elevador ao mesmo tempo. Só baralha e atrasa o mecanismo,
- pessoas que invariavelmente, ao entrarem no elevador, perguntam “vai subir?” ou “vai descer?” porque são incapazes de levantar os olhos e ver a luz e a seta que acende e que lhes dá a indicação se o elevador vai subir ou descer. 
- pessoas que esperam que nós, aqueles que já estão no elevador, interrompamos as nossas divagações ou silêncio, para lhes responder e assegurar que o elevador vai a subir ou a descer. 

O mais estranho é que este comportamento que vem da incapacidade para utilizar elevadores, é absolutamente transversal: novos e velhos, pobres e ricos, cultos ou incultos, inteligentes ou burros, gordos e magros, homens e mulheres, todos cabem nesta categoria. Podem vir de telemóvel na mão a responder a emails complexos, ou com uma mente cheia de cálculo diferencial, ou de fenomenologia, nada disso conta na hora de utilizar um elevador. Recentemente descobri para meu absoluto espanto, alguém que não sabia em que botão carregar para chamar o elevador: ou da seta para cima se quero que ele suba para poder descer ou carregar logo no botão com a seta para baixo se quero que ele desça. O quê? tão complicado assim? mas como é que se sabe onde e como está o elevador nos andares que não indicam o seu paradeiro? Uf, este é um caso típico de “porquê simplificar se podemos ter complicado?”. Isto é o mundo ao contrário. 

O que temo é que uma vida inteira a ouvir “vai subir?” (ou “vai descer?”), ao ponto dessas frases já esperadas nos arranharem, deixe marcas numa mente racional. Não sei quais, mas duvido que não as haja. Pena de mim! 

A rational mind has, occasionally, a hard time understanding the world as it is, and people as they are and react. I will not be detained now by trying to make sense of the big questions people face, their doubts, hopes, dilemmas, whatever moves them, but by a small detail of daily life that leaves me every single time bewildered and impatient. It is the way most people use the lift - yes, I’ll write about that familiar and useful mechanism that takes people up and down, not the old ones, but the modern ones with memory and two buttons. These lifts have up and down arrow buttons one must press to go up or down, so if you want to go up you press the button with the arrow pointing up, and press the down arrow one if you want to go down. 

It is simple, it is not complex, it is not metaphysics, but still there are people who cannot figure that out and press both buttons, and, before getting in, never bother to look up to the light on top of the door that indicates (an arrow again) if it is going up or down. So – interrupting our reverie, or unwillingness to speak to strangers – they ask, every single time “going up?” or “going down?” 


I realize now that I have been mistaken all my life. Figuring out which button to press, and if the lift is going up or down are not easy jobs, otherwise you wouldn’t see so many people – young or old, clever or stupid, rich or poor, thin or fat, asking invariably, before getting in a lift: “going up?” (or “going down?”). They may be on their mobiles writing complex emails, or having their heads full of differential calculus or phenomenology, the fact is that none of that matters when it comes to using a lift. I’m quite sure a life’s worth of hearing “going up?” or “going down?” must leave some trace on a rational mind. Don’t know which one, but I feel sorry for myself.

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