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09/12/18

Os Esquecidos

Quando li o último parágrafo deste post lembrei dois incidentes recentes que se passaram comigo e que nos mostram a outra face da Via Verde, net banking ou facturas sem papel - uma face anacrónica por onde a modernização não passou e que mostra que eficácia é apanágio apenas de alguns sectores da sociedade. Realmente, pensando bem, quem é que num caderno reivindicativo se lembra de falar da eficácia e modernização da polícia? 

No verão passado recebi em casa uma carta que me era dirigida, pesada das várias folhas de papel que continha. O remetente era da Doca Pesca, Portos e Lotas, Lda. Intrigada, pois não tenho nenhum tipo de relação com docas, portos e lotas, abri e vi: 

Uma primeira folha que era uma notificação com um número de processo. O primeiro parágrafo reza assim: "(...) fica V. Exa. Notificada, dos factos imputados, da qualificação jurídica em que incorre para, querendo (...) se pronunciar no prazo de 10 dias (...)". Depois a carta continua rica em fraseado mas destaco apenas a parte em que explicam muito bem as diferentes formas de pagamento. Para já não sei do que sou acusada, nem quanto tenho de pagar. Na segunda e terceira folhas de papel, num total de três páginas e meio escritas, consta o Procedimento de Contraordenação em que – finalmente – se explica a razão de contraordenação: o estacionamento num período que não foi superior a 1h e meia, no Portinho da Ericeira. Lembrei-me do dia, lembrei-me que o espaço era amplo, que havia lá três ou quatro carros e espaço para trinta, achei que poderia lá estacionar. Uma coisa simples. Descrevem em detalhe o local, o carro (aliás a viatura) e explicam que não tinha autorização para estacionar lá e nesta parte são invocadas as autoridades: a Autoridade Marítima Nacional, a Polícia Marítima, O Comando Local de Cascais, Extensão da Ericeira. Depois segue-se uma parte chamada Do Direito em que referem todos os artigos de todos os Decretos-Lei que regulamentam esta situação. No final fica estabelecido o valor da coima: 25€. É assinado pela Instrutora do Processo. A quarta folha, em papel timbrado do Ministério da Defesa Nacional, Autoridade Marítima Nacional, é o Auto de Notícia assinado por um agente, que repete (para quem lê, pois o processo foi ao contrário) o facto em detalhe. Passei os olhos, nem li. A quinta folha é uma cópia da fotografia do meu carro lá estacionado. Paguei logo consciente de que os 25€ não pagam o trabalho e esforço destes serviços neste caso, e temendo que se não o fizesse pudesse receber em casa uma carta com o triplo das folhas de papel. 

O outro caso passou-se talvez há um ano, uma ida ao hospital da Luz em que deixei lá um livro. Era um livro pouco apetecível, era em inglês e de teologia, e não um José Rodrigues dos Santos, por isso, e sabendo que lá estava, não me preocupei em o ir buscar de imediato. Quando lá voltasse iria aos perdidos e achados buscá-lo, e foi o que fiz, mas fi-lo três meses e uns dias depois de o ter deixado lá e a política de perdidos e achados do hospital é a de entregar à polícia tudo o que lá ficou para além dos ditos três meses e que ninguém tenha ido buscar. 

Fui à esquadra de Carnide onde os objectos perdidos do hospital são entregues. Demorei um pouco a ser atendida e quando fui, disseram-se ser outro agente a lidar com esses assuntos. Esperei pelo agente que se mostrou simpático e que, na hora, encontrou o livro. Estendeu-o e percebi tratar-se mesmo do meu livro, mas ao pegar nele agradecer e preparar-me para o guardar e sair, foi-me dito que não podia sair e tive que devolver o livro. Há que lavrar o auto, diz-me. Precisei de me identificar e voltei a esperar. Não foi o agente a fazê-lo, ele não lavra autos, foi outro mais novo, com ar de quem faz os fretes e fá-los devagar e com muita intenção e muitas dúvidas ortográficas (tem a minha simpatia) e sintáticas, sinal de que não dominava a gíria dos autos e outros documentos policiais como daqui a uns anos o fará certamente. Ir buscar o livro revelou-se uma tarefa complexa que me manteve na esquadra mais de 45 minutos. Parece que na longa lista de reivindicações de manifestantes e grevistas contra os políticos em geral e os que governam em particular deveria constar a modernização e eficácia da polícia e outros serviços de segurança.

26/11/18

Avanços

É recorrente. De vez em quando, e a propósito normalmente do que se considera causa fracturante, fala-se de civilização e de avanço civilizacional. Longe de mim querer começar uma discussão filosófica, antropológica ou sociológica sobre o que é uma civilização, ou até ousar abordar diferenças civilizacionais entre o passado e o tempo actual ou entre as diferentes ‘civilizações’ que coexistem hoje no planeta terra. Seria interessante, nomeadamente tentar perceber se há umas civilizações ‘melhores’ do que outras e o que é que determina essa valoração, mas não é esse o meu objectivo. 

Limito-me a registar a facilidade com que se fala de civilização e de avanço civilizacional a propósito de qualquer coisa. Há umas semanas foi a Ministra da Cultura que – no parlamento – disse com muita clareza que as touradas eram uma actividade humana que cada vez fazia menos sentido (palavras minhas) numa civilização que se quer avançar. Esta noção de movimento – os ditos avanços e recuos civilizacionais – intriga-me. As civilizações evoluem e penalizar/acabar com touradas é uma opção acertada para estarmos no lado certo do dito avanço civilizacional. 

Quero deter-me um pouco nesse avanço, nesse movimento que, característica intrínseca do movimento, há-de ter uma direcção. Ora ninguém me explica qual a direcção dos ditos avanços civilizacionais que prometem, e que deveríamos alegremente e sem pestanejar construir. Eu gosto de perceber as coisas e nunca percebo que tipo de civilização ‘óptima’ é essa que devemos almejar, abandonando práticas consideradas não civilizacionais como as touradas. Afinal, quem é que nos explica que tipo de civilização é essa? Será que a ministra da Cultura sabe onde é que esse avanço civilizacional nos leva? Ou será que essa dita civilização que os avanços nos permitem vislumbrar não é mais do que um work in progress (este conceito que está na moda) de uma agenda política que existe na cabeça de uma minoria normalmente elitista e ‘de esquerda’ que impõe os novos códigos morais inventados numa máquina de propaganda qualquer num gabinete de marketing político e assentes em restritivos códigos de linguagem politicamente correcta? As pessoas que fazem a maioria – essa coisa chata e inconveniente que vota ‘populista’, Trump, Brexit, entre outros - pouco se revê nesses novos códigos morais, na linguagem cuidada, vigiada e reprimida e nessa ânsia de ‘avanço civilizacional’. Agora foi a tourada, em breve arranjarão outro tema para nos falarem de civilização. Deveriam parar um pouco, olhar à volta, e ver onde param os avanços civilizacionais, por exemplo (poderia dar tantos), num programa de televisão que se chama “Casados à Primeira Vista”, um reality-show pseudo-científico e com ‘Especialistas’ a funcionarem como casamenteiras. A tourada é, em todos os aspectos, infinitamente mais interessante e superior do ponto de vista civilizacional (e eu não sou propriamente uma apreciadora de touradas). 

Na minha noção de civilização os avanços civilizacionais prendem-se com (e para não me deter num passado muito passado, começo no século XVIII) a abolição da escravatura, o voto das mulheres, a diminuição da taxa de mortalidade infantil, a educação para todos, o aumento do número de sociedades democráticas, e o aumento da média da esperança de vida, para citar alguns. Infelizmente, no nosso planeta Terra e nos dias de hoje muitos destes avanços civilizacionais estão por cumprir. Mas isso não incomoda quem, nas nossas sociedades chamadas ocidentais tem uma agenda política politicamente correcta. Nem isso nem o simples facto de que na nossa própria sociedade aguardamos ainda o cumprimento de um avanço civilizacional importante: uma Justiça célere, eficaz e ao alcance de todos. Mas isto sou eu a falar ... quero lá saber das touradas.

14/10/18

A Propósito De Questionários Feitos Numa Escola Básica Aos Alunos

Que creio não se tratar de ‘fake news’, pois eu vi aqui o dito questionário, coisa preocupante, quanto mais não seja, porque naquela idade a atração deveria toda centrar-se em brincar, correr, e nos outros meninos e/ou meninas e não homens e mulheres. A coisa soa tão mal, só por isso ... Adiante. Confesso que tenho enorme dificuldade em me adaptar (perceber) a todas as conversas sobre ‘género’ que abundam no espaço mediático e público na nossa sociedade. Habituei-me, do tempo em que era ensinada na escola e em casa pelos meus pais e familiares, a que a palavra género fosse usada num contexto de análise gramatical para classificar substantivos e respectivos adjectivos, como por exemplo: a palavra flor é do género feminino, a palavra ramo é do género masculino. 

Por outro lado, a palavra sexo era o que distinguia os meninos das meninas, e tem sido usada para classificar as pessoas, umas são do sexo feminino, e outras são do sexo masculino. Mas passaram algumas décadas, e hoje as conversas são outras. A palavra inglesa ‘gender’ fez seguramente um percurso enviesado na nossa língua, e fala-se agora (o meu agora é lato) de género com uma espantosa desenvoltura a propósito de coisas complicadas que cabem no amplo espectro semântico, ideológico e filosófico de palavras como sexo, sexualidade, preferências sexuais, identidade, inclusão, discriminação, igualdade, homossexualidade, heterossexualidade, transgénero, LGT, e muito, muito mais. Ando perdida. 

Dividir o mundo entre homens e mulheres é fácil, intuitivo e perceptível para a comunidade. Ou se nasce com o sexo masculino ou se nasce com o sexo feminino, é uma questão biológica, é um facto. (Os raríssimos casos em que tal não se observa, merecem outro tratamento e não é sobre eles que falo). Mas dividir o mundo em ‘n’ géneros não é fácil, não é intuitivo, e sinto-o como uma imposição, pois trata-se de uma construção mental e cultural fruto de uma moda, mais do que de um avanço civilizacional (mesmo não sabendo muito bem o que este conceito quer dizer) e é, por isso, uma classificação forçada, pouco natural, e cuja necessidade não entendo. 

Se o sexo da pessoa é do domínio público, normalmente olhamos para alguém e conseguimos dizer se é mulher ou homem, o género – ou melhor as opções de como cada um constrói e vive a sua sexualidade (é isso, não é?) – são do domínio da vida privada, podendo ou não ser público e notório, mas basicamente, ninguém tem nada com isso, e raramente tal assunto me merece atenção, quanto mais interesse. O que se vive na casa, no quarto de cada um, é com cada um. Devo referir que este ‘privado’ não é sinónimo de secreto, nem pressupõe nenhum tipo de discriminação ou opressão, é tão somente a vida de cada um como cada um a escolhe viver. Por isso não percebo a necessidade (imposição) que a opção ou decisão ou aceitação de como vivemos a sexualidade tem que ser tornada pública enquanto elemento identitário ‘oficial’ e ‘administrativo’ em vez do sexo com que nascemos. Em que momento é que essa construção de si (opção, escolha, aceitação, eu sei lá) está terminada? Tem de estar terminada e fixada para sempre? E se muda (porque não?) e entra em conflicto com o que foi anteriormente declarado oficialmente por exemplo no CC? Muda-se outra vez? Porque é que essa dimensão identitária do género é mais relevante do que outras que nos constroem e que fazem quem somos e nos definem? Levado a um extremo, (ou talvez não), aposto que muitos sócios do Benfica até gostariam de ter essa filiação no Cartão do Cidadão! 

Ao preencher uma qualquer ficha de identificação já me deparei com o pedido do género entre várias opções que não o simples binómio masculino /feminino, e algumas até dão a opção de personalizar o género. É isso, personalizar. Faz-se como? Se isto é complicado para os adultos, imagine-se para as crianças. Como é que se lhes impõe uma escolha ancorada num vasto leque de opções? Como é que se explica? E sobretudo, porquê obrigar crianças a definir o seu género? Realmente esta problemática dos géneros é toda uma nova dimensão que se abre, e não creio que seja um bom caminho esse que nos estão a obrigar a percorrer. Mas criticá-lo é imediatamente sinónimo de intolerância, de discriminação. Não são tempos fáceis para a liberdade de expressão.

09/01/14

2013 (II)

No princípio do ano de 2013 pediram-me, no âmbito de um caso em julgamento, para escrever um testemunho para o tribunal. Fi-lo eu e mais uma dúzia de pessoas, quase todas mulheres. A parte contrária tentou desacreditar e descredibilizar os testemunhos usando o argumento que eram quase todos feitos por mulheres, e (pior ainda, se fosse possível), mulheres “de uma certa idade”. Na altura achei tão ridículo tal argumento que só poderia rir, perguntando-me então qual seria a boa idade para uma mulher testemunhar e, claro, se os homens também teriam boas e más idades para serem testemunhas. No meu íntimo, na altura, desejava que fosse uma juíza, e já agora também “de uma certa idade” a julgar o caso. Meses depois, na altura do julgamento, soube que sim, que era uma juíza e também ela “de uma certa idade”. 

Esta pequena peripécia, no entanto, não me deixou tranquila. É inquietante pensar que nesta Europa do séc. XX sobrevivem preconceitos suficientemente enraizados ao ponto de gente educada e civilizada (assim o pensam e assim os pensamos) os utilizar, não verbalmente em jantares de amigos nos quais alguns preconceitos velhos e novos convivem com leveza e provocação, mas de forma escrita e em situações formais, nomeadamente num processo de justiça, tentando a sua validação. O caso Bárbara Guimarães, Manuel Carrilho veio, meses mais tarde, confirmar esta (e outras) inquietação: a necessidade de, sem olhar a meios, desvalorizar a palavra da mulher, usando desculpas e razões várias nomeadamente por ser “de uma certa idade” (aquela história que ele contou de BG ter dificuldade em aceitar os 40 anos). 

A vida para as mulheres não é fácil. Se são incompetentes, inconvenientes, irritantes são-no em primeiro lugar por serem mulheres e por isso são ridicularizadas. Os argumentos, as ideias, vêm depois, quando os há. Não importa que seja Assunção Esteves (cita mal e é inoportuna), Pussy Riot (manifestam-se com pouca roupa), Miley Cyrus (preciso mesmo dizer?), Isabel Jonet (parece não perceber o peso das palavras), Ana Gomes (uma voz e estilo irritante), Bárbara Guimarães (preciso mesmo dizer?), Kate Winslet (recentemente sob ataque por ter três filhos de três pais diferentes), ou tantos outros nomes que poderia citar. Primeiro vem o preconceito e desvalorizam-se os argumentos, as opções, os combates. Não é assim com os homens, não é assim com os homens incompetentes, os ridículos, os imbecis, os irritantes, que existem alegremente sem serem objecto de tanto preconceito  e de tanta desvalorização sem argumentos. Com as mulheres o debate, quando o há, vem só depois do preconceito. As mulheres nunca têm o mesmo direito à incompetência, ao ridículo, à imbecilidade que os homens têm. E nunca têm o benefício da dúvida – a sociedade não é tolerante com elas. Se é assim na sociedade ocidental que se quer igualitária, o combate pelos direitos das mulheres nas outras sociedade é ainda um percurso duro. 

Tivemos em 2013 exemplos bastantes: na Índia assistiu-se a um grande número de manifestações pelos direitos das mulheres no seguimento de casos de violações colectivas, num primeiro momento desvalorizadas pela polícia, mas que posteriormente foram conhecidos tendo sido os agressores objecto de condenação; no Médio Oriente a Primavera Árabe deixou um rasto de inverno no que respeita a segurança e direitos das mulheres como pudemos constatar por inúmeros testemunhos do que se passa sobretudo no Egipto e na Tunísia (onde as primaveras foram mais floridas). Na Arábia Saudita as mulheres manifestam-se conduzindo, na África do Sul homenageiam Mandela pelo papel que teve na luta feminista. Também em 2013 se falou mais sobre violência domestica, tráfego de mulheres, a crise e as mulheres... E gostaria de deixar uma nota final sobre a publicidade, ou as publicações, nomeadamente as de moda e estilo de vida. Nunca como este ano li e vi tantos artigos e vídeos que denunciam as barbaridades que sistematicamente se fazem ao corpo das mulheres, perpetuando uma imagem irreal e irrealista: com o Photoshop afinam-se e alisam-se rostos, ancas, alongam-se pernas quando as mulheres são “gordas”; ou apagam-se os sinais das costelas, da bacia e de outros ossos, corrige-se a flacidez da pele, dá-se relevo ao peito, enchem-se as pernas quando é necessário disfarçar a excessiva magreza das modelos; ou simplesmente apagam-se os sinais do tempo dos rostos e corpos, numa descaracterização que assusta pois às vezes mal se reconhecem as pessoas retratadas. 

2013 foi o ano da Mulher. 2013 mais uma vez mostrou, pelo menos a mim, o longo caminho a percorrer no sentido de estabelecer a dignidade da mulher, recusando preconceitos fáceis, e combatendo as leis difíceis.

16/12/12

Paternalismos

Quando disse aqui que achava que se perdia demasiado tempo a discutir Isabel Jonet, não fazia a mínima ideia do tempo que se iria ainda ‘perder’. Et pour cause; Isabel Jonet em período que requeria alguma descrição e ponderação nas palavras, por causa do turbilhão gerado pela sua entrevista televisiva, reincidiu, não soube ser discreta nem tão pouco estar calada. Sobre a polémica do que ela disse a propósito da caridade e do estado social faço minhas as palavras de JPP aqui. Não são, no entanto as suas palavras e polémica por elas gerada que me levam a escrever este post, mas sim a reacção de comentadores, colunistas, bloggers conotados com a direita, normalmente críticos, lúcidos, inteligentes, contundentes e pouco dados a reacções ‘grupais’. 

Nada como um debate mais acesso, para trazer ao de cima uma das características que mais abomino na direita, e que tem raízes fortes no catolicismo tal como vivido durante tantos séculos e que, infelizmente, ainda o é nalguns sectores: o paternalismo. Num debate que pode ser sobre o aborto, ou sobre a pobreza, ou outro tema de ordem moral, mais cedo ou mais tarde a “direita” acaba por ceder ao paternalismo. Senão vejamos o que diz hoje no Público Vasco Pulido Valente, um colunista crítico, mordaz, cínico, pouco dado a pensar pela cabeça de um ‘grupo’ ou da ‘direita’, a quem dificilmente colamos a etiqueta de paternalista: 

(…) Isabel Jonet, (…) é uma mulher estimável que, de repente, se viu metida no meio de um jornalismo espertalhão. Não sendo nem moralista, nem teóloga, nem política, falava com a maior inocência sobre si e o seu papel no Banco Alimentar, não lhe ocorrendo que se podia meter num sarilho ou suscitar uma polémica a cada palavra. Atravessou este pequeno tumulto com dignidade e boa fé. (No Público)

Para além de uns radicais de esquerda que questionam a boa fé de IJ ou o mérito social do seu trabalho no Banco Alimentar, vi apenas e exclusivamente ela ser criticado pelo que disse e pela oportunidade do que disse no contexto actual, dando às suas palavras a importância que elas merecem. Sim, IJ é uma mulher relevante no contexto da nossa sociedade, ainda mais em tempos austeros e difíceis. O que ela diz é relevante, e ela sabe-o certamente. Ter vindo a público novamente com explicações e declarações (entrevista ao jornal "i"), foi uma opção sua, certamente tomada de forma responsável como mulher responsável que parece ser. Declará-la vítima de “um jornalismo espertalhão”, e declará-la “inocente” ao falar sobre si e o seu papel no Banco Alimentar, é passar um atestado de imbecilidade a Isabel Jonet e menorizá-la enquanto pessoa e enquanto figura pública e de relevo na nossa sociedade. Ser condescendente e paternalista (machista também?) para com IJ e para com o que diz, é sobretudo desrespeitar o significado do que ela diz, desrespeitando-a também, ou desprezar o que diz ("não sendo moralista, nem teólogo, nem política", como se isso fosse condição para emitir opiniões), não lhe atribuindo importância ou relevo especial. Ser condescendente e paternalista é também interpretar livremente as intenções das suas entrevistas e das suas palavras (“não lhe ocorreu que se poderia meter num sarilho”, etc). 

Falar ou não, ceder ou não à tentação de se (re)explicar em entrevistas, é um direito que assiste a IJ, e tal direito deve ser olhado com respeito, nomeadamente dando às suas palavras todo o significado que as palavras têm. Sem mais. Argumentos do género ‘ela não tem jeito para dizer as coisas’, ou ‘ela não sabia no que se ia meter’, só a diminuem. Criticá-la pelo que ela diz não é menorizá-la, justificá-la com paternalismo, é. E é o que a ‘direita’ não se cansa de fazer: justificá-la...

Como se Isabel Jonet precisasse.

19/09/10

Were Is the Ethical Foundation For Political Choices To Be Found? 2

What are the requirements that governments may reasonably impose upon citizens, and how far do they extend? By appeal to what authority can moral dilemmas be resolved? These questions take us directly to the ethical foundations of civil discourse. If the moral principles underpinning the democratic process are themselves determined by nothing more solid than social consensus, then the fragility of the process becomes all too evident - herein lies the real challenge for democracy. (…) The central question at issue, then, is this: where is the ethical foundation for political choices to be found?
(…)
Religion, in other words, is not a problem for legislators to solve, but a vital contributor to the national conversation. In this light, I cannot but voice my concern at the increasing marginalization of religion, particularly of Christianity, that is taking place in some quarters, even in nations which place a great emphasis on tolerance. There are those who would advocate that the voice of religion be silenced, or at least relegated to the purely private sphere. There are those who argue that the public celebration of festivals such as Christmas should be discouraged, in the questionable belief that it might somehow offend those of other religions or none. And there are those who argue – paradoxically with the intention of eliminating discrimination – that Christians in public roles should be required at times to act against their conscience. These are worrying signs of a failure to appreciate not only the rights of believers to freedom of conscience and freedom of religion, but also the legitimate role of religion in the public square.

Bento XVI
Westminster Hall, 17 de Setembro de 2010.

Were Is the Ethical Foundation For Political Choices To Be Found?

Parece, para desgosto de tantos, que a visita de Bento XVI ao Reino Unido foi um sucesso. Os receios e os medos de que a visita do Papa fosse olhada com alguma indiferença, por uma população que apesar de, muito maioritariamente, se sentir cristã (segundo o que ouvi numa televisão britânica em que uma sondagem concluía que 70% da população se diz ser cristã) é cada vez mais “secular”, foram desmentidos não só pelos números dos que acorreram às celebrações e à rua, mas sobretudo pelo entusiasmo com que o Papa foi recebido pelos diferentes sectores da sociedade, nesta primeira visita oficial de um Papa ao Reino Unido desde a Reforma. A carga simbólica da visita foi também impressionante: a recepção pela Rainha, pelo Arcebispo de Cantuária e o encontro com a comunidade política em Westminster Hall, onde o Papa, no seu discurso, pode abordar os temas que lhe são caros e recorrentes: a fé e a razão, a política e a religião, e que se inserem na sua prioritária (re)evangelização da Europa.

Creio que haja, no calor da recepção ao Papa no Reino Unido, e até aqui em Portugal em Maio passado, uma falta de escândalo por essa noção de (re)evangelização, e até mesmo uma vontade de ser parte dessa (re)evangelização. Os europeus democratas e tolerantes, são hoje colocados perante múltiplas, complexas e perplexas questões que o relativismo, o multiculturalismo e a ciência lhes apresentam a cada dia que passa. Acredito que este Papa, com o seu discurso claro, firme e sólido lhes transmita alguma segurança e, pelo menos por um momento, lhes apresente um rumo para um futuro que não seja de insegurança e receio.

(As questões da moral sexual, nestes momentos, aparecem como absolutamente secundárias. Aliás, de uma maneira geral e como bem sabemos, os católicos já aprenderam há muito a divergir, em paz, com a doutrina da Igreja sobre estas matérias.)

No excessivo zelo das nossas estruturas sociais e políticas pelo respeito multicultural - um conceito amplo e vago que cada vez mais serve para tudo pois considera-se “cultura” qualquer manifestação de “estilo”, qualquer “prática” ou qualquer “opinião”, por mais bizarra e/ou minoritária que seja e por mais contra os valores de igualdade, dignidade e de respeito pelo ser humano que seja (a excisão feminina, por exemplo, que é praticada amplamente na Europa) - a sociedade Europeia corre o risco de esquecer a sua raiz cultural cristã que, num trabalho de séculos, permitiu a secularização, a tolerância pela diferença, o respeito pelo indivíduo e a democracia.

O Papa, no seu discurso em Westminster Hall, (excertos no próximo post) não escolheu um exemplo qualquer, tocou num ponto sensível a qualquer homem comum, que nem precisa de ser muito religioso: o Natal. Os Britânicos gostam desta festa e das tradições desta época do ano. Celebram o Natal ao longo de dias e de forma visível e hoje incomodam-se com o ressentimento que alguns sectores da sociedade demonstra face a essas celebrações. Por exemplo, repare-se na complicação que é para uma empresa organizar o seu tradicional jantar de Natal, que não só terá de se chamar “Festas do Solestício”, ou outra treta afim, como terá o menu de ter em consideração todas as restrições alimentares de todas as religiões existentes e de todas sensibilidades que se possam imaginar. Um pesadelo!

07/07/10


Faltam dez minutos, e apercebo-me que vou, provavelmente, torcer pela Alemanha. Há uma primeira vez para tudo.


Afinal tanta conversa, tanta sentença salomónica, para dar em nada. Impossível não rir.


Se o “interesse nacional” (esta expressão é todo um título) vencer os interesses espanhóis ou outros, creio que é legítimo agora, sem se poder acusar ninguém por isso, que cada português espere e conte com um bom emprego para os filhos e os amigos, sem terem que passar pelo mercado de trabalho. Certamente que o “interesse nacional” da PT se estende a todos portugueses, e não tem quotas nem numerus clausus. Já agora: podiam abolir de vez a palavra “mercado”, afinal ninguém sabe mesmo o que significa.

05/07/10

Aqui Não.

Quando, na semana passada, se queixaram à polícia depois de terem sido assaltados e intimidados na praia do Tamariz (Estoril) por um grupo de jovens negros, lhes retorquiram com a maior naturalidade: mas não sabem que esta é a zona de gangs, que é considerado seu território e que eles não gostam que os estranhos venham para aqui? Não, eles que não vivem no Estoril, não faziam ideia sequer que a praia se dividia em “territórios”, quanto mais que aquele “pedaço” de praia “pertencia" a um determinado gang. Para que a polícia dê respostas assim, é porque esta territorialidade está já tacitamente aceite e, claro, culpados são os que ousam perturbá-la.

23/06/10

Depois dos exageros (digo eu) após a morte de José Saramago, Eduardo Pitta fala-nos com espanto sobre o silêncio e indiferença perante a morte de António Manuel Couto Viana. Isto só mostra a massa de que é feita o país: mais de eventos do que de alma. Não há nem direita nem esquerda que escape a este fado.

20/06/10

Deixem-nos em Paz

Pior do que a vaidade emproada que Saramago ostentava, só mesmo o deslumbre provinciano que quem, de cada vez que ele perorava sobre o mundo em geral ou sobre si em particular, lhe colocava um microfone à frente. Ou as horas a fio nas televisões (numa inclemente guerra com o rival futebol deixando pouco espaço para a realidade no país e no mundo), as capas dos jornais de ontem, hoje e quem sabe amanhã, o unanimismo, o luto nacional decretado, o Nobel lembrado num constante exercício requentado de memória, as faixas pretas autorizadas pela FIFA nos jogadores portugueses (que certamente conhecem e apreciam a obra do autor) no jogo de amanhã, o pseudo-escândalo por Cavaco Silva não ir ao funeral, ou até, ouso, a discutível decisão, que no entanto ninguém põe em causa, de disponibilizar um avião da Força Aérea para trazer corpo do escritor para Portugal. Um ambiente a cheirar o patético, o ridículo, o pequenino. Que fiquem os livros - ia dizer para quem os quiser ler, mas nem isso hoje se pode dizer da obra de Saramago, pois no secundário ele tem sido há anos leitura politicamente correcta e obrigatória (outro assunto que mereceria ser discutido) - mas deixem-nos em paz.

05/01/10

Itinerante e Improvisada

Hoje as notícias que fui ouvindo ao longo do dia eram... eu diria, diferentes. Falava-se em casamento homossexual, em referendo ao dito casamento, na criação da figura de união civil registada, que parece ser igual ao casamento homossexual, com os mesmos direitos, só que não se chama casamento. Depois disto, ouço que a Associação de Empresários de Carroceis que se manifestou hoje na Caparica e é recebida pelo PSD, protesta contra o decreto-lei que regula o licenciamento de carrosséis em recintos itinerantes ou improvisados. Que agenda noticiosa a de hoje!

Sem querer desmerecer a causa daqueles que partilham vida e economia (homossexuais ou não) e se sentem discriminados em relação aos direitos que o casamento concede e, por outro lado, confessando a minha ignorância sobre a causa dos empresários de carroceis e a eventual bondade do protesto, atentei nas palavras itinerantes e improvisadas. O puzzle parece encaixar-se: são as palavras adequadas para descrever, entre outras coisas que me absterei de mencionar como a Justiça, por exemplo, a intenção e a produção legislativa do país: itinerante e improvisada.

12/12/09

D. Manuel Clemente

Foi reconhecido, a D. Manuel Clemente pelo júri que atribui o Prémio Pessoa, que

Há, no entanto, alguns sectores anti-clericais na sociedade, sobretudo numa determinada esquerda de causas, que não “percebe” o porquê do prémio e o critica, mas que esquecem que não podem "perceber" quando, por puro preconceito tantas vezes, não querem olhar e ver. Estes sectores convivem mais facilmente com a estupidez, pequenez e falta de cultura que existe dentro da Igreja Católica do que com a excelência, inteligência, cultura e o rigor, já para não falar da bondade (conceito absolutamente desactualizado e potencialmente perverso). São escolhas.
.

06/11/09

Mais Abaixo

De cada vez que se publica (divulga) um estudo internacional, Portugal está cada vez “mais abaixo”. Hoje está mais abaixo na taxa de investimento estrangeiro. Há semanas anunciou-se estar 14 lugares “mais abaixo” no índice de liberdade de imprensa, posteriormente também ficou “mais abaixo” no índice que mede as disparidades entre os sexos. Prevê-se que fique também “mais abaixo” na taxa de crescimento económico cuja média europeia para 2010 será de 0,7%. Só com a previsão do deficit a crescer podendo atingir os 8% em 2010, se contraria, como se isso fosse consolo pois é da pior maneira possível, a tendência “mais abaixo”. José Sócrates continua a bater no pessimismo e no bota-abaixismo, mas parece que ele é o grande responsável por estes números cada vez “mais abaixo” que afundam inexoravelmente o país em áreas tão diversas e díspares. É uma realidade “bota-abaixista” do país, aquela que José Sócrates construiu, se recusa a ver e quer continuar a construir. Os portugueses continuaram a votar nele, o suficiente para fazer um governo, por isso não se podem queixar.

Perante esta fatalidade nacional fala-se de casamento entre pessoas do mesmo sexo, de avaliação de professores, de TGV, em suma: o que o país merece.

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