22/07/18

Vai Subir?

A vida não é fácil para quem tem um módico de racionalidade. Tantas vezes não encontramos o sentido das coisas – grandes ou pequenas – muito menos o que move as pessoas e o mundo que, claro, é feito e moldado pelas ditas pessoas. Ah, mas desenganem-se, não são hoje as grandes opções, dilemas, juízos, aspirações ou ideais que me ocupam, hoje detenho-me num detalhe comezinho da vida em sociedade pois, como se costuma dizer, há coisas que não matam, mas moem. A verdade é que de tanto moer (água mole em pedra dura ...) algo se quebra, racha, e em mim recentemente algo se quebrou (a tolerância, a paciência?) perante a ausência do que considero serem uns níveis mínimos de racionalidade e senso comum da vida. 

Desde que me lembro que me intriga a forma como as pessoas utilizam os elevadores; sim, elevadores, essa maquinaria que faz parte da nossa paisagem do dia a dia, aqueles que, subindo e descendo, nos levam para cima ou para baixo, num prédio de habitação ou escritórios, num hospital, numa repartição, nos centros comerciais. Não falo, no entanto, de elevadores velhos desprovidos de automatismos - falo de todos os outros: dos que têm no exterior dois botões, um com uma seta para cima, outro com uma seta para baixo permitindo que, carregando o botão com a seta para cima chamemos o elevador que sobe, ou o contrário se carregarmos no botão com a seta para baixo. Falo dos elevadores que têm uma luz que acende por cima da porta que abre quando ele chega, e que, través de uma seta para cima ou para baixo, indica se o elevador vai subir ou descer. Acreditava eu, na minha inocência, nada haver de transcendente em perceber coisas simples: 
- se queremos subir chamamos o elevador carregando no botão com a seta a apontar para cima e vice versa se quisermos descer. 
- quando o elevador chega e olhando para a luz por cima da porta e para o sentido da seta, sabemos desta forma simples, se ele vai subir ou vai descer e decidimos entrar ou esperar. 

Andei e ando redondamente enganada. Há toda uma transcendência e metafísica na forma de utilizar o elevador que nunca entendi, só isso explica que eu veja quotidianamente: 
- pessoas que carregam em ambos os botões ao chamar o elevador, (como se mecânica elevatória se compadecesse, ou se motivasse e se apressasse um pouco mais) embora saibam perfeitamente se vão subir ou descer. E não, não se pode subir e descer no mesmo elevador ao mesmo tempo. Só baralha e atrasa o mecanismo,
- pessoas que invariavelmente, ao entrarem no elevador, perguntam “vai subir?” ou “vai descer?” porque são incapazes de levantar os olhos e ver a luz e a seta que acende e que lhes dá a indicação se o elevador vai subir ou descer. 
- pessoas que esperam que nós, aqueles que já estão no elevador, interrompamos as nossas divagações ou silêncio, para lhes responder e assegurar que o elevador vai a subir ou a descer. 

O mais estranho é que este comportamento que vem da incapacidade para utilizar elevadores, é absolutamente transversal: novos e velhos, pobres e ricos, cultos ou incultos, inteligentes ou burros, gordos e magros, homens e mulheres, todos cabem nesta categoria. Podem vir de telemóvel na mão a responder a emails complexos, ou com uma mente cheia de cálculo diferencial, ou de fenomenologia, nada disso conta na hora de utilizar um elevador. Recentemente descobri para meu absoluto espanto, alguém que não sabia em que botão carregar para chamar o elevador: ou da seta para cima se quero que ele suba para poder descer ou carregar logo no botão com a seta para baixo se quero que ele desça. O quê? tão complicado assim? mas como é que se sabe onde e como está o elevador nos andares que não indicam o seu paradeiro? Uf, este é um caso típico de “porquê simplificar se podemos ter complicado?”. Isto é o mundo ao contrário. 

O que temo é que uma vida inteira a ouvir “vai subir?” (ou “vai descer?”), ao ponto dessas frases já esperadas nos arranharem, deixe marcas numa mente racional. Não sei quais, mas duvido que não as haja. Pena de mim! 

A rational mind has, occasionally, a hard time understanding the world as it is, and people as they are and react. I will not be detained now by trying to make sense of the big questions people face, their doubts, hopes, dilemmas, whatever moves them, but by a small detail of daily life that leaves me every single time bewildered and impatient. It is the way most people use the lift - yes, I’ll write about that familiar and useful mechanism that takes people up and down, not the old ones, but the modern ones with memory and two buttons. These lifts have up and down arrow buttons one must press to go up or down, so if you want to go up you press the button with the arrow pointing up, and press the down arrow one if you want to go down. 

It is simple, it is not complex, it is not metaphysics, but still there are people who cannot figure that out and press both buttons, and, before getting in, never bother to look up to the light on top of the door that indicates (an arrow again) if it is going up or down. So – interrupting our reverie, or unwillingness to speak to strangers – they ask, every single time “going up?” or “going down?” 


I realize now that I have been mistaken all my life. Figuring out which button to press, and if the lift is going up or down are not easy jobs, otherwise you wouldn’t see so many people – young or old, clever or stupid, rich or poor, thin or fat, asking invariably, before getting in a lift: “going up?” (or “going down?”). They may be on their mobiles writing complex emails, or having their heads full of differential calculus or phenomenology, the fact is that none of that matters when it comes to using a lift. I’m quite sure a life’s worth of hearing “going up?” or “going down?” must leave some trace on a rational mind. Don’t know which one, but I feel sorry for myself.

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