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11/12/12

Dois Filmes

Ted, um filme em que se perde o olhar inocente que ainda conseguimos ir mantendo perante um urso de peluche. Mas a coisa poderia ter corrido melhor – dessacralizar ursos de peluche, não é necessariamente uma má ideia, mas persistir naquela comédia de costumes (predominantemente ‘masculina’, mas que também já atinge o universo ‘feminino’) em que a adolescência se prolonga, quais pilhas Duracell, teimosamente para lá do normal e desejável, já cansa. Pelo menos cansa-me a mim, que deixei a adolescência faz muito. Também me cansa a constante que são as piadas escatológicas: é xixicócó (estou a ser branda, como saberá quem viu o filme) em variantes e tonalidades diversas a mais. Abram a janela, deixem entrar ar! Lamentavelmente, uma boa ideia que poderia ter dado um bom filme, mas não deu. 



Trouble With The Curve (Voltas da Vida, é uma tradução redutora), filme não realizado por Clint Eastwood, começa com um diálogo inesquecível que imediatamente nos reconcilia com o melhor (de) “Clint Eastwood”, essa personagem temperamental, de mal com a vida, zangado, teimoso que não gosta de envelhecer. Pensamos Grand Torino, e está-se bem... O filme prossegue, as personagens desenham-se, as situações desenrolam-se; os actores cumprem a sua missão, (Amy Adams é uma actriz  muito sólida), a narrativa flui com interesse, o filme é bom... mas nunca nos leva onde gostaríamos de ter ido, sentimos que ficam ainda locais por explorar nos recantos das personagens. Fica um sentimento de frustração por se ter visto um filme bom, quando pensamos que se poderia ter visto um filme muito bom.

15/06/12

Pescar Salmão



Depois de um filme pesado, (no sentido de indigesto, e não no sentido de profundo), monocromático, e em que os excessos de caracterização das personagens (porque não arranjam actores mais velhos?) se impõem a tudo o resto, soube-me bem ir pescar salmão no Iémen, um filme que se revelou melhor do que previa, em oposição ao J.Edgar, de Clint Eastwood que me aborreceu seriamente. Devem-se contar nos dedos das mãos os filmes de Clint Eastwood de que não gostei, e este é um deles. 

Salmon Fishing in the Yemen está longe de ser um grande filme, nem será sequer a comedia do ano, mas não me decepcionou e gostei da forma como todo ele está pontuado por várias camadas de ironia. Kristin Scott Thomas, uma actriz que nunca desilude, dá corpo a uma assessora de imprensa do primeiro-ministro, muito esforçada, muito eficiente, muito actual - uma verdadeira perita na manipulação dos media: cria os acontecimentos, fabrica imagens e só pensa em termos do que é que o primeiro-ministro precisa para as primeira páginas dos jornais: uns dias que falem dele, outros que não falem dele. Nada que não conheçamos, mas sempre divertido de ver. Deparamo-nos também com a nostalgia de um (o?) império e do colonizador, com o privilégio e a abundância dos recursos que cabe à personagem que, fosse a História um fluir simples, unidimensional e sem desvios e a Política uma ciência binomial, deveria sentir os males do (ex)colonizado. Ewan McGregor (com o seu irresistível sotaque escocês) é a personagem que, tendo bebido da cultura ‘do império’ e tendo uma formação académica superior, não é mais do que o retrato de hoje de uma classe-média desiludida e desinspirada em sem ‘graça’. Ele vive acomodado num presente feito de rotina e em que o cepticismo é refúgio. Ao longo do filme esta personagem desajeitada, nunca deixa de nos cativar. 

Mas há mais: personagens, situações, paisagens, nada muito complicado, nada que exija muito esforço, nada que traumatize. Trata-se de um filme simples, despretensioso e simpático, eficaz a fazer sorrir, e feito para se ver ‘em família’. Ainda bem que o fui ver por causa do título e sem ter tido vontade de procurar mais informação sobre ele; tivesse eu feito isso, e tivesse eu percebido quem era o realizador, (já vi pelo menos duas chachadas realizadas por ele) provavelmente não teria ido pescar salmão no Iemen.

06/02/11

Finais Felizes

Vale a pena (re)lembrar que não há verdades absolutas sobre a arte, sobre a forma de ler cada manifestação artística seja ela a música, o cinema, a literatura, a pintura, etc. Neste blogue todas essas “leituras”, opiniões, gostos, que partilho com quem me lê, assumem o seu esplendor subjectivo: minha leitura, minha opinião, minha sensibilidade, minhas memórias. Posso não descurar as outras que li ou ouvi e me influenciaram, mas a minha é a principal, é a mais importante, e a determinante neste blogue pessoal.

Ando há algum tempo com o conceito de “Final Feliz” na cabeça por causa de dois livros que li (deles darei conta em breve) e de um filme que vi, Hereafter de Clint Eastwood. Nunca me teria passado pela cabeça pensar em “Final Feliz” a propósito do filme não tivesse eu tropeçado neste pedaço de crítica de Vasco Câmara que diz, entre outras coisas: "um "happy end" que é das coisas mais feias que Clint já filmou". O argumentário do crítico chocou-me, pois fiquei com a sensação de que navega a um nível de superficialidade e simplismo surpreendente. Esquecendo a Cinderela e afins, o que será um "Happy End" bonito para o crítico? Já pouca crítica leio, deveria deixar de o fazer de vez.

Este filme de Eastwood tem, dizem, a nível formal algumas inovações (se é que se pode chamar a estas opções inovações) face à habitual simplicidade narrativa dos seus filmes anteriores: uns efeitos especiais (o tsunami), e uma narrativa a três planos – apesar de linear. Mas é um filme simples, não há suspence, não há surpresas. Cedo percebemos que as narrativas se cruzarão, e o filme vive para além desse aspecto formal em que o “Final Feliz” se encaixa. Vive do percurso cheio de negações, de interrogações e de dúvidas face à morte que de formas distintas habita cada personagem e as afasta do mundo e dos outros. Por isso o “Final Feliz” género “casaram e viveram felizes para sempre” que o crítico terá visto e nos faz crer ser, na sua visão redutora e superficial, simplesmente não é. É sim, um “Final Feliz” no sentido do apaziguamento que as personagens finalmente começam a encontrar, do início da aceitação de si próprias dependente da aceitação da morte em si.

As três personagens estão ou entram em conflito com os seus demónios: desta vez não estamos no domínio dos demónios interiores psicológicos mas noutro tipo de interior, aquele que silenciosamente se nos impõe pela inevitabilidade: a morte que está em nós desde o dia em que nascemos. A estas personagens coube-lhes o dom ou a maldição - a grande dicotomia do filme, de a sentirem tão de perto e tão presente. Porque a sentem perto e presente perdem trabalho, não tecem laços afectivos, ou são incapazes de intimidade.

Excelentes interpretações, uma realização enxuta, uma sensibilidade única a abordar um tema tão pouco “estético” e tão pouco “cómodo”. Mas se não for antes, que pelo menos depois dos oitenta anos (a idade de Eastwood), tudo seja permitido, até (ou sobretudo) pensar a morte com a mesma aparente simplicidade com que se compõe a música do filme. “There’s a Portuguese director, Manoel de Oliveira, who’s still making films at over 100 years old,” Eastwood continues. “And I plan to do the same thing.” Oxalá.

Mais sobre o filme: aqui.

23/03/09

Grand Torino 2

(...)
So tenderly
Your story is
Nothing more
Than what you see
Or
What you've done
Or will become
Standing strong
Do you belong
In your skin
Just wondering

Gentle now
A tender breeze
Blows
Whispers through
The Gran Torino
Whistling another
Tired song
Engines humm
And bitter dreams
Grow
A heart locked
In a Gran Torino
It beats
A lonely rhythm
All night long

(Kyle Eastwood, Jamie Cullum, Clint Eastwood)

Grand Torino



Às vezes já sei que vou gostar do filme e ainda não o vi; foi assim, sabendo exactamente que ía gostar e do que ía gostar que fui ver Grand Torino. Não houve surpresas só a confirmação de um excepcional fazedor de filmes que é Clint Eastwood.

A história, que tem algo de pascal (adjectivo de Páscoa e não referente ao filósofo e físico francês), e gira em torno de Walt Kowalsky, uma personagem complexa, que vive em guerra com o mundo que desconhece cada vez mais. É um cínico ex-veterano de guerra de humor eficaz e rude, que se vê no fim da sua vida, viúvo e só, a viver com os fantasmas que o acompanham desde os tempos passados e com os ódios e indiferenças do presente. Ele é o motor da narrativa e é à volta dele que gravitam as restantes personagens: o Padre Janovich, o "over-educated 27-year-old virgin", (segundo Kowalsky), que vai crescendo e se vai revelando ao longo do filme, bem como os dois irmãos Hmong, Thao e Sue, que farão despertar em Kowalsky uma solidária amizade e respeito. Kowalsky é ao mesmo tempo um herói e um anti-herói: se por um lado é destemido e não teme nem o confronto, nem o uso da violência para se proteger e proteger os “seus”, por outro lado não esquece o que fez num passado longínquo quando não lhe deram ordens para o fazer, e tem por isso sentimentos conflituosos em relação à medalha que recebeu por esses seus feitos “heróicos” na guerra.

Talvez o que mais tenha gostado, e sem surpresa mas sempre com prazer, foi da cadência do filme, um andante que dá um passo de cada vez, mas que pisa seguro e na direcção certa: as cenas não se atropelam, a câmara não saltita, a música não se sobrepõe à narrativa e a história desenrola-se com a naturalidade das coisas que acontecem aqui ao lado. A realização e direcção de actores é sóbria e de grande contenção o que valoriza essa cadência agradável, humana, esse ritmo que não atordoa e que permite que ao longo do filme se mantenha uma postura e atitude contemplativas e uma sensação de tranquilidade e de serenidade, mesmo quando sentimos que algo de desagradável vai acontecer. Há sempre um tom latente de redenção (daí o pascal) mesmo com o preço da culpa dos outros, daquilo que os irá atormentar, e creio que esta dualidade é uma característica de Eastwood, uma humanidade que procura no turbilhão de possibilidades um (o) sentido final, num filme que não quer atordoar o espectador nem provocar sensações mais imediatas e visíveis, mas que aposta no que há de mais íntimo, na sensibilidade e na inteligência. Uma última referência à música, excelente, que emoldura este ambiente intimista.
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23/01/09

Changeling


A Troca não é uma obra-prima, nem o melhor dos filmes de Clint Eastwood, mas é de uma enorme solidez e muito “reliable” sem cair em facilitismos sentimentais e exageros maneiristas num filme que onde isso seria tão fácil e num filme que é sempre duro. Tão duro quanto só a esperança da mãe, apesar de tudo, o pode ser. É a esperança que é dura e cruel, que não deixa viver nem respirar. É também um filme tão duro quanto o “fazer” de uma verdade oportunista e para consumo exterior e tão longe da única verdade o pode ser. É o fabricar desta verdade tão desrespeitosamente longe da realidade que é duro. Não se dá pelo tempo passar. Envolvemo-nos naquele clacissismo que já todos reconheceram e glosam em Eastwood. Bom casting, boa fotografia, boa música. “A Troca” é um filme de qualidade indiscutível.


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