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24/02/12

Maior Que O Pensamento

Ontem a propósito de Mondrian divaguei sobre a infância aqui no blogue. Mal eu sabia que momentos depois, e por causa dum programa da RTP1 a lembrar o 25º aniversário da morte de José Afonso (bom serviço público), regressaria à infância e lembraria as músicas com que o conheci. Numa casa conservadora do Porto ouvia-se então José Afonso. Ouvia-se mesmo muito José Afonso, numa altura em que poucos sabiam dele e ainda menos compravam os seus discos. Aprendi de cor muitas das suas canções e, tal como a tabuada, as preposições, os pronomes demonstrativos, os verbos franceses, e algumas fábulas de La Fontaine, o que se aprende de cor na infância perdura, ainda hoje as sei e as canto (sim, confirma-se: canto no chuveiro, no carro, a cozinhar, e até – ousadia suprema dada a total incapacidade – quando ouço ópera...). Relembro-o - tal como o fiz aqui há 5 anos - e relembro: Balada do Outono, Senhor Poeta, Tenho Barcos, Tenho Remos, Cavaleiro e o Anjo, Canção de Embalar, Vejam Bem, Menino do Bairro Negro ou Trás Outro Amigo Também, entre outros. São sons da minha infância, da minha juventude, de sempre. Se há um som portugês, é para mim o som das baladas de José Afonso. Se há uma voz portuguesa, é para mim a voz de José Afonso. Não apreciava o político, mas o músico foi sempre o meu preferido. 

Registo aqui a minha perplexidade pelo horário a que passam programas como este. Não podiam tê-lo feito nas três partes originalmente programadas e passá-lo a uma hora mais acessível? E registo também o facto de continuar sem perceber que conceito é esse de serviço público que privilegia os concursos e as novelas em detrimento de programas como este Maior Que O Pensamento. 

23/02/07



Baladas de Coimbra (1962) e Cantares do Andarilho (1968): um single e um LP que já conheci de capas gastas e que se ouviam sem cansar durante anos e anos: são a minha primeira e muito querida memória de música portuguesa. Para mim nem a Amália me faz sentir Portugal como José Afonso sempre fez. Mas falo de um José Afonso musical bem anterior ao 25 de Abril. E essas obras, primeiro uma coletânea de LPs e depois uma de CDs acompanharam-me sempre, fosse eu para onde fosse e se saudade batesse era ele que eu lembrava, trauteava e tinha vontade de ouvir.

No tempo destes discos era de José Afonso que se falava. Álias, antes deles ele era Dr. José Afonso quando cantava o fado de Coimbra e era esse o nome que constava na capa dos discos. O Zeca Afonso, enquanto nome artístico, é um produto do pós 25 de Abril de qualidade artística inferior e politicamente mais envolvido. Nunca simpatizei com as suas opções e acções políticas, mas isso nunca me impediu de o considerar um dos maiores nomes da música portuguesa. Lembro-me, de o ter visto algumas vezes, era eu criança e os meus pais fizeram-mo notar, no barco para a Ilha da Fuseta e no barco para Ayamonte, com um ar severo e pouco aberto, mas sempre com a viola, num verão de outros tempos. Nunca esqueci.

Anos mais tarde vi-o na televisão no seu último concerto, creio que no Coliseu: apesar de alguma irritação pelo aproveitamento político feito, fiquei pregada à cadeira, comovida, a ouvi-lo já a voz lhe falhava.

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