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12/07/18

Corps et Âmes



Entre livros de literatura de aeroporto, creio que de um tempo em que não se vendiam livros em aeroportos (?), de capas fáceis, coloridas e gastas, encontrei este livro pequeno, sóbrio, preto que me chamou a atenção. Ao pegar-lhe, ver o que era, e perceber que nunca o tinha lido, soube que não o iria largar enquanto não o terminasse ... Assim foi. 

Anna, soror ...”, uma pequena novela de Marguerite Yourcenar lê-se de um folgo, não só por ser pequena, mas porque se nos cola às entranhas. A inevitabilidade do desenrolar da história dos dois irmãos Anna e Miguel, e porque suspeitada ou imaginada cedo, é a inevitabilidade do leitor que não consegue, nem quer, parar de ler. Cola-se-nos às entranhas porque habitamos o corpo e a alma (corps et âmes) destas personagens, sentimos o que sentem, vemos o que veem, vivemos os locais onde vivem. É a vida, é um pulsar forte de algo que ultrapassa a decisão, a vontade, e que simplesmente está - sem rodeios nem rodriguinhos, sem moralismos nem lições civilizacionais, sem culpas nem desculpas, sem militância, nem vontade de desafiar mentalidades. Tudo escrito com elegância e mestria, mas falamos de Marguerite Yourcenar. Ela faz isso, falo sobretudo nas suas novelas pequenas como Le Coup de Grâce ou Alexis ou Le Traité du Vain Combat, livros que li de um fôlego e que marcaram. É sempre um prazer lê-la. 

No Posfácio da edição desta novela (edição da Galllimard de 1981) feito por MY, leio que a novela foi escrita na sua juventude, mais precisamente entre os seus 18 e 23 anos. É extraordinário perceber que já aos 18 anos se revelava uma pessoa com uma profundidade de pensamento e conhecimento que espanta. Independentemente das capacidades intelectuais bem como do nível de conhecimento e cultura que MY demonstrava na juventude, há uma maturidade na escrita e na forma de contar a história que espanta. Não só espanta como convida a que estabeleça comparações com o que conheço hoje e não preciso de grande reflexão e elucubração para perceber que nem aos 18, nem aos 23 anos, se encontram níveis de maturidade e profundidade que, de uma forma ou de outra, tenham algum paralelo com o que leio em Yourcenar. Aliás iria um pouco mais longe: num tempo em que se promove e cultiva, como coisa normal e em qualquer idade, a eterna adolescência - uma forma adolescente de ser, de olhar a vida, de opinar, de decidir - a maturidade serena e assumida faz-se um bem escasso e é um alívio encontrá-la. 




Unexpectedly I found a small novella by Marguerite Yourcenar, "Anna, Soror …", that I had not read yet. In no time I finished it, not just because it is small, but because it draws us body and soul (corps et âmes) in a way that we became the characters, we feel in our guts what they feel, we crave like they crave, we see what they see, we live the places they know. From the star we are in a path that knows no escape, no decision and no will. With fierce intensity, elegance and restrain, but holding nothing back, and with no apologies or easy moral judgements, Yourcenar tells us the story of Miguel and Anna, and the book is a pleasure to read. 

I was surprised to know that she wrote the book in her youth. Besides her knowledge and culture, she shows surprising maturity and depth. We can’t even find in adults such maturity, since we seem today to nurture and applaud, whatever the real age, a young (out of college) pathos, that is reflected in the way of being, living, thinking, deciding. It is refreshing and reassuring, then, to find such adulthood and maturity.

22/03/11

As mulheres são conhecidas por olharem para um armário cheio de roupa e dizerem “não tenho nada que vestir”. Não sou eu que vou desmentir esse cliché, mas eu padeço também de outro mal: olhar para as estantes cheias de livros e dizer “não tenho nada para ler”. De vez em quando sou apanhada “desprevenida”, quando algo acontece naquele planeamento mental sobre o que quer e vou ler, pois normalmente tenho uma “wish list”. Às vezes, num processo mental qualquer que me escapa, perco-a, e fico a sentir que nada tenho para ler, coisa que fisicamente não é verdade: ainda não li todos os livros que tenho. Os contos são sempre uma tábua de salvação: servem de pausa entre os meus “desejos planeados” de leitura que podem ser vários, contraditórios e a precisar de negociação e distancia para decidir.

Num desses momentos vi-me perante Nouvelles Orientales, uns contos fantásticos de Marguerite Yourcenar com um pano de fundo que vai do Mediterrâneo ao Extremo Oriente. Lembrei que a conheci e li, em francês, muito cedo com uns livros improváveis de que pouco se fala, mas que me fascinaram: Alexis ou le Traité du vain combat, e Le Coup de Grâce (só muito depois li L’Oeuvre au Noir, e depois ainda Mémoires d’Hadrien, por exemplo). Lembrei o fascínio com que li Alexis, uma obra rara de uma extraordinária sensibilidade e profundidade que ainda considero uma pequena obra-prima e talvez a minha primeira abordagem em literatura à homossexualidade. Sempre gostei da densidade e alguma secura da sua narrativa e da sua escrita viril. Estes contos fantásticos não fogem à regra: há sempre uma crueldade visceral e linear, quase que diria natural no sentido de que é assim que é suposto acontecer, que mais cedo ou mais tarde se manifesta e que move as personagens nestes contos fantásticos. E é esse o ingrediente que nos prende, surpreende, arrepia.

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