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08/01/13

A Tv do Casal Obama

Numa das tantas entrevistas dadas durante a campanha eleitoral norte-americana, soubemos das preferências televisivas – em termos de séries – do casal Obama. Ele gosta de Homeland, ela de Downton Abbey. Eu vejo as duas e como em Portugal acabaram agora as temporadas destas séries aqui fica mais um ponto de vista a acrescentar ao do casal Obama. 

Gostei da temporada 1 de Homeland, era uma série diferente, ousada em termos políticos e psicológicos, bem pensada e construída e com um surpreendente leque de bons actores. No entanto sentia que faltava alguma coisa para que a série saltasse do bom para o óptimo. E isso aconteceu certamente na temporada 2 que achei excelente. As personagens ganharam em densidade, a história ganhou em complexidade e crueza sem que no entanto, por um segundo, deixássemos de a sentir como credível ou que achássemos uma aberração ou fantasia o que víamos. A série vive nesse limiar e foi esse o segredo: a capacidade de nos fazer acreditar no que vemos. É também essencial referir a excepcional qualidade dos actores principais; algumas das cenas que protagonizaram são de antologia (o interrogatório de Brody por Carrie, por exemplo) e colaram-nos ao sofá. No meio de tanta qualidade só lamento que o último episódio (que passou ontem) tenha sido um dos mais fracos; por uma vez a série pareceu-me ultrapassar os limites do que conseguimos acreditar, (um pouco ‘over the top’), os diálogos foram mais frouxos e de circunstância, e sobretudo notou-se que a preocupação de preparar a 3ª temporada se sobrepôs à vontade de fazer um bom e credível episódio. Homeland é uma prova da teoria que tenho lido de que a televisão (as séries televisivas) que se produz nos EU, consegue tantas vezes ir mais além em inovação e qualidade do que o cinema americano. Para o ano há mais Homeland e ainda bem. 

Li que Michelle Obama gostou tanto de Downton Abbey que mal conseguiu esperar pela 3ª temporada tendo pedido à produtora para a ver antes da transmissão na televisão, coisa que a produtora, acredito que agradecida e solícita, fez enviando-lhe uma cópia. A terceira temporada de Downton Abbey viu-se como quem cumpre um dever. Se a segunda já tinha perdido em frescura e se tinha enredado em rodriguinhos e mais rodriguinhos, a terceira levou isso ao exagero, e ficamos com a sensação que já não sabiam que mais inventar para manter a série com vida. Então o último episódio (à semelhança do último episódio da temporada anterior) foi quase penoso de ver: por um lado a tentar servir o imaginário Escocês numa bandeja ao público americano, por outro, a matar uma personagem central - a razão da série Dowton Abbey, se bem nos lembramos. Porque é que se mata uma personagem, só porque o actor não renova o contracto? Não haverá outros actores de igual ou superior talento e com cabelo igualmente pintado de louro, ansiosos por tomar esse lugar? Esta terceira temporada sobrevive quase só do folclore que lhe dá audiências e que ninguém se opõe a ver: as mansões, as roupas, os jantares, os mordomos, e Maggie Smith. Shirley MacLaine, a grande promessa desta temporada foi um flop, alguns dos actores continuam 'fraquinhos' e sem graça e o enredo desenvolveu-se aos solavancos e de forma inconsistente. Deviam arranjar argumentistas da HBO, ou de outra boa produtora americana para tirarem a série do coma em que se encontra, e depois deixavam que fossem os ingleses a escrever (traduzir) para o inglês dos anos 20, e a introduzir as peculiaridades necessárias para que seja ‘inglês’. Nem quero imaginar como será a 4ª temporada, que a Senhora Obama verá também antes de mim, certamente. E não, não vem mal nenhum ao mundo por isso...

03/10/12

Wallander


Acabou no fim de semana passado a terceira série de episódios Wallander, uma série policial centrada num detective sueco que pertence à polícia duma cidade do sul da Suécia. Poderia ter escrito mais uma série TV policial, mas não o fiz de propósito pois Wallander é uma série diferente da maioria de séries que a televisão oferece e, no meio de tanta oferta, há algumas muito boas. Mas esta é diferente. 

É uma série para adultos e diria mesmo, só para alguns adultos. Não vejo os jovens (idade biológica, ou teimosamente em espírito) a interessarem-se e gostarem dos episódios desta série. Cada episódio funciona à volta de uma investigação policial, sendo o detective o centro da série. O ritmo é um andante com alguns momentos de maior tensão, longe do ritmo acelerado e de cenas curtas tão popular nas séries hoje. Não há grandes sub-intrigas, nem suspense, nem paixões sentimentais (amores, ódios, vinganças) a fazerem correr as personagens. Os diálogos não são ‘gripping’, nem abundantes. Wallander não é especialmente simpático nem antipático, não fala muito, não se explica, não proclama a felicidade, nem sequer parece procurá-la ou esforçar-se para mater uma ilusão de que é feliz. Também não há ‘gente gira’ na série, as personagens são banais e nunca parecem modelos: não têm os músculos esculpidos, têm rugas, dentes desalinhados e vestem roupa sem história. O ambiente físico e a paisagem não são tropicais, nem propícias ao uso de camisas abertas, calções ou bikinis e havaianas. Não há sol luminoso, mas sim uma ‘mood’ sombria entre os cinzas e verdes que convivem sempre com uma neblina. 

No entanto ver Wallander é sempre um desafio. Há um profundo reconhecimento do material que faz de nós seres humanos genuínos, e não saídos do estudo das estatísticas de audiências, algo raro nestes produtos televisivos. A personagem principal, introvertida e algo enigmática, bem como os crimes e criminosos que se atravessam no seu caminho, levam-nos e lembram-nos recantos dessa genuína humanidade que tantas vezes fingimos ignorar, e então reconhecemos os medos, a solidão, o desequilíbrio, as frustrações, o silêncio, a impotência, a dúvida, a violência, o vazio, um raio de luz de esperança que desaparece, uma ilusão que se desfaz, um sorriso breve que se crispa, uma alegria contida que dificilmente se abraça. Este reconhecimento de que falo, não reconforta, incomoda; não é exactamente aquele pathos mais frio e automatizado de Bergman mas, e mantendo-se Wallander (a série) também herdeira de um existencialismo protestante e nórdico, assume uma forma mais nostálgica e melancólica: a humanidade prisioneira de si própria, incapaz de se resolver. Essa mesma humanidade também prisioneira de uma sociedade tão politicamente correcta, tão aberta e livre que a própria liberdade é incómoda, a liberdade de questionar é quase uma subversão, e qualquer gesto fora do espectável é a origem de uma culpa que, de uma forma ou de outra todos expiam, (como ao longo dos séculos a expiaram), às vezes sem saberem nem que o fazem, nem porque o fazem. 

Kenneth Branagh é um Kurt Wallander excelente, e do seu trabalho resulta uma personagem complexa, tantas vezes em circunstâncias limite – um detective que procura culpados de crimes violentos convive com o limite – mas sempre totalmente credível nessa humanidade que partilha connosco espectadores,  e nesta terceira série foi especialmente convincente com momentos a que chamaria sublimes. 

Espero pela quarta série.

11/10/11

Uma Good Wife


As terças-feiras são uma boa (e cada vez mais rara) noite televisiva. As segundas são do Dr. House (estamos ainda à espera da nova, e parece que última, temporada), mas as terças são de Alicia, Alicia Florrick, uma verdadeira good wife, da série The Good Wife, título bem achado a insinuar a ambiguidade da sempre discreta e enigmática Alicia. Alicia e House só têm em comum a inteligência, pois ela é o que House não é, mas é-o tão bem que exerce sobre o espectador o mesmo tipo de fascínio e a vontade de não perder um único episódio. Finalmente Hugh Laurie encontra rival à sua altura e nós encontramos uma boa série. Julianna Margulies, que conhecíamos como enfermeira em ER, e ‘namorada’ de Clooney nessa série, merece os prémios que tem ganho.

Por falar em séries, Dowton Abbey (que já vi há uns tempos) já aí está na Foz Life para os saudosos de Upstairs Downstairs e de uma vida com mordomos, nostálgicos de outros tempos em que as pessoas se vestiam para jantar e amantes de séries históricas britânicas. A sempre fantástica Maggie Smith é Violet, Dowager Countess of Grantham, uma personagem impagável.

Nota: Hugh Laurie, um improvável 'beauty icon' nos recentes vídeos dele como modelo da linha L’Oréal para homem. Fiquei convencida.

17/10/10

Crónicas duma Constipação 2

Já tinha visto Cranford e Return to Cranford (série televisiva – duas temporadas - duma adaptação muito livre de três novelas de Elizabeth Gaskell) há uns meses, mas decidi rever a série e ainda bem que o fiz. Apreciei-a bem mais e confesso que há muito que não via nada que me deleitasse tanto. O sublime, o ridículo, a irrelevância elevada a problema, o problema minimizado, as estratégias de sobrevivência, a dignidade na adversidade, o medo do desconhecido e da diferença, o provincianismo, a compaixão (diferente da “solidariedade” conceito moderno que pressupõe “igualdade”), a ilusão, a esperança, o medo da mudança, mas os tempos que inexoravelmente mudam estão desenhados de forma imaculada nesta série tão aclamada da BBC. Uma reconstrução do universo da pequena localidade de Cranford em meados do século XIX, que nos deixa colados ao sofá, a sorrir, a suspirar, a rir, a comover.

Numa era de televisões, rádios, telemóveis, sms, twitters, blogs, e de internet a dar-nos acesso 24h por dia a qualquer desejo de informação por mais desinteressante e fútil que possa ser (notícias a vídeos, opiniões, informação diversa sobre tudo e nada - muito nada), mergulhar no mundo de Cranford – em meados do séc. XIX - é uma terapia altamente benéfica: uma limpeza interior – diria mais, uma exfoliação interior que aconselho vivamente. Mergulhar nesse mundo onde comer uma laranja é um gesto exótico, acender mais de duas velas para ler ao serão, uma ousadia, e onde as relações entre as pessoas não deixam de ser intensas só porque são mais formais e desprovidas do excesso de familiaridade que o estar sempre disponível e “visível” de hoje nos dá é refrescante. Há sempre contenção, por muito que se espreite da janela.

Os actores são formidáveis e o universo é absolutamente credível. Um conto mágico para adultos verem.

07/03/10

Cambridge Spies


Cambridge Spies é uma produção da BBC de 2003 sobre a vida dos famosos quatro amigos ingleses que foram espiões ao serviço da União Soviética: Anthony Blunt, Kim Philby, Guy Burgess, e Donald McLean que, especialmente durante a Guerra Fria, traem o seu país fornecendo informação ao KGB, e cuja extensão da verdade das suas vidas (até aí só se sabiam pedaços) deixou o Reino Unido em estado de choque no início da década de 80. Tão difícil que era acreditar que um dos “nossos” (quanto mais quatro) fosse capaz de trair o país. Parece enredo de filme, mas como alguns de nós sabemos, a realidade ultrapassa quase sempre a ficção. Este é um dos casos.

Pensei que ia ver mais espionagem, isto é, mais luz sobre o mundo escuro e cheio de perigo, manipulação, suspeitas, tráfico, duplicidade, traição e jogos que acreditamos ser o mundo da espionagem. Mais idas e vindas, mais fugas, esconderijos, mais segredo e sobretudo mais conflito, com eles próprios, com os seus contactos e com o mundo. Nesse sentido fiquei um pouco desiludida com o tom “light” da série, que pouco mais faz do que dar umas pinceladas em tons luminosos, e se esquecer algum luxo e glamour, às vidas tortuosas destes homens. Tudo parece demasiado fácil: tornar-se espião, tornar-se credível perante os seus compatriotas, merecer confianças de um lado - instituições do RU - e de outro - KGB e Moscovo, que nunca terão confiado totalmente neles - penetrar no MI5 e MI6, passar informação, enganar e viver uma vida aparentemente normal e sem grandes cuidados. Não se percebe bem, por exemplo, o que fizeram os quatro, como cidadãos britânicos e espiões ao serviço de Moscovo, durante a Segunda Guerra Mundial, pois a série é bastante omissa sobre esse período, deixando implícita, mas não convincente, como explicação o facto de Reino Unido e União Soviética terem sido aliados contra Hitler.

A série termina cedo: não mostra o choque cultural e pessoal que terá sido a chegada a Moscovo de três deles (McLean, Burgess e Philby) e a sua adaptação, ou não, a um estilo de vida tão diferente daquela que eles conheciam, amavam e da qual eram “elite” e privilegiados. Não há também referência à vida de Blunt que permaneceu em Inglaterra onde fez uma vida ligada à História da Arte, e a quem foi dada uma condecoração (knighthood) que mais tarde, e ao conhecer-se toda a história de espionagem que chocou a Grã-Bretanha e que o(s) expôs, lhe foi retirada pela Rainha por influência de Margaret Thatcher.

Sobra por isso aquilo que a BBC sabe fazer melhor: o retrato de um período, ou melhor, de vários períodos da vida do século XX na Inglaterra e das suas instituições, nomeadamente a Casa Real e o Foreign Office. Sobra o tratamento das recorrentes questões de classe “us” (Eton, Trinity Colledge Cambridge...) and “them” (por exemplo, os americanos por quem sentem um leve desdém), não no sentido exclusivo de classe social, mas antes num sentido de uma elite social e cultural que está “in charge” do país, ou melhor, das instituições que sustentam o país, que ao contrário dos políticos que vão e vêm, se mantém. Esta questão às vezes parece demasiado explicada, mas talvez os mais jovens necessitem dessa componente explicativa, não faço ideia. Sobra a história de uma amizade que une os quatro homens mas cujo desfecho (da amizade) ficamos sem saber, apesar da amargura que se adivinha; sobram pequenos e deliciosos retratos da vida despreocupada e privilegiada na sociedade inglesa; sobra alguma intriga diplomática; sobra o peso, que se carrega, às vezes já sem saber porquê (coisa que eles regularmente tentam lembrar), de uma decisão tomada na juventude e que vincula inexoravelmente para a vida. Sobram inúmeros momentos do melhor humor: a greve dos empregados de mesa em Trinity Colledge, a entrevista de Burgess para trabalhar na BBC, entre outros. Sobra uma representação sólida e boas actuações, destacando-se sobretudo dois excelentes actores: Tom Hollander e Toby Stephens respectivamente nos papeis de Guy Burgess e de Kim Philby.

Finalmente, e como não poderia deixar de ser a abrir e a concluir a série, sobra o hino à “englishness”, ou não fossem eles uma parte inquestionável do “us”. Ontem e hoje, sempre Jerusalém de William Blake
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05/10/09

Cheri


Ao ver Chéri, mais um bom filme de Stephen Frears (baseado num romance de Collette) que nos mostra uma das melhores interpretações de Michelle Pfeiffer no papel ambíguo de uma mulher que envelhece e se “reforma” da sua profissão de cortesã saboreando finalmente a riqueza e as noites dormidas sozinha na cama, mas que - ao tomar conta de um jovem filho de uma “companheira” de profissão - se apaixona por uma vez, e por quem não devia (se é que alguma vez se deve seja o que for, sobretudo no domínio da paixão), lutando para que essa paixão não se mostre nem aos outros nem a ela e não a “derrube”, lembrei as semelhanças entre a personagem masculina do filme e uma outra personagem masculina de uma série que vi recentemente: The Line of Beauty, também ela baseada numa obra literária, neste caso num romance de Alan Hollinghurst. O mesmo tédio e abandono de si próprios e dos seus percursos e opções, o primeiro nas mãos de Léa, o segundo, Nick, nas mãos, rotinas e hábitos da família Fedden. Ao contrário de Nick que se deslumbra com a abundância dos Fedden e do meio em que se movem (com algumas pouco subtis reminiscências de Brideshead Revisited onde se inclui a homossexualidade plenamente assumida no caso de The Line of Beauty), Chéri nasce na abundância, mas numa família disfuncional, se é que se pode sequer falar em família. Ambos no seu estado de permanente langor (propício ao consumo de drogas) cultivam o esteticismo e a beleza como um fim em si, como uma forma de estarem na vida e em sociedade, como expressão daquilo que são e do que querem. De formas distintas, ambos são “abandonados” no fim: um pela família que o acolhe, outro pelas suas inevitáveis opções como se se tratasse de um destino já escrito.


The Line of Beauty é uma série irregular, bem feita - tem a chancela BBC e todo o rigor no retratar de uma época e com todas as subtilezas necessárias que marcam a persistente estratificação da sociedade inglesa, mas que nunca cativa plenamente tal a superficialidade e automatismo das personagens e da banalidade narrativa.

Chéri, ao contrário, e apesar do rigor do retrato da “Belle Époque” e do deslumbre (nosso) perante o guarda-roupa, interiores e exteriores (o jardim de Inverno de Mme Peloux é de antologia), é todo feito de modulações psicológicas das várias facetas do abandono ao amor, da idade e do tempo quer passa, da inevitável e esperada separação, e das tentativas de superar e não mostrar a dor provocada pelo afastamento do ser amoroso. Como pano de fundo o afundar da forma de vida de Léa e das suas companheiras e a decadência da própria sociedade com o mundo a mudar em vésperas de guerra.
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