25/02/08

Como se a Culpa Fosse Deles

Ouvi, estes dias desabafos de duas pessoas diferentes, que nem se conhecem, que vivem vidas bem diversas, em locais distintos e que têm opções políticas que raramente devem coincidir. Ambas trabalham para o estado, uma na área da saúde, outra na área da educação. O que foi revelador, mas nem chegou a ser surpreendente, foi o facto de os desabafos e queixas serem tão semelhantes quer no conteúdo quer no tom.

Ambas se confessaram física e psicologicamente exaustas e esgotadas, no limite, ambas estavam preocupadas com a sua capacidade de resistência e com a sua saúde, ambas se queixaram das longas horas de trabalho, da exigência de novas tarefas que consideram inúteis e que ambas vêem como um aumento de intendências e burocracias quase sempre inúteis: elaboração de actas que ninguém irá ler, elaboração de relatórios a propósito de tudo e de nada, picar o ponto a horas certas, nomeadamente à hora de almoço mesmo quando se está envolvido numa tarefa que terá de ser interrompida, reuniões, avaliações cheias de parâmetros complexos, objectivos discutíveis e competências tantas vezes sem nexo, sobre os quais há que escrever e discorrer. Ambas se queixavam que nada deste acréscimo de tarefas tem efeitos visíveis na melhoria do serviço prestado quer aos alunos, quer ao doente. Nem agora nem num futuro tanto quanto se pode prever. Ambas afirmavam que o objectivo do governo passa por discreta e paulatinamente esvaziar as instituições públicas (a escola, o hospital) para privilegiar as instituições privadas e que a escola e hospital públicos serão para quem não tem os meios financeiros para ir para o privado onde a qualidade cada vez se afirma de forma mais clara. Sentem-se traídos, explorados, mal tratados, desrespeitados no seu brio e dedicação profissionais. Uma diferença no entanto: no hospital têm o olhar grato do doente quando se sente bem tratado ao passo que na escola têm a insolência, a indisciplina e pior que tudo, o profundo desinteresse e alheamento da maioria dos alunos de telemóvel na mão e polegar agitado. Como se a culpa fosse deles.

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