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14/11/16

Agora Aqui

Algumas alegorias, umas tantas fantasias,
Muitas teimosias, e também fotografias.
Quem sabe alguns delírios.
Desilusões e tropeções certamente.

Mas sempre de
Mãos nos bolsos e de olhar distante. (...)
Negra madeixa ao vento
Boina maruja ao lado

Pedro Homem de Melo, O Rapaz da Camisola Verde

02/11/16

Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança:
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança:
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem (se algum houve) as saudades.

O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto.

E afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto,
Que não se muda já como soía.

Luís Vaz de Camões, in "Sonetos"
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01/08/12

Os Tempos e as Vontades

Nem os Tempos nem as Vontades têm abundado, com tanto treino para os saltos sincronizados para a água

Os tempos estão mortos. Há umas semanas que a política e os políticos - com a honrosa excepção de António Costa que teme que a dupla rotunda no Marquês não chegue para se fazer notar, praticamente desapareceram da agenda nacional. Em contrapartida os números não; da execução orçamental, do desemprego, das exportações e balança comercial, das previsões de crescimento. A análise dos números faz-se nas diferentes modulações entre os iludidamente optimistas e os teimosamente pessimistas. Os tempos acabam por se revelar pouco clementes para com os iludidos, por muito fortes que sejam as vontades. Aos lúcidos pessimistas os tempos costumam dar razão, contra as vontades de todos. Esperamos por Setembro, um mês que não é inócuo para mostrar o que os mercados ditam.

Entretanto a Europa mantém-se igual a si própria: um passo à frente e dois atrás, para na semana seguinte inverter a rotina dando dois passos à frente e um atrás. Uma maneira cara de ficar onde se sabe estar, dando a ideia que se ‘vai’. Aliás o Senhor Hollande é bom nessa coisa de dar a ideia que tem uma ideia e de que vai a algum lado. Os Tempos vão passando, mas as Vontades são poucas. Mais longe  o resultado das eleições no Egipto só ilude os aqueles que teimam em se deixar iludir, e a revolta na Síria cada vez mais augura um desfecho radical e pouco democrático. 

Os portugueses estão de férias enquanto o novo Código do Trabalho entra em vigor e mais serviços fecham no interior. Começaram por ser escolas, depois serviços de saúde e urgências, tribunais, e os fogos de verão ajudam também à versão economicista de terra queimada, o único critério que parece capaz de  (co)mover o governo. Rui Rio fez umas declarações (polémicas) que deveriam merecer mais atenção e debate, mas o país põe protector solar, diz mal 'disto tudo' e dos políticos que 'são todos uns malandros' enquanto grelha umas febras e lê as Cinquenta Sombras de Grey

Vou continuar os treinos de salto sincronizado para a água. Se não for antes, espero que regressem em Setembro, quer os Tempos, quer as Vontades.

03/04/12

Prova de Vida

Nunca pensei dizer isto, mas eu já estava farta do sol dos dias límpidos e secos, dessa espécie de optimismo constante a que tanto sol obriga. Gosto das estações do ano e gosto de sentir que estou no inverno, coisa que este ano não senti. Tive saudades dos dias cinzentos, dos chuviscos na cara, da chuva e do vento, de acender as lâmpadas durante o dia enquanto se resmunga entre dentes a pouca luz lá fora. Sobretudo senti saudades de ter saudades do sol. Os dias cinzentos com alguma chuva chegaram tarde e mais quentes do que gostaria, mas suficientemente cinzentos para, em boa hora, começar a pensar, e pela primeira vez neste ‘inverno’, em Papas de Sarrabulho, em Lampreia, em Sável Frito com Broa Frita (é assim que se come o sável no Alto Minho e não com açorda). Afinal nem tudo está perdido no rumo ao norte.

Afinal ainda há vida (se bem que nem sempre inteligente) neste blogue.

22/02/11

Pausa

Por motivos de ordem técnica, em chocante indiferença perante a revolução tecnológica em curso no país, na forma de umas gotas de chá que atingiram o meu computador e o calaram instantaneamente, este blogue estará suspenso - ou eventualmente em serviços ainda mais mínimos que os usuais - o tempo que os deuses (neste caso os técnicos da Apple) assim entenderem. Escrever em computadores alheios é quase o mesmo que calçar sapatos que não nos pertencem. Vítimas do consumismo e nas mãos dos deuses, estamos perdidos.

03/01/11

Agradeço o olhar benevolente de Carla Quevedo e de Maria João Marques.

15/12/10

Às Vezes as Coisas Não São Exactamente Como Gostaríamos Que Fossem

E por isso este blogue tem sido actualizado com pouca regularidade.

10/06/10

Os blogues Bomba Inteligente, Corta-Fitas, Delito de Opinião e Espumadamente (a)notaram as mudanças dos tempos e das vontades. Obrigada.


Aqui no 31 da Armada houve quem notasse que hoje se é jovem "forever", algo que parece estar de acordo com os tempos: uma sociedade infantilizada com jovens para sempre. De jovens passamos a séniors (os novos jovens, dizem), e assim acaba-se de vez com essa coisa chata e sem graça que é a meia-idade e, claro, com os adultos. Já faltou mais.

30/05/10

Os Tempos e as Vontades



Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança;
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem, se algum houve, as saudades.

O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto.

E, afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto:
Que não se muda já como soía

Luis Vaz de Camões

11/10/08

O Blogue, Os Blogues e o Mundo

Já são mais de dois anos a fazer este blogue. As semanas sucedem-se a um ritmo impiedoso e reparo que escrevo sempre menos do que o que gostaria e menos do que quereria. Mas mesmo assim o blogue vai-se fazendo. Já me conformei com o facto de que nunca vai ser o que eu pensei que seria, nunca vai ser perfeito, ou o que eu tinha em mente que queria fazer, porque num determinado momento parece que se solta de nós e se sente que o blogue ganha uma vida própria, uma rotina e inércia muito dele – coisa confortável, diga-se - que aponta caminhos, torce o nariz a algumas ideias de post ou a estilos diversos, exige imagens, pede atenção e parece ser avesso a grandes mudanças, pelo menos para já, não sinto o blogue com vontade de mudar seja o que for. Depois da fase inicial, de expectativas, entusiasmo, vontade, estabelece-se o conforto do conhecimento, de uma rotina, a chamada velocidade de cruzeiro. É assim que hoje eu sinto este fazer de blogue, sempre com gosto e prazer.

Ao longo deste segundo ano de vida o Hole Horror tem recebido visitas através das listas de links dos blogues, e também por vezes recebe destaques e menções simpáticas que fazem subir os números de visitantes.

Abrupto, Blasfémias, Corta-Fitas, Quase em Português,
31 da Armada, Portugal dos Pequeninos, Da Literatura, Espumadamente,
Do Portugal Profundo, Combustões, Direito de Opinião, José Maria Martins,
O Insurgente, Origem das Espécies, O Andarilho, Porta do Vento,
Coisas Sem importância, Don Vivo, Holocausto-Shoa, Clube Literário do Porto,
Imagens com Texto,

são os blogues a que me refiro. Tentei não esquecer nenhum, mas por lapso ou ignorância posso ter falhado. Se assim for peço que me alertem para o e-mail no cimo da página. Agradeço quer as visitas que proporcionam através das listas de links quer, no segundo caso, a simpatia da menção ou da referência especial que fazem disparar as visitas ao blogue. Enquanto leitora de blogues confesso que visito bastantes, mas nem sempre me fidelizo. Outras vezes as visitas são motivadas por se tratarem daquilo a que se chama “blogues de referência” e o que lá se escreve ser objecto de comentário noutros blogues, mais do que por eu gostar dom blogue. O acto de concordar, identificar não são são determinantes, concordar é uma motivação marginal ao impulso de ler um determinado blogue. Quero também referir que, para além de visitar os blogues que já mencionei, visito também com carácter regular:

Mar Salgado, A Natureza do Mal, Terceira Noite, Vox Pop,
Atlântico, Cachimbo de Magritte, Arrastão, 5 Dias,
A Causa foi Modificada, Bibliotecário de Babel, O Vermelho e o Negro, Estado Civil,
F-world, Crítico, Pedro Rolo Duarte.

Embora leia muitos blogues colectivos reconheço uma parcialidade especial para com os blogues individuais ou pelo menos aqueles em que o indivíduo se sobrepõe e impõe ao colectivo. Mais do que de blogues gosto dos fazedores de blogues, dos que não se diluem na espuma das notícias do dia ou da polémica do momento e sem se darem conta repetem o mesmo discurso vezes sem fim. Gosto de aprender com os blogues, gosto me me provoquem e desafiem, gosto de opiniões claras, argumentos pensados, teses fundadas e desabafos sentidos. Gosto mais da simplicidade do que da complexidade, gosto mais da incerteza curiosa do que da soberba da bibliografia “correcta”, gosto mais de frases próprias do que de citações, gosto mais do humor do que da arrogância, gosto mais do silêncio do que das piadas. E finalmente gosto sobretudo de sentir o pulsar de uma vida por trás das palavras: esse é o bem mais precioso e que nenhuma retórica ou artifício pode dar e o inimigo primeiro da banalidade.

10/07/08

Best Of Booker


Perguntam-me às vezes onde fui buscar um nome tão horroroso para o blogue. Fiquei espantada por me ir apercebendo com o tempo e o fazer do blogue que, pelos vistos, tinha um blogue com um nome horroroso. Seja. Mas quem reparar na frase que está por baixo do título Hole Horror, talvez perceba de onde veio essa aversão (Horror) aos buracos (Hole, Vacancy) que vamos criando em nós, bem dentro. Veio de uns belíssimos primeiros parágrafos de um dos melhores romances das últimas décadas “Midnight’s Children” escrito por Salman Rushdie que hoje está (mais uma vez) de parabéns e este blogue, com horror aos vazios, não pode deixar de mencionar e se congratular com mais uma distinção, Best of Booker, desta obra.

16/03/08

De Boas Intenções...

Há palavras fortes do catolicismo que não deixam ninguém indiferente, tanto católicos como não católicos. São palavras que estão mais ou menos na moda e são mais ou menos usadas conforme as épocas e as mentalidades, são semente de muitos equívocos, de medos e de raivas e ódios. Estes últimos vêm sobretudo de um sector anti-clerical que vê na Igreja Católica a fonte de todos os males passados, presentes e futuros da inteira humanidade.

Proponho-me neste tempo de Páscoa reflectir sobre algumas dessas palavras de uma forma que será, eventualmente, pouco ortodoxa, mas que é fruto de uma visão pessoal e livre apesar de marcada pela doutrina da Igreja. São elas: o Pecado e o Inferno que andaram recentemente na boca dos media, bem como o Mal e o Diabo (palavra maldita, mas de forte tradição doutrinal), que continuam “tabus”, mas creio que não por muito tempo. Veremos se conseguirei levar a bom porto a intenção, no meio de pinturas, desabafos, notas sobre filmes ou livros, fotografias e outras coisas que possam surgir.
.

03/12/07


Creio que escrever neste blogue me fez mais atenta. Reparo e presto atenção a coisas que doutra forma poderiam passar por mim como a areia que passa entre os dedos. Retenho um detalhe aqui, uma frase ali, um livro, um texto, uma música, um filme, uma conversa, uma ideia, uma imagem. Alguns destes pedaços de quotidiano servem, às vezes, de ponto de partida para um texto, uma pintura, um desabafo, outras vezes perdem-se nos dias que passam, nos momentos que não foram ou porque não houve tempo ou porque não houve disposição e oportunidade para escrever. Se há posts que faço que são pensados nos dois minutos que antecedem o publicar, já outros são planeados e outros ainda são procurados olhando com mais intensidade para o que a vida trás. Percebi então, tal o afã em encontrar possíveis futuros posts que não deixem a “folha em branco” por muito tempo, que não há tanta espontaneidade como pensava nem talvez tanta inocência assim – há, no entanto e sempre, a predisposição para olhar o mundo, ver, ouvir, procurar e descobrir. E tantas vezes descobrir o descoberto.

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temposevontades(at)gmail.com