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21/11/12

Argo


Queria ir ao cinema, mas não me apetecia ver nada, o receio de sair desiludida sobrepõe-se tantas vezes a essa vontade e, lamentavelmente condiciona a minha escolha. Tenho medo das comédias, receio a violência gratuita, cansam-me as explosões e fugas, fujo dos excessos depressivos ou doentios, evito os filmes infantis e as lamechices dão-me pele de galinha. Por vezes chego a este impasse e fico sem saber o que escolher, mas o gosto que tenho pelo cinema acaba, e bem, por vencer as esquisitices. Há uns dias nesta situação escolhi “Argo” de Ben Affleck, pois se pouco me convence como actor, surpreendeu-me positivamente como realizador em “A Cidade”. 

Argo conta uma história que nos remete para factos históricos de que nos lembramos ou ouvimos falar, mas centra-se num episódio cujos contornos desconhecíamos, e é esse o segredo do filme. Por causa desse conhecimento prévio, no minuto zero o suspense está instalado, para nosso (espectador) benefício e desassossego, e é esse o jogo inteligente de que o realizador que se serve; nós lembramos e sabemos ‘o contexto’, mas desconhecermos exactamente ‘como foi’. Essa cumplicidade resulta, e o filme cumpre a sua missão. No entanto é impossível não dar nota negativa ao facto de o realizador não ter sabido resistir à tentação fácil e hollywoodesca de nos últimos 15/20 minutos ter deixado o filme resvalar para uma banalíssima linguagem de filme de acção e suspense de segunda categoria: o suspense deixa de ser contido e ultrapassa os limites em que a credibilidade do filme - construída com solidez apesar de algumas notas mais caricatas e de duas divertidas personagens - assenta.

31/05/12

Bem-vindo À Europa, caro Senhor Obama

Ser bem aparecido, bem falante, e já agora como noutros tempos reparava Berlusconi, bronzeado, é bom, mas não basta para merecer cega admiração ou devoção. No entanto eu não consigo impedir-me de sentir alguma simpatia por si, recentemente ‘apanhado’ em mais uma gaffe na e sobre a Europa. Os campos de concentração só são polacos por estarem na Polónia, nada mais, claro. Mas toda a História presente nos campos de concentração na (e não ‘da’ Polónia) é demasiado densa e complexa para qualquer americano que da costa do Pacífico à costa do Atlântico só conhece um país, uma língua, um hino, por muito Harvard que tenha frequentado. Aliás a História da Europa é demasiado complexa até para os europeus que do Atlântico aos montes Urais partilham um território mais pequeno do que os EUA, mas têm um número que nunca é ‘definitivo’ de países, fronteiras pouco estáveis, um número incontável de línguas e dialectos e tradições cada uma mais antiga e importante do que a outra. 

A chamada crise grega - que não é um exclusivo da Grécia, nem começou na Grécia (mas sobre isso falaremos outro dia), e que todos os dias se revela em novos episódios - tem servido para perceber a desconfiança e sobretudo a ignorância que ainda temos uns sobre os outros e que nenhum Erasmo, com todo o seu inegável mérito, tem conseguido erradicar. Em momentos difíceis percebe-se o pulsar de antigas mágoas, feridas e a conflituosidade que habita a Europa por baixo das capas, dos discursos e das intenções, e do recente verniz europeísta feito de CEE, feito de UE, feito de Euros e dos ditos alegres e tão populares Erasmos. Bem-vindo à Europa, caro Senhor Obama.

20/05/11

Impressionaram as primeiras reacções de vários dirigentes franceses e europeus à prisão de Strauss-Kahn: indiferentes à hipótese do crime, mas chocadíssimos com as imagens do rei Strauss-Kahn tratado como cidadão comum. Tratou-se de um reflexo condicionado de dirigentes de um país aristocrático em que as leis e a justiça defendem a casta dirigente, como antes de 1789. (...) Por vontade da elite de França, não só as imagens seriam censuradas, como Strauss-Kahn não seria algemado, nem sequer acusado na justiça.

Eduardo Cintra Torres, Público de hoje (sem link directo)

E, já agora não saindo de França, ninguém lá (ou cá) se indigna com este caso? Ninguém se indigna com a indignação do 'puro' e 'virginal' ministro francês da Cultura Frédéric Mitterand? Ninguém defende a liberdade de expressão de Lars von Trier, cineasta provocador, que era ontem um acarinhado herói da cultura cinematográfica? Ninguém nota a duplicidade de tratamento dada a uma "esquerda" politicamente correcta e a uma "direita" nada politicamente correcta? Ninguém se indigna com a tolerância e desprezo perante a possibilidade de crime sexual e a falta de tolerância perante uma opinião?

Estranho mundo este.

02/11/08

Obama

Porque não sou cidadã norte americana, e porque não sou espectadora atenta, não me sinto à vontade para me pronunciar sobre estas eleições nem os seus candidatos, nem tão pouco sobre as propostas eleitorais de cada um. No entanto com um olho mais ou menos aberto vou seguindo ao longe a disputa eleitoral. Simpatizava com a candidatura de Hillary Clinton, desconhecia McCain e desconfiava da retórica escorreita e da lisura de Obama. Continuo a sentir que desconheço McCain e a desconfiar da fluidez de Obama e da eficácia com que colou o seu slogan “change” (o que é isso mesmo?) a todos, dentro e fora dos EUA. Dizem as sondagens que Obama está claramente à frente e que será o futuro presidente dos Estados Unidos.

Se assim for, e independentemente de Obama himself, não deixo de ficar comovida com a ideia de um presidente de cor nos EUA. Eu sei que ele é de uma cor “diferente” da cor negra dos Afro-Americanos descendentes de escravos, eu sei que ele tem feições “caucasianas” e um percurso de “branco”, também sei que a cor não deveria ser importante, mas mais forte do que todas essas certezas é a de que um homem de cor na presidência dos EUA é algo de extraordinariamente revelador da forma como a América tem sabido integrar os seus imigrantes e de como eles têm sido ao longo dos tempos e ainda são, parte estruturante do seu tecido social. É também a ilustração fiel de que tudo é possível nesse “american way of life”. Esta sim é uma lição para o mundo e para uma Europa arrogante onde se tolera tanto a diferença em belos discursos ideológicos cheios de culpa e complacência, mas onde a mentalidade é tão pouco propícia a uma eficaz integração e aceitação da diferença.


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