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20/06/10

Deixem-nos em Paz

Pior do que a vaidade emproada que Saramago ostentava, só mesmo o deslumbre provinciano que quem, de cada vez que ele perorava sobre o mundo em geral ou sobre si em particular, lhe colocava um microfone à frente. Ou as horas a fio nas televisões (numa inclemente guerra com o rival futebol deixando pouco espaço para a realidade no país e no mundo), as capas dos jornais de ontem, hoje e quem sabe amanhã, o unanimismo, o luto nacional decretado, o Nobel lembrado num constante exercício requentado de memória, as faixas pretas autorizadas pela FIFA nos jogadores portugueses (que certamente conhecem e apreciam a obra do autor) no jogo de amanhã, o pseudo-escândalo por Cavaco Silva não ir ao funeral, ou até, ouso, a discutível decisão, que no entanto ninguém põe em causa, de disponibilizar um avião da Força Aérea para trazer corpo do escritor para Portugal. Um ambiente a cheirar o patético, o ridículo, o pequenino. Que fiquem os livros - ia dizer para quem os quiser ler, mas nem isso hoje se pode dizer da obra de Saramago, pois no secundário ele tem sido há anos leitura politicamente correcta e obrigatória (outro assunto que mereceria ser discutido) - mas deixem-nos em paz.

13/06/07

Outra vez José Saramago

Saramago, há uns anos atrás, quando lançava Ensaio sobre a Lucidez, incitava publicamente, num exercício de destemida ousadia (pensava ele), os eleitores a votarem em branco. Leio hoje aqui no Público que numa conferência no Norte de Espanha, noutro exercício de destemida ousadia (continua ele a pensar), apela à insubmissão da população contra as “democracias contemporâneas, que na sua opinião não passam de plutocracias”. Eu sei que ser escritor e escrever ficção abre todas as portas do possível e a maioria das portas do impossível, mas em conferências em que se pretende ser lúcido e crítico em relação à realidade e se afirmam inusitadas pérolas de sapiência do género já não há governos socialistas, ainda que tenham esse nome os partidos que estão no poder, ou ainda antes gostávamos de dizer que a direita era estúpida, mas hoje em dia não conheço nada mais estúpido que a esquerda, fica-se com vontade de lhe pedir que, por favor, quede-se em Lanzarote a escrever livros, que esses só lê quem quer e só compra quem quer, pois de cada vez que sai de lá e vai a conferências para mais uma mostra da sua habitual e afectada pomposidade nós somos bombardeados com as suas palavras sem nos podermos defender.

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