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07/02/08

Véu Islâmico 8

Não, não me alegro com esta notícia. Ao contrário do que seria desejável, ela não é sinónimo de uma maior liberdade. Apesar de serem proclamados os seus benefícios imediatos como uma maior igualdade de direitos no acesso à educação, pois uma parte de raparigas não seguem estudos universitários porque não saem de casa sem lenço e cabeça tapada, eu não posso deixar de olhar para esta medida como mais um passo na direcção de pôr em causa a secularização da sociedade turca. O “véu” é um simbolo do Islamismo, é um símbolo de uma determinada forma de olhar para a mulher, e um símbolo da desigualdade de tratamento e direitos face ao homem de que a mulher é objecto nos países Islâmicos. Tal como diz o artigo da BBC o medo de que, com este pequeno passo, se comece a pôr em causa a secularização da sociedade Hoje é o véu que é permitido, amanhã regressa o velho sonho de criminalizar o adultério, (ver este artigo de 2004), nada que não tenha já sido debatido, depois de amanhã, outra desculpa e outra medida.

14/05/07

Postal Ilustrado 8

Izmir

Outros Véus Islâmicos

No Público hoje a notícia do apedrejamento por homens de uma rapariga curda muçulmana culpada por querer casar com um rapaz de uma minoria religiosa Yezidi. A notícia chegou aos meios de comunicação por causa dos vídeos amadores postos no youtube e entretanto retirados que não procurei, nem vi nem quero ver. A realidade já é suficientemente má mesmo assim, sem imagens. Perante uma realidade destas, eu pergunto-me que sentido faz falar em democracia? Democracia pressupõe alguma igualdade pois cada pessoa tem um voto. Em sociedades onde muitas mulheres não votam, ou se votam nas urnas eleitorais não votam nas suas próprias vidas, não têm acesso aos recursos em pé de igualdade com os homens, que sentido faz falar em democracia?

Entretanto em Izmir, na Turquia, e segundo o JN, cerca de 1,5 milhões de pessoas voltaram a manifestar-se para defender o secularismo do seu país. Parecem não estar muito preocupados com o futuro da democracia, mas saem à rua aos milhões para defender o secularismo. Como diz o povo: “eles lá sabem!” Se fosse Turca, também sairia.

11/05/07

Véu Islâmico 6 (2ª parte)

Com um expressivo título The battle for Turkey's soul e um sub-título como este: If Turks have to choose, democracy is more important than secularism” a revista de The Economist (da semana passada que o desta semana já tem Tony Blair na capa) resume assim a crise política Turca e toma uma posição que é comum a mais sectores do ocidente. A frase é todo um statement, mas um olhar mais cuidado não nos deixa muito tranquilos. Basicamente o que nos é dito, é que a democracia é um valor que está acima do laicismo e que é o valor mais importante de preservar numa sociedade. Assim, à queima-roupa é difícil discordar, mas depois de analisar um pouco esta questão e os conceitos envolvidos, surgem as questões. Por exemplo o Laicismo é entendido de forma diferente em França, onde se trata de um laicismo “radical” e no Reino Unido, em que a Religião e o estado são, formalmente, unos sendo a Rainha também a cabeça da Igreja Anglicana. O Reino Unido nunca usou a bandeira do laicismo apesar da clara separação entre o poder temporal e o poder religioso e apesar de todo o poder, nomeadamente o poder político, estar nas mãos da sociedade civil, e não na estrutura religiosa. Apesar da união formal entre o Estado e a Igreja o Reino Unido é, repito, uma sociedade absolutamente secularizada na forma como está organizada e na forma como o poder está separado da Religião, e é por isso que tem uma das mais antigas democracias do mundo. Ora eu tenho alguma dificuldade em perceber como é que pode existir uma democracia numa sociedade que não é laica, secular, em que o poder não esteja nas mãos da sociedade civil. Para que uma democracia exista e floresça é necessária uma sociedade em que o “povo” se organize para exercer o poder e tal só pode acontecer se a estrutura religiosa, a hierarquia religiosa ou mesmo as convicções religiosas não detenham nem o poder político, nem o poder judicial. Eu penso, mas não consigo encontrar exemplos de sociedades não laicas ou secularizadas e democráticas (Israel é uma sociedade secularizada).

O papel das Forças Armadas na Turquia tem sido também o de manter o poder religioso afastado do poder político. Eu, se fosse cidadã Turca, habituada a um estilo de vida secularizado e, apesar de tudo, democrático, estaria grata a essas Forças Armadas por este papel de defesa da Laicidade. Eu sei que nem tudo é assim tão simples, e há outros aspectos que não tive em conta; por isso me faz confusão a facilidade com que se diz que a democracia é mais importante do que a laicidade.

10/05/07

O Véu Islâmico 6

Eu percebo bem os turcos que recentemente saíram à rua e se manifestaram em defesa do seu estado secular, nem me parece extemporânea a manifestação de tais receios, como diz o Economist:

they fret at the prospect of such people controlling not only the government and parliament, as now, but the presidency as well. They fear that once the AK Party has got that triple crown, it will show its true colours—and that they will be rather greener. Given that a fundamental reading of Islamic texts sees no distinction between religion and the state, and that fundamentalism is spreading in the Muslim world, it is understandable that people should entertain such fears.

E têm razão para temer, este pequeno parágrafo é esclarecedor: nos textos sagrados do Islamismo não há separação entre Religião e Estado, e os cidadãos turcos mais “moderados” na sua prática religiosa e de hábitos perfeitamente ocidentalizados teme, e a História, nomeadamente a História mais recente de uma radicalização islâmica em várias partes do mundo, prova que ele tem razão em temer, o afunilar das suas liberdades através de medidas legislativas inspiradas na religião. Não foi assim há tanto tempo que na Turquia se debateu com a possibilidade da criação de legislação que considere o adultério um crime, bem como se debateu a possibilidade de restrições à venda e ao consumo público de bebidas alcoólicas. Nenhuma destas medidas tomou forma de lei, mas o espectro das leis religiosas não dão tranquilidade aos turcos “moderados”. A mim também não dariam, e neste aspecto estou em desacordo com o espírito do texto do Economist, que é normalmente mais céptico e menos “romântico”. Não adianta varrer para debaixo do tapete estas ameaças, estas tentativas e fazer de conta que não aconteceram. Elas são o sinal de que nada é um adquirido e de que aquilo que hoje é certo, amanhã pode não o ser.

(continua)

O Véu Islâmico 5


Tenho grande dificuldade em olhar para o véu islâmico como se de um simples acessório de moda se tratasse, algo que hoje decido usar porque está frio e quero cobrir as orelhas, ou porque não fui ao cabeleireiro, ou porque fica tão bem com o cinto novo. Também me é difícil acreditar na livre vontade e na livre decisão de cada uma das mulheres que o usa. Não nego que algumas o façam com e em liberdade, mas são uma minoria, porque a maioria, em sociedades em que a religião é a Lei e em que a religião controla cada um e todos os aspectos que fazem uma vida, nunca tiveram condições para decidir livremente, nunca conheceram as diferentes opções, nunca consideraram alternativas. As únicas alternativas que conhecem são o “despudor” e o “pecado” do mundo ocidental tal como lhes é apresentado desde cedo nas escolas, nas mesquitas e em todos os meios de comunicação social.

Porque dificilmente consigo aliar livre arbítrio e “véu” islâmico, e porque, para mim, o “véu” é uma manifestação de identidade, de pertença, é um símbolo de uma forma de vida e de um tipo de sociedade que está nos antípodas do que acredito ser justo e desejável, confesso que os meus sentidos ficam em estado de alerta de cada vez que o “véu” e alguma polémica em torno dele chega à comunicação social. O caso da Turquia, que já aqui tenho referido em brevíssimas notas, é o último envolvendo os “véus”, neste caso os usados pelas mulheres do Primeiro-ministro e do Ministro dos Negócios Estrangeiros. Este é um assunto que segurei com atenção, sobretudo porque a recente discussão em torno dos conceitos de democracia e secularismo bem como a sua hierarquização, não me deixam tranquila, tantas são as questões que me suscitam, perante as certezas de tantos. Voltarei a este assunto.

01/05/07

O caso Pina Moura continua a dar que falar, e muitos são os indignados que afirmam quão natural é os Media terem simpatias partidárias, exemplificam com os casos espanhóis, ingleses, falam em Francisco Pinto Balsemão. É verdade, mas Francisco Pinto Balsemão fez o seu grupo com o seu dinheiro, e tanto quanto se saiba tem pouca influência na linha editorial do grupo. Também está há muito afastado do poder, da vida activa partidária e certamente não é deputado. Em tudo diferente do caso Pina Moura que está directamente ligado ao poder, e que tem poder sobre o poder. Foi só por isso que foi convidado para o cargo de administrador, só.

Mais novidades sobre a Turquia aqui.

29/04/07

Há uns dias escrevi aqui uma breve chamada de atenção sobre a candidatura presidencial do actual ministro dos Negócios Estrangeiros do governo da Turquia, Abdullah Gul, ligado aos sectores islamistas do país. Disse que os desenvolvimentos desta notícia deveriam ser acompanhados com atenção. Hoje li aqui que centenas de pessoas desfilaram em Istambul afirmando a sua adesão à laicidade do estado Turco e preocupando-se com a crescente onda de islamização do país.

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