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23/03/13

Se Tivermos Sorte, Chegamos a Velhos

Ontem folheava uma revista quando parei na fotografia de Paul Auster que ilustrava a entrevista. Pensei: “está velho”, aquilo que tantas vezes pensámos sempre com uma surpresa que não nos deveria surpreender: nada mais inevitável do que o passar do tempo e o envelhecimento dos outros que de vez em quando vemos na rua ou numa fotografia. Se nos lembramos deles quando eram “novos” é, só por si, um sinal inequívoco e indesmentível de que também nós envelhecemos. Não precisamos sequer de ir ao espelho, pois não há como escapar deste axioma. Como costumo dizer: se tivermos sorte, também nós chegamos a velhos.



Estava eu ainda meia enredada nestes considerandos semi-metafísicos acerca do “ser velho” e do “parecer velho”, quando vejo a fotografia (que presumo relativamente recente), bem como a notícia da morte de Óscar Lopes. Nela, Óscar Lopes tem o cabelo branco e algumas rugas na cara mas, ao contrário de Paul Auster, não parecia tão obviamente “mais velho” do que quando o conheci na Faculdade de Letras da Universidade do Porto onde foi meu professor. Ele nunca teve propriamente (também ao contrário de Paul Auster) um ar ‘jovem’ e/ou "desportivo", como hoje é suposto termos e como tentamos, sempre teve uma constituição delicada e algo frágil. Mas isto foi tudo há alguns anos, há bastantes anos; é melhor nem fazer as contas. 



Muitas vezes me tenho perguntado para que serviram os meus anos passados na faculdade num curso marcadamente teórico. Para além da pertinência e importância inegável ‘do canudo’ (que o diga Miguel Relvas), consolidei na Faculdade umas bases culturais que hoje considero terem sido sólidas. No entanto constato que sobretudo aprendi a pensar. E aprendi-o em várias vertentes. Primeiro, e numa época em que o Google não respondia de imediato às dúvidas, nem resolvia lacunas do saber, havia uma importante questão de organização, estrutura e prioridade: era preciso decidir o que queríamos saber, como o queríamos saber, onde ir buscar esse saber. Depois, num segundo momento, tínhamos que aproveitar ao máximo e rentabilizar cada gota de saber adquirido para o fazer render, se possível para outras cadeiras e outras matérias afins. Começávamos assim a relacionar os conhecimentos adquiridos e a flexibilizá-los. Finalmente, e quando não tínhamos os ditos conhecimentos – falhas nos apontamentos, bibliografia não consultada - tínhamos que pensar duas vezes mais ‘forte’ para chegarmos a algum lado a nível de estruturar uma resposta, para tirarmos alguma conclusão. Assim desenvolvíamos alguma criatividade e uma atitude crítica. 

Para além de ‘aprender a pensar’ aprendi também ‘algumas coisas’: a gostar ainda mais de literatura, e de arte em geral, e a conhecer melhor a nossa língua e a nossa literatura. Óscar Lopes foi um professor fundamental nessas aprendizagens. Numa altura em que não se tinha medo de ensinar literatura no secundário (liceu), todos estudávamos na sua (e de António José Saraiva) História da Literatura Portuguesa, sem que isso tenha traumatizado especialmente a minha e tantas outras gerações. Ainda hoje consulto essa obra sempre que preciso ou me apetece. Foi no entanto na faculdade, quando o tive como professor, que percebi a dimensão do seu amor à língua e à literatura e a sua vastíssima erudição. Era um professor (um Professor Catedrático) tranquilo mas apaixonado pela matéria que dava, e a sua cadeira de História da Língua Portuguesa foi uma das que mais me ensinou e das que mais gostei. Tinha uma visão muito larga, um conhecimento vastíssimo, mas aliado à humildade própria de quem sabe muito e sabe sobretudo que nada sabe - uma atitude que num meio académico, em que tantos passeiam a sua vaidade intelectual que às vezes não passa mesmo disso, nos corredores das faculdades, é bem mais rara do que seria desejável. Estava sempre disponível para o aluno o que, aliado a um trato afável, o tornavam surpreendentemente acessível. Nunca se falou de política nas suas aulas, nunca houve nenhum tipo de proselitismo e era quase unânime a simpatia que os alunos sentiam por ele. Deixou-me ‘saber’ e boas memórias.

13/07/12

Permanente

Um dos problemas de Miguel Relvas é não saber estar calado, não sabia antes, e não soube agora. O que disse ontem soa mal e contraditório. Soa mal essa sua busca do saber (“procura do conhecimento permanente”) que norteia a sua vida; quem assim “norteia” a sua vida, quem procura incessantemente o conhecimento, não se interessa por um título (tão estafado e abusado) de “Dr” que se consegue em tempo recorde e que até confessa não precisar. Bem pelo contrário despreza-o e não procura consegui-lo sem um processo formal de estudo, sem avaliações de professores ou dos seus pares e sem exames. A mais que legítima e louvável “procura do conhecimento permanente” é trabalhosa, não dá tréguas, e no fim (da nossa vida, não do conhecimento), dizem os sábios, pouco ou nada sabemos. Tarefa ingrata, sobretudo para pessoas “mais de fazer do que de falar”, e que mesmo assim falam demais e sem pensar bem no que dizem. 

Há quem procure a felicidade, MR diz procurar o saber... e pergunto-me se ele tenta fazer de nós parvos, se saberá a diferença entre dizer que procura e procurar, e até se terá alguma ideia do que é isso de “procura do conhecimento permanente”. Talvez estejamos perante uma situação de ânsia de conhecimento contagiosa e perante um outro candidato, quando finalmente deixar (ou for corrido da) a vida política - algo que mais cedo ou mais tarde inevitavelmente acontecerá - ao estudo em Paris.

Começa a pesar o rasto de Relvas.

29/02/12



Lá como cá torna-se cada vez mais fácil encontrar histórias de licenciaturas em tempo recorde. As pessoas devem ser cada vez mais inteligentes e estudiosas ou então saberemos, um dia, de licenciaturas tiradas não só sem necessidade de comparecer nas aulas mas sobretudo sem necessitarem de exames ou de qualquer tipo minimamente objectivo de avaliação. Quem sabe, num futuro as pessoas já nascerão licenciadas...

05/01/11

O Lado Pimba da Academia

Quis ler a entrevista de Boaventura de Sousa Santos ao “i". Só consegui ler metade, pois não tenho nem paciência para imbecilidades (vestidas de academia como convém a civilizações decadentes), nem tempo a perder quer com gente que não percebe o mundo em que vive de tão ideologicamente baralhada que anda, quer com jornalistas medíocres.

O que é que nós tivemos? O azar de estar na Europa. Portugal passou a ser um alvo de ataques especulativos que - no fundo - não se justificavam em termos estritamente económicos. A parvoíce começa cedo nesta frase de BSS, e daí para a frente (da primeira metade que li, ressalvo mais uma vez) ganha alento.

Para BSS os males de Portugal chegaram do exterior sob a forma “ataques”. Não foi um mau governo socialista de anos e anos, nem a constante e tradicional má gestão dos dinheiros públicos, nem tão pouco o perpétuo adiamento de reformas que permitam modernizar o estado e a economia privada, e que racionalizem a estrutura, custos e gastos do estado. Ser “alvo” de “ataques” especulativos (assumindo, para facilitar o argumento, que os especuladores “atacam” como feras predadoras) não surge do nada, ser “alvo” de “ataques” não é uma decisão arbitrária que se toma à mesa do pequeno almoço colectivo dos mafiosos, segundo BSS ou dos miúdos de 20 e tal anos, bêbados e encharcados em cocaína... como refere, com posada irreverência e a esperteza própria do infantilismo - ou não estivesse a citar um Nobel - mas sem nexo nem inteligência jornalística, a entrevistadora do "i".

O medo e a desconfiança irracional em relação aos mercados (os mercados vão destruir o bem-estar das populações, criar um empobrecimento geral do mundo, diz BSS uns parágrafos à frente), para além de intrigantes e bizarros, são sinal de periférico provincianismo. Mesmo (ou será sobretudo?) tratando-se de académicos a quem é atribuída uma bolsa de 2,4 milhões de euros do European Research Council para ajudar a Europa a ver o mundo. Em países com longa tradição democrática, respeito pela propriedade e iniciativa privadas, protecção da liberdade individual e que gostam do lucro (dentro dos parâmetros da lei, claro), os mercados não são olhados como se fossem obra do demo ao serviço dos feios porcos e maus capitalistas. Mas como nós somos um país sem tradição de democracia, nem gosto pela liberdade e onde o lucro é olhado com inveja e desconfiança (veja-se o caso Cavaco Silva e acções do BNP), e como somos pobres e periféricos, temos investigadores que não são mais do que o lado “pimba” da academia. Que se há-de fazer?

Sim, já gastei tempo demais com Boaventura de Sousa Santos.

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