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21/06/13


Habituei-me a ver o Brasil, provavelmente por comodismo – para além dos méritos (paixão) óbvios de quem escreve, através deste olhos. Ora este post já tardava...

12/04/08

Crónica Da Vida Num Resort 3

A imaginação criatividade e flexibilidade linguística brasileira atinge o seu auge na hora de nomear, e isso nota-se na hora de nomear os seus filhos tendo os brasileiros um leque de nomes próprios capaz de espantar qualquer espírito. Contracções entre dois nomes, trocas de letras, sílabas, anglicismos, são algumas das técnicas usadas para construir um novo nome, algo que os enche de orgulho. Nada que não soubesse, mas estar lá e ouvi-los chamarem-se uns aos outros é um exercício constante de decifração e mesmo memorização se queremos não ter dificuldade em lembrar o nome momentos depois. Élida, Nedmilson, Sue Ellen, Jaquinho são alguns exemplos que lembro graças ao mais notável e fiável exercício de memorização: escrever os nomes num papel.

Perante este universo delirante de nomes próprios estive quase uma semana sem coragem para interpelar o Eduardo e lhe perguntar porque é que ele era Eduardo, tão simplesmente Eduardo e não Eliduardo ou Gilduardo ou Neduardo. No penúltimo dia ganhei coragem de o fazer. Ele riu-se e disse que os pais deviam ter esgotado toda a sua imaginação ao nomearem a irmã, e que deviam ter querido fugir da letra “v”. Pedi as explicações que ele deu pronta e divertidamente: a irmã é Vanadécia (aposto que não há mais ninguém com este nome em todo o mundo, disse ele), a mãe Vandette e a tia Vanette, e eu Eduardo; também tenho um tio, continuou divertido, a quem o pai, um fanático de desporto quis pôr o nome de Esporte ao filho, mas a conservatória não deixou, por isso ele optou por Philips. Neste momento riamos e ele continuou dando mais alguns exemplos fantásticos de nomes. Apartir daí perdi a vergonha e interpelei mais duas pessoas de nome normal: a Ana Maria deu graças a Deus por ter um nome normal e ter tido pais que não tentaram nada de exótico, mas a Eva desgostosa de ter um nome tão banal e depois de me ter dito os exóticos nomes dos irmãos e irmãs (que já não lembro, pois não escrevi logo no papel) e das três filhas, confessou que o seu maior desgosto era ter um nome tão pequeno, tão pequeno que nem dava para ter “apelido” como toda a gente.

10/04/08

Crónica Da Vida Num Resort 2

Se um resort com a sua versão fabricada de paraíso apela as pessoas que procuram alguma tranquilidade e satisfação de desejos muito simples e básicos travestidos de coisa requintada, ainda apela mais a casais em lua-de-mel, e previsivelmente eles eram muito numerosos. No entanto enquanto “categoria” de pessoas eles não cansaram de me espantar. Andavam circunspectos e formais como quem cumpre um papel que é esperado que cumpram: de mãos dadas e em pose quase de estado andavam de lá para cá, tomavam refeições, andavam de barco, faziam passeis ao fim do dia, beijavam-se e abraçavam-se na piscina, mas todos os seus gestos pareciam pensados e encenados, careciam de espontaneidade e de verdadeira alegria. Não se ouviam gargalhadas, não se viam trocas cúmplices de olhares, nem sequer a sombra daquele brilhozinho de paixão ou desejo, muito menos um átomo que fosse de loucura, de vontade de sorver o momento, de realmente se divertirem. Enfim, não se viam nem sentiam algumas dessas coisas que é suposto existirem entre casais felizes e contentes que é o estado que normalmente associamos a uma lua-de-mel. Mais pareciam reféns de um qualquer protocolo ou convenção que os obrigava a estar ali um pouco contra-vontade. Se calhar...

08/04/08

Crónica Da Vida Num Resort

Se um grande e bom hotel urbano (Oriental em Bangkok, por exemplo) ou que já conheceu melhores dias (Sheraton em Guadalajara, por exemplo) tem sempre algo de aristocrático, já um bom resort é essencialmente burguês na sua procura de luxo e conforto e um mau resort um espelho demasiado real de uma sociedade de abundância. O resort é burguês quer na sua intenção, a de imitar o paraíso, quer nas suas funcionalidades que visam adivinhar e satisfazer os desejos conscientes ou inconscientes que os clientes num determinado momento e circunstância associam a paraíso: praia, sol, piscina, havaianas, algum desporto aquático feito com indolência, comida fresca e abundante, bebidas frescas, spa, não fazer nada. Por uns dias andei iludida com o paraíso.
Mas um dia chovia abundantemente e o céu cinzento não deixava prever nenhuma aberta. Foi o pretexto necessário para sair do resort e, dentro de um taxi, olhar o Recife e Olinda. O Recife é uma cidade que não se imagina: velha, mal tratada, pobre, descuidada, sem graça. Só a boa vontade de um turista determinada em não se deixar deprimir percebe entre o cinzento do céu, o molhado da chuva o desleixo da cidade e a falta de vida e de vibração, no centro da cidade degradada umas pontes que poderiam ter charme, umas ruas velhas com um casario antigo que carrega alguma nostalgia, uns edifícios coloniais que pintados e reabilitados dariam graça à cidade, enfim uns sinais de pertença, da história que fez a cidade, que é a cidade. Fora isso, os subúrbios lembram África sem serem África, e a parte nova dos prédios altos e dos condomínios não-sei-quê é simplesmente inenarrável. Não me demorarei nos clichés do país rico, da pobreza, da distribuição de riqueza no Brasil, mas lembrei D. Hélder Câmara, o simpático e controverso Bispo de Olinda e Recife que fazia gala em dizer “se eu dou comida a um pobre, me chamam de santo, mas se eu pergunto por que ele é pobre, me chamam de comunista" e que se tornou personna non grata no pontificado de João Paulo II. Assim num dia cinzento e de chuva, D. Hélder Câmara parecia fazer mais sentido naquele Brasil que eu vi do que João Paulo II, mas devia ser da chuva.

24/05/07

Postal Ilustrado 10

20/02/07

Postal Ilustrado 6

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