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16/09/08

Dos Guias de Viagem

Não tenho muita experiência de Guias de Viagem, uma dúzia de Michelins verdes cheios de mapas e detalhes de arquitecturas de outros séculos, e um pouco mais de uma dúzia daqueles do American Express, simpáticos, coloridos, algo confusos e cheios de óbvio, são a totalidade do meu espólio. Sempre preparei muito mal – que é o mesmo que dizer, nada - as viagens que fiz. Aborrece-me ler sobre o que vou visitar, parece o mesmo que ler o último capítulo do livro quando ainda nem o começámos. Assim dou comigo in loco a ler sobre o que vejo e perceber que não tenho tempo nenhum para ver isto ou aquilo, que afinal são ex-libris do local e coisas fundamentais. Fico contente por saber que não vi, pois é sempre melhor do que não saber de todo, e fico contente pelo pretexto para regressar. Quero sempre regressar, desta vez, já sem inocência como quem relê um livro ou revê um filme, regressar para ver o que não vi e saborear o que primeiro espantou. Também tenho tido a sorte de regressar algumas vezes.

Mas nada, nada é tão forte do que procurar na Malásia as plantações de borracha que lemos na juventude em Somerset Maugham, procurar a China da adolescência aprendida entre os livros de Pearl Buck, tentar descobrir em Bath as personagens de Jane Austen. Foi com os romances que fiz as primeiras viagens, vi paisagens longínquas, cheirei odores espantosos, senti humidade dos trópicos, a areia do deserto ou o vento frio e seco do norte. Conheci gentes bizarras de costumes estranhos, famílias polígamas, mulheres que viviam separados dos homens, e rigidos rituais para casar. Antes de saber História, já sabia as histórias. O mesmo se passou com alguns filmes clássicos: antes de saber do Desembarque de 1944, já tinha visto O Dia Mais Longo, e nas praias da Normandia procurava os soldados que vi no filme. Posso ainda não conhecer os locais, mas eles já existem em mim, e parece que procuro nas terras novas que vejo a nostalgia dos romances lidos.

Aliás, pensando bem, talvez não seja só nas viagens que a nostalgia dos romances lidos é procurada.

08/04/08

Crónica Da Vida Num Resort

Se um grande e bom hotel urbano (Oriental em Bangkok, por exemplo) ou que já conheceu melhores dias (Sheraton em Guadalajara, por exemplo) tem sempre algo de aristocrático, já um bom resort é essencialmente burguês na sua procura de luxo e conforto e um mau resort um espelho demasiado real de uma sociedade de abundância. O resort é burguês quer na sua intenção, a de imitar o paraíso, quer nas suas funcionalidades que visam adivinhar e satisfazer os desejos conscientes ou inconscientes que os clientes num determinado momento e circunstância associam a paraíso: praia, sol, piscina, havaianas, algum desporto aquático feito com indolência, comida fresca e abundante, bebidas frescas, spa, não fazer nada. Por uns dias andei iludida com o paraíso.
Mas um dia chovia abundantemente e o céu cinzento não deixava prever nenhuma aberta. Foi o pretexto necessário para sair do resort e, dentro de um taxi, olhar o Recife e Olinda. O Recife é uma cidade que não se imagina: velha, mal tratada, pobre, descuidada, sem graça. Só a boa vontade de um turista determinada em não se deixar deprimir percebe entre o cinzento do céu, o molhado da chuva o desleixo da cidade e a falta de vida e de vibração, no centro da cidade degradada umas pontes que poderiam ter charme, umas ruas velhas com um casario antigo que carrega alguma nostalgia, uns edifícios coloniais que pintados e reabilitados dariam graça à cidade, enfim uns sinais de pertença, da história que fez a cidade, que é a cidade. Fora isso, os subúrbios lembram África sem serem África, e a parte nova dos prédios altos e dos condomínios não-sei-quê é simplesmente inenarrável. Não me demorarei nos clichés do país rico, da pobreza, da distribuição de riqueza no Brasil, mas lembrei D. Hélder Câmara, o simpático e controverso Bispo de Olinda e Recife que fazia gala em dizer “se eu dou comida a um pobre, me chamam de santo, mas se eu pergunto por que ele é pobre, me chamam de comunista" e que se tornou personna non grata no pontificado de João Paulo II. Assim num dia cinzento e de chuva, D. Hélder Câmara parecia fazer mais sentido naquele Brasil que eu vi do que João Paulo II, mas devia ser da chuva.

04/09/07

Dean, Félix. Furacões, Monções, Tufões, Ciclones e demais tempestades

Por muito esforço que se invista em programar trabalhos, actividades ou férias, temos sempre que lidar com as circunstâncias tais como elas se apresentam e não tal como se desejam e sonham. Ninguém diria em Abril que este verão, do ponto de vista da meteorologia, seria o que foi: ventos fortes e persistentes, chuvas abundantes, nuvens, temperaturas muito abaixo do normal e uma temperatura da água do mar pouco amiga de banhos prolongados. A vida tem sempre uma a componente de imprevisibilidade que não cessa de surpreender, mesmo aqueles que mais apregoam gostar do imprevisto e se declaram pouco amigos de grandes planos e agendas. Há, no entanto, factores que são previsíveis e pouco esforço é necessário para que todos os conheçam. Em Agosto há por esse mundo fora, furações, monções, tufões, chuvas fortes, e calores abrasadores. Viajar para lá do Mediterrâneo, neste período do ano, representa sempre um risco elevado de encontrar condições meteorológicas adversas. Ignorá-lo é sinal de que não se sabe, ou de que não se está preparado para viajar. Viajar implica sair do mundo tal como se conhece, sair de si, dos hábitos, confortos e das pequenas seguranças; é incómodo, cansa, deixa-nos vulneráveis, faz-nos crescer.

Hoje pouco se viaja de facto. Fazem-se férias aqui e ali, mas viaja-se pouco. Uma travessia dos oceanos ou continentes apela a todos os que crêem gostar de viajar, de aventuras e de imprevistos e que não deixa de encher o peito a quem atravessa a zona de embarque de qualquer aeroporto. Mas o que fazem é ir de férias, uma estadia de uma semana bem entrincheirados num resort com segurança prevista, conforto razoável e programas para todos os gostos, e sempre lado a lado com outros tantos que, surpresa das surpresas, fazem férias. Provam-se umas comidas locais, bebem-se umas bebidas exóticas adocicadas com o alcool suficiente para “relaxar”, compram-se uns recuerdos, fazem-se umas excursões para visitar a cidade/vila mais próxima, e com um bronzeado de impor respeito, regressa-se a casa com a sensação de ter descoberto novos horizontes. Mutatis mutandis estamos perante uma versão um nadinha mais exótica e ousada de uma ida à terrinha (sem nenhum tipo de desprimor para a terrinha tão querida de todos nós) onde se tem a segurança e conforto de que gostamos, as comidas e bebidas que adoçam o coração, a visita à cidade/vila mais próxima, e os outros que tal como nós, querem mais do mesmo. Ora isto não é viajar.

Tanto não é viajar que, à primeira contrariedade, neste caso o furacão Dean, enchem-se os noticiários que dão conta dos portugueses que livremente escolheram fazer férias nessas paragens e que no entanto se lamentam do azar. Acho bem que a comunicação social se preocupe com a sorte dos portugueses que estão de férias, mas não ao ponto de abrir noticiários e encher páginas de jornais durante dias a fio. Sobretudo sabendo que qualquer turista num resort está mais preparado para enfrentar os ditos furacões do que a maioria da população local. O furacão Félix, que hoje com a força máxima, ameaça países como a Nicarágua e as Honduras não merece nem de longe nem de perto o tratamento mediático do Dean, só porque não há tantos portugueses a fazer férias nas Honduras e na Nicarágua. Parece um pouco desajustado, não?

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