
Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, (...) E, afora este mudar-se cada dia, Outra mudança faz de mor espanto: Que não se muda já como soía.
05/08/10
Nada Solar

19/01/08
Expiação
Li Atonement de Ian McEwan há uns anos quando o romance saiu. Foi um romance de que gostei bastante (muito mais do que de Amsterdam que lhe valeu o Booker) tal como gostei de On Chesil Beach. Não posso agora, e porque não o reli recentemente, fazer uma análise mais completa do romance mas lembro que uma das ideias mais marcantes que a obra me deixou foi, para além do facto de ter uma escrita muito cuidada, a forma como desde o início, com uma espécie de aquecimento dos motores ou de preparação do terreno, se dá conta de um percurso individual de expiação. Não é arrependimento, é mesmo expiação, no sentido cristão de expiar um pecado, uma culpa; carregá-lo toda a vida como quem carrega um fardo. Toda a vida da personagem é moldada por essa expiação.
Foi com curiosidade – cautelosa - que fui ver o filme “Expiação” de Joe Wright. O filme começa bem, mas creio que a segunda parte perde um pouco em termos de densidade. A primeira parte é muito bem feita do ponto de vista formal com leituras diferentes dos pedaços que constituem os acontecimentos, conforme estejam a ser os olhos de uns ou de outros que os “vêem”. Nesta diferença de olhares começa o terreno a ser preparado para a possibilidade e a concretização do pecado ou culpa que marcará e mudará a vida de todas as personagens. O espectador está perturbado, mas entende o porquê. A partir daqui o filme perde-se querendo ser mais do que deveria querer, porque parece perder o seu objectivo central que circula à volta da culpa. De repente sentimos que estamos perante uma conturbada história de amor em cenário de guerra (excessivo), por muito legítima ou interessante que essa história seja. O romance, da mesma forma que na primeira parte preparou o terreno para o pecado, na segunda centra-se no percurso pós pecado, no efeito da culpa focando o arrependimento, as tentativas de reparação, mas não a redenção, o que deixa a personagem “pecadora” em situação de expiação até ao fim dos seus dias. É esta densidade que falta ao filme na segunda parte e que não é tão bem traduzida nem sequer a nível formal. Apesar dos cenários de guerra e dos feridos em enfermarias cai-se em alguma banalidade tornando o fim menos interessante do que princípio e deixando-nos, espectadores, um pouco insatisfeitos. Dos actores, saliento o trabalho de Keira Knightley que se afirma enquanto actriz madura.
15/07/07
Na Praia de Chesil 4
Ian McEwan, Na Praia de Chesil
Na Praia de Chesil 3
Nada era nunca discutido e eles também nunca sentiam a falta de uma conversa íntima. (...) A linguagem e a prática da terapia, a aceitação de sentimentos diligentemente partilhados, mutuamente analisados, ainda não tinham entrado em circulação generalizada. (...) ainda não era habitual uma pessoa considerar-se em termos de quotidiano como um enigma, como um exercício de narrativa histórica, ou um problema à espera de ser resolvido.
Ian McEwan, Na Praia de Chesil
11/07/07
Na Praia de Chesil 2
A cólera dele atiçou a dela e, repentinamente, Florence pensou que percebia qual era o problema de ambos: eram demasiado bem educados, demasiado constrangidos, demasiado temerosos, andavam um à roda do outro em bicos de pés, a murmurar, a segredar, a diferir, a concordar. Mal se conheciam um ao outro, e nunca podiam fazê-lo por causa da manta de quase silêncio amigável que abafava as suas diferenças, e os cegava tanto quanto os aprisionava. Tinham sempre tido medo de discordar, e agora a cólera dele estava a libertá-la. Queria magoá-lo, puni-lo, a fim de se distinguir dele. Tratava-se de um sentimento tão pouco familiar nela, no sentido da emoção da destruição, que quase não conseguia resistir-lhe. O seu coração batia com força e queria dizer-lhe que o odiava, e estava prestes a pronunciar essas palavras duras e maravilhosas que nunca proferira na vida, quando ele falou primeiro.
10/07/07
Na Praia de Chesil
Aquela ainda era a época – que viria a terminar mais tarde naquela famosa década – em que ser jovem era um estorvo social, uma marca de irrelevância, uma situação ligeiramente embaraçosa para a qual o casamento era o início de uma cura. Quase dois desconhecidos, ali estavam eles, estranhamente juntos, num novo pináculo de vida, rejubilantes por o seu novo estatuto prometer promovê-los permitindo-lhes sair da sua interminável juventude – Edward e Florence, enfim livres!
Ian McEwan, Na Praia de Chesil
Antes de ter lido o livro li um comentário na imprensa anglo-saxónica em que se falava deste pequeno romance como de uma resposta europeia a Everyman de Philip Roth. Eu também tive essa sensação. Roth, nomeadamente em Everyman ou Dying Animal, tem uma escrita potente cheia de “meaning”, enquanto que Ian McEwan tem uma forma de escrever mais elegante, um pouco mais contida, sem no entanto deixar de fluir de uma forma magnífica, que serve personagens belíssimas, mas também elas mais contidas e algo tensas no seu submundo de não ditos e de expectativas que as habita. McEwan é seguramente mais “europeu” e Ropth mais “americano”, tanto quanto estas etiquetas se podem aplicar, e ambos criam um pequeno mas intenso romance sobre ser e viver.
Na Praia de Chesil é um romance povoado de tensões e emoções, o espanto, o desejo, a espera, as expectativas, o desnorte, a inocência, o medo, a paixão, a perda, o amor, e claro, os “não ditos” que são, eles próprios, uma personagem central de pleno direito, e determinantes na construção da narrativa. Lê-se com muito prazer.
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