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03/07/10

La Chartreuse de Parme 4

Tenho dificuldade em considerar Fabrice a personagem principal do romance (título que atribuiria a Gina del Dongo ou Duchesse Sanseverina), pois é uma personagem de menor espessura do que outras, mas Fabrice é, inegavelmente, a personagem em torno da qual o enredo do romance é tecido, é a personagem que motiva os actos das outras personagens, que despoleta circunstâncias, amores, paixões, ódios, castigos. Se não é a personagem principal, é seguramente a personagem central. Fabrice,

plein de grâces, grand, bien fait, une figure toujours riante...et, mieux que cela, un certain regard chargé de douce volupté...

a quem poucas mulheres resistem, é um exemplo da inocência que inunda La Chartreuse de Parme e que é feita de ligeireza, privilégio de berço, “inssouciance”, idealismo e entusiasmo (os seus ideais liberais), alguma imprudência (a ida dele a Waterloo é disso o melhor exemplo), uma vaga melancolia e desprendimento que ele confessa numa alusão a Gina, La Duchesse Sanseverina,

elle croira que je manque d’amour pour elle, tandis que c’est l’amour qui manque en moi; jamais elle ne voudra me comprendre.

Esta ligeireza de Fabrice é incómoda para os outros que lhe invejam a aparência, o berço, o charme...

La première qualité chez un jeune homme aujourd’hui, c’est-à-dire pendant cinquante ans peut-être, tant que nous aurons peur et que la réligion ne será point rétablie, c’est de n’être pas susceptible d’enthousiasme et de n’avoir pás d’esprit.

... e é incómoda para si próprio que sofre as consequências que essa inveja despoleta, na forma de contrariedades, uma atrás de outra, e que ele vai sempre sabendo ultrapassar com a ajuda dos que o amam, nomeadamente da Duchesse Sanseverina. Só o sofrimento o transformará, o sofrimento, como perda da inocência e dessa forma de ligeireza que o caracteriza, surgir-lhe-á muito mais tarde, depois de conhecer o amor e então percebemos que Fabrice, sempre equipado para contornar e sobreviver às contrariedades, é impotente perante perante a enormidade, a densidade e o peso desse novo sentimento. Ele não tem a capacidade para lidar com e sobreviver ao sofrimento.

Excertos de Stendhal, La Chartreuse de Parme.

21/06/10

La Chartreuse de Parme 3

Continua o Comte Mosca della Rovere:

Je dirais plus: ici il faut être sincère, ma gaieté ne laisse-t-elle pas entrevoir, comme chose toute proche, le pouvoir absolu... et la méchanceté? Est-ce que quelquefois je ne me dis pas à moi-même, surtout quando on m’irrite: Je puis ce que je veux? Et même j’ajoute une sottise: je dois être plus heureux qu’un autre, puisque je possède ce que les autres n’ont pas: le pouvoir souverain dans les trois quarts des choses... Eh bien! Soyons juste; l’habitude de cette pensée doit gâter mon sourire... doit me donner una ir d’égoïsme... content...Et, comme son sourire à lui (Fabrice) est charmant! Il respire le bonheur facile de la premiere jeunesse, et il le fait naître.

(...) En croyant raisonner je ne raisonne pas; je me retourne seulement pour chercher une position moins cruelle (...) Puisque je suis aveuglé par l’excessive douleur, suivons cette règle, approuvée de tous les gens sages, qu’on appelle prudence.

Neste excerto intenso e perturbantemente lúcido o Comte Mosca apercebe-se de que o poder (je puis ce que je veux) que lhe vem da presença na corte (onde se fazem fort villaines choses) e da sua grande influência junto do monarca, o deveriam fazer “heureux”, mas não. Afinal o poder mancha-lhe o sorriso e a sua alegria é tingida pela maldade, até pela dor excessiva, ou a ironia, sinais de uma inocência há muito perdida. Sobra-lhe um conforto: os homens que, apesar da cegueira do sofrimento, da dor e da desilusão, conseguem aprender a ser sábios, substituem a inocência perdida com o cultivo da prudência.

Stendhal, La Chartreuse de Parme

14/06/10

La Chartreuse de Parme 2

Pensa o Comte Mosca della Rovere:

Il (Fabrice) a surtout cet air naïf et tendre et cet oeil souriant qui promettent tant de bonheur! Et ces yeux-là la duchesse ne doit pas être accoutumée à les trouver à notre cour!... Ils sont remplacés par le regard morne ou sardonique. Moi-même, poursuivi par les affaires, ne régnant que par mon influence sur un homme qui voudrait me tourner en ridicule, quels regards dois-je avoir souvent? Ah! Quelques soins que je prenne, c’est surtout mon regard qui doit être vieux en moi! Ma gaieté n’est-elle pas toujours voisine de l’ironie?...

Stendhal, La Chartreuse de Parme

O prazer de ler romances como este. O prazer de voltar a ler francês – há muito que não o fazia – mas um francês elegante e bonito, cheio de “passé simple” e conjuntivos difíceis de conjugar, daqueles que já ninguém ousa usar e que hoje não se ouvem nunca.

Voltando ao romance. A juventude versus a maturidade, a corte e o poder versus as relações sinceras e informais entre os seres humanos, e o amor que na obra funciona quase como uma subcategoria da juventude (versus maturidade) são uma constante do romance de mais de seiscentas páginas. Poderia tentar ser ainda mais sintética dizendo que a inocência é a grande personagem do romance, é ela ou a sua ausência que constantemente vemos através das inúmeras personagens e circunstâncias por elas criadas. O espanto, grande companheiro da inocência, tem também uma função retórica, porque através dele é tecida ardilosamente a cumplicidade com o leitor.

(continua)

24/05/10

La Chartreuse de Parme

La politique dans une oeuvre littéraire, c’est un coup de pistolet au milieu d’un concert, quelque chose de grossier et auquel pourtant il n’est pas possible de refuser son attention.

Nous allons parler de fort vilaines choses, et que, pour plus d’une raison, nous voudrions taire; mais nous sommes forces d’en venir à des évènements qui sont de notre domaine, puisqu’ils ont pour théâtre le coeur des personnages.

(...) De tout ceci, on peut tirer cette morale, que l'homme qui approche la cour compromet son bonheur, s'il est heureux, et dans tous les cas, fait dépendre son avenir des intrigues d'une femme de chambre.

Stendhal, La Chartreuse de Parme

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