04/09/07

Dean, Félix. Furacões, Monções, Tufões, Ciclones e demais tempestades

Por muito esforço que se invista em programar trabalhos, actividades ou férias, temos sempre que lidar com as circunstâncias tais como elas se apresentam e não tal como se desejam e sonham. Ninguém diria em Abril que este verão, do ponto de vista da meteorologia, seria o que foi: ventos fortes e persistentes, chuvas abundantes, nuvens, temperaturas muito abaixo do normal e uma temperatura da água do mar pouco amiga de banhos prolongados. A vida tem sempre uma a componente de imprevisibilidade que não cessa de surpreender, mesmo aqueles que mais apregoam gostar do imprevisto e se declaram pouco amigos de grandes planos e agendas. Há, no entanto, factores que são previsíveis e pouco esforço é necessário para que todos os conheçam. Em Agosto há por esse mundo fora, furações, monções, tufões, chuvas fortes, e calores abrasadores. Viajar para lá do Mediterrâneo, neste período do ano, representa sempre um risco elevado de encontrar condições meteorológicas adversas. Ignorá-lo é sinal de que não se sabe, ou de que não se está preparado para viajar. Viajar implica sair do mundo tal como se conhece, sair de si, dos hábitos, confortos e das pequenas seguranças; é incómodo, cansa, deixa-nos vulneráveis, faz-nos crescer.

Hoje pouco se viaja de facto. Fazem-se férias aqui e ali, mas viaja-se pouco. Uma travessia dos oceanos ou continentes apela a todos os que crêem gostar de viajar, de aventuras e de imprevistos e que não deixa de encher o peito a quem atravessa a zona de embarque de qualquer aeroporto. Mas o que fazem é ir de férias, uma estadia de uma semana bem entrincheirados num resort com segurança prevista, conforto razoável e programas para todos os gostos, e sempre lado a lado com outros tantos que, surpresa das surpresas, fazem férias. Provam-se umas comidas locais, bebem-se umas bebidas exóticas adocicadas com o alcool suficiente para “relaxar”, compram-se uns recuerdos, fazem-se umas excursões para visitar a cidade/vila mais próxima, e com um bronzeado de impor respeito, regressa-se a casa com a sensação de ter descoberto novos horizontes. Mutatis mutandis estamos perante uma versão um nadinha mais exótica e ousada de uma ida à terrinha (sem nenhum tipo de desprimor para a terrinha tão querida de todos nós) onde se tem a segurança e conforto de que gostamos, as comidas e bebidas que adoçam o coração, a visita à cidade/vila mais próxima, e os outros que tal como nós, querem mais do mesmo. Ora isto não é viajar.

Tanto não é viajar que, à primeira contrariedade, neste caso o furacão Dean, enchem-se os noticiários que dão conta dos portugueses que livremente escolheram fazer férias nessas paragens e que no entanto se lamentam do azar. Acho bem que a comunicação social se preocupe com a sorte dos portugueses que estão de férias, mas não ao ponto de abrir noticiários e encher páginas de jornais durante dias a fio. Sobretudo sabendo que qualquer turista num resort está mais preparado para enfrentar os ditos furacões do que a maioria da população local. O furacão Félix, que hoje com a força máxima, ameaça países como a Nicarágua e as Honduras não merece nem de longe nem de perto o tratamento mediático do Dean, só porque não há tantos portugueses a fazer férias nas Honduras e na Nicarágua. Parece um pouco desajustado, não?

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