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02/11/12

A Arte de Estar Com Deus e Com o Diabo


No entanto, e depois de ver o vídeo, constato sem nenhum espando a mentira a jorrar entre sorrisinhos forçados e o ar de falsa integridade da senhora, que repete a cassette obrigatória: claro que não, “we don’t want to look attractive”. Pergunto: why the hell make and buy a fashion magazine for the chic female market? Qualquer túnica escura cortada a direito e comprada na souk local serviria o propósito que é levado tão a sério de não querer ficar/ser atraente, não?

27/11/11

Excessos de Pólen

Fiquei surpreendida por não ter visto/lido/ouvido nenhum comentário sobre a forma como foi iniciada a grande manifestação contra o governo egípcio na praça Tarhir. 


Vi na televisão a imagem de toda uma multidão – sem excepções – a participar nas orações. Não vi outros que não muçulmanos: não vi pessoas de pé que não se ajoelhassem em determinadas alturas da oração. A coreografia concertada (e a absoluta unanimidade) da oração numa manifestação política contra um governo militar, pró-democracia, e a favor de um governo civil, é arrepiante. Estranho é também o facto de não ter visto mulheres (ao contrário do que se passou nas manifestações de Maio) a tomarem parte nos protestos, e respectivas oraçães(!). As pretensões democráticas de tais manifestantes (e respectivas reivindicações) deixam muito a desejar, e são exactamente o que nós não gostamos em democracia.  Como não temer o pior? Querem que saia o governo militar para que ceda o lugar a um governo ‘civil’ religioso? 

Foi tão óbvia para mim a leitura desta manifestação, que me admira ela não ter sido objecto de mais discussão comentário e crítica. Pelos vistos a opinião pública ‘ocidental’ continua anestesiada com o excesso de pólen da ‘primavera árabe’. Tenho vontade de perguntar, num exercício meramente especulativo, se aqui em Portugal (por exemplo) alguém estranharia que uma manifestação política de protesto (como no dia da greve geral, por exemplo também) fosse iniciada com uma missa celebrada por um bispo de Lisboa. Eu, católica estranharia. Eu não o quereria. Mas isso digo eu, que para muitos parece ser normal iniciar manifestações políticas com orações.

12/10/11

Mais notícias sobre a Primavera Árabe no seu melhor ou a imagem da jovem e tão desejada democracia egípcia.



Se isto se passasse no tempo de Mubarak, a comunidade internacional não parava de berrar e teríamos inúmeras manifestações em diferentes cidades de protesto contra a repressão egípcia, e a comunicação social ocidental indignava-se alto fazendo eco de qualquer espirro de protesto. Assim lêem-se umas notícias, em que as explicações de que ainda estão a aprender o que é a democracia são tacitamente aceites, e ninguém sai à rua para contestar ou protestar. Como se a morte de 24 pessoas (e a demissão de um ministro) fosse nada mais do que um infeliz, mas compreensível, efeito colateral do caminho para a democracia. Já percebemos que 1 morto com Mubarak vale bem mais do que 24 na era pós-Mubarak.

10/10/11

Da Primavera Árabe


Pelos vistos o caminho – que então, e para alguns, parecia tão luminoso – para a democracia tem-se revelado difícil



Que não sobrem ilusões: uma sociedade secular e respectiva tolerância religiosa misturam-se mal com o islamismo predominante de hoje: um islamismo de massas, cego e pouco evoluído, facilmente manipulado por opiniões e grupos radicais, pouco educado que tem como core da educação o Corão, e pouco estudo científico ou histórico. Não são os governantes ou algumas elites mais ‘moderadas’ (conceito perigosíssimo no contexto islâmico, também) que ditam o soprar dos ventos. As opiniões fazem-se desde bem cedo na vida de cada um: na família, nas escolas, nas mesquitas, nos bairros.

Os factos são indesmentíveis: há cada vez menos cristãos no Médio Oriente. No principio do séc. XX eram praticamente um terço da população. O Papa Bento XVI sabe bem do que fala quando diz que o cristianismo e os cristão são a religião e o grupo religioso mais perseguido no mundo, nos dias de hoje. No Egípto a procissão ainda vai no adro.

06/03/11

Revoluções Pacíficas

Aqui ou aqui, mais notícias do país que faz a revolução pacífica; cujos habitantes anseiam a democracia; que usam a palavra liberdade (sempre nos lábios e pronta a usar) em qualquer slogan que inventem; que promovem a tolerância; que defendem a diferencia e onde a mulher tem direitos e tratamento iguais aos do homem, nomeadamente na escolha daqueles com que querem casar. O que está por trás de uma “revolução pacífica” como a do Egípto, mesmo tendo em consideração alguns reais anseios de liberdade e democracia tal como no ocidente as concebemos, é algo muito mais complexo do que nós sabemos e sobretudo do que nós queremos ver e saber.

Para que algumas dúvidas sejam esclarecidas: no Corão 2:221, há todo um ensinamento sobre como não se deve casar e como não se devem casar as filhas (que nunca têm autonomia, e dependem sempre do familiar masculino mais próximo) com infiéis e como é melhor casá-las com um escravo (sim, o Corão fala amplamente sobre os escravos) a casá-la com um infiel. Convém ter presente também que os muçulmanos usam o Corão como base das leis que criam, (daí as dificuldades com a criação de um sistema político secular) dos comportamentos que adoptam. O Corão é tomado à letra, lido como sendo realmente a palavra de Deus revelada ao Profeta. Não há, como noutras religiões, margem para interpretações, para análise do contexto e circunstâncias em que foi escrito, nem sequer do reconhecimento que, porque foi escrito por homens, poderá ter as naturais inconsistências ou visões (quem sabe até alucinações) próprias de quem que escreve. Todas as interpretações são possíveis, nenhuma formalmente validada por uma "igreja" centralizadora. Em última análise o património comum islâmico acaba sempre por ser o que está escrito no Corão; tal qual está escrito.

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