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27/09/13

Domingo 29 de Setembro

Mais uma vez, num exercício que já se repete em demasia, a falta de uma política sólida bem como a falta de densidade de pensamento (político, mas não só) dos ‘agentes políticos’, atinge mais um ponto alto. O desnorte é total: Passos Coelho – cada vez mais alheado da realidade, discursa de contradição em contradição, de ‘inverdade’ em ‘inverdade’ com a sombra do irrevogável Paulo Portas sempre a pairar; Seguro passeia com estudada e forçada convicção o último chavão, a última ideia avulsa: por este dias ele deve ter lido umas coisas (ou simplesmente sopraram-lhas) sobre mutualização da dívida, e sobra para nós perplexos eleitores. É difícil perceber qual o mais patético deste três. Ao pé deles Jerónimo de Sousa ganha em dignidade e espessura. Mas como vivermos num país governado por gente deste calibre vamos fazendo o que se pode. E uma das coisas que se pode é votar. Mas votar em quem? 

Tropeçamos e esbarramos quotidianamente, seja em que terra (cidade, vila ou aldeia) for, nas pequenas obras que se multiplicaram nestas semanas que antecedem as eleições autárquicas, sem que percebamos sempre para que servem, pois mais parecem intervenções normais de manutenção. Uma calçada em que se repõem pedras, uma rua que se repavimenta, um terreno que se limpa, fazem parecer longínquos os tempos das rotundas embelezadas por esculturas de gosto duvidoso, dos jardins novos de plantas viçosas e com trajectos de manutenção, dos viadutos que se ergueram ou das ruas e estradas que se rasgaram. Os tempos são outros e a falta de recursos obriga à contenção financeira, pena que não obrigue também ao uso compulsivo de bom senso e discernimento. Mas a tentação de mostrar obra – nem que seja à pressa – e de criar confusão e colocar letreiros de ‘Desvio’ vence e faz-se qualquer coisa para mostrar que se faz e que se está perto da população. 

Pena tenho eu de não votar no Porto; aí saberia em quem votar, pois ainda hoje não sei se Domingo opte por ficar em casa ou saia para votar em branco. Voto no concelho de Lisboa, numa casa onde também se vota no concelho de Oeiras, onde as escolhas apontam a um candidato minoritário. 

Para além de uma dificuldade (genética?) de votar ‘Socialista’ ou outra variante de esquerda, não perdoo a António Costa ter destruído o trânsito na cidade, sobretudo na baixa. Desde as pistas para ciclistas mal planeadas que acabaram com segundas faixas de rodagem, até à confusão que é o trânsito na Avenida da Liberdade, não me faltam exemplos. Como eu, muitas mais pessoas ainda hoje não entendem como funciona o trânsito nas laterais da Avenida da Liberdade e simplesmente deixaram de lá ir. É uma boa maneira de afastar os cidadãos do centro da cidade. Não venham depois, por favor, falar na desertificação dos centros das cidades e nem inventar programas para a combater... Não fosse isso talvez vencesse a dificuldade em votar socialista numa eleição local, quem sabe. 

Por outro lado decidi já há muito que não votaria em nenhum candidato ‘repetente’. Sinto que fui enganada (apesar de já não ser muito fácil enganarem-me, ainda o conseguem fazer; um sinal que só abona a meu favor, assim me consolo) pelos partidos do “arco da governação” (as expressões que se inventam...) com a legislação de limitação de mandatos, que fizeram de má fé uma lei mal feita algo que, dizem os entendidos, é já um hábito. Resultado: uma lei dúbia, que não serve para nada a não ser como instrumento demagógico para, então, ‘nos’ enganarem. Vão para o raio que os parta. 

Este governo já tomou posse há mais de dois anos. Prometeu então, ajudado por uma Troika que exigia, uma reforma da Administração do Território reduzindo concelhos e freguesias. Mais uma promessa não cumprida, parece que este governo é incapaz de reformar seja o que for. Não se tocou num único concelho, nem o governo (ou a oposição) querem ouvir falar em tal coisa. Demasiados interesses em jogo, demasiado a perder parece. À laia da dita ‘reforma’, fundiram umas freguesias. Fizeram-no recorrendo à única técnica conhecida e utilizada pelo incompetente governo do incompetente Passos Coelho para implementar seja que medida for: a de “cortar a direito”. Não se estuda, não se planeia, não se pensa a médio e longo prazo. Corta-se a direito ou mais ou menos a olho. Impossível por isso nós percebermos a motivação, a estratégia, as dificuldades, as soluções, e os resultados. Tão pouco percebemos que ganhos financeiros se conseguiriam de uma reforma propriamente dita e que resultados financeiros se conseguem desta pseudo-reforma que só abrange freguesias. A comunicação social que poderia ter nesta matéria um papel de informação sobre a forma como este processo decorre, das dificuldades, dos sucessos, nada tem dito. Nós nada sabemos. O que sabemos é que esta é mais uma reforma adiada. 

Há candidaturas independentes? Ainda bem. Há muitas candidaturas independentes? Há quem se admire?

06/06/11

Frases Soltas.

Sócrates foi corrido pelos eleitores. Foi derrotado um estilo falso, promiíscuo, irreal e cheio de inverdades. Foi derrotada a política das causas, as causas fracturantes, e Sérgio Sousa Pinto. O Magalhães foi derrotado. Sócrates foi corrido pelo PS. O PS – era só olhar-lhes para as caras enquanto batiam palmas com lágrima de crocodilo ao canto do olho – já enterrou Sócrates. Faz-me (ainda) confusão que se passe de bestial a besta (palavras de um treinador de futebol, não é?) num segundo e sem um mínimo de período de nojo. Sócrates já era. Os resultados nos Açores são um consolo, César e Ricardo Rodrigues estavam a pedi-las. Pedro Silva Pereira será substituído por Miguel Relvas. O partido do vazio ideológico e do vazio político em crosta de slogans politicamente correctos também desabou. Foi um prazer ver Loução sem saber o que dizer. A ‘normalidade’ de Passos Coelho convenceu e venceu o suficiente, mas que não se iluda. Passos Coelho vai precisar de muito mais do que normalidade para a função de Primeiro-ministro, e a Fenomenologia do Ser de Sartre não vai ajudar. Trabalho ajuda e quero confiar que PPC trabalhe. Uma boa equipa também, e quero confiar que haja uma. Seriedade e honestidade com os eleitores também, e quero confiar que a cultive. Um bom bocado de sorte, também. Eu desejo-lhe tudo isso, por mim, pelo país e finalmente por ele.

05/06/11

Ao contrário do que ouvi a alguns comentadores, eu não gostei do discurso de José Sócrates. Foi longo, chato, mas sobretudo demasiado estudado ao ponto de, tal como afinal é hábito nos seus discursos, soar a falso. A ‘dignidade’ de que os ditos comentadores falaram e que elogiaram, não me pareceu nada mais do que uma pose preparada para sair de cabeça tão erguida quanto possível do seu desaire eleitoral. A aparente sinceridade – aquele ‘abrir o coração’ em que ele diz ter-se sentido honrado por servir o país e os portugueses, ou o momento em que agradeceu a todos os seus colaboradores (Teixeira dos Santos, alguém o viu? Sempre pensei que tinha sido um colaborador e uma peça fundamental do seu serviço ao país), ou ainda aquele em que falou do tempo que passará a ter para os filhos – foi uma lamechice de telenovela de segunda, para ver se puxava a lágrima dos portugueses. Mas, como sempre, José Sócrates não vive na realidade, e as lágrimas não se soltaram. Pelo contrário, o país respira de alívio.

29/05/11

Ontem ao fim do dia, na televisão os comentadores discutiam o número dez à exaustão. De facto é um tema crucial para uma campanha, tal como tantos outros (aborto, africanismo de Massamá ou não...) que a comunicação social, de forma selectiva e exigente, não se cansa de tratar. Para mim a campanha tem um só tema: queremos mais José Sócrates ou não. Para quem tem problemas com o minimalismo de ideias proponho só mais uma: a bancarrota e a governação dos últimos seis anos. E é quanto baste. Tudo o que vier a mais está a mais.

Como me enfadam estas considerações sobre temas irrelevantes, fiz algo de que não me arrependo: mudei de canal e fiquei absolutamente presa a ver o melhor jogo de futebol que me lembro de algum dia ter visto. Parabéns ao Barcelona.

19/04/11

Nada disto é novo, é aliás mais do mesmo, sempre mais do mesmo. Entre visitas coreografadas, inaugurações forçadas, e a campanha eleitoral propriamente dita, teremos a repetição, com pequenas variações, deste tema - que mais parece único - do guião de José Sócrates. Até à náusea.

11/04/11

Vai Vir Charters da China (uma versão política)

Numa engraçada metáfora do João Távora no Corta-Fitas a propósito do "erro" Fernando Nobre (*) cometido pela direcção do PSD que julga assim poder ver os “charters de votos a chegar”, continuamos a ver o PSD de golpada em golpada (no sentido mediático da palavra) a perder, cada vez um pouco mais, a sua credibilidade. Fernando Nobre já é “mau” (porque volátil politicamente, porque pomposamente selfrighteous, entre outras coisas), para encabeçar a lista de deputados de qualquer distrito, mas ser anunciado como “candidato” a Presidente da Assembleia da República agora e nestas circunstâncias - ter sido candidato a PR, nunca ter estado no Parlamento, por exemplo e entre outras - roça a insanidade.

Neste momento o PSD, é uma máquina partidária mais do que um partido. Para ser um partido sério de alternativa ao inqualificável desastre “Sócrates” que nos trouxe de anúncio em anúncio, de propaganda em propaganda, onde trouxe, isto é à bancarrota, precisa de sentido de estado, seriedade, maturidade política, sobriedade, organização, propósito e disciplina. Tudo isto tem faltado. E eu, lamentavelmente, começo a sentir que me faltam motivos para, em consciência, votar no PSD como alternativa a José Sócrates.

(*) Numa altura em que todos fazem prognósticos eu arrisco um: ainda ouviremos falar da fábula do sapo e do escorpião...

30/03/11

Promessas


Eu sei que este discurso é já um lugar comum, mas isso não lhe tira um grama de mérito e da energia extraordinária que transmite seja em que circunstância for que se leia. Força e determinação face a um objectivo concreto e determinante para o bem comum futuro, são os traços fortes deste clássico onde não há complacência nem “beating about the bush”.

Se eu pudesse escolher, queria ter uma campanha eleitoral minimalista: um discurso de 15 minutos por cada candidato e 4 ou 5 páginas A4 (máximo) com as grandes linhas determinantes para a actuação do seu futuro governo, e os grandes objectivos a atingir, caso ganhassem eleições. Limitava também o número de promessas a uma só de contenção, evitando assim esse terreno político demagógico e pantanoso que é a “esperança”, o “optimismo”, a “luz ao fundo do túnel”, que tanto excita e tantas ondas de optimismo (e despesa, logo) gera, mal uma estatística sobe umas décimas percentuais. Neste momento em Portugal, nada se deveria prometer que não fosse uma versão actual do “sangue, suor e lágrimas”. É preciso que muitas estatísticas subam mais do que meros pontos percentuais de forma sustentada ao longo de prolongados períodos de tempo, para que se possa respirar. Respirar, nunca relaxar ou desistir da contenção, ou aumentar as despesas, ou começar a sonhar com “grandes projectos”.

Mas, em vez de minimalismos estamos condenados à realidade e à retórica de Sócrates vítima de tudo que não seja ele próprio, ou acção do seu governo. Estamos condenados às mentiras de Sócrates que lhe saem da boca com a segurança da verdade. Estamos condenados às suas promessas de crescimento, de revolução tecnológica, de simplex, de energias renováveis, como se houvesse dinheiro... Estamos condenados às manobras de Sócrates (e seus fieis seguidores) que já devem saber quem será o “Fernando Lima” desta campanha.

Passos Coelho parece também ceder à tentação da promessa. Para alem da promessa de “mais programas sociais” eu gostava de saber que garantias ele tem (deve ter, não?) de que é possível, fácil, alterar o QREN. Se Passos Coelho quer a “verdade das contas”, se quer contrapor a verdade á mentira de Sócrates tem que ser verdadeiro com os eleitores, e muito, muito mais parco nas promessas.

24/03/11

Coligação Negativa

Parte 1
Ontem ao fim do dia, o clímax apoteótico da tragicomédia grega a que assistimos vivendo, (ou vivemos assistindo, sei lá!) martelaram-me a cabeça com a expressão “Coligação Negativa”. Eu tenho um problema (coisa que não preocupa ninguém, e ainda bem, porque realmente só valho 1 voto) com frases e expressões feitas à medida do efeito pretendido em laboratório linguístico-comunicacional. Eu não gosto que tentem colar-me no cérebro chavões políticos à força de tanto os repetirem. E pior que isso, não gosto quando tentam à força dar-lhes um significado, um sentido que tenha algum valor político. Porque simplesmente não têm. "Coligação Negativa" sucks (sorry) e já percebi que vamos ouvi-la até doerem os ouvidos.

O que é isso de “coligação negativa”? Qual coligação? Votar um interesse comum (forçar a queda do governo de José Sócrates) é, só por si, uma coligação política? Qualquer coincidência de interesses, por mais momentânea ou esporádica que seja, é uma coligação? E negativa? Que quer isso dizer? Quem decide a escala positivo/negativo? Foi publicada em Diário da República? E se eu (que valho só 1 voto, tal como José Sócrates) disser que a “coligação”, que nem sequer é uma coligação, foi “positiva”? Este “negativa” (tal como o “positiva”) não é um absoluto, mas à força de repetição eles querem tornar essa relatividade num absoluto. Este é o perigo da retórica de JS (e acólitos, claro): em cada frase, da inverdade - para usar palavras Socráticas - fazer “a” verdade. Como se a verdade se fizesse.

Parte 2
Acredito que JS é um obstáculo à resolução dos problemas do país, e gostava que ele se volatilizasse (e fosse tentar ser feliz longe de nós), mas quem acredita nisso acredita no Pai Natal. Ontem à noite, ele fez um bom discurso de início da campanha que ele desejou ter e cujo momento para ter ele decidiu. Forte, determinado e sempre confiante a usar a sua retórica recheada de “inverdades”, isto é mentiras, ditas com a segurança e a firmeza de quem fala verdade. Sócrates ontem estava como peixe na água, e a gostar de lá estar. Passos Coelho nem sabe o que o espera.

Passos Coelho nunca me entusiasmou, nem sequer o desejava como líder da oposição, mas desejo-lhe sinceramente boa sorte pois remover JS do cenário da política nacional é o interesse comum que partilhamos (uma coligação?) pelo menos para já. No entanto PC que se ponha a pau (perdoe-se o plebeísmo). O seu discurso de ontem foi fraco quer no conteúdo, quer na forma. Foi um discurso redondo, "certinho" demais, incapaz de suscitar interesse, a querer dar ares de cavalheiro na política, mas pouco, pouquíssimo convincente. É preciso muito mais para derrotar Sócrates. Temo que PC se arrisca a ser triturado. José Sócrates num instante faz dele um picadinho. Mas o PSD é que sabe... e quando Manuela Ferreira Leite falou de “Política de Verdade” acusaram-na de não saber comunicar. Tentem fugir desse guião (que tem a vantagem de com ele poderem falar verdade) e verão o que sobra, para vós e para nós.

27/01/11

Em Tempos de Simplex...

A “trapalhada” das eleições no último Domingo explicadas neste artigo de forma a que ninguém perceba. (Leiam se tiverem paciência). Será que o jornalista que o escreveu percebeu alguma coisa? Labirintos burocráticos em tempos de Simplex... quem diria. Ao ler o texto, não sei porquê, pensei naquela história da porteira a falar da prima da cunhada do taxista, aquele casado com a vizinha da senhora da loja de lingerie, que quis votar, mas o filho, um cabeça no ar que pouco estuda – mas bom moço - que anda com a rapariga que concorreu com a amiga ao Big Brother há uns anos, mas não entraram (para alívio dele sabe-se lá porquê), mas no entanto conseguiu entrar no curso de Comunicação Social e até tira boas notas, esqueceu-se de a ir buscar.

No meio do dito labirinto, destaca-se, no entanto, um parágrafo interessante que nos dá já uma indicação de “saída” na forma de um pouco resignado, mas provável, bode expiatório.

"As eleições correram mal, sou o director, devo assumir a minha parte de responsabilidade por exercer um cargo de confiança política - ainda que a minha missão seja na verdade mais técnica", confirmou ontem ao PÚBLICO Jorge Miguéis”.

O ministro aguarda tranquilamente a conclusão do inquérito. Parece que nada é com ele. Ele ainda deve estar a tentar perceber como é que os serviços funcionam.

24/01/11

O título da notícia do Público é todo um programa – ideológico e da má-fé. E já nem sequer se preocupam em disfarçar essa má-fé (e pequenino ódio) de tal modo ela é sentida como aceitável, social e politicamente. Percebo que não tivessem querido fazer um título como “Cavaco (e porque não Cavaco Silva?) ganha em todos os distritos do país”, mas continuo a perguntar-me porque é que são psicológica, genética, sociológica e politicamente incapazes de fazer um título não valorativo, não depreciativo, não desvalorizante, e que se limite aos factos de cada vez que se trata de Cavaco Silva? Porque é que com ele nunca há complacência tal como há (e mal) com tantos outros políticos? Porque é que não conseguem fazer um título simples como: “Cavaco ganha.”? Porque é que cada vitória de Cavaco Silva, nascido e criado em Boliqueime e com uma marquise que ontem as televisões não pararam de analisar, é sempre uma espinha na garganta de tanta comunicação social, de tanto analista político, de tanto comentador, de tanto intelectual, à esquerda como também à direita?

Hoje de manhã ouvi na rádio Alfredo Barroso, oriundo duma família que enriqueceu despudorada e visivelmente com a política, insistir na necessidade de Cavaco Silva explicar melhor o seu “negócio” de acções com o BPN. Será que ele nunca sentiu a necessidade de membros da sua família explicarem melhor tantas regalias e favores tidos, tantos negócios feitos, alguns dos quais até pelos tribunais passaram?

Às vezes até me pergunto e temo se, em bom rigor, o meu apoio político Cavaco Silva não se deverá mais à raiva que tantos lhe têm, do que aos seus próprios méritos.


Nota: Convém não deixar cair no esquecimento mais um vazio e mais uma inconsequência e irresponsabilidade de um dos mais acarinhados chavões de José Sócrates: a reforma tecnológica que entre outros gloriosos feitos (e outros tantos desfeitos) deu corpo ao célebre “Cartão do Cidadão” objecto de alguns dissabores cujo clímax de ontem tantos exasperou. Ontem a tecnologia socrática esbarrou na realidade e revelou-se na sua inoperante plenitude. Falar só não chega. Discursar entusiasticamente e enunciar optimismo em forma de intenções e modernizações não chega. Há planeamento, investimento e trabalho consequente que precisa de ser feito. Pelos vistos não foi. Quem é que vai tirar responsabilidades políticas deste fiasco?

20/01/11

Cavaco Silva

Quando nos vemos cercados de políticos que se nutrem de mundos ficcionais para pensar o seu discurso e a sua acção, e que vivem de “inverdades”, “investimentos” (Helena Matos resume bem o sentir de tantos de nós) e que chamam branco ao que é preto, sentimos a solidez de Cavaco Silva como um estabilizador importante. Não é um político “inspirado”, (seja lá o que for que esta expressão quer dizer e que tanto atrai), mas nesta altura e atendendo ao estado (pré)comatoso do país, agradeço-lhe isso. De um ponto de vista pessoal Cavaco Silva não irradia simpatia, nem aquele à-vontade que é suposto ter quem não nasce em Boliqueime. Ele não entusiasma, nem apetece convidá-lo para ser amigo no facebook. Óptimo. Respiro de alívio que assim seja, pois não é nada disso que procurarei no próximo Domingo quando votar em Cavaco Silva.

Procuro um político experiente e sério que conheça o país e o mundo, que saiba pensar no hoje, mas também no amanhã. Procuro um político que saiba fazer contas, uma capacidade que nunca – muito menos em circunstâncias como as actuais - deve ser menosprezada. Procuro um político ancorado na realidade, e não alguém que viva de e para o espectáculo e para os media. Procuro um político responsável, estável e previsível que saiba não ceder a pressões, nem cair na tentação do excesso de protagonismo ou do populismo, nomeadamente sendo o agente provocador de um cenário de instabilidade política. Cavaco Silva, com a sua noção de responsabilidade institucional - e enquanto garante do bom funcionamento das instituições - tudo fará, independentemente da sua opinião pessoal sobre José Sócrates, para que o governo possa governar da melhor forma possível para o país. Independentemente da sua opinião pessoal sobre Passos Coelho, Cavaco Silva sabe que neste período difícil tem de contar também com o PSD para as grandes decisões de que o país precisa. Cavaco Silva pode ser “desajeitado”, teimoso, tantas vezes infeliz na sua acção política pontual, mas não se alimenta de fantasias, nem vive obcecado por mundos irreais que só existem na imaginação de quem não está com os pés firmes na realidade.

Last, but not the least: Cavaco Silva sabe, quer e tudo fará para que José Sócrates beba o cálice até ao fim. Ainda bem.

12/10/09


Ouvir ontem à noite nas televisões, em directo, um jornalista perguntar a Santana Lopes o que é que ele ia "ali fazer", e se ia "à casa de banho", (ver aqui por exemplo) é mais um gesto revelador do baixo nível de profissionalismo do jornalismo português. É uma pergunta impertinente porque gratuitamente agressiva, irrelevante pois é uma matéria que está longe de ser do interesse público, mal-educada, porque sim e não preciso sequer de explicar, e ilustradora do servilismo jornalístico português que, quando se trata do poder, nomeadamente do PS e sobretudo de José Sócrates é todo mesuras e respeitinho. Ou alguém imagina o “espertinho “ a fazer essa pergunta ao Primeiro-ministro? Claro que Santana Lopes muitas vezes se “põe a jeito”, mas nada justifica essa falta de educação e a ausência de qualquer tipo de profissionalismo.
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06/10/09



Só agora reparo que nos cartazes do PS para o Município de Oeiras se escreve Marcos Perestrello com dois “l”. A imagem de uma esquerda que quer parecer cada vez mais frequentável. Estes agências de comunicação são umas brincalhonas.
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01/10/09

Os Gadgets Autárquicos

No Concelho de Oeiras, na parte que conheço, ultimam-se furiosamente rotundas e jardins. Rotundas com jactos de água, com relva e esculturais canteiros de flores (coisa moderna, note-se, nada de canteiros à moda antiga), com estátuas ou blocos abstractos de matéria. As oliveiras dos jardins há muito que foram plantadas, mas agora acabam-se os caminhos, os degraus, enfeitam-se os espaços. Nada que aborreça o olhar ou o gosto, que nisso Isaltino de Morais sabe como fazer, e já há muito que o faz.


Em Lisboa a coisa é diferente: António Costa começou de mansinho a guerra aos automóveis feita pelo município que hoje já parece não ter tréguas, para gáudio dos taxistas que se queixam de pouco negócio e “muitos carros”. Tudo começou com o desastre – pela forma leviana como a obra foi feita sem se perceber se houvera discussão e até uma decisão – no Terreiro do Paço em que, depois de uns meses de puro caos, as faixas de circulação se reduziram a duas na zona do terreiro do Paço, uma em cada direcção. Hoje atravessar de carro a cidade de poente a nascente (ou vice-versa) pela beira rio é um acto que o município desencorajou, e não percebo porquê, nem faz sentido que assim seja. Eu que sempre gostei desse trajecto, hoje penso duas vezes antes de o fazer, mas confesso que as alternativas nem sempre são melhores. A mesma coisa aconteceu à Lisboa Pombalina onde se acabou com a circulação automóvel ou se reduziram as faixas de circulação, não criando percursos alternativos. A redução das faixas de circulação parece ser uma política fétiche desta gestão camarária. Fazem-no um pouco por todo o lado e em ruas onde antes se circulava bem, nomeadamente no Bairro Azul e em Telheiras, tendo como consequências atrasos e incómodos a todos os que delas se servem. O resultado é uma já notória pioria significativa da circulação, com bichas e demoras a qualquer hora, mesmo quando antes não as havia.

Os automóveis não vão desaparecer, por muito que o discurso politicamente correcto o repita, e o deseje, enquanto não houver alternativas reais: a rede do metropolitano é muito pequena e limitada, sem soluções para a cidade nomeadamente para a parte ocidental,e os restantes transportes colectivos não são fiáveis, nem oferecem muitas vezes, soluções de rapidez e conforto. O automóvel continua a ser o rei dos transportes para quem não tenha uma paragem de metro à porta de casa e outra à porta do trabalho. Nesse grupo está essa grande maioria de cidadãos que usa automóvel na cidade de Lisboa.

O pior é que não percebo o porquê desta política hostil de circulação, nem a razão de acabar com faixas de rodagem. A única explicação que tenho é o surgimento quase espontâneo de pistas de circulação para bicicletas: entre Campolide e a Radial de Benfica, em Telheiras, entre o Estádio da Luz e o Colombo, etc. Vejo carros em bichas, mas até hoje não vi uma única bicicleta. António Costa, que não é burro, não deve, nem nos seus sonhos mais loucos, pensar que vamos deixar de nos deslocar de carro para o fazermos de bicicleta, logo em Lisboa cuja topografia não poderia ser mais díspare da de Amsterdão, ou Londres, ou até Paris. Ninguém em Lisboa vai trabalhar, ou à Loja do Cidadão, ou às compras, ou ao médico de bicicleta. E ao fim de semana, quem quer passear ou fazer exercício escolhe outros locais: a beira rio ou Monsanto. Por isso não se vê uma alminha que seja a utilizar essas pistas para bicicletas, que mais não são do que esbanjamento de recursos. Tudo não passa de demagogia politico-ecologicamente correcta para poder dizer que fez e quer fazer muito pelo ambiente e pela cidade. Tretas, o que faz é redobrar os problemas de trânsito e encher a cidade de elefantes brancos de côr salmão (a côr das pistas para bicicletas).
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27/09/09

Venceu “o Sócrates”. Venceu o Senhor Engenheiro. Venceu o optimismo de pacotilha, a política feita de belos cenários, músicas que enchem o coração, e frases pensadas, ensaiadas e repetidas ad nauseam. Venceu “ter-se boa imagem”. Venceu o parecer em vez do ser. Venceram as máquinas partidárias que fizeram ganhar ou perder as eleições. Venceram as agências de comunicação. Venceu a relação difícil com a verdade. Venceu o discurso político grau zero. Venceu o marxismo, leninismo e afins.

Venceu mais um tabu de Cavaco Silva.

Que país de treta.

25/09/09

Ouço comentadores na RTPN - que passou em directo largos momentos do comício de encerramento do PS, incluindo compassos de espera de José Sócrates à saída - a falar de um “outro José Sócrates” que surgiu e aparece desde a derrota das europeias a fazer um trabalho de (re)construção. Menos arrogante, menos "animal feroz". Os comentadores falam nisso como que a louvar essa "mudança", uma inteligente táctica do actual Primeiro-ministro. Ora para mim, é precisamente o contrário: é porque José Sócrates se pode oldar de uma ou outra maneira, de um ou outro estilo, é por causa dessa flexibilidade de “ser”, que eu não o quero mais para Primeiro-ministro. Há também, como é óbvio e como ao longo dos tempos tenho aqui escrito, o problema das suas políticas, ou melhor das suas medidas casuísticas, da sua falta de visão política que se esgota na enunciação do optimismo e determinação - mas tão mau ou pior do que a política que faz, é essa falta de verdade em conseguir ser aquilo que é, essa necessidade constante de ser "outro" conforme as circunstâncias e conforme o guião que especialistas de comunicação preparam para ele.

Tudo o que Manuela Ferreira Leite não é, nem representa.
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24/09/09

Juntos, Quê?

Estávamos à conversa sobre o facto de tudo ter significado (meaning) quando passámos pelo último cartaz “Avançar Portugal”´do PS em versão gigante (que se pode ver aqui). Olhámos o cartaz e perguntei o que é que um político de braço esticado lhe fazia lembrar. Hitler, foi a resposta imediata. Lembrei também Mussolini, Lenine e Kim Ill Sung retratados em conhecidas estátuas sempre com um braço à frente - porque nada é inocente nunca, muito menos em campanhas profissionais pensadas ao milímetro, e que gestos e palavras nos remetem para significados que cada um encontra na memória, ou por associação de ideias, seja como for que não sou psicóloga. A imagem de ditador que pode surgir é imediatamente suavizada pelo sorriso e pelo polegar "fixe" e optimista, reforçando o sentido da determinação e autoridade em detrimento da repressão. A fotografia feita para apanhar José Sócrates levemente de lado dá um registo de informalidade e “glamour”. Resumindo a fotografia tentar dar-nos informação sobre tudo aquilo que José Sócrates pensa que é, e tudo o que ele quer que pensemos que é. Não me lembro de ter algum dia visto cartazes tão cuidados como estes do PS.

Depois vem a parte afectivo-colectiva e pirosa do cartaz. O verde e o vermelho a lembrar a bandeira nacional, com José Sócrates no meio, qual esfera armilar. A essência do “ser” português, o Portugal que se confunde com ele, o Portugal no centro da sua decisão, e José Sócrates no centro da nossa vida, o “rei-sol”, a nossa identidade, a salvação. Quanta presunção num só cartaz!

Finalmente a mentira: o sempre presente “nós” do “Juntos Conseguimos” que simplesmente não existe, e pelo qual ele tem desprezo, por muitas criancinhas e velhinhas que beije na campanha. José Sócrates sempre esteve só na decisão, nas rédeas do poder, e no seu pedestal, e o seu horizonte quer visual quer político, de decisões e projectos, deve ter pouco mais de 50cm de diâmetro o que o tem tornado cego para a realidade do “nós” dos portugueses. Ele só perceberá, (que a vida é cruel por muito optimismo que se ingira em cápsulas ou mantras) o quão só está quando perder eleições.

O "conseguimos" um intemporal modo verbal (passado e presente que se projecta para o futuro), é todo um programa. Ao certo o que é que "conseguimos" nestes últimos 4 anos? O que é que ao certo "conseguimos" hoje e nos próximos 4? Estas são as perguntas certas a fazer. Pois conseguir nos próximos 4 anos o que "conseguimos" neste últimos é uma perspectiva nada animadora. Se respondêssemos seriamente a estas questões, José Sócrates nunca deveria ganhar as eleições do próximo Domingo.
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