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12/07/13

Então É Assim 2

Um. Cavaco Silva, aquele cuja anunciada morte política foi manifestamente exagerada, num dos momentos políticos que mais gozo me deu nos últimos tempos – e bem precisávamos, conseguiu: 

A) Reforçar o descrédito político de Paulo Portas e remetê-lo à sua real (in)significância que é inversamente proporcional à sua estridência gestual e verbal e – dizem – inteligência. Chamá-lo de volta ao mundo real e obrigá-lo a arrumar de novo o seu gabinete.

B) Esvaziar o secreto sorriso de Paulo Portas que o inchado semblante sério traía. Esvaziou também aquele porte e aquele ar de 'agora é que é!' que Pires de Lima já não conseguia disfarçar. 

C) Reforçar o processo já iniciado no CDS de questionar a sua liderança. 

D) Demonstrar a crescente irrelevância política de Passos Coelho, o vazio e a leviandade que o habitam: enquanto Primeiro-ministro e enquanto líder do principal partido.

E) Deixar atordoados os ministros – nomeadamente o da Economia que, mesmo sem crise política sempre pareceu um pouco perdido, qual peixe fora de água.

F) Obrigar o PSD a pensar a sua liderança. 

Dois. António José Seguro mostra o melhor de si: corre atrás do primeiro lugar comum político que ‘cheira a esquerda’ ou mantém-se na sua senda de dizer coisas que não querer dizer nada, não vão as pessoas esquecer-se que ele existe, ou não perceber quem ele é e o que faz. Exemplos: o seu desejo de dialogo “com todos”, embora não consigamos perceber o que é que o PCP e o BE fazem no dialogo proposto pelo PR que visa sobretudo compromissos de médio prazo no que respeita o Memorando de Entendimento. Outro exemplo é a frase – que mais parece saída de reallity shows – em que ele critica Passos Coelho por não “pedir desculpa pela crise”. Não explicita, no entanto, o que critica a Sócrates pela sua postura face à crise que ele, Sócrates, criou. 

Três. Cavaco Silva conseguiu também fazer eco do sentimento de tantos portugueses que progressivamente se revêem menos nos partidos políticos e que os sentem cada vez mais afastados da realidade dos seus eleitores e do país. A distância entre eles aumenta, e o eleitor do PSD, PS ou CDS (embora menos neste último partido) está totalmente alheado do partido em que vota, muita vezes não percebe nem respeita o líder que os militantes escolhem, e em última análise não vota sequer, aumentando a abstenção nos actos eleitorais. Nada de novo, mas é sempre bom relembrar este desfasamento. 

Quatro. Cavaco Silva, na sua ânsia de cumprimento do memorando de entendimento, criou uma embrulhada tal que – com os partidos e lideranças que temos - não percebemos bem nem o que se poderá passar nem como. Haja fé... porque gozo houve certamente.

08/07/13

Então É Assim,

Um. Aquele em quem os recentes fazedores de epístolas e figuras chave do governo não confiam, e cuja falta de liderança e projecto político confessaram nas ditas epístolas, ao ponto de apresentarem a demissão, vai continuar a liderar o governo e aceitar ‘partilhar’ mais poder com aquele que despreza. 

Dois. Aquele que, num genuíno momento de génio (mau génio) mais uma vez se revelou apresentando a sua demissão de forma “irrevogável” , não fôssemos nós ter dúvidas, por não confiar no líder nem lhe reconhecer nada de meritório, decide irrevogavelmente também, presume-se, voltar atrás com a sua decisão “irrevogável”. Certamente que justificará estas mudanças de direcção com belas palavras e inflamados sentimentos patrióticos que só não me farão náuseas porque já há tempos que ando vacinada contra as ditas, a bem da minha qualidade de vida e manutenção de uns mínimos de sanidade intelectual. Para que não pensemos que perdeu a face ou se submeteu – como se não bastasse olhar para a sua cara para perceber o entusiasmo e fé neste novo projecto governamental - irá ter um cargo ministerial com mais atribuições e responsabilidades, e mais ministros do seu partido no elenco governamental. 

Três. A Ministra das Finanças cuja nomeação motivou a ruptura do governo, demissão (e respectiva carta) do líder do segundo partido da coligação, e cuja tomada de posse merece lugar nos momentos mais confrangedores da nossa vida política, mantém-se - surpresa das surpresas - no governo. Parece que mesmo depois de ter percebido que o número dois do governo não a quer lá, mesmo depois das suspeitas da sua participação no caso SWAP ainda não totalmente esclarecidas, bem como o que se diz do cargo do seu marido na EDP, não lhe passa pela cabeça demitir-se; pois removendo-se remove um obstáculo ao entendimento e fluidez governamentais.  

Quatro. Teremos (presumindo que o PR aceita este entendimento) um governo bicéfalo: por um lado “determinado” (eufemismo para teimoso) e por outro “inteligentíssimo” (eufemismo para ‘a não confiar’) mas frágil, ainda mais frágil do que o anterior, apesar dos falados nomes sonantes e dos propósitos entusiasmados. Qual casa de fraca construção com uns acabamentos que se querem vistosos... Tentam, mas não enganam. Não confiam, e espreitarão por cima do ombro a cada instante. Azeite e água não misturam. Passos Coelho penitente e Paulo Portas com a rédea curta (o CDS-PP disso se encarregará), são um mau presságio. Se restarem dúvidas nada como pegar num lápis e num pedaço de papel: colocar os nomes dos ministros no papel a alguma distância uns dos outros, mencionando as suas atribuições e responsabilidades. Fazer os fluxos entre eles tendo em consideração quem depende de quem, quem trata do quê, quem decide o quê. Fácil perceber. 

Cinco. O medo de perder eleições e deixar o poder é o motor que os move. Por que o povo é imprevisível e ainda se deixa tentar pelo inexistente Seguro. 

Seis. O povo? O povo (hoje chamamo-nos eleitores, é muito melhor) não está na mente de PPC nem de PP neste momento (nem noutros), não está mesa das negociações nem no xadrez dos nomes para o governo. Está calor, há praia, há febras, entremeada e cerveja gelada a bom preço, disso se encarregam os pingos doces, euromarchés e continentes. Até Setembro. Depois logo se vê.

Sete. E para evitar equívocos na interpretação das minhas palavras: não, não tenho saudades de Sócrates.

02/07/13

Agora Respira-se

A confrangedora tomada de posse da nova Ministra das Finanças é um acto que demonstra bem quão grande pode ser a teimosia da cegueira, do Primeiro-ministro e do Presidente, e a total falta de responsabilidade e sentido de Estado dos intervenientes. Afinal – e julgando pela carta que li - parece que Victor Gaspar, pelo menos e nesta ocasião, teve sentido de estado ao assumir a sua responsabilidade política. 

Como é possível continuar e querer que continuemos a fazer de conta que está tudo bem? Como se não bastasse ler a carta de demissão de Victor Gaspar e perceber a demissão de Paulo Portas para vermos que aquilo que era há muito nada mais do que um castelo de cartas ruiu finalmente. Infelizmente é com alívio que vejo o governo ruir. Pelo menos agora sabemos onde estamos. Agora respiramos. Não sei o que trás o futuro, nada de muito bom provavelmente, mas não se conseguia continuar a fazer de conta. Já não havia política (houve sempre pouca), já não se percebia que direcção tomava o governo, já não se percebia o que o governo queria. Assistíamos a uma fractura profunda entre membros do governo que já há muito que não se limitava ao lado PSD e CDS. Vivíamos num caos engravatado que não enganava ninguém. Ontem, ao ouvir o Secretário de Estado Adjunto explicar os briefings diários à imprensa em ‘on’ ou em ‘off’, e para além do ridículo ‘da coisa’, só pensava na orquestra do Titanic a tocar enquanto o barco se afundava. Penoso, muito penoso. Tal como dar posse a uma Ministra das Finanças, afinal de que governo?

15/04/13


Anda alguma coisa errada ultimamente no reino do PSD. O partido precisa urgentemente de quem perceba de leis para ver se as suas encalham menos nos tribunais portugueses. 

O governo não faz orçamento que não seja chumbado pelo Tribunal Constitucional. Não apresenta candidatos às Câmaras das duas maiores cidades do país que não sejam chumbados por tribunais; depois de Fernando Seara chegou a vez de Luís Filipe Menezes ser ‘chumbado’ por um tribunal.. O partido do ‘jovem’ Passos Coelho e de Relvas, nesta insistência nos dinossauros autárquicos, mostra, também para as eleições autárquicas, a sua total falta de visão e estratégia política. Mas devem ser os portugueses que, sorrindo e encolhendo os ombros a propósito destes desastres autárquicos, estão todos errados, pois não conseguem (e tentam, se tentam) perceber patavina da genialidade de tais decisões.

19/02/13


O azar continua. Hoje só se fala de Miguel Relvas, outra vez. Parece que fica comprovado que não sabe cantar. Também, para isso já basta o Primeiro-ministro.


18/02/13

Não Sabe do Que Fala

Tenho tido azar nestes últimos dias. De cada vez que leio as notícias ou ligo a televisão, deparo-me invariavelmente com Miguel Relvas em discurso, em declaração, em directo, em todo o lado, e a falar de tudo e sobre tudo. Ele, lembremo-nos, é aquele que já não deveria ser. Mas é. É um verdadeiro sempre-em-pé que espera e acredita vencer-nos pelo cansaço, restabelecendo a sua credibilidade pela insistência e pela persistência. Alguns no seu caso, optam pelo silêncio, por um período de ‘nojo’, mas ele não: continuar como se nada fosse tem sido o seu lema. Talvez um dia consiga, já tenho visto coisas bem mais estranhas, pois memória é curta e tanta água correrá debaixo da ponte que muitos, talvez, esquecerão. Não será no entanto agora; os tempos estão difíceis, os cintos bem apertados, e as pessoas menos dispostas a olhar para o lado e menos inclinadas ao perdão dos dislates dos políticos, especialmente daqueles que nos governam. E é isso que Miguel Relvas faz: 

No dia em que se confirma a célebre ‘espiral recessiva’, (anunciada quer pelos Velhos do Restelo quer pelos ‘profetas apocalípticos’ que olham com desconfiança para as políticas governamentais) e em que se divulga o número do desemprego, Miguel Relvas diz que ‘os objectivos que foram definidos pelo Governo para 2012, no que se refere ao défice, no que se refere à execução orçamental foram alcançados‘, que ‘o país atravessou já a fase mais difícil’, e que ‘começamos a ter resultados’. Resta saber de que país fala e o que são os resultados, para além do célebre ‘regresso aos mercados’. 

Dias depois apresenta o programa Impulso Jovem, pretexto para dizer uma série de banalidades – infelizmente, e desde Sócrates, apresentar programas é cada vez mais sinónimo de ‘dizer banalidades’ e passar umas frases para os meios de comunicação. Diz, provavelmente para nos comover, que o desemprego jovem lhe tira o sono (o que tirará o sono dos outros ministros? será que muda conforme as pastas de que são responsáveis?), insiste em devaneios de felicidade bucólica (influência dos clássicos lidos na juventude certamente) através de anunciadas ajudas do estado ao regresso (regresso? mas alguma vez lá estiveram?) dos jovens à agricultura. 

Ministro Miguel Relvas, o senhor pode insistir, falar, discursar quanto e quando quiser: eu continuarei a acreditar que, sobretudo para bem do governo, mas também para seu e nosso bem, o senhor já há muito que deveria estar fora dele. O problema é que o governo é demasiado parecido consigo... não sabe do que fala e não conhece o país.

30/01/13

Da Matéria

Pode ser que haja quem se comova com frases deste calibre, 


sobretudo porque foi dita por António Costa, cujo brilho no olhar não escondia estes últimos dias o deleite que o reforçado protagonismo (sebastianismo) lhe dava – uma gentileza criada pelo sempre diligente Pedro Silva Pereira, o símbolo do socratismo (o “passado”, como lhe chamou um Seguro sem pressa que ficou logo apressado) que, para nosso mal, não foi estudar filosofia para lado nenhum. Assim, entre as genuínas hesitações de avançar ou não, e a decisão afinal de nem avançar nem recuar, o PS saiu uns dias do marasmo em que, aparentemente, vivia. 

Para quem ainda tem dúvidas, ou comoções, nada como observar em tempo real essa matéria viva e única que é feito um partido político português do centrão. 

Por outro lado olhando o PSD, e já nem precisa de ser com atenção como até há pouco – o poder tende a esconder fissuras, vemos também essa mesma matéria a efervescer com o epicentro no Porto. Miguel Veiga, Rui Rio, Rui Moreira, e claro Luís Filipe Menezes com a sua proposta (talhada no tamanho da sua ambição) de fundir os concelhos do Porto e de Gaia. Ora repare-se na presença do Primeiro –ministro nessa cerimónia de alto relevo para a nação que é a 


e percebemos que o importante é ter ido ‘lá’, e deixar-se fotografar – assim como não quer a coisa - com Luís Filipe Menezes, a figura central da crise no PSD. Pedro Passos Coelho está na fotografia, uma questão de tranquilizar as estruturas partidárias e mostrar de que lado se está. Aguardemos os próximos capítulos, vai ser interessante esta ‘guerra’ pelas duas câmaras principais do país. Seguro e o PS de um lado, Passos Coelho e o PSD de outro: os partidos que temos. E nós com cada vez menos vontade de votar neles e de os alimentar.

02/12/12

Disseram Reorganização Administrativa do Território?

Leio os jornais online sobre a reforma administrativa do território e fico sem perceber nada. 'Não perceber nada' começa a ser uma constante no contexto político dos anos recentes. Não percebia nada com José Sócrates, e o que percebia não gostava, e continuo ainda mais baralhada e confusa com este governo. No entanto José Sócrates tinha a “virtude”, do ponto de vista de quem quer perceber, e só, da sua determinação e teimosia. Não tinha uma ideia política consistente e sólida do que queria para o país, sobrava-lhe ambição e a dita determinação que se concretizava no anúncio de medidas, avulsas e díspares dia sim dia não. Percebíamos as medidas, percebíamos a intenção (explícita ou implícita), mesmo quando discordávamos – eu discordava, zangada e indignadamente, quase sempre, como qualquer passar de olhos pelos arquivos deste blogue confirma. 

Este governo consegue ser ainda mais confuso: tem um discurso redondo e parafraseando Marcelo Rebelo de Sousa, muito explicativo. Também não tem uma ideia política nem tão pouco uma visão com um mínimo de solidez para um país que cada vez mais se percebe que não conhece. As intenções do poder político, essas, continuam a perceber-se com demasiada facilidade, e as medidas não podiam ser mais confusas. Como referi: não percebo nada. Vejamos: 


Que é isso de “reorganização administrativa do território das freguesias”? Pode-se fazer isso sem ter as autarquias em consideração? Que reorganização administrativa começa a ser feita ‘por baixo’ em vez de ser feita ‘por cima’? Porque é que não há um projecto concreto (e não umas ideias confusas atiradas para a comunicação social) de reorganização administrativa global do território em vez de um projecto para freguesias e outro para autarquias. Porque é que se lêem títulos díspares e incoerentes nos jornais?


Ou: 


E já agora a propósito destas ‘agregações’ de autarquias, porque é que, de repente, se fala de agrupar a autarquia do Porto e de Vila Nova de Gaia na comunicação social? Anda a Comunicação Social, ou outros políticos com aspirações e ambições a fazer o frete a Luís Filipe Menezes? Quem nasceu e conhece o Porto sabe que o Porto é a margem norte do Douro e Gaia a margem sul do Douro, duas realidades tão díspares que espelham géneses e tradições que pouco se tocaram e que só a ignorância (ou outras agendas) que não as do Porto e de Gaia, pode pensá-las semelhantes. O Porto é urbano e burguês. Em Gaia há ainda redutos de agricultura, há um feeling de província, há freguesias pesqueiras, há praia e há zonas residenciais de qualidade. Se o turismo recente tem contribuído para uma maior aproximação das freguesias na parte em que quase se tocam – o Douro – esse tocar é só isso mesmo, nada mais. 

Talvez não fosse má ideia lembrar os fazedores destas ideias sem sentido que Porto e Gaia não são propriamente Paris com a sua Rive Droite e Rive Gauche, nem Londres atravessada pelo Tamisa ou Buda e Peste poeticamente separadas pelo Danúbio. Enxerguem-se, por favor!

31/10/12

Haverá melhor sinal de podridão do que este unanimismo? Ou melhor sinal dos tempos e das gentes que nos governam? Até arrepia.

16/05/12

Acreditar

Miguel Relvas é o espertalhão e vivaço (como eu detesto estes adjectivos) de serviço no governo, basta ver os serviços que ele tutela para perceber a sua influência e peso político. Passos Coelho não tem uma ideia sólida, que mereça ser apelidada de ideia e de sólida, na cabeça: segue um guião que lhe fazem, mas por vezes nem com guião o seu discurso funciona, e assim o vemos a passear displicentemente as suas ideias políticas, que mais parecerem ter sido encontradas em livros de auto-ajuda política, a que chama ‘liberais’, mas que são, isso sim, de um rigor intolerante para tudo o que não cabe no seu esquema mental de sucesso - porque a realidade para ele mantém-se terreno desconhecido e do qual ele está totalmente alheado e sem dar sinais de o querer conhecer - como o caso recente das suas declarações sobre o desemprego o demonstram. O chamado ‘factor Sócrates’ (o facto de nos termos visto livres do pior primeiro-ministro de sempre) cada vez menos permite que se feche os olhos e se tolere as lacunas cada vez mais evidentes deste governo. 

No entanto, e por hoje, já decidi. Vou tentar acreditar que Miguel Relvas achou natural receber os famosos ‘clippings’ informativos, bem como indicações de nomes para uma reestruturação dos serviços das ‘secretas’. Vou tentar acreditar que – tal como Miguel Relvas acredita - o acto era tão irrelevante e/ou rotineiro e banal que nunca lhe passou pela cabeça indignar-se e procurar perceber o porquê dos sms que admitiu ter recebido e contactar Silva Carvalho dizendo-lhe que era descabido, intolerável provavelmente ilegal receber tais informações. Vou tentar acreditar que nunca pensou ser relevante informar Passos Coelho sobre o esses sms bizarros e não solicitados que continuadamente recebia. Vou tentar acreditar que Miguel Relvas nunca se interessou pelas ‘secretas’, nem pela tutela das ‘secretas’. E finalmente vou tentar acreditar que Passos Coelho desconhecia a ligação entre Miguel Relvas e Silva Carvalho. Quem sabe, se eu tentar com muita força, um dia não acredito mesmo? 

27/05/11

Neurónios

José Sócrates habituou-nos ao longo de seis anos ao pior, e os anos que o antecederam não foram propriamente bons. Foi um péssimo primeiro-ministro que levou o país à bancarrota, negando as evidências, ocultando factos, mentindo. Viu-se, ele e a sua família, envolvidos em casos da justiça, esbanjou milhões em projectos sem nexo nem futuro, foi autoritário, autocrático, puniu a critica à sua pessoa. Agora, em fim de ciclo JS – e o seu governo – são o peso e a medida, são a referencia. Para nosso mal, e perante tal peso e tal medida não é difícil encontrar melhor. Perante o mau, o medíocre até brilha e parece bom, ou dizendo de outra maneira: em terra de cego, quem tem um olho é rei. É neste contexto que se enquadra Pedro Passos Coelho: ele tem o dito olho na terra de cegos. É muito melhor do que José Sócrates, mas é fraco, é um mau líder, é uma pessoa sem o peso que se acredita que homens(mulheres) de estado devem ter.

O facto de eu votar nele não diz bem dele, diz mal das alternativas. E diz também que eu acredito que só um resultado bastante favorável ao PSD (e não ao CDS) dá a mínima esperança de um governo credível e estável, e que gostava de acreditar que PPC será melhor primeiro-ministro do que é líder do partido. Somos muitos a pensar assim. Não pertencemos às estruturas de nenhum partido, não somos filiados, mas votamos de acordo com o que, no momento, acreditamos ser o melhor para o país. Se PPC não percebe, não vê, não sente este fenómeno então anda mais alheado da realidade do que seria desejável, e esse alheamento não é bom. Muitos votantes do PSD preferiam claramente outro líder: Paulo Rangel, Rui Rio, mas terão que votar neste. E votam, mas o voto não é certificado de cegueira, surdez, placidez acrítica ou estupidez.

Exultaram quando PPC, com mérito, fez um bom debate com José Sócrates, rejubilaram com o primeiro vislumbre de derrota no semblante, gestos, e argumentos do actual primeiro-ministro, mas todos os dias se sentem frustrados com os sucessivos tiros no pé da liderança do PSD, dos quais destaco o caso Fernando Nobre que custará alguns votos que se desviam para o CDS. Ontem, PPC armado em virgem ofendida, como se nós tivéssemos esquecido a contra-campanha orquestrada por ele (seus conselheiros, sua máquina comunicacional, com o apoio de tantos meios de comunicação) contra Manuela Ferreira Leite na anterior campanha eleitoral, queixa-se de José Pacheco Pereira que, segundo Maria João Marques que escreve este post a merecer leitura na íntegra, tem mais neurónios que os conselheiros de PPC todos juntos, como de resto se vê pelos resultados das sondagens depois de seis anos de Sócrates e da sua tão pessoalíssima bancarrota.

É sintomático este desconforto perante a crítica, José Sócrates sempre o teve (caso Manuela Moura Guedes) e Pedro Santana Lopes também (caso Marcelo Rebelo de Sousa). Ambos (MMG e MRS) tinham um espaço de grande audiência e de qualidade (outro valor normalmente desprezado). Também sintomático é o pouco apreço que os portugueses, através da vozes dos seus líderes políticos, dão à liberdade. Liberdade de pensar, de opinar, de escrever com qualidade, liberdade de querer ou não ser deputado. Liberdade de ‘ser’ fora do controle do aparelho partidário. Preferiam pensadores e opinadores formatados pelo partido (pelo menos para efeitos de intervenção pública), que – à maneira de António Costa, por exemplo, se contorcem tantas vezes para defender o indefensável. Disso já gostam. Disso não se queixam. Outro tiro no pé. Resta saber quantos pés sobram até ao dia 5.

18/04/11


Este é um interessante diagnóstico do que se passa com as lideranças do PSD. Acrescento também a nota de quão difícil é falar para esse ‘exterior’ quando se vem do ‘interior’. Nem Sá Carneiro, nem Cavaco Silva que “revelavam desprezo pelo aparelho” vieram do ‘interior’, por isso é que sempre souberam falar para fora do partido, isto é falar mais para os eleitores do que para o aparelho.

Interessante é perceber também o quão difícil é falar para o exterior por parte do líder do PS, apesar dessa necessidade não ser tão determinante como para o PSD. José Sócrates, que tal como Passos Coelho, vem do ‘interior’, só fala com guião, para fora, para dentro só fala com guião ensaiado e testado. Não gosta de ser questionado nem interpelado, sobretudo se não está previsto, nem ele está preparado; irrita-se e impacienta-se, e quando fala só o faz usando o seu guião do marketing comunicacional e político. José Sócrates é eficaz a falar para o ‘exterior’ porque reduz todo o seu discurso a dúzia de frases simples que mais parecem slogans, mas reconfortantes e em que os eleitores escolhem acreditar, nomeadamente os sectores que sempre tiveram medo da “liberdade negativa: libertar as pessoas dos sucessivos espartilhos socialistas” de que fala o FNV, e do estado, acrescento eu. O PS é o que resta, pelo menos do ponto de vista teórico, que a prática de anos e anos de governo têm demonstrado o contrário e o oposto, de uma ideologia democrática que explora retoricamente e propagandisticamente a defesa de um estado social.

Neste contexto, em que se apela aos medos enraízados por uma cultura ‘anti-direita’, chega a ser quase indiferente que o líder fale verdade ou não, lamentavelmente. É também motivo de pouca indignação que um cabeça de lista pelos Açores roube gravadores e seja alvo de um processo crime. Estas situações são mais dificeis de acontecer no PSD, onde os "limites são desconhecidos" e onde “não existe agenda colectiva” e onde falar para o exterior de forma clara, séria e verdadeira se impõe.

17/04/11

Assim não!

Leio (ouço) em vários locais (televisões, jornais, blogues), vozes que defendem que a prioridade na política nacional é remover José Sócrates do cargo de Primeiro-ministro. Estou plenamente de acordo e até iria mais longe; assim como quem se deixa levar por um sonho... para nossa sanidade mental, José Sócrates deveria ser removido de qualquer lugar público e deveria ser-lhe imposto um longo período de nojo - mas repito, este desabafo é assim como um ir atrás dum sonho...

Ele, mais do que ninguém, é “o” responsável pelo estado comatoso de Portugal e cujo rosto cá e lá (UE, FMI...) é o descalabro das Finanças Públicas, mas cujas raízes são bem mais profundas. Para nossa humilhação, agora que temos as portas e janelas abertas ao mundo que nos olha pela lente de aumento, não faltam exemplos: o enfraquecimento gradual da classe política com a consequente “falta de credibilidade” dos políticos, a falta de barreiras entre o público e o privado facilitando a falta de transparência e seriedade nos negócios, a falta de sentido de Estado, a falta de sentido de Serviço Público, uma total leviandade quando se trata de dispor dos bens públicos, nomeadamente o dinheiro dos contribuintes, a falta de responsabilidade e responsabilização política (accountability), falta de visão, falta de coragem para prosseguir e negociar reformas importantes, muita ambição pessoal, muito deslumbramento (fracturante e tecnológico), permanente confusão entre o partido e o estado, promiscuidade entre servir e servir-se, muita dúvida, muita inverdade, muita mentira. É por isso imperativo que o PS não ganhe as eleições e que JS deixe de ser Primeiro-ministro.

No entanto, e que fique claro, não é só dessa “remoção” (quase que “higiénica”) que Portugal precisa. Portugal precisa também e sobretudo (por isso – e não por mero capricho – é que José Sócrates tem de ir) de uma nova atitude e de uma nova forma de estar e fazer política assente no Serviço ao país e baseada na seriedade, na verdade e na definição de um rumo nestes tempos de ainda mais escassez que se avizinham. Precisa de políticos sérios, que queiram saber e falem a verdade, e que conheçam o rumo que o país tem de ter para daqui a uns bons anos poder sair da crise em que está. Remover José Sócrates e não ter ganhos em termos de seriedade, de verdade e de rumo, que de novo nos leve ao crescimento e equilíbrio financeiro, é perder o nosso tempo e os nossos recursos, lamento. Assim não!

Custa-me a crer que o PSD (aqui entendido como uma entidade abstracta feita tanto de quem opina, como de quem está na direcção) hoje, e em nome deste desígnio nacional – a remoção de José Sócrates – promova uma renúncia à inteligência, ao espírito crítico, àquela dose de cinismo que nos impede de embarcar no primeiro optimismo de pacotilha que nos vendem e de gostar de comícios unânimes estilo “oh Zé!...” Sobretudo é difícil crer que o PSD abdique de promover a seriedade e a verdade, e o seu rumo para o país, pois já é tempo de perceber (mais vale tarde que nunca) que só promovendo estes valores se distancia do PS de JS. Só assim se constrói para os eleitores, uma opção diferente e minimamente credível ao estado actual da política nacional. Golpadas mediáticas, jogos políticos não interessam o país: já tivemos em abundância (e com os resultados conhecidos) nos últimos anos e é disso que o PS actual se alimenta e nos quer alimentar a nós. Basta.

Se há/houve erros (Fernando Nobre, por exemplo), corrijam-se (retire-se o convite). Em nome do dito “desígnio nacional” não estou preparada para aceitar a manipulação (nomeadamente mediática) da verdade: se houve encontro com PM, porque não assumi-lo, se houve negociações porque não assumi-lo, se houve sms, porque não assumi-lo, nem estou preparada para aceitar uma série de modulações da verdade que irão desaguar mais cedo ou mais tarde na “inverdade” e em terrenos socráticos que tanto abomino.

06/04/11

As Armas

A atitude é de uma vítima injustiçada e revoltada contra a conspiração de que foi alvo quando tudo, afinal, corria tão bem. Diz que põe os interesses do país acima de tudo. Ele fez o que pôde, os outros não deixaram. Clama justiça. A retórica é simples, eficaz e segura ajudada pelo tom determinado. A alienação parece que continua, não vi sinais de regresso à realidade (se é que alguma vez esteve nela) o “estado a que isto chegou” deve-se a inoportuna oposição, nunca aos seis anos da sua governação. Especialista no manejamento dessas modulações que vão da “inverdade”(*) à mentira, e ajudado por um PS albanizado que vota 93,3% no último congresso, José Sócrates mantém-se imbatível nesta área. O PS é co-responsável, mas mantém-se imperturbável salvo raríssimas excepções: umas mais papistas que o papa, outras ousando questionar o líder. Ele fala, discursa, diz agora, desdiz logo, inventa, cria, mente. Quem (PSD) tentar vencê-lo aqui perderá.

Os opositores terão que escolher outras armas, outras formas. Uma delas é falar com determinação sempre a verdade, simples e clara. Evitar discursos pomposos, formais, bons para adormecer. A tentação das promessas, esperanças vãs, das luzes ao fundo do túnel terá que ser combatida e resistida, sem piedade.

(*) Que conceito!

24/03/11

Coligação Negativa

Parte 1
Ontem ao fim do dia, o clímax apoteótico da tragicomédia grega a que assistimos vivendo, (ou vivemos assistindo, sei lá!) martelaram-me a cabeça com a expressão “Coligação Negativa”. Eu tenho um problema (coisa que não preocupa ninguém, e ainda bem, porque realmente só valho 1 voto) com frases e expressões feitas à medida do efeito pretendido em laboratório linguístico-comunicacional. Eu não gosto que tentem colar-me no cérebro chavões políticos à força de tanto os repetirem. E pior que isso, não gosto quando tentam à força dar-lhes um significado, um sentido que tenha algum valor político. Porque simplesmente não têm. "Coligação Negativa" sucks (sorry) e já percebi que vamos ouvi-la até doerem os ouvidos.

O que é isso de “coligação negativa”? Qual coligação? Votar um interesse comum (forçar a queda do governo de José Sócrates) é, só por si, uma coligação política? Qualquer coincidência de interesses, por mais momentânea ou esporádica que seja, é uma coligação? E negativa? Que quer isso dizer? Quem decide a escala positivo/negativo? Foi publicada em Diário da República? E se eu (que valho só 1 voto, tal como José Sócrates) disser que a “coligação”, que nem sequer é uma coligação, foi “positiva”? Este “negativa” (tal como o “positiva”) não é um absoluto, mas à força de repetição eles querem tornar essa relatividade num absoluto. Este é o perigo da retórica de JS (e acólitos, claro): em cada frase, da inverdade - para usar palavras Socráticas - fazer “a” verdade. Como se a verdade se fizesse.

Parte 2
Acredito que JS é um obstáculo à resolução dos problemas do país, e gostava que ele se volatilizasse (e fosse tentar ser feliz longe de nós), mas quem acredita nisso acredita no Pai Natal. Ontem à noite, ele fez um bom discurso de início da campanha que ele desejou ter e cujo momento para ter ele decidiu. Forte, determinado e sempre confiante a usar a sua retórica recheada de “inverdades”, isto é mentiras, ditas com a segurança e a firmeza de quem fala verdade. Sócrates ontem estava como peixe na água, e a gostar de lá estar. Passos Coelho nem sabe o que o espera.

Passos Coelho nunca me entusiasmou, nem sequer o desejava como líder da oposição, mas desejo-lhe sinceramente boa sorte pois remover JS do cenário da política nacional é o interesse comum que partilhamos (uma coligação?) pelo menos para já. No entanto PC que se ponha a pau (perdoe-se o plebeísmo). O seu discurso de ontem foi fraco quer no conteúdo, quer na forma. Foi um discurso redondo, "certinho" demais, incapaz de suscitar interesse, a querer dar ares de cavalheiro na política, mas pouco, pouquíssimo convincente. É preciso muito mais para derrotar Sócrates. Temo que PC se arrisca a ser triturado. José Sócrates num instante faz dele um picadinho. Mas o PSD é que sabe... e quando Manuela Ferreira Leite falou de “Política de Verdade” acusaram-na de não saber comunicar. Tentem fugir desse guião (que tem a vantagem de com ele poderem falar verdade) e verão o que sobra, para vós e para nós.

21/03/11

O Que Nos Espera

O infeliz e patético discurso de Jorge Lacão sobre as incoerências do PSD, (SIC em directo) veio gritar o que nos espera: uma campanha eleitoral. Quarta-feira a crise política atingirá o seu auge e a partir de aí estaremos “oficialmente” em campanha eleitoral (já estamos, mas não é oficial). Sei que não há outra solução, e neste momento nem desejaria que houvesse, para a continuação deste governo, mas vejo com relutância o espectro de mais uma campanha eleitoral. Que vão os partidos dizer? Que podem prometer? Vão vender esperança mostrando a luz ao fundo do túnel na forma de prazos que eles “inventarão” para o fim da crise que será ultrapassada através de umas medidas que ninguém percebe bem quais serão nem que resultado terão. Irão inventar um futuro não demasiado próximo (isso seria de mais) de sol através de abundante retórica e os imprescindíveis paninhos quentes para não assustar os eleitores. (Que saudades do discurso seco e sem marketing comunicacional de Manuela Ferreira Leite vamos ter).

Enfim, teremos o PS, com um inconformado José Sócrates que, apesar da crescente resistência interna, apurará a sua estratégia comunicacional de vitimização, de chantagem e terá a sua fiel esquadra a montar intrigas com timings impecáveis, levantar desconfianças, vasculhar passados, e a descobrir SISAS mal calculadas, e permutas de casas de que desconfiarão. Nunca se deve subestimar José Sócrates e a sua capacidade mobilizadora. Se o PSD fizer isso está perdido. Uma coisa é certa: o PS não se dedicará a descobrir e investigar licenciaturas ao Domingo: isso já é um exclusivo seu.

O PSD armar-se-á da mais fina retórica e tentará passar a imagem de reformador com um comunicação profissionalizada, e muitas, muitas ganas. Todos a posicionarem-se, a tentarem encontrar o seu lugar rapidamente, não vão ficar esquecidos da hora da distribuição do espólio que sobrará finda a guerra eleitoral que provavelmente teremos a curto prazo e que provavelmente lhes trará uma vitória. Aliás uma volta pela blogosfera já nos permite ver esse (re)alinhamento. O CDS cultiva com primor a sua “indispensabilidade” e Paulo Portas (como se viu no congresso deste fim de semana) não contém a sua excitação em “ser governo”, qual criança em vésperas de regresso à escola de mochila nova aos ombros.

Eu gostava de ser poupada a esta desnecessária agitação. Talvez emigrar, ou ler mais, ver mais filmes e séries. Digo eu, sabendo que me irei indignar, irritar, aborrecer, vibrar, desabafar...

16/03/11

Veja as Diferenças

Entre esta descrição do Portugal real de hoje (fora os problemas sociais), em que se realça as poucas perspectivas de um sustentado crescimento económico:





E a conversa mole e vitimizadora de José Sócrates na entrevista de ontem na SIC, em que os culpados são sempre a crise externa e a oposição. Ele também jurava a pés juntos conhecer o país real.

Esta diferença de abordagem é o espelho do surrealismo em que vivemos. O PSD faz bem em tentar pôr cobro a esta farsa, mas convém nunca subestimar a capacidade de sobrevivência e a ambição políticas de José Sócrates. Pensar e negociar (entre PS, PSD e CDS) de forma séria e exequível um futuro para o país, deveria obrigatoriamente arredar José Sócrates desse cenário. Ele sabe isso e tem-nos a todos reféns. Ignorar estes factos é acreditar em contos de fadas, ou querer meramente brincar às eleições e aos governos. Não basta dizer “Já Basta”.

Adenda:


Ler na íntegra este post de rui a. no Blasfémias.

Também convém não esquecer nunca o tipo de slogans que lemos e ouvimos no sábado último na manifestação da "Geração à Rasca", que encheu as ruas das principais cidades do país e juntou gerações (assim disseram) de gente insatisfeita, que exigia mais e pedia mais do Estado, não lembro de ver slogans a pedir e exigir menos do Estado, a não ser os habituais lugares comuns populistas contra os "ricos" e os políticos. É este o eleitorado que temos.


03/11/10

Maus Tempos

O OE foi finalmente aprovado pelo Parlamento, para tranquilidade da maioria dos portugueses, (sim eles querem o OE aprovado) e depois do que considero ser um dos mais lamentáveis episódios (que durou dois meses e meio) políticos que o país já viveu. Ao Primeiro-ministro já não lhe sobra credibilidade nem política nem pessoal e ficou ainda mais à deriva quando lhe tiraram a propaganda de que ele e o seu governo sempre se alimentaram. Não poder anunciar TGV, Magalhães para todos, mais um hospital ou mais subsídios e ajudas, é porem em causa a sua essência política feita de plástico e néons. José Sócrates existe porque anuncia, porque vive da propaganda, da imagem. Hoje creio que sobram poucas dúvidas e poucos iludidos. José Sócrates é incapaz de um pensamento político a médio prazo (já nem falo a longo) coerente e que sirva a realidade do país e não a fantasia virtual em que ele escolhe acreditar para prejuízo de todos nós.

Passos Coelho, infinitamente melhor do que José Sócrates, note-se, não é também, e infelizmente, um líder partidário com solidez (e estofo) necessária para os desafios que o país tem pela sua frente hoje. Vive, como parece que agora se vive, da imagem, dos comunicados, das afirmações e ameaças, dos avanços e dos recuos. Também ele, criado num viveiro partidário, e relacionando-se com dois ou três pessoas iguais a ele, está um pouco distanciado do país real. Não fosse isso já teria percebido, ou já lhe teriam dito e feito perceber, que os portugueses estão fartos da política, dos políticos, dos movimentos, posicionamentos e jogadas políticas, que decididamente não servem os seus interesses nem os do país. Nunca a credibilidade dos políticos foi tão baixa, e nunca os políticos nos deram tão poucas razões para serem respeitados como agora.

Não sabem o que é a contenção, e nem a usam, preferindo as declarações à porta de seja onde for que estejam, ao ponto de nos saturarem e de não os querermos ouvir mais. Confundem perder uma troca de palavras com o uso da moderação. Enrolados em imagem e retórica (às vezes mais simples, outras mais subtil) esquecem a rectidão e o respeito pela palavra dada e pelo acordo livremente celebrado. É impossível não pensar em como Manuela Ferreira Leite tinha (e tem) razão: o PSD tinha anunciado o seu desacordo em ralação ao OE, mas também a sua viabilização por motivos de interesse nacional. Imagine-se o que isso não nos teria poupado de psicodrama político, de casos feitos de nada, de constantes medições de força, de propaganda. Mas os deuses assim não quiseram e, para nosso prejuízo, quem do exterior olha para Portugal não está impressionado com o que vê. Bem pelo contrário como hoje ficou demonstrado em mais uma emissão da dívida. Que não haja ilusões, ainda não se descobriu melhor mecanismo do que o mercado em funcionamento para avaliação de risco. De pouco adianta aprovar o orçamento se os sinais (as omnipresentes e abundantes declarações), nomeadamente os discurso no Parlamento revelam algo de esquizofrenia (ver o de Aguiar Branco ontem). Ainda o OE está quente a ser votado no Parlamento e a propaganda já começa. Como se não bastassem os maus dias de esforço e maior pobreza que nos esperam, maus tempos políticos se avizinham também. Populismo, demagogia, propaganda a rodos. Ninguém será contido, e tudo se espera de José Sócrates. Haja muita paciência e capacidade para manter a cabeça bem fria e sempre no lugar. Amén.

12/10/10

Os Novos Socráticos

Descobri agora que afinal, sou Socrática. De nada vale o voto que nunca lhe dei, de nada valem as críticas à sua política (inexistente, aliás), de nada vale a total e constante discordância com o seu estilo, de nada vale a indignação à sua pessoa expressas ao longo destes anos de governação neste local público que é o blogue (no sentido de que quem o quiser ler o pode fazer). Sendo favorável (apesar de um unanimismo causador de alguma alergia) à abstenção do PSD ao orçamento, sem grandes debates nem demoras, nem tão pouco dramatizações Passianas do género: “ainda temos que analisar (o quê?) o documento”, ou “a decisão tem de ser fruto de uma estratégia” (cito de cor) que Passos Coelho ainda não explicou e ninguém ainda sabe exactamente qual é, parece afinal que sou socrática.

O mais interessante é que quem é favorável à abstenção do orçamento pelo PSD, tem explicado o porquê da opção baseando a decisão nos cenários futuros prováveis caso o orçamento seja chumbado. Não vi ainda oposição ou contradição credível à probabilidade desses cenários futuros que ultrapasse o “partir de louça”, o “vermo-nos livres de Sócrates”, o "vivemos com duodécimos", o "quem garante que os juros da dívida voltem a subir" ou o mais básico de todos “pior é impossível”. Lemos alguma ficção relacionada com governos presidenciais, outro primeiro ministro do PS, cenários esses que apesar de possíveis não me parecem desejáveis, sobretudo porque, goste-se ou não (eu gosto) vivemos numa democracia predominantemente parlamentar.

Igualmente interessante é o facto de não haver nem garantias, nem indicações de que – indo o país a eleições mal possa – José Sócrates não ganhe outra vez até com mais votos do que os que agora tem. José Sócrates e Passos Coelho são políticos da mesma geração (o que não é necessariamente e só por si um problema, note-se), são ambos pouco sólidos e têm estilos semelhantes. José Sócrates é um político que vive do anúncio, um político em campanha permanente, com uma máquina comunicacional eficaz que aproveita diariamente em seu benefício e com muita rodagem na angariação de votos. Passos Coelho é um político que também conta com uma máquina comunicacional muito presente e relevante, mas está ainda “verde” e é um “menino do coro” comparado com Sócrates. Ambos vazios politicamente, ambos nas mãos das estratégias de comunicação. Entre o original e a cópia escolhe-se quem?

07/10/10

Era bom, isso era. O problema é que ao anunciar já essa abstenção acabavam-se por uns tempos os psicodramas políticos que são a razão de ser de Passos Coelho e os pretextos de José Sócrates. Ambos alimentos fundamentais da comunicação social (preguiçosa).

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