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08/11/13


Em território de exaltação dos afectos, dos beijinhos que nunca se poupam em final de cada telefonema, de atenção aos complexos estados de alma, das amizades depressa construídas e depressa desfeitas, de cumplicidades que afinal não o são, de interesses comuns que só duram um dia, fica esquecida a emoção. Os dias parecem pequenos demais e deixam pouco tempo livre para realmente sentir. E o tempo que existe é ocupado numa versão pré-embalada de “ser feliz”, e sobretudo ocupado a perecê-lo e demonstrá-lo, que as redes sociais estão bem para o serviço desta ilusão. Uma espécie de consumismo da felicidade feita de sorrisos que raramente permite que se vá mais além da fotografia do telemóvel. O pior é quando se pausa, quando algo muda, quando falta alguém ou algo, quando uma luz mais fria mostra no espelho o que fica: o medo, a raiva, às vezes a empatia, a alegria, também o desespero, a tristeza, a angústia, ou a generosidade, a esperança. Quando saídos do nada irrompem vida dentro, é o espanto, ou então o desnorte, a aflição. 

Filipe Nunes Vicente, num registo original e diferente do dos seus livros, fotografa e analisa em algumas linhas aquilo que sobra. São pequenas coisas, tiques e manias, em que detecta tendências, novas expressões. Apaga os sorrisos fotogénicos, olha nos olhos e revela a emoção. Com o pretexto da análise dos comportamentos em tempo de crise, faz o Depressão Colectiva com sinceridade e com a emoção que vem dessa certeza de todos partilharmos o que nos faz humanos. E os leitores, em ou sem anonimato, respondem à provocação, ao apelo na mais sã caixa de comentários online. Se duvida, vá lá.

12/07/13

Então É Assim 2

Um. Cavaco Silva, aquele cuja anunciada morte política foi manifestamente exagerada, num dos momentos políticos que mais gozo me deu nos últimos tempos – e bem precisávamos, conseguiu: 

A) Reforçar o descrédito político de Paulo Portas e remetê-lo à sua real (in)significância que é inversamente proporcional à sua estridência gestual e verbal e – dizem – inteligência. Chamá-lo de volta ao mundo real e obrigá-lo a arrumar de novo o seu gabinete.

B) Esvaziar o secreto sorriso de Paulo Portas que o inchado semblante sério traía. Esvaziou também aquele porte e aquele ar de 'agora é que é!' que Pires de Lima já não conseguia disfarçar. 

C) Reforçar o processo já iniciado no CDS de questionar a sua liderança. 

D) Demonstrar a crescente irrelevância política de Passos Coelho, o vazio e a leviandade que o habitam: enquanto Primeiro-ministro e enquanto líder do principal partido.

E) Deixar atordoados os ministros – nomeadamente o da Economia que, mesmo sem crise política sempre pareceu um pouco perdido, qual peixe fora de água.

F) Obrigar o PSD a pensar a sua liderança. 

Dois. António José Seguro mostra o melhor de si: corre atrás do primeiro lugar comum político que ‘cheira a esquerda’ ou mantém-se na sua senda de dizer coisas que não querer dizer nada, não vão as pessoas esquecer-se que ele existe, ou não perceber quem ele é e o que faz. Exemplos: o seu desejo de dialogo “com todos”, embora não consigamos perceber o que é que o PCP e o BE fazem no dialogo proposto pelo PR que visa sobretudo compromissos de médio prazo no que respeita o Memorando de Entendimento. Outro exemplo é a frase – que mais parece saída de reallity shows – em que ele critica Passos Coelho por não “pedir desculpa pela crise”. Não explicita, no entanto, o que critica a Sócrates pela sua postura face à crise que ele, Sócrates, criou. 

Três. Cavaco Silva conseguiu também fazer eco do sentimento de tantos portugueses que progressivamente se revêem menos nos partidos políticos e que os sentem cada vez mais afastados da realidade dos seus eleitores e do país. A distância entre eles aumenta, e o eleitor do PSD, PS ou CDS (embora menos neste último partido) está totalmente alheado do partido em que vota, muita vezes não percebe nem respeita o líder que os militantes escolhem, e em última análise não vota sequer, aumentando a abstenção nos actos eleitorais. Nada de novo, mas é sempre bom relembrar este desfasamento. 

Quatro. Cavaco Silva, na sua ânsia de cumprimento do memorando de entendimento, criou uma embrulhada tal que – com os partidos e lideranças que temos - não percebemos bem nem o que se poderá passar nem como. Haja fé... porque gozo houve certamente.

03/05/13


Chega-se a um ponto em que eu já não sei bem o que é pior: se andarmos a fazer sacrifícios em nome de nada, ou se a sonsice e má-fé (típicas do desrespeito com que o governo trata os portugueses em geral e os seus eleitores em particular) do anúncio numa sexta-feira às 20 horas

Não venham depois mostrar-se muito surpreendidos se quando acordarem só virem revolucionários à volta, nomeadamente aqueles que nem nos sonhos mais loucos algum dia pensaram em o ser.

23/12/12

Pior do que “só há prenda para a mais nova. As outras já não são crianças” (via), é o discursozinho moralista, a mentalidade mesquinha e pequenina. Senhor Primeiro-ministro, apesar do descalabro socialista de Sócrates e dos rigores a que agora o seu governo nos obriga, devo conseguir arranjar uns euritos e vou consigo num instante à H&M, (por exemplo, mas que fique registado que não sou accionista, nem recebo comissão, nem nenhum interesse me liga a esta cadeia de lojas) comprar umas lembranças para as outras filhas e enteada. Coisas simples, giras e baratas, pode ser? Afinal é Natal, e elas vão gostar.

27/11/12

Com mais ou menos folclore: as declarações de voto, as incertezas de Victor Gaspar, o facto é que os dados estão lançados. Agora é só esperar. 

Numa das suas habituais prelecções, neste caso até foi uma prelecção dominical, Passos Coelho, assumindo o já conhecido ar de superior entendimento, lança as suas habituais banalidades: numa delas até começa com esse exemplo de fino estilo e pensamento “posso bem com...” – um pré-adolescente não diria melhor - enquanto que na outra, e num acto de suprema condescendência, diz "confio muito na inteligência dos portugueses". Sorte a sua, digo eu incapaz de retribuir o cumprimento.

09/11/12

Reféns

Só hoje me apercebi da dimensão que o caso “Isabel Jonet” tinha atingido, na comunicação social (jornais e televisão) bem como nos blogues. Eis a minha modesta contribuição: 

Cara Isabel Jonet, esteja tranquila porque, apesar do seu ataque agudo de parvoíce, continuarei a contribuir, tanto quanto posso e com a maior vontade e alegria, para o Banco Alimentar

Há no ar um cheiro a inveja que sempre detecto nestes momentos aos quais as agendas mediáticas têm dado amplo espaço e potenciado o eco. Ter sucesso (ou gerir projectos com sucesso) em Portugal tem sempre um custo elevado. Então se a Igreja Católica, de longe ou de perto está ligada a esse sucesso, as garras não se recolhem tão cedo. Lamentável o tempo que se perde com Isabel Jonet, até parece que nada de relevo acontece hoje no nosso país que mereça metade da atenção dos media, e até parece que  não há debate político a fazer. Se calhar não...

17/10/12

OE 2013

O raio que os parta! 

Estive dois dias para escrever esta interjeição, uma questão de ter a certeza de que era mesmo isto que queria escrever, e não apenas um impulso de raiva depois de ter ouvido na segunda-feira o ministro Victor Gaspar. Ele que, com a sua voz estudadamente pausada, tenta dar a ilusão de que do seu discurso só saem decisões ponderadíssimas (nós bem sabemos), claríssimas (nós também bem sabemos) e pautadas pela sapiência e sabedoria. E se até dou o desconta para a sapiência, o mesmo não se aplica  à sabedoria: já só engana quem quer ser enganado. 

Porque continuam a usar, em tom paternalista de quem sabe tudo, de quem é moral e politicamente superior, e capaz de julgar os portugueses (vivem acima das possibilidades, são piegas, são ignorantes...), as chantagens do género “quem não está de acordo com este orçamento está contra o programa de ajustamento”. Errado! Tão errado. Nós não confundimos as medidas deste governo e o memorando de entendimento da troika, ou a necessidade de austeridade.

Porque estão a atentar contra a minha liberdade. A minha liberdade está também, e muito, ligada à forma como eu decido gastar o meu dinheiro. Ora se o estado unilateralmente decide tirar uma enorme fatia dele, para um programa em que só ele e meia dúzia de consultores seus acredita, que liberdade tenho eu de o gastar como o entendo? Poupando ou consumindo, a liberdade de escolha é minha. Ser liberal é sobretudo não atentar contra as liberdades individuais, é não subir impostos, não tirar dinheiro aos contribuintes, mais do que o estritamente necessário... é não tirar mais sobretudo quando já se tirou demais. Não gosto quando atentam contra a minha liberdade, e citando Pinheiro de Azevedo, digo "é uma coisa que me chateia (pá?)".

Porque persistem no erro. A carga fiscal vai aumentar de uma forma tal, que as pessoas reais, o tecido económico real do Portugal real, (diferente do Portugal imaginário visto a partir dos modelos económicos do mundo académico, ou visto através de uns óculos de oportunidade de meia dúzia de comentadores e/ou colaboradores e/ou consultores), não vai conseguir pagar. As execuções fiscais vão aumentar, as falências vão aumentar, os incumprimentos vão aumentar, o desemprego vai aumentar, a pobreza vai aumentar, a infelicidade vai aumentar. A colecta fiscal não. 

Porque, de acordo com o memorando da troika, a consolidação orçamental deveria ser feita sobretudo (2/3) do lado da despesa, e eles propõem-nos que se faça quase exclusivamente do lado da receita, com a agravante de que e a maior fatia do corte da despesa corresponde às prestações sociais. 

Porque vão, pelas boas e pelas más razões, pôr o país todo contra o governo, o que não fará assim tão mal; bem como contra o programa de consolidação orçamental da troika, o que será bem pior e poderá ter consequências mais nefastas à nossa já tão débil soberania, e à nossa economia que – olhando com atenção e não olhando apenas para os números governamentais - pouca saúde tem. 

Porque estão a levar o país a uma verdadeira revolução social (a palavra reajuste de que tanto gostam é um eufemismo de quem não percebe o que se está a passar) cujas consequências são difíceis de prever. Como ficará a sociedade portuguesa daqui a 10 anos? 

Porque política não é só subir impostos. O governo mascara a sua ausência de pensamento político sólido, por um discurso de pseudo-rigor económico (na boa escola de economês cheio de vocabulário alavancado), em que as nuances castigadoras não escapam. Os aumentos de impostos, como única arma de rigor orçamental são a face visível do vazio (de pensamento ideológico e político) em que este governo assenta. Desde o primeiro dia; não me iludiram.

03/07/12

Não Pode Continuar

Depois de – há duas semanas – termos sido confrontados com a preocupação dos números da execução orçamental referentes ao primeiro trimestre deste ano, lemos hoje a tradução em termos de ‘vida real’ desses números abstractos em páginas de excel, que são as falências de empresas e famílias que atingem proporções que deviam fazer soar sinos e tambores em S. Bento, pois já ninguém deixa de ver que o nosso tecido social e económico se começa a esfarelar e a desfazer. Se pensarmos bem nada disto é surpresa quando vemos que o combate ao deficit do estado se faz, como sempre se fez é bom lembrar, através do aumento da carga fiscal. Mas, quando não há riqueza, não há impostos. E hoje, podem aumentar a carga fiscal que a receita não aumenta; e a pouca economia que consegue respirar, a custo, será mais e mais asfixiada. 

Estes números são dolorosos de ler pois são a ilustração de um país a empobrecer. Olhamos à nossa volta, ouvimos as pessoas e percebemos que eles não mentem. A revolta, desilusão, pobreza, dúvida estão instaladas e fazem parte de um quotidiano cada vez mais doloroso, também porque sem esperança. Hoje ninguém sabe como sair desta situação de profunda crise em que o país mergulhou e a Europa também. As certezas que as pessoas tinham de soluções eficazes e sempre prontas a debater à mesa do almoço em família ou com amigos, no café, nos escritórios, nos táxis, na praia, esvaiu-se. A opinião deu lugar ao desabafo. Até na comunicação social muitos dos comentadores sentem-se incapazes de desenhar uma ideia e impotentes para propor alternativas. Refugiam-se numa análise de erros passados que, não deixando por vezes, de ser pertinente, não apontam caminhos, e assim se adia mais uma vez e outra e mais outra, a esperança de que um dia vejamos luz. 

Eu que, apesar de muito crítica, acredito na boa-fé e boa intenção deste governo, acho que urge que ele pare e olhe para o país que hoje tem que governar, um país real; este das falências de que se fala hoje e não aquele que o governo imagina que existe ao fazer as folhas de excel. Olhar e ver atentamente a realidade que existe fora do eixo Lisboa S. Bento/Lisboa Belém, seria um primeiro passo positivo no repensar de estratégias para atingir as metas que se propõe, pois o que está e como está não pode continuar.

19/06/12

Parole, Parole, Parole...

Admiro a coragem do Mr. Barroso (‘europeês’ para Durão Barroso), ao falar da forma frontal e assertiva com que falou em nome da União Europeia na Cimeira G20. Não por ter sido frontal e assertivo note-se, mas por, numa altura em que sentimos o ranger das fracturas que atravessam a UE, ousar um discurso a uma só voz (a da UE/Eurozona): um atrevimento. Sabe bem por uns minutos pensar que a União Europeia, e sobretudo a Eurozona, consegue ser hoje algo mais do que uma abstracção na cabeça dos seus líderes políticos e cidadãos. Mr Barroso, perante um ‘inimigo comum’ (os restantes G20s) que isolou bem, e a quem desferiu algumas farpas, saiu em defesa das democracias, das estratégias e dos timings europeus, aproveitando o que resta desse sentimento ‘europeísta’ ainda partilhado por muitos. Como ele bem sabe, foi bom enquanto durou; no entanto no fim do dia, ou da cimeira, pouco sobrará desse discurso.

09/06/12



Tal como se previa, e enquanto a Europa vê futebol, e os que não vêem comem tapas ou jantam, a Espanha formaliza o seu (já anunciado) pedido de ajuda financeiro explicando que não se trata de um resgate. Trocadilhos semânticos…


Assim é que é: eu também acredito na fada-madrinha.

Próximo... !

02/05/12



Ainda não sei bem que parte da frase citada me incomoda mais: se “ASAE analisa”, se “promoção que gerou”, se “corrida louca”. Neste caso não há inocentes. O incidente “Pingo Doce” a revelar, em toda a sua complexidade e simbolismo, facetas pouco dignas e pouco invejáveis dos diferentes quadrantes do Portugal de hoje.

01/05/12

Léxico

Mais uma sigla a entrar para o nosso léxico quotidiano. Desta feita é o DEO (Documento de Estratégia Orçamental) que vai proporcionar uma base de legitimação a todos os próximos aumentos de taxas fiscais a incidir na classe média (directa ou indirectamente), aos cortes de benefícios, cortes nas deduções fiscais e a todas as próximas medidas de austeridade que o governo julgue necessárias aplicar que possam ajudar (assim pensam – esperam - eles) a contrariar uma pobre execução orçamental que, ironicamente o governo não adivinhava, não correspondeu ao seu empenho, boa vontade e demais louváveis intenções traduzidas em decisões políticas muitas nem sempre devidamente ponderadas. 

O desconforto dos sucessivos planos de austeridade que se sucedem em diferentes países, o aumento do desemprego, e as recorrentes recessões começam a gerar desconforto um pouco por toda a Europa. A nova palavra de ordem (já validada pela Senhora Merkel) parece ser ‘crescimento’. De sigla em sigla, de palavra de ordem em palavra de ordem vamo-nos adaptando e orientando para perceber de que lado sopra o vento.

07/02/12

Exigência

A percepção de Pedro Passos Coelho sobre a realidade tem a sua génese, e tem sido aí apurada, em gabinetes e salas de reunião do partido. O problema é que, tal como afirmei no post anterior, a realidade não se compadece com confabulações teóricas sobre si, e é normalmente muito mais crua e brutal. É feita de sacrifícios, de redução de salários, de desemprego, de dinheiro que não chega para pagar as contas da farmácia, de preços de transportes a aumentar drasticamente. Ora, os portugueses não têm sido nada “piegas” – para usar a infeliz expressão do Primeiro-ministro – têm, de forma geral, aceite o inevitável com relativa calma e resignação e lamentam que o chefe do executivo olhe para eles com superioridade paternalista e alguma arrogância e lhes diga para não serem "piegas", num discurso feito sobretudo para justificar a sua infeliz decisão de acabar com a tolerância de ponto no Carnaval. PPP discorre sobre o “passado”, as “velhas tradições”, “velhos comportamentos preguiçosos” e a “crise” e a necessidade de sermos exigentes (muitas vezes usou a palavra exigência...) Estou de acordo e até proponho que comecemos por ser exigentes com o governo e sobretudo com o senhor Primeiro-ministro. 

As leituras filosóficas que Passos Coelho fez na sua juventude não foram suficientes para impedir um discurso tão desprovido de sentido, mas tão cheio de chavões e demagogia que até chega a ser ridículo. Pedro Passos Coelho tem, infelizmente, e em mais do que uma ocasião, mostrado algum desprezo pelos portugueses, e não tem sabido reconhecer neste momento particularmente difícil em que vivem, os sacrifícios que, em silêncio, a grande maioria faz e sabe que tem de continuar a fazer. 

11/01/12

Maturidade

Ontem vi parte do novo programa da SICN Contra Corrente. Gostei do formato do programa, e dos convidados: todos com maturidade, (já tenho pouco paciência para opiniões inconsequentes) e pouco dados à 'histeria'; resta saber quanto tempo o formato sobreviverá e quanto tempo conseguirá (man)ter audiências. Destaco do que ouvi as reflexões sobre a política portuguesa – agora nas mãos deste governo sobretudo nas pessoas de Passos Coelho, Paulo Portas e Victor Gaspar – face à Europa e aos desafios que a Europa enfrenta. 

Mais uma vez concluo que em Portugal hoje, como ontem, não há visão, não há debate, não há reflexão, não há estratégia, não há negociação. Estamos sendo empurrados, mais uma vez para factos consumados, longe do escrutínio dos portugueses. Esta falta de posicionamento claro do pais no quadro da UE é uma das mais evidentes provas (há mais) da falta de maturidade política dos nossos governos, nomeadamente do actual, e dos nossos governantes. É prova da impreparação e falta de vontade política para enfrentar e abordar matérias complexas e que não mexam de forma mais ou menos directa determinados grupos de interesses económicos, políticos ou simplesmente partidários. É a prova da ligeireza que se escuda na subserviência e que nenhuma eficácia fiscal, que nenhum corte nas despesas A ou B, ou que empenho (que claramente aplaudo) em cumprir o acordo da Troika consegue esconder. A crise não pede só cortes nos custos e aumentos das receitas sacrificando os contribuintes, há toda uma reflexão sobre o país e, neste caso, sobre a Europa que não está a ser feita, nem por nós nem pelos nossos parceiros europeus nomeadamente a dupla Mercozy que ficará para a história como a caricatura da cegueira europeia. A falta de uma estratégia de política europeia em Portugal é gritante, mas ninguém no governo a parece ouvir.

03/01/12

2011 em Três Parágrafos

Numa altura de balanços do ano que passou relembramos acontecimentos que o marcaram e que ou nos parecem já tão longínquos ou que foram só ontem. Não nego que um dos melhores momentos foi o afastamento de José Sócrates do nosso governo, do nosso ouvido, do nosso olhar, mas há algo que me intriga em relação a José Sócrates: o facto de ninguém se interessar nem investiga a vida que ele agora leva, nem os meios financeiros de que dispõe para a levar. Não se pretende uma crónica para a ‘Caras’, mas sim uma investigação que nos permita esclarecer como é que um banal técnico da Câmara da Guarda que projectava ‘marquises’, que consegue uma licenciatura num Domingo e que começa uma vida política no aparelho partidário, consegue ter dinheiro suficiente para viver confortavelmente em Paris, aparentemente, sem remuneração; só estudando. Todos os dias me pergunto como é que isso se faz. Muitos gostariam de o fazer também, não? 

Outro acontecimento marcante para mim foi ver a reacção dos japoneses face à calamidade (terramoto, tsunami, crise nuclear) que enfrentaram com civismo, calma, organização e espírito solidário. Foi uma lição para o mundo. 

Finalmente a morte de Bin Laden e a forma discreta, eficaz e corajosa com que os EUA resolveram essa questão. Mereceram aplauso quer os decisores quer os homens no terreno. 

Nota: A crise, a austeridade, a dívida não foram acontecimentos de 2011. Já eram e serão.

26/11/11

O que Sobra

Há uns meses assistíamos e enumerávamos criticamente os famosos encontros a dois entre Merkel e Sarkozy. Indiferentes à irritação de muitos europeus que se perguntavam se ‘isso’ é que era a União Europeia, eles encontravam-se (os inúmeros ‘beijinhos’ trocados à vista de todos ilustram as ocasiões) e cochichavam, mas aparentemente nunca tais encontros pareceram dar fruto, e entenda-se aqui 'fruto' como uma qualquer decisão (já nem sou exigente, uma qualquer). Aposto que ficarão para a história como isso mesmo: cochichos.

Depois desses encontros a dois ilustrados a ‘beijinhos’, a nossa atenção foi desviada unicamente para a senhora Merkel, cada palavra, cada tique, cada entoação, cada gesto: começa a confusão pois ao estarmos atentos é-nos impossível não ver as contradições, as incertezas, a demagogia, a fraqueza disfarçada pela retórica. Os comentadores, os artigos de opinião por essa Europa fora tentam interpretar as intenções, o que vem a seguir. Grécia, Itália, Espanha (por ordem cronológica e mediática), bem como a iniciativa de Durão Barroso quase que não importavam por si, mas sim pela reacção da senhora Merkel que cada vez mais se funde e identifica com o seu país a Alemanha. O que é que a Alemanha acha? O que é que a Alemanha pensa? A Alemanha isto, a Alemanha aquilo. Posteriormente começam os sussurros sobre a França e a Bélgica.

Nesta semana reataram os encontros a dois, e Merkel e Sarcozy falam de revisão dos tratados, falam do BCE. Será que finalmente se vê o fruto de tantas conversas a dois? Creio que virá tarde demais. A partir de agora já todos os olhos se viram para a Alemanha e começam as apostas sobre quanto tempo levará até que a crise da dívida soberana atinja a Alemanha. O que sobrará desta Europa (UE), que os estados criaram e que conhecemos, é agora a questão pertinente.

27/10/11

Para Que Serve um Telefone Fixo Hoje

Hoje ouvia na rua um senhor dizer que agora todos querem vender, mas ninguém quer comprar. Não me lembro de sentir tanto isso como agora, e o meu telefone fixo é a prova dessa ânsia de venda. Todos os dias recebo emails promocionais de fabulosas ofertas, ou sms publicitando uns descontos imperdíveis de dois dia para os melhores e mais fieis clientes (!). De repente percebi que, para alem das lojas onde vou habitualmente, sou também fiel e boa cliente de lojas onde não vou há quatro ou cinco anos, ou onde há sete ou oito terei deixado um contacto numa ida esporádica. Recuperam-se fichas, farejam-se os registos, tudo para a custos mínimos aliciar possíveis clientes. Mas emails e sms não são o pior.

O pior mesmo são os telefonemas para o telefone fixo, que parece hoje ver cada vez mais esvaziada a sua função de meio de comunicação. Hoje é quase só um veículo promoção usado “contra” mim. Para alem de algumas pessoas de família mais velhas quase ninguém usa o telefone fixo para ‘falar’ ou ‘conversar’. No entanto não passa um dia sem que eu receba um ou mais telefonemas, a venderem seja o que for. Vendem férias, segurança, serviços de limpeza, cartões de crédito, crédito pré-aprovado (sim, há quem venda crédito), seguros, novas e fabulosas tarifas telefónicas, tarifas combinadas para tv, telefone fixo, telefone móvel e internet, sessões de maquilhagem com oferta de um produto por cada dois que se comprem, etc. Considero uma invasão e falta de respeito que empresas com que nunca lidei telefonem para casa ao final do dia a venderem os seus produtos ou serviços. Dantes, depois das “apresentações” e depois de ouvir o(a) interlocutor tratar-me por senhora seguido do meu primeiro nome, (os mais sofisticados tratavam-me por senhora seguido do primeiro e último nome) explicava que considerava esse telefonema abusivo, perguntava como tinham encontrado o meu número, acabando por demorar algum tempo neste dialogo. Isso acabou rápido, agora sou mais radical: mal ouço “boa noite, está a falar com ... da empresa...” corto logo a conversa, agradeço, digo que não tenho tempo e que não preciso de nada, não quero conhecer nada, e sobretudo não quero comprar nada. E no mesmo sopro desejo uma boa noite e desligo. Muito eficaz.

Há finalmente outro tipo de telefonemas que, no entanto, se vêm fazendo mais raros: os estudos de mercado ou os de opinião. Para esses tento encontrar paciência e tempo para responder, porque às vezes são longos e chatos, sobretudo aqueles em que, marca a marca (de detergente, de espaço comercial, de meio de comunicação social, etc) nos perguntam o nosso grau de conhecimento da dita. Tenho sorte quando não caibo na categoria etária (ou de género): querem um homem dos 18 aos 25, por exemplo. Às vezes tenho azar, e o telefonema prolonga-se, como quando me telefonou uma senhora solícita de sotaque brasileiro que, feliz e encantada da vida, me diz estar naquele momento a começar a trabalhar nessa função e que eu sou o seu primeiro telefonema. A solícita senhora achou por bem comentar cada resposta minha, partilhando a sua experiência também. Foi algo surreal, mas diverti-me tal era o seu entusiasmo e nem tive coragem de lhe dizer que não se comenta e muito menos se conversa: a sua função é registar, passar rapidamente à pergunta seguinte para fazer o máximo de chamadas, mas ao fim de três ou quatro telefonemas ela vai perceber isso.

05/08/11

Os Mercados, as Bruxas de Hoje

Parece que começou uma ‘caça às bruxas’ que são hoje as agências de rating. Agora é a vez da Itália. Há algo de simbólico nesta perseguição às agencias de rating; a habitual negação de uma (quase) evidência contrária ao optimismo de fachada e pensamento positivo que dominam a análise e a forma com que teimosamente se persiste em olhar o nosso mundo (o Europeu sobretudo). Eu sei que se enxotam os abutres quando eles começam a aproximar-se, mas o cheiro a cadáver está lá. Também há a história dos mensageiros que eram mortos quando traziam más notícias. Ou dos livros que se queimavam, e das pessoas que se calavam matando-as ou levando-as para a prisão. Tudo em vão, como a história nos demonstra. A longo prazo, nunca é eficaz: a verdade vence sempre. E a verdade sobre a situação económica e financeira de uma Europa desgastada, gastadora e sem soluções à vista e, apesar dos casos serem bem diferentes, de uma América sobreendividada, irá impor-se.

O facto é que o mercado, essa entidade abstracta e sem alma (que, ao contrário dos agentes, esses sim com alma e intenção), não mente, e a forma como digere a sua informação é absolutamente desprovida de ‘wishuful thinking’, ou de processos intencionais ideológicos ou políticos. Quando há mais quem queira comprar reage duma forma, quando há mais quem queira vender, reage doutra forma. Esta lógica implacável – e tão simples e transparente – sempre intrigou e sempre incomodou, sobretudo os agentes económicos e políticos que, ciclicamente, culpam o mercado pelas más decisões que eles próprios vêm tomando ao longo de décadas. Investiguem, processem, punam, acabem com a Moody’s, a Finch ou a S&P; nada disso alterará o que é e o que vem aí.

Adenda: Às 08:25, minutos depois de publicar este post, já se sabe como abriu o nosso mercado. O melhor mesmo é ir para a praia; o pior é o vento...

22/06/11

O Preço da Demagogia

Lamento que o novo Primeiro-ministro, em absoluto estado de graça e merecendo um quase unânime louvor por cada “ai” que lhe sai da boca (excepção feita aos PS ainda mal refeitos do fim do socratismo), não perceba a diferença entre Pedro Passos Coelho e o Primeiro-ministro. As conversas/promessas de chacha e respectiva decisão de trocar os bilhetes de classe executiva para classe económica (os senhores jornalistas, não querem ver quanto tempo dura esta decisão, por favor?) não só não me convencem – da sua utilidade, claro - como me irritam. Eu quero o meu Primeiro-ministro, no exercício da sua alta função de estado, a fazê-lo com a dignidade que o cargo exige. Nem mais, nem menos.

Eu quero que o Primeiro-ministro use as salas VIP, que viaje em conforto e discrição em classe executiva, que tenha atenção à sua segurança, e que honre aqueles que representa. Não o quero a fazer bicha para ir à casa de banho, a lutar por um lugarzinho no compartimento por cima dos assentos para o seu sobretudo, nem a desembrulhar a sanduíche 'ranhosa' fria e seca que é oferecida neste tipo de voo, enquanto tenta perceber a melhor forma de colocar as pernas para baixar o tabuleiro. Não quero que vejam, fotografem, filmem e postem na internet o seu momento a 'passar pelas brasas', ou até (eventualmente) o seu ressonar. Não é pedido isso a um Primeiro-ministro, nem em tempo de crise. Não é essa "poupança" que é relevante e o gesto simbólico de "falsa igualdade" é mau, muito mau.

Por favor, não comecem a fazer de nós parvos como José Sócrates fazia. Concentrem-se no que é importante, que já é muito - tal o legado do governo anterior - e para o qual precisam de toda a energia, coragem e trabalho. E poupem-nos a demagogia de encher o olho, por favor.

26/05/11

Ontem li esta notícia e ouvi-a ao fim do dia nas televisões. Pensei em Portugal, e a notícia pareceu-me profética. Comecei a ver o ‘filme’ que passará nos noticiários daqui a um ano, se o PSD ganhar as próximas eleições e governar coligado com o CDS tentando a custo cumprir os objectivos do acordo que salvou o país da bancarrota, uma criação do PS. O filme era claro e nítido: o PS português, agora na oposição, com ou sem Sócrates (a diferença estará sobretudo no tom), alheio ao acordo e compromisso que assinou com os nossos credores (FMI, CE, e BCE), e à necessidade de unidade no esforço para superar a crise, sentir-se-á livre para, com aquela força e fervor únicos – folclore esquerdista - e até nunca vistos nos últimos 6 anos de governação, abraçar o ‘estado social’, defendendo-o de uma direita apostada em destrui-lo (ou não fosse ‘direita’). Irá solidarizar-se com o primeiro ‘geração à rasca’ que acampar no Rossio. Apoiará os sindicatos que declararem greve. Juntar-se-á às manifestações de protesto nas avenidas da Liberdade ou Aliados. Dará voz às reivindicações da primeira comissão de trabalhadores que aparecer. Indignar-se-á contra as medidas do futuro governo e estará, como nunca, ao lado dos médicos, dos professores, dos estudantes, dos magistrados, dos trabalhadores da função pública, dos maquinistas dos comboios e até dos militares.

Gostava que alguém me dissesse que este filme que vi, é apenas fruto de uma imaginação febril, e que o que se passa hoje na Grécia (apesar do mapa político distinto) não se passará em Portugal.

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