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02/11/16

Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança:
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança:
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem (se algum houve) as saudades.

O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto.

E afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto,
Que não se muda já como soía.

Luís Vaz de Camões, in "Sonetos"
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31/05/11

The One Less Travelled

The Road Not Taken

(...)

I shall be telling this with a sigh
Somewhere ages and ages hence:
Two roads diverged in a wood, and I—
I took the one less traveled by,
And that has made all the difference

Robert Frost

30/05/10

Os Tempos e as Vontades



Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança;
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem, se algum houve, as saudades.

O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto.

E, afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto:
Que não se muda já como soía

Luis Vaz de Camões

26/11/09

Là-bas, Je Ne Sais Pas Où...

Là-bas, je ne sais pas où...

(...)
Nunca voltarei porque nunca se volta.
O lugar a que se volta é sempre outro,
A gare a que se volta é outra
Já não está a mesma gente, nem a mesma luz, nem a mesma filosofia.
(...)

Álvaro de Campos, Poesias

29/06/07

Meu coração é um pórtico partido

Meu coração é um pórtico partido
Dando excessivamente sobre o mar.
Vejo em minha alma as velas vãs passar
E cada vela passa num sentido.

Um soslaio sombras e ruído
Na transparente solidão do ar
Evoca estrelas sobre a noite estar
Em afastados céus o pórtico ido...

E em palmares de Antilhas entrevistas
Através de, com mãos eis apartados
Os sonhos, cortinados de ametistas,

Imperfeito o sabor de compensando
O grande espaço entre os troféus alçados
Ao centro do triunfo em ruído e bando...

Fernando Pessoa

17/06/07

Sorriso audível das folhas

Sorriso audível das folhas
Não és mais que a brisa ali
Se eu te olho e tu me olhas,
Quem primeiro é que sorri?
O primeiro a sorrir ri.

Ri e olha de repente
Para fins de não olhar
Para onde nas folhas sente
O som do vento a passar
Tudo é vento e disfarçar.

Mas o olhar, de estar olhando
Onde não olha, voltou
E estamos os dois falando
O que se não conversou
Isto acaba ou começou?

Fernando Pessoa
27-11-1930

Pergunta

Perguntaram-me se conhecia bem Pessoa. Que pessoa? Foi a minha reacção primeira, só um momento depois percebi que se referiam ao poeta. Hesitei um segundo sem saber o que deveria responder. Sim conheço muito bem, é uma afirmação que soa forçada quando nenhum dos seus livros sai da estante, quando nunca se pegou num dos seus livros para abrir e ver, lembrar, procurar, descobrir. Também não poderia responder não, não conheço, porque realmente conheço bem se nos detivermos exclusivamente em critérios objectivos, só que eu gosto de ler e reler. Reli grande parte das obras que mais me marcaram, e periodicamente mexo nos livros, assim como quem os tenta arrumar para que caibam melhor e se crie mais espaço, dando prioridade a tamanhos e volume e esquecendo qualquer outra lógica para os ter arrumados. São prioritariamente de ficção, romances, contos, novelas que me acompanham ao longo da vida. A poesia parece que parou no tempo e tem sido pouco arrumada. Tropeço num poema de que gosto e por vezes pego num livro para o verificar e reler, mas com Fernando Pessoa creio que há muito não me acontecia.

Vi-me assim, de repente e desprevenida, a mexer nas Poesias de Fernando Pessoa. Não foi incolumemente que o fiz: enredei-me nos versos, li-os, lembrei, comovi-me com memórias, viajei e no fim percebi que o tempo não conta, por isso eu conheço bem Fernando Pessoa.

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