31/05/07

Le temps des Cerises 3

Paul Cezanne

A Galinha e o Ovo


Tive um professor que um dia perguntou à turma o que é que tinha existido primeiro, se o pensamento, se a linguagem. O pensamento, claro, foi a resposta imediata e quase em uníssono. No momento a seguir começaram as hesitações, e o professor meio divertido perguntava-nos como é que nós pensávamos sem linguagem, enquanto alguns dos alunos diziam, pondo em causa a noção da irracionalidade nos animais, que se os animais têm linguagem, então também pensavam. Como se imagina esta pergunta colocada por um bom professor originou uma divertida e exigente reflexão na turma em que nos confrontamos com o facto de linguagem e pensamento serem quase duas faces duma mesma moeda. Cada linguagem espelha uma forma de pensar. Cada forma de pensar é refém de uma linguagem. Tudo isto a propósito das Provas de Aferição (que raio de nome) do 4º e 6º anos do ensino básico e do facto de, em determinadas perguntas de Português nomeadamente nas de interpretação do texto, os erros ortográficos não serem corrigidos pois querem avaliar separadamente diferentes competências. Se não fosse patética, esta frase faria rir pela presunção que carrega em si, de alguém ter sido capaz de separar em compartimentos estanques as diferentes competências que fazem uma língua. Eu não percebi se os erros de sintaxe também não eram corrigidos, e até acho que, em nome da coerência, nenhum erro formal devesse ser corrigido. Ficariam só os erros de semântica, cabendo ao professor corrector das Provas aferir se, para lá da formalidade da linguagem e da arbitrariedade no seu uso que cada aluno clamará para si (sim, pois deve tratar-se de um processo criativo por parte das crianças a ser acarinhado) consegue encontrar um fio de sentido. Se é tão difícil estabelecer separações entre a linguagem e o pensamento, como é que querem desfragmentá-la (ai estruturalismo sempre a espreitar!) e dividi-la em conjunto de códigos estanques, impermeáveis e não relacionáveis, para melhor encontrar o pensamento - o sentido, a interpretação do texto, neste caso? Como é que querem que um aluno - ou pai, ou cidadão - entenda que numa parte de um teste pode escrever com erros e na parte seguinte já não? Isto faz sentido na cabeça de quem? Um erro não é sempre um erro? Talvez estejamos perante um caso moderno de flexi-ortografia.

30/05/07

Hoje há Luar

Small Hours

Let it go
Let it roll right off your shoulder
Don't you know
The hardest part is over
Let it in
Let your clarity define you
In the end
We will only just remember how it feels

Our lives are made
In these small hours
These little wonders
These twists and turns of fate
Time falls away,
But these small hours
These small hours
Still remain

Let it slide
Let your troubles fall behind you
Let it shine,
Till you feel it all around you
And I don't mind
If it's me you need to turn to
We'll get by
It's the heart that really matters in the end

Our lives are made
In these small hours
These little wonders
These twists and turns of fate
Time falls away
But these small hours
These small hours
Still remain

All of my regret
Will wash away somehow
But I cannot forget
the way I feel right now

In these small hours
These little wonders
These twists and turns of fate
Yeah, these twisted turns of fate
Times falls away
Yeah, but these small hours,
These small hours
Still remain

Yeah, oh they still remain
These little wonders
All these twists and turns of fate
Time falls away
But these small hours
These little wonders
Still remain

Little Wonders
Artist(Band):Rob Thomas

Le temps des Cerises 2

29/05/07

aqui escrevi sobre o facto de considerar um esbanjamento e inutilidade os exames de aferição. Se precisasse de mais argumentos, estes, que ainda me parecem saídos de uma comédia negra de Hollywood, serviriam e seriam suficientes. Mas o excesso de zelo deixou-nos alternativas suficientes. Resumindo, uma boa Prova de Aferição (ai o nome) é quando:

  • Não conta para a nota
  • Não avalia nada nem ninguém
  • Não penaliza os erros

Do you mind not to smoke?


Someone wants to jog.

Se o ridículo matasse

Portugal inteiro tem que assistir às aventuras de um provinciano em Moscovo, só porque é o nosso Primeiro-ministro.

Já agora: os hoteis em que José Sócrates se hospeda (ou os hotéis ao lado) não têm ginásios devidamente equipados para joggings matinais na mais pura discrição e sem restrições de segurança, tal como José Sócrates diz querer?

28/05/07

Plataforma contra a Obesidade 7

Pieter Snijers,
A Still Life with Fruit,
Vegetables, Dead Chickens and a Lobster

Indian Love

But he continued to remember: when he located his cabin, he found he had a cabinmate who had grown up in Calcutta composing Latin sonnets in Cattullan hendecasyllables, which he had inscribed into a gilded volume and brought along with him. The cabinmate’s nose twitched at Jemu’s lump of pickle wrapped in a bundle of puris; onions, green chillies, and salt in a twist of newspaper; a banana that in the course of the journey had been slain by heat. No fruit dies so vile and offensive a death as the banana, but it had been packed just in case. In case of What? Jemu shouted silently to his mother.

In case he was hungry along the way or it was a while before meals could be properly prepared or he lacked the courage to go to the dining salon on the ship, given that he couldn’t eat with a knife and fork-

He was furious that his mother had considered the possibility of his humiliation and thereby, the thought, precipitated it. In her attempt to cancel out one humiliation she had only succeeded in adding another.

Jemu picked up the package, fled to the deck, and threw it overboard. Didn’t his mother think of the inappropriateness of her gesture? Undignified love, Indian love, unaesthetic love - the monsters of the ocean could have what she so bravely packed getting up in that predawn mush.

The smell of dying bananas retreated, oh, but now that just left the stink of fear and loneliness perfectly exposed.

Kiran Desai, The Inheritance of Loss

Este excerto é um dos mais interessantes e dramáticos deste romance, em que a herança deixada pelas circunstâncias, sejam elas quais forem: os pais, o amor, a família, o país e civilização, a emigração para uma vida melhor, a pertença a uma etnia ou um grupo, o clima, as monções - acaba por se revelar uma forma de perda ou de solidão.

27/05/07

Combate ao Sedentarismo 24

Domingo à Tarde

Auguste Renoir, Le Déjeuner des Canotiers
(clicar para ver melhor)

O Circo pega fogo

Lisboa, Ponte 25 de Abril, ontem à noite
(Clicar para ver melhor)

Ao atravessar Lisboa hoje senti algum incómodo ao olhar e ver todos os outdoors para as autárquicas. As fotografias dos candidatos, os slogans, (O Zé? Mas que é isto?) nada parecia certo e adequado, todos soavam a falso. Algo não está bem no tempo e no local em que vivemos. Os primeiros sinais de um qualquer apocalipse político estão bem evidentes. Qualquer página de jornal aberta ao acaso terá exemplos de frases, ou silêncios, ou intervenções, ou entrevistas, ou gestos, ou adesões, ou suspeitas, ou delações, que analisadas nos deixam em estado de puro espanto. Tanto não era possível. Mas com a complacência habitual, a vidinha vai correndo, as noites sucedem os dias, o tempo da praia está achegar, vemos o circo pegar fogo e já nem queremos saber onde está a água.

Ota, DREN, Câmara de Lisboa, PS, PSD, (e porque não CDS, PCP, BE?), Mário Lino, Manuel Pinho, M. de Lurdes Rodrigues, e claro José Sócrates têm animado a agenda nestas últimas semanas. Cada caso cheio de casos, cada um mais patético do que o outro, cada um mais previsivelmente vazio do que o outro, perigosamente vazio, com um pano de fundo feito do conforto e da certeza de que estamos mesmo na nossa terrinha, e de que já nem nos apercebemos que a falta de vergonha e a falta de noção do ridículo, para não falar de noções que requerem um esforço ainda maior em apreender como liberdade, desapareceram faz muito do mapa político, e que todas estas personagens que tecem os seus enredos fundados nas solidariedades dos partidos que servem o regime, feitos de respeitinho, de medo, de subserviência, de conspiração, em redor de cada um destes casos, parecem marionetas vazias e sobra-lhes só uns pós de dignidade de alguma tragédia e fado que carregam, a de serem prisioneiros de si próprios, mas nem disso se dão conta.

26/05/07

Le temps des cerises

Thomas Corner 1865-1938
Fresh Picked Cherries

25/05/07

Uma ideia da Europa 14

Futebol, Ténis, Rugby. Desporto. Mens sana in corpore sano. Jogos Olímpicos. Competição e fair-play. Amadorismo.

24/05/07

Pela boca morre…

Dantes era o peixe. Talvez agora seja a OTA de tanto se abrir a boca a falar dela. Parecem todos apostados em ver quem consegue dizer o maior número de disparates no menor tempo possível. Já lá vão coisas como faltas de hospitais e escolas nas mediações dos aeroportos, pontes dinamitadas (não é dinamizadas, é mesmo dinamitadas) e uma desertificação precoce da margem sul... Tudo por uma boa causa: convencer os cidadãos da bondade do projecto do aeroporto. Assim não sobrará um céptico, tal a adesão aos argumentos. Pelo menos já há uns tempos que os políticos não me faziam rir assim, e mesmo assim não têm faltado momentos risíveis.

Postal Ilustrado 10

Esbanjamento

Que o nosso estado desperdiça recursos já o sabemos, mas estas provas de aferição que decorrem para o 4º e 6º ano, são simplesmente de bradar aos céus. Começa-se pelo nome: “prova de aferição” assim uma coisa inócua que não dá nem tira não diz nem deixa de dizer, não é nem deixa ser. É um título politicamente correcto feito para não chocar, evitando palavras de significados mais robustos e claros como exames, notas, resultados.

Depois a ideia de pôr alunos a fazerem exames que não contam para a nota, só mesmo uma ideia de quem não sabe que mais há-de inventar para contornar o cerne da questão, que é sempre a de verificar níveis de aprendizagem dos alunos, competência dos professores, competitividade das escolas, e o ajuste dos programas dados aos objectivos previamente definidos pelo Ministério. Claro que é importante medir e aferir tudo o que referi, mas sem viciar os dados à partida. Os alunos, sabendo que fazem provas que não contam para nota (onde já se viu este ridículo?) nunca se comprometerão, nunca se motivarão, nunca se esforçarão para o melhor desempenho possível. Também os seus pais, ou encarregados de educação, com medo de stressar demasiado as crianças, adoptará um discurso brando que desvaloriza a prova. Este factor, pelo menos, dá alguma razão aos professores que dizem - talvez também pelos motivos errados, neste jogo viciado que é a educação em Portugal, que estas provas de aferição não deverão servir para os avaliar. Sem os alunos a darem o melhor de si, e a fazerem a sua parte no processo que é a aprendizagem, é certamente difícil avaliar professores, escolas, programas.

Então para que servem as Provas de Aferição? Não faço ideia. Parece ser mais uma forma de esbanjar e desperdiçar recursos, pondo as escolas em estado de “alerta” e com as prioridades invertidas neste último trimestre lectivo.

23/05/07

Plataforma contra a Obesidade 6



Paul Cezanne

22/05/07

Combate ao Sedentarismo 23

Da Identidade

“Noni had recovered her confidence only when it was too late. Life had passed her by and in those days things had to happen fast for a girl, or they didn’t happen at all.”
Kiran Desai, The Inheritance of Loss

Li, porque fui obrigada e não porque me apetecesse ou tivesse sentido algum impulso empático, Simone de Beauvoir e Benoite Groult, e fui conhecendo os movimentos feministas que tinham despontado em várias partes do mundo nomeadamente em Portugal apesar de nunca ter querido ler “As Três Marias”. Para além das verdades incontornáveis, sempre em número muito menor do que queriam fazer crer, todo o feminismo descrito nas obras lidas me parecia hostil, estranho, demagógico e por vezes de uma agressividade que eu, ainda a aprender a ser mulher, rejeitei. Nunca percebi, por exemplo, porque é que para usufruirmos de igualdade de oportunidades tínhamos de, por um lado ser hostis para com o mundo masculino, e por outro adoptar atitudes e comportamentos (e vestuário) tipicamente masculinos. No entanto o século passado ficou inegavelmente marcado na nossa sociedade ocidental pela grande participação das mulheres na vida pública e pela chegada das mulheres a lugares antes exclusivos dos homens, e muito disso se deve aos movimentos feministas.

No entanto onde se nota uma cada vez maior evolução nas mentalidades bem como na vida vivida por cada uma de nós (mulheres), é no facto de podermos ser sempre mulheres. Explico. Hoje ser mulher não é só aquele breve momento do auge da beleza física (bloom) que começa na pós adolescência quando a rapariga “entrava” para o mercado do casamento à procura de um bom marido, para que logo de seguida deixasse de ser simplesmente mulher para ser “a mulher de”, e terminava muitas vezes com a chegada da maternidade, passando a ser mãe e continuando a ser mulher de. A pouco e pouco a mulher diluía-se nos novos papeis em que outros eram protagonistas. Hoje, a mulher reclama a sua identidade independentemente do estado civil, da maternidade ou não, da carreira profissional ou não. Cada vez mais ela é ela própria. Hoje todos os dias são cada vez mais, dias de novas oportunidades, de novos desafios, de recomeços, e de escolhas, reclamando para nós os mesmos direitos de busca da identidade, de afirmação e de realização pessoal, que os homens têm usufruído ao longo dos tempos. Hoje, de certo modo, já não se joga tudo naqueles breves momentos do fim da adolescência.

Tenho escrito aqui no blogue notas com o título “Véu Islâmico”. Uso esse título porque dificilmente consigo olhar para o “véu islâmico” como um exercício de liberdade individual, mesmo nas sociedades ocidentais onde ele funciona como símbolo de pertença. Não consigo deixar de olhar para esse “véu islâmico” como um símbolo da anulação dessa identidade feminina, feita por sociedades hostis às mulheres e com leis que cerceiam o desenvolvimento da sua identidade e liberdade pois as consideram seres menores e inferiores.

21/05/07

A começar a semana

Pierre Bonnard
Le Café

20/05/07

Postal Ilustrado 9

Mais Pobre

“Quero deixar-vos também uma palavra de confiança, confiança em vós, nas vossas famílias e a certeza que cada um de vós dará o seu melhor para um país mais justo, para um país mais pobre... perdão,...”

José Sócrates, hoje na cerimónia de entrega do certificado de nacionalidade portuguesa.

Foi um lapso, eu sei. José Sócrates corrigiu-o, mas a ironia é que por uma fracção de segundo e inconscientemente, José Sócrates foi honesto. Todos nós, cidadãos, damos para um país que está cada vez mais pobre. Pobre porque a criação de riqueza está longe dos parâmetros desejáveis. Pobre porque a produtividade nacional é baixíssima (comparada com os restantes países da EU). Pobre porque o nosso poder de compra é cada vez menor. Pobre porque o nosso endividamento é cada vez maior. Pobre porque cada cidadão tem uma carga fiscal que não tem retribuição em termos de qualidade de serviço oferecido pelo Estado. Pobre porque o Estado é cada vez maior e consome cada vez mais recursos. Pobre porque é tão difícil, tão complicado, tão exigente e tão pouco aliciante investir, ter ideias, criar, fazer empresas.

Mas também é pobre de espírito, porque o espaço para que o espírito livre cresça, floresça e se desenvolva é cada vez mais pequeno. Pobre de espírito porque os zelosos se multiplicam para impedir que o espírito se solte, e apontar com o dedo espíritos livres, porque os reguladores se entretêm a controlar e atribuir quotas percentuais de quanto e de quem se deve falar e onde. Pobre de espírito porque tantos concordam com tanto, porque quem estava do outro lado depressa passa para este hipotecando a liberdade quando acenado com o poder ou a ilusão dele. Pobre de espírito porque se questiona tão pouco, se ilude tanto, se leva tão a sério, e vê tão pouco à volta.

18/05/07

Para o Fim de Semana

Pieter de Ring (1615-1660)
Still Life with a Golden Goblet
(Clicar para ver melhor)

Divórcio

Não percebo porque é que o BE se empenha tanto em propor já legislação que permita o divórcio a pedido de um dos cônjuges. Não deveria primeiro propor legislação que permitisse o casamento a pedido de um nubente? Creio que resolveríamos assim muitos problemas.
Petição

(via Quase em Português)

Plataforma contra a Obesidade 5

Albert Marquet

17/05/07

Combate ao Sedentarismo 22

Depois de ler aqui o teor do projecto de portaria que regulamentará a Interrupção Voluntária da Gravidez em instituições de saúde fico com a sensação de que o direito a interromper a gravidez é melhor salvaguardado do que o direito, dos profissionais de saúde de recusar a prática de actos que entrem em conflito com a sua consciência moral ou religiosa. Se, numa determinada instituição de saúde, se não puder fazer uma IVG porque os profissionais de saúde são objectores de consciência, essa instituição terá que pagar os custos da intervenção numa outra. O direito a ser objector de consciência tem custos, de forma indirecta, para os profissionais de saúde que o exerçam. O direito a abortar não.

Uma ideia da Europa 13

Sorbet, gelados. Casas do gelo. Férias de verão, calor. Sonhos de evasão.

16/05/07

Plataforma contra a Obesidade 4

Eduardo Viana
Interior

As escolhas partidárias dos partidos do regime, PS e PSD, reflectem a enorme crise partidária a que hoje se assiste no “centrão”, espelho da falta de crença na credibilidade que dá ser apoiado por um partido e, nalguns casos aceitar a causa pública. No caso do PSD, é notória a falta de motivação e de vontade das personalidades fortes que poderiam aceitar a candidatura a Lisboa, se moverem tal a instabilidade do partido e as expectativas de só o futuro dirá. No PS e com a saída de António Costa do Governo, só ficam segundas linhas, verdadeiros meninos do coro que nem sempre cantam afinado e um maestro que já está claramente em curva descendente. É uma cartada arriscada sobretudo se se tiver em mente o “caso Manuel Alegre” nas Presidenciais. Helena Roseta poderá ser uma surpresa.

Com tantas coisas de importância a passarem-se no país e no mundo hoje, já me custa ver a abertura dos telejornais com o caso Madeleine. Eu gostaria que os media tivessem dedicado uma pequena migalha do tempo que dedicam a Madeleine, ao caso da jovem rapariga de 17 anos que, no Iraque, foi apedrejada até morrer na praça pública, culpada de querer casar fora da sua religião (o islamismo, claro). Mas continua-se a pensar que estes casos estão muito longe, em distância, em mentalidade e em probabilidade... Eu não penso assim.

14/05/07

Postal Ilustrado 8

Izmir

Outros Véus Islâmicos

No Público hoje a notícia do apedrejamento por homens de uma rapariga curda muçulmana culpada por querer casar com um rapaz de uma minoria religiosa Yezidi. A notícia chegou aos meios de comunicação por causa dos vídeos amadores postos no youtube e entretanto retirados que não procurei, nem vi nem quero ver. A realidade já é suficientemente má mesmo assim, sem imagens. Perante uma realidade destas, eu pergunto-me que sentido faz falar em democracia? Democracia pressupõe alguma igualdade pois cada pessoa tem um voto. Em sociedades onde muitas mulheres não votam, ou se votam nas urnas eleitorais não votam nas suas próprias vidas, não têm acesso aos recursos em pé de igualdade com os homens, que sentido faz falar em democracia?

Entretanto em Izmir, na Turquia, e segundo o JN, cerca de 1,5 milhões de pessoas voltaram a manifestar-se para defender o secularismo do seu país. Parecem não estar muito preocupados com o futuro da democracia, mas saem à rua aos milhões para defender o secularismo. Como diz o povo: “eles lá sabem!” Se fosse Turca, também sairia.

Mouros? Turcos?


Esta fragata, de bandeira portuguesa (clicar na fotografia para ver melhor) está estacionada na entrada da barra do Tejo há uns dias, algo muito pouco usual. Será que se teme uma invasão pelo Tejo? Mouros? Turcos?

13/05/07

Li que José Sócrates vai advertir a liderança da UE... Nem preciso saber de quê, já o vejo de indicador em riste em frente aos líderes europeus. Grandes Portugueses, é o que é.

Combate ao Sedentarismo 21

Bajazet

Na sexta-feira um simpático “Bajazet”, ópera de Vivaldi em versão não encenada no CCB pela Orquestra Europa Galante. O primeiro acto parecia não acabar, mas depois os cantores e a orquestra pareceram soltar-se, e mesmo quando já parecia impossível que o enredo pudesse ainda outra vez prolongar a ópera, (Barroco é Barroco e Vivaldi não é Wagner) o entusiasmo bem vivaldiano dos violinos tomava conta de nós e o concerto prolongava-se em nosso benefício num bom ambiente na sala que explodia em palmas ocasionalmente. O Grande auditório do CCB estava a 2/3 cheio, parece que ainda não se conseguiram formar novos públicos.

12/05/07

Plataforma contra a Obesidade 3

Cornelis de Heem (1631-1695)
Vanitas Still-Life with Musical Instruments
(clicar para ver melhor)

11/05/07

Excuse me!

I am trying to keep this blog smoke free!

Véu Islâmico 6 (2ª parte)

Com um expressivo título The battle for Turkey's soul e um sub-título como este: If Turks have to choose, democracy is more important than secularism” a revista de The Economist (da semana passada que o desta semana já tem Tony Blair na capa) resume assim a crise política Turca e toma uma posição que é comum a mais sectores do ocidente. A frase é todo um statement, mas um olhar mais cuidado não nos deixa muito tranquilos. Basicamente o que nos é dito, é que a democracia é um valor que está acima do laicismo e que é o valor mais importante de preservar numa sociedade. Assim, à queima-roupa é difícil discordar, mas depois de analisar um pouco esta questão e os conceitos envolvidos, surgem as questões. Por exemplo o Laicismo é entendido de forma diferente em França, onde se trata de um laicismo “radical” e no Reino Unido, em que a Religião e o estado são, formalmente, unos sendo a Rainha também a cabeça da Igreja Anglicana. O Reino Unido nunca usou a bandeira do laicismo apesar da clara separação entre o poder temporal e o poder religioso e apesar de todo o poder, nomeadamente o poder político, estar nas mãos da sociedade civil, e não na estrutura religiosa. Apesar da união formal entre o Estado e a Igreja o Reino Unido é, repito, uma sociedade absolutamente secularizada na forma como está organizada e na forma como o poder está separado da Religião, e é por isso que tem uma das mais antigas democracias do mundo. Ora eu tenho alguma dificuldade em perceber como é que pode existir uma democracia numa sociedade que não é laica, secular, em que o poder não esteja nas mãos da sociedade civil. Para que uma democracia exista e floresça é necessária uma sociedade em que o “povo” se organize para exercer o poder e tal só pode acontecer se a estrutura religiosa, a hierarquia religiosa ou mesmo as convicções religiosas não detenham nem o poder político, nem o poder judicial. Eu penso, mas não consigo encontrar exemplos de sociedades não laicas ou secularizadas e democráticas (Israel é uma sociedade secularizada).

O papel das Forças Armadas na Turquia tem sido também o de manter o poder religioso afastado do poder político. Eu, se fosse cidadã Turca, habituada a um estilo de vida secularizado e, apesar de tudo, democrático, estaria grata a essas Forças Armadas por este papel de defesa da Laicidade. Eu sei que nem tudo é assim tão simples, e há outros aspectos que não tive em conta; por isso me faz confusão a facilidade com que se diz que a democracia é mais importante do que a laicidade.

10/05/07

Combate ao Sedentarismo 20

O Véu Islâmico 6

Eu percebo bem os turcos que recentemente saíram à rua e se manifestaram em defesa do seu estado secular, nem me parece extemporânea a manifestação de tais receios, como diz o Economist:

they fret at the prospect of such people controlling not only the government and parliament, as now, but the presidency as well. They fear that once the AK Party has got that triple crown, it will show its true colours—and that they will be rather greener. Given that a fundamental reading of Islamic texts sees no distinction between religion and the state, and that fundamentalism is spreading in the Muslim world, it is understandable that people should entertain such fears.

E têm razão para temer, este pequeno parágrafo é esclarecedor: nos textos sagrados do Islamismo não há separação entre Religião e Estado, e os cidadãos turcos mais “moderados” na sua prática religiosa e de hábitos perfeitamente ocidentalizados teme, e a História, nomeadamente a História mais recente de uma radicalização islâmica em várias partes do mundo, prova que ele tem razão em temer, o afunilar das suas liberdades através de medidas legislativas inspiradas na religião. Não foi assim há tanto tempo que na Turquia se debateu com a possibilidade da criação de legislação que considere o adultério um crime, bem como se debateu a possibilidade de restrições à venda e ao consumo público de bebidas alcoólicas. Nenhuma destas medidas tomou forma de lei, mas o espectro das leis religiosas não dão tranquilidade aos turcos “moderados”. A mim também não dariam, e neste aspecto estou em desacordo com o espírito do texto do Economist, que é normalmente mais céptico e menos “romântico”. Não adianta varrer para debaixo do tapete estas ameaças, estas tentativas e fazer de conta que não aconteceram. Elas são o sinal de que nada é um adquirido e de que aquilo que hoje é certo, amanhã pode não o ser.

(continua)

Plataforma contra a Obesidade 2

Paul Cezanne

O Véu Islâmico 5


Tenho grande dificuldade em olhar para o véu islâmico como se de um simples acessório de moda se tratasse, algo que hoje decido usar porque está frio e quero cobrir as orelhas, ou porque não fui ao cabeleireiro, ou porque fica tão bem com o cinto novo. Também me é difícil acreditar na livre vontade e na livre decisão de cada uma das mulheres que o usa. Não nego que algumas o façam com e em liberdade, mas são uma minoria, porque a maioria, em sociedades em que a religião é a Lei e em que a religião controla cada um e todos os aspectos que fazem uma vida, nunca tiveram condições para decidir livremente, nunca conheceram as diferentes opções, nunca consideraram alternativas. As únicas alternativas que conhecem são o “despudor” e o “pecado” do mundo ocidental tal como lhes é apresentado desde cedo nas escolas, nas mesquitas e em todos os meios de comunicação social.

Porque dificilmente consigo aliar livre arbítrio e “véu” islâmico, e porque, para mim, o “véu” é uma manifestação de identidade, de pertença, é um símbolo de uma forma de vida e de um tipo de sociedade que está nos antípodas do que acredito ser justo e desejável, confesso que os meus sentidos ficam em estado de alerta de cada vez que o “véu” e alguma polémica em torno dele chega à comunicação social. O caso da Turquia, que já aqui tenho referido em brevíssimas notas, é o último envolvendo os “véus”, neste caso os usados pelas mulheres do Primeiro-ministro e do Ministro dos Negócios Estrangeiros. Este é um assunto que segurei com atenção, sobretudo porque a recente discussão em torno dos conceitos de democracia e secularismo bem como a sua hierarquização, não me deixam tranquila, tantas são as questões que me suscitam, perante as certezas de tantos. Voltarei a este assunto.

09/05/07

Uma ideia da Europa 12

Titian, Rapto da Europa

A Europa. As nações. A identidade, a pertença. A ideia, a vontade política, a união. A Comunidade Europeia. A livre circulação de pessoas e de bens. O Euro. A incerteza do futuro. A riqueza de ser europeu.

E mais uma vez, a pintura. A mitologia, as lendas, os deuses, os humanos.

07/05/07

06/05/07

Tento imaginar a dor e o desespero de quem perde um filho e de quem, de repente, se vê perante uma situação de rapto. Mas nada deste drama humano, nada, justifica que se percam dezenas de minutos num jornal televisivo. Uma peça de três minutos que faça um resumo do que o dia de hoje trouxe de novo é mais do que suficiente Na RTP, com mais do que uma peça sobre o assunto, até um perito em raptos foi ouvido, e na SIC, logo nos primeiros minutos, se falam dos três enviados especiais: um na Madeira, um em França e um na Praia da Luz...

Não tenho dotes futuristas, mas não consigo deixar de olhar para a vitória estrondosa de Alberto João Jardim na Madeira e para o isolamento do candidato do PS como mais um sinal da curva descendente de José Sócrates. Nada será igual, por muito que ele teimosamente queira e tente, desde o caso ainda por esclarecer da sua licenciatura diplomas e papeis contraditórios. Outro dos sinais de que já nada é como deveria ser, foi o caso Mário Lino e seu gracejo sobre a não inscrição de José Sócrates na Ordem dos Engenheiros.

Plataforma contra a Obesidade

Jan Davidsz de Heem (1683-84)
A Table of Desserts
(Clicar para ver melhor)

04/05/07

Uma ideia da Europa 11

Creme Nivea, simplicidade e eficiência alemã num creme para todos. Investigação, laboratórios. Cosmética, requinte, promessas e sonhos. Perfumes e sinfonias de cheiros. Design e tradição.

03/05/07

Sorry!


This is a smoke free blog.

Livre

O caso Carmona Rodrigues tem contornos interessantes pois joga com uma série de conceitos que por vezes podem parecer contraditórios entre si: liberdade, legitimidade, obrigação, lealdade. Há a questão da liberdade; ele, Carmona Rodrigues (CR) diz-se livre porque é independente e não filiado num partido político, proclama a sua legitimidade pois ganhou a Presidência da Câmara com os votos dos Lisboetas, afirma-se capaz de cumprir a sua missão e a sua obrigação perante os eleitores, proclama que não será atirado “borda fora” resumindo desta forma metafórica a sua relação de lealdade com o partido que o apoiou e o ajudou a ganhar as eleições, mas que lhe pediu para se afastar, por uma questão de princípio já estabelecido no PSD e para que a Câmara não se torne ingovernável. Pergunto-me, como poderá assim e nestas condições ser um homem verdadeiramente livre ao serviço de uma Câmara, livre no planeamento, livre na decisão, e sobretudo livre perante si próprio.

Enquanto se passar o que se passa, e o que parece claro se passará, em Oeiras, a posição do PS, em relação a CR não me merece respeito nem consideração.

02/05/07

Porque é que gosto de Pintura Flamenga 3

Adriaen van Utrecht, Still Life
(clicar para ver melhor)

Neste dia de lançamento da Plataforma contra a Obesidade pensava escolher uma bela natureza morta flamenga, essa é a minha "mood" actual, para tecer uns comentários e ironizar um pouco sobre mais este projecto bem pensante e politicamente correcto do nosso Governo e com a chancela de José Sócrates. Mas a natureza morta saiu mais viva do que pensava, tem cão, macaco, papagaio, instrumentos musicais, todas as frutas possíveis, carne, empada, um belo lavagante, enfim, a abundância não falta. De tanto contemplar o quadro, a obesidade e sua plataforma retomaram a sua real dimensão: a da irrelevância.

01/05/07

Depois de Nureyev, Baryshnikov.

Just because...

O caso Pina Moura continua a dar que falar, e muitos são os indignados que afirmam quão natural é os Media terem simpatias partidárias, exemplificam com os casos espanhóis, ingleses, falam em Francisco Pinto Balsemão. É verdade, mas Francisco Pinto Balsemão fez o seu grupo com o seu dinheiro, e tanto quanto se saiba tem pouca influência na linha editorial do grupo. Também está há muito afastado do poder, da vida activa partidária e certamente não é deputado. Em tudo diferente do caso Pina Moura que está directamente ligado ao poder, e que tem poder sobre o poder. Foi só por isso que foi convidado para o cargo de administrador, só.

Mais novidades sobre a Turquia aqui.

Diplomas, Certidões e outros papeis 5

Li aqui que o dossier Sócrates vai finalmente ser investigado pelo DCIAP. É importante que esta investigação se faça, porque tem de ser feita: há demasiadas inconsistências neste processo, e porque do ponto de vista político o primeiro-ministro está com a sua credibilidade mordiscada. E ferida que não se trata, pode infectar.

Uma ideia da Europa 10

Rudolf Nureyev, Bolchoi, Ballet. Ópera. Espectáculo, noites de gala, salas cheias e "encores". Festivais e Ciclos. Público.

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