21/10/07

Da Ortodoxia

Quando li este texto - escrito há seis dias, uma eternidade blogosférica - percebi bem essa simpatia pela ortodoxia tranquila e silenciosa, que não se impõe, que se faz todos os dias com disciplina e abnegação, que conhece o percurso, o passo seguinte e nunca deles se desvia mesmo nos momentos em que, por um breve instante, hesita diante dos remédios ou das soluções. Se a ortodoxia é difícil e requer renúncia, ela também dá conforto, alguma tranquilidade e sobretudo uma certeza de pertença. A ortodoxia é normalmente uma prática de grupo, os ortodoxos apoiam-se, conhecem-se, usam uma mesma linguagem e têm os mesmos códigos. Vivem a sua opção pessoal inseridos numa comunidade mais ou menos presente: juntos afastam a “fraqueza”, a imperfeição e a insegurança – colaboram, apoiam-se e vigiam-se. Vivem da nostalgia de uma prometida utopia que, melhor ou pior tentam recriar... Há admiráveis ortodoxos, compassivos, tolerantes, abertos ao outro e estranhamente conhecedores das fraquezas do mundo. É impossível não os admirar.

Mas a ortodoxia não serve os solitários ou os individualistas – os que questionam percursos, caminhos ou soluções. Os que tantas vezes se refugiam na prática, nos rituais e na disciplina para esconder a dúvida. Os que não gostam de disciplina, que não se revêem em práticas ou rituais, mas que têm poucas dúvidas. A segurança de um grupo acaba por intimidar tantos dos que lêem um livro, e mais outro, outro ainda e nunca os queimam, nem em fogueiras nem na cabeça, mas guardam-nos para lembrarem, relerem, pensarem, ajuizarem, criticarem e claro duvidarem. Por muito apelativa e tranquila que seja a ortodoxia, por muito que a olhemos com admiração e uma ponta de inveja, eu desconfiarei sempre dela, tão perfeita e tão segura, tão cheia de certezas e preferirei sempre a heterodoxia, a contradição, a imperfeição, a hesitação, a procura, a dúvida, a certeza que às vezes se confunde com a incerteza.

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