13/08/10

Erotismo de Verão

Um dos temas obrigatórios do Verão, início de Verão para ser mais precisa, é o erotismo e o sexo. Em Julho quando começam as romagens ao Algarve, não há revista que não traga uma capa sugestiva que anuncie um artigo de fundo, um estudo único ou um “dossier” sobre o assunto. Por exemplo: na televisão vejo diariamente anúncio sobre a iniciativa da revista Visão de publicar a preços convidativos, uma colecção com o nome de “Livros Proibidos” (os senhores do marketing deviam ter explicado melhor que a palavra “proibido”, hoje, carece de qualquer poder sugestivo), livros eróticos de “autores consagrados da literatura mundial”.

Este blogue une-se ao espírito erótico da saison contribuindo para isso com este excerto de “Os Maias”:

Diante do canapé das senhoras lá se achava também o fiel amigo, o doutor delegado, grave e digno homem, que havia cinco anos andava ponderando e meditando o casamento com a Silveira viúva, sem se decidir – contentando-se em comprar todos os anos meia dúzia de lençóis, ou uma peça de bretanha, para arredondar o bragal. Estas compras eram discutidas em casa das Silveiras, à braseira: e as alusões recatadas, mas inevitáveis, às duas fronhazinhas, ao tamanho dos lençóis, aos cobertores de papa para os aconchegos de Janeiro – em lugar de inflamar o magistrado, inquietavam-no. Nos dias seguintes aparecia preocupado – como se a perspectiva da santa consumação do matrimónio lhe desse o arrepio de uma façanha a empreender, o de ter de agarrar um toiro, ou nadar nos cachões do Douro. Então, por qualquer razão especiosa adiava-se o casamento até ao S. Miguel seguinte. E aliviado, tranquilo, o respeitável doutor continuava a acompanhar as Silveiras a chás (...).

Eça de Queirós, Os Maias

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